Pedro Barroso, o (último?) Trovador – VII

Termino esta série de pequenas crónicas sobre Pedro Barroso e, sobretudo, sobre a sua intervenção sócio-cultural. Por isso, desejo agora revelar, ainda que de forma muito sumária, a sua faceta de escritor.
Dele possuo apenas o volume que me ofereceu –A história maravilhosa do Paíspb bimbo bimbo– e é daí que transcrevo a seguir uma parcela do capítulo introdutório, De preliminaria historica.
A obra desenrola-se de um modo articulado, onde o autor procura abordar todos os aspectos relevantes do País bimbo, tal como ele o vê e sente, em facetas como a história, a incompetência,  a ostentação, a burocracia, a subsidariedade, a política, as artes, o jornalismo, a corrupção, a justiça, o legislativo, a restauração, a arquitectura, a riqueza e a pobreza, o sentido da responsabilidade, a piromania, a solidão, a prosperidade, o mar e a terra, o ensino e a cultura, a tropa, a religião, o desporto e os tempos livres, eu sei lá…
Creio que nada terá escapado ao sentido cáustico, saudavelmente crítico e pedagógico, de Pedro Barroso, aqui tornado um Fernão Mendes Pinto dos tempos modernos, um Alexandre Herculano actualizado, um demolidor Eça de… Riachos.
Do Prefácio, da autoria de António Vitorino, de Almeida, até à Sumaria culminantíssima conclusiva, o denso volume lê-se dum fôlego, embrenhando o leitor numa floresta de imagens, conceitos e observações tão desconcertantes como certeiros.  O drama tornado humor, a descrição virada retrato terno e duro, sempre implacável, sempre compreeensivo, a um tempo definitivo mas também provisório, tudo servido num estilo muito personalizado, quase único e inimitável – eis o que apetece dizer como tradução deste livro intraduzível.
Se vale a pena ouvir Pedro Barroso, também ele deve ser lido. A sua mensagem, sempre coerente, faz-nos bem. Cria esperança mesmo quando parece demolidor. Porque está sempre detrás, e por dentro, de tudo o que cria uma alma de poeta.
E bem portuguesa, das antigas, das eternas.
Eis uma prova, nas linhas iniciais d’A história maravilhosa do País bimbo:

“Era uma vez um inefável País, povoado por gente genuinamente bimba, boçal, simples, complicada, levemente maldosa, um pouco li­mitada. Era, contudo, um povo generoso, inventivo, hábil, sonhador, esforçado, dado a grandes feitos.

Heroicamente chão, alegremente triste.

Na sua tristeza incluía fados, amarguras doces e ingénuas, quase poéticas, logo, belamente tristes. Na sua bimbice, às vezes, uma sur­preendente nobreza popular e espantosos cometimentos individuais e colectivos, logo, menos bimbos.

Na sua maldade sentia-se uma imensa e dedicada sacanice, reple­ta de ternura, observação e piedoso aconselhamento, logo, muito me­nos sacana.

Este estranho povo ateava fogos que depois, denodadamente, apa­gava, com risco da própria vida. Alternava revoluções apaixonadas com longas e sofridas ditaduras. Amava-se e odiava-se a si mesmo. Depois de lixar o próximo, era funda e comoventemente solidário.

Era, em síntese paradoxal, digamos que amigo e inimigo de si mes­mo.

Em suma, uma curiosíssima Nação, digna de aturado e interessan­te estudo.

Tal insólito conjunto intrigou-nos e conduziu a este despretensio­so mas apaixonado trabalho, que ousamos agora apresentar à vossa benevolente atenção.

Trata-se de um País actual apesar de muito antigo, onde, habilmente, o acumular dos mais crassos erros de gestão praticados pelos séculos fora soubera tecer uma sociedade tolerante, e até, a espaços, com momentos de gloriosa riqueza.

Muito central – situado algures entre o Norte e o Sul, o Oriente e o Ocidente – de clima agreste mas estatisticamente temperado – isto é,  muito quente e seco no Verão, frio e chuvoso no Inverno – possui mar, campo, praia e montanha, como tantos outros países, mas destaca-se, sobretudo, por uma latente, imperiosa e compulsiva tendência prolixo-complicativa, dos seus habitantes.

De genética complexa e difusa, torna-se hoje difícil saber a origem do mal, pois por tal região passaram, em épocas sucessivas ou coinci­dentes, Bárbaros, Suevos, Alanos, Judeus, Genoveses, Árabes, Celtas, Iberos, Celtiberos, Gregos, Cartagineses, Visigodos, Romanos, Fenícios e até Lusitanos, numa amálgama de culturas e línguas que fomentou a mais confusa das tendências individualistas.

Assim, com o decorrer dos tempos e o acumular dos conflitos, tornara-se natural que cada um se fechasse em si e, compreensivelmente, tentasse prejudicar o vizinho, do qual, pelas suas torpes e nem sempre claras ascendências, urgia, como é evidente, desconfiar. A dois passos da crueldade, com acintoso afecto, tramar o próximo tornou-se, pois, um curioso desporto local, um modus operandi nacional.

Tal arte apoiou-se na instalação generalizada e inteligente da maldade,  da inveja e da satisfação na mediocridade, tudo adequado ao carácter assaz peculiar do seu povo. Sem outra intenção que o mero sucesso pessoal, é justo confessar.

Já Suetónio, o preclaro cronista dos imperadores romanos, relatara que, na opinião de Júlio César, havia na região oeste da Ibéria um povo inculto, velhaco e sacanote que não se governava nem se deixava governar.

Impotentes para detectar a origem do mal, digamos apenas que os extractos de sacanismo, de complicadez e de maldade bebiam no tronco comum da bimbalhice e da obscurância, daí a classificação genérica científica de bimbus vulgaris lineus utilizada para designação dos res­pectivos habitantes.

Com efeito, até os magníficos, meritíssimos e doutorados Sacaníssimos, cultos, sabedores e proeminentes, não deixam de entroncar no grande radical dos sacanensis lusitanus vulgaris lineus em muitas das suas exponenciadas magnificências. A um mais elevado nível, claro, condizente com a suas doutas, calibradas e cheirosas pes­soas a merecerem-nos adiante adequada atenção.

Não sabemos também de onde veio esta torpe designação, subliminarmente indexante de tais negativos predicados aos Lusita­nos, gente honrada e apenas medianamente inculta, esforçados servos da gleba e viajantes, zelosos espoliadores do corso, pacatos piratas nas horas vagas; apenas vagamente culpabilizáveis, quando muito, pelo facto de, impulsionados pela Fé, a Grei e a busca imperiosa da canela, terem tido grande heroísmo e desempenho na piedosa degola dos gentios”…

Pedro Barroso. Eterno.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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