António Alves Seara – A morte de um Amigo

Recebi há poucas horas a notícia, aguardada como uma triste inevitabilidade.

É assim a vida e é assim a morte.

Conheci o António Seara em Évora, em meados dos anos cinquenta do passado século, quando aí nos encontrámos como alunos da Escola do Magistério. Ele, um pouco mais velho, já revelava as preocupações culturais que marcaram toda a sua vida.

Reencontrámo-nos, poucos anos depois, exercendo ambos na saudosa e já desaparecida Escola da Fontedeira, em Portalegre. Depois, separámo-nos por bastante tempo.

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Os episódios seguintes e frequentes da nossa crónica comum de vida decorreram já em Peniche, desde há cerca de um quarto de século, quando, pelo casamento do meu filho, comecei a visitar esta bela terra. Numa dessas vindas acompanhou-me um ilustre gavionense, o Padre José Heitor Patrão, para aqui confraternizar com o seu amigo e conterrâneo.

Agora, pela força das circunstâncias familiares, antes de todo imprevisíveis, deixei a minha Portalegre de sempre e vim morar para junto do Seara, cinquenta anos depois da sua fixação em Peniche.

Ainda confraternizámos, apesar do seu abalado estado de saúde, bastante precário. Recordámos muitas das vivências conjuntas, pelo nosso Alentejo, sobretudo em Évora e em Portalegre.

Pude acompanhá-lo, há poucas semanas, no dia da homenagem pública, justíssima e oportuna, que Peniche lhe prestou pelos serviços cívicos, pedagógicos e culturais que o António Seara prodigalizou a uma terra a que durante décadas dedicou tanto carinho como ao seu distante e inesquecível Gavião natal.

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Conversámos, trocámos memórias e fizemos projectos. Entre estes, eu contava com ele para me ajudar nesta adaptação, desenraízado como me sinto, a uma nova terra, a uma nova vida. Mas ele já não pode fazê-lo, para meu pesar…

Em muito pouco tempo, perco dois amigos alentejanos, o Manuel Nunes Marques, professor e  cientista, antigo director do Observatório Nacional, e agora o António Alves Seara, professor e homem de cultura, cidadão honoris causa de Peniche.  Fica-se mais pobre, mais vazio, pelo cumprimento desta lei, eterna e irreversível, da vida e da morte.

Nesta lembrança do António Seara, quero aqui partilhar coisas suas que possuo entre as recordações mais estimadas. São reproduções de fotografias da sua autoria, de José Régio, com quem ambos, em diferentes situações, privámos em Portalegre.

Trata-se de quatro fotografias, todas assinadas no verso pelo Seara, que documentam o nível e a qualidade da sua prática na arte das imagens e também das suas vivências culturais, na intimidade por ele cultivada com o génio literário que foi a Poeta da Toada de Portalegre, ao ponto de este ter servido de seu “modelo”…

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Nesta simples e simbólica homenagem pessoal, quero deixar vincadas tanto a memória da saudade já sentida como a prova da qualidade do Amigo que se perdeu.

E desejo também daqui endereçar, nestas horas de dor, um abraço de inteira solidariedade aos seus familares mais próximos e mais queridos.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

GONÇALO RIBEIRO TELLES

UM ARQUITECTO DO FUTURO

a RIB TELLES3Há semanas, o arq.º Gonçalo Ribeiro Telles recebeu a mais importante distinção internacional no campo da arquitectura paisagista, o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe, considerado o Nobel desta área.

A vida e obra do arq.º Ribeiro Telles constituem uma permanente lição de qualidade e de coerência. Desde a sua formação no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, tornou-se assistente nessa escola e, mais tarde, professor catedrático na Universidade de Évora, onde criou as licenciaturas em Arquitectura Paisagista e Engenharia Biofísica.

Membro da Juventude Agrária e Rural Católica, ai se iniciou nos domínios da política, militância depois reforçando no Centro Nacional de Cultura. Apoiou a candidatura presidencial de Humberto Delgado em 1958.

A quando das trágicas cheias na Grande Lisboa, em 1967, denunciou publica e corajosamente as políticas de solos e de urbanização que então provocaram centenas de mortos.

Depois de ter contribuído para a fundação do Movimento de Convergênciaa RIB TELLES2 Monárquica, em 1971, logo após a Revolução de Abril integrou o novo Partido Popular Democrático, que ajudou a criar. Foi subscretário de Estado do Ambiente nos três primeiros Governos Provisórios e secretário de Estado dessa pasta no I Governo Constitucional. Cumpriu depois três legislaturas na Assembleia da República, como deputado monárquico.

Voltando ao Governo, o VIII Constitucional, como ministro de Estado e da Qualidade de Vida, teve uma acção proponderante, ao criar as zonas protegidas da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional, lançando também as bases para os Plano Directores Municipais. Mais tarde, fundou o Movimento do Partido da Terra, do qual é presidente honorário, desde 2007.a RIB TELLES1

São notáveis algumas das suas obras, nas quais avultam os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian (em parceria com António Viana Barreto) e o Corredor Verde de Monsanto, há pouco concluído.

Entre as diversas distinções recebidas, conta-se a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, atribuída em 1994.

 

Quando um dia se fizer a história audiovisual de Portalegre, isto é, se um dia se pretender avaliar com rigor e com isenção o que foi a gesta de iniciativas destinada a dotar aquela cidade da oportunidade de se tornar a capital nacional desta modalidade comunicativa, se tal acontecer talvez se possa entender o que foi o Ambiente – Encontros Internacionais e Imagem e Som do Norte Alentejano.

a AMBIENTEIniciativa do presidente da Região de Turismo de São Mamede, António José Ceia da Silva, produziu em Portalegre sete edições internacionais, entre 1998 e 2007, e integrou uma organização federativa –Ecomove– com estruturas similares da Alemanha, Eslováquia, Rússia, Japão e República Checa, tendo participado em conjunto em Festivais ambientais em Berlim (Alemanha, 2001 e 2003), Joanesburgo (África do Sul, 2002) e Aichi (Japão, 2005). Aí fomos dignos “embaixadores” de Portalegre.

 

Remando contra a maré da indiferença na sua própria terra, onde poucas masa ECOMOVE seguras alianças conseguiu (a Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre e quase todas as escolas do Ensino Básico e Secundário do Distrito, entre estas), o Festival  assumiu a organizaçáo de diversas actividades culturais e recreativas, como concursos, ciclos conferências, exposições, cursos de formação, projecções e debates. Também homenageou figuras nacionais de relevo nos domínios ambiental e comunicacional, entre as quais se contou o arq.º Gonçalo Ribeiro Telles.

 

Foi em 2003, durante o 6.º Festival. Lembro-me das dificuldades que encontrámos a FERNANDO PESSOAem convencê-lo a aceitar aquela sincera, embora modesta, distinção na sua digna genuinidade, que lhe queríamos atribuir, numa lista que já tinha contado com outras notáveis personalidades como Correia da Cunha, João Evangelista, Almeida Fernandes ou Hélder Mendes. Só quando lhe revelámos que o seu colega e biógrafo arq. Fernando Pessoa, um amigo pessoal de sempre, tinha gostosamente aceitado proferir a “oração de sapiência” do acto, ele decidiu responder positivamente ao nosso convite.

A presença de Ribeiro Telles em Portalegre não constituiu uma mera passagem de circunstância. A sua adesão à iniciativa foi total e muito significativa. Na tarde do dia 16 de Novembro de 2003, nas instalações do Museu da Tapeçaria, onde estava patente uma exposição sobre a sua obra técnica de arquitectura paisagística, com maquetas, desenhos, estudos e fotografias, Gonçalo Ribeiro Telles encantou e inquietou todos os presentes com uma dissertação baseada no tema “É preciso salvar o interior em nime do País”. Aí foi convicto e convincente, acusando, denunciando, criticando, propondo e exigindo medidas de salvação ambiental. Como sempre…a AMBIENTE 2003

 

Esta breve evocação, para situar a verdadeira e actual dimensão deste lúcido e combativo cidadão, será completada com um recente e notável texto que Viriato Soromenho-Marques (outro nome do Festival Ambiente!) publicou no Diário de Notícias do passado dia  16 de Abril. Um arquitecto do futuro (título que “roubei” para esta crónica) é a seguir reproduzido, com a devida vénia para com o jornal e o autor, mais um renovado abraço de admiração para este.

É a mais adequada forma de prolongar a justa homenagem a essa invulgar figura de “português de grei e de lei” que é Gonçalo Ribeiro Telles.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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Um arquitecto do futuro

a viriato-soromenho-marquesA atribuição do maior prémio internacional da arquitectura paisagis­ta a Gonçalo Ribeiro Telles é um raio de luz nestes tempos de sombra. Trata-se de um grande cidadão, que antes e depois do 25 de Abril contri­buiu para civilizar o País nos valores da compreensão e do respeito pela paisagem, pelos adequados usos do solo, pela integração do ambiente em todas as áreas de intervenção do Estado e da sociedade civil. Contra a resistência de inte­resses particulares e visões mesquinhas, a sua acção inte­gra, para além de iniciativas no domínio da conservação da natureza, as leis sobre a Re­serva Agrícola Nacional (RAN), a Reserva Ecológica Nacional (REN), diferentes projectos de lei sobre baldios e florestação, assim como a coautoria da Lei de Bases do Ambiente. Ribeiro Telles re­presenta também a influên­cia marcante que a universi­dade pode e deve desempe­nhar na definição de boas políticas públicas, fundadas no conhecimento e na pro­cura do bem comum. Mais do que nunca o ensinamento e o exemplo de Ribeiro Telles se erguem na sua inteira valida­de e no seu verdadeiro vigor. Passámos o tempo em que a nossa pátria era um lugar na­tal, que julgávamos seguro e garantido. Hoje, não é só o nosso futuro como indiví­duos que está colocado na li­nha de mira de uma catástro­fe histórica. Hoje, é o próprio país que está em causa. Mais do que nunca, o apelo do ar­quitecto para uma nação ca­paz de se erguer a partir das suas próprias forças, num es­clarecido regressar à terra (incluindo a “terra líquida” que é o mar), mostra a sua plena validade. Para podermos merecer o futuro.

Viriato Soromenho-Marques
Professor universitário
in Diário de Notícias, 16 de Abril de 2013

Uma data de datas – XXVI – Hitchcock

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XXVI – 29 de Abril de 1980 – Morre sir Alfred Hitchcock

 Até que ponto dois ou três episódios acontecidos na infância de Alfred tiveram influência na sua vida e na sua muito especial carreira, até que ponto isso se verificou nunca se saberá ao certo.

Quando tinha quatro ou cinco anos, o pai mandou-o ir a uma próxima esquadra da polícia entregar uma carta. O agente de serviço leu-a e trancou-o numa cela por alguns minutos, dizendo-lhe: – Isto é o que se faz aos meninos maus!

Foi educado num rigoroso colégio dirigido por jesuítas. Alfred nunca esqueceu a sala onde eram aplicadas as punições, com um cinto. Considerava-as como cerimónias de execução capital…

Gostava muito de visitar o Museu Negro da Scotland Yard, na sua Londres natal, assim como assistir a julgamentos de assassinatos no Tribunal Criminal. Então, adorava ler Dickens, Walter Scott e Shakespeare. Até que descobriu o cinema.

Começou por desenhar letreiros para os filmes. Depois, foi convidado para terminar um filme, cujo director adoecera.

Na Inglaterra conseguiu obter os seus primeiros êxitos, com O Homem que sabia demais, em 1934 (depois, seria refilmado em 1956), e com Os 39 Degraus (1935).

h1Os produtores de Hollywood acabaram por descobrir tais filmes, pelo que o convidaram para ir para os Estados Unidos. Em 1939, Alfred Hitchcock mudou-se.

A estreia, com Rebecca (1940), não podia ser mais promissora, pois ganhou o Óscar do melhor filme. E durante os trinta anos seguintes, Hitchcock dirigiu outras tantas fitas…

Não vale a pena lembrar agora os seus títulos, de todos conhecidos.

A partir de 1955 começou um programa de televisão que atingiu enorme sucesso, onde apresentava vários episódios criminais. A popularidade de Hitchcock atingiu então os píncaros da fama.

Vertigo, provavelmente o seu filme mais conhecido, teve dois títulos distintos –Um Corpo que cai ou A Mulher que viveu Duas Vezes) sendo integrado em 1998 na lista das cem melhores obras cinematpgráficas de todos os tempos e, recentemente, considerado como o melhor filme de sempre.h2

Os Pássaros, Psico, Marnie, Intriga Internacional ou A Janela Indiscreta são fitas que têm de integrar, forçosamente, qualquer filmografia fundamental ou básica.

Alfred Hitchcock, entretanto naturalizado norte-americano, morreu em 1980, com 80 anos, na sua casa de Los Angeles. Tinha recebido, quatro meses antes, a Ordem do Império Britânico, das mãos da Rainha Isabel II.

O suspense que o realizador empregava foi único, na sua técnica de posição e na movimentação das câmaras, na banda sonora especialmente criada, nos efeitos de luz conseguidos, na superior e original montagem utilizada.

Hitchcock, num certo culto narcisista, surgia de relance na maior parte dos seus filmes, talvez uma trintena de vezes.

Ficaram célebres algumas das suas máximas, como, por exemplo:

Nos filmes, os assassinatos são sempre muito limpos. Eu mostro o quão difícil é e como é repugnante matar um homem.
– Se o filme for bom, o som pode desaparecer que o público ainda teria uma ideia perfeitamente clara do que está acontecendo.

– Sou um director estereotipado. Se eu fizesse Cinderella, o público estaria imediatamente à procura de um corpo na carruagem.
– Walt Disney tem o melhor elenco. Se não gosta de um actor, ele simplesmente o apaga.
– Sempre faço o público sofrer tanto quanto for possível.
– Não há terror num murro, somente na antecipação dele.
– A única forma de me livrar de meus medos é fazer filmes sobre eles.
– A duração de um filme deveria estar diretamente relacionada com a paciência da bexiga urinária humana.
– A televisão tem feito muito pela psiquiatria ao divulgar informações sobre ela, assim como ao contribuir para a necessidade dela.
 – A televisão trouxe o assassinato de volta ao lar, que é o lugar ao qual ele pertence.
  – Alguém me disse uma vez que a cada minuto ocorre um assassinato; por isso não quero fazer-te perder tempo, sei que queres voltar ao trabalho.
– Além dos nossos assassinatos mais esquisitos serem domésticos, são executados com ternura em lugares simples e caseiros como a mesa da cozinha.

h3Assim foi Alfred Joseph Hitchcock, um dia “preso” por ser um “mau menino”, algumas vezes castigado com um cinto jesuíta, apaixonado por crimes de conserva (nos museus) ou relatados ao vivo (nos tribunais)…

Tintin – Um herói católico – V

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Cinco – O Evangelho segundo Hergé

Depois, Denis Tillinac lamenta que apenas por duas vezes Tintin lamente uma morte de inimigos. Mais uma vez, contou mal, e de diversas maneiras…

 

1.      O lamento de Tintin a propósito da morte do japonês “mau”, em Le Lotus Bleu, é correctamente citado, mas está incompleto. Tintin a seguir a “Deus guarde a sua alma!…” acrescenta “Mas ele era um reles patife!...”, assim quase destruindo a piedosa intenção inicial.

2.      Na aventura Le Trésor de Rackam le Rouge ninguém morre afogado no alto mar…

3.      Onde morrem dois “gangsters” (não dois “piratas”) afogados no alto mar é na aventura L’Oreille Cassée

4.      A este propósito, Tintin não solta o mínimo lamento, logo se preocupando com o paradeiro do ídolo de madeira que disputava com os “gangsters”…

5.      Houve, com efeito, outros dois lamentos de Tintin, a propósito da morte violenta de outros tantos inimigos: em Les Cigares du Pharaon (pág. 60, “Le malheureux, Dieu ait son âme!…“) e em Tintin au Congo (pág. 48, “Dieu ait son âme!…” E a verdade é que Denis Tillinac omite estes dois casos, afinal os únicos em que Tintin revela uma autêntica piedade pela morte alheia…

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Enfim, tudo baralhado. Afinal, em vez de “postulador” da candidatura de Tintin à santidade, Tillinac parece ser afinal o “advogado do diabo”, isto é, o encarregado de encontrar lacunas, falhas ou contradições no processo…

Se quisermos, com seriedade, avaliar a posição de Tintin perante a morte, devemos analisar outras situações, ainda não consideradas.

Por exemplo, há uma que quase passa despercebida. É em Le Temple du Soleil, quando uma avalanche precipita num abismo andino alguns índios armados que perseguiam o grupo de Tintin. Este, depois de afirmar que “há um deus para os amadores de uísque” (Haddock salvara-se milagrosamente!), limita-se a comentar: Creio que nos desembaraçámos definitivamente daqueles bandidos…”.

É em On a marché sur la Lune que acontece um duplo episódio, dramático, no qual sucessivamente perecem o “mau” Jorgen, vítima dum disparo acidental no seio duma luta com o “bom” (!?) Wolff, que depois se suicida, abandonando voluntariamente o foguetão lunar que transporta o grupo de Tintin de regresso à Terra.

Ora Tintin encara ambas as mortes com serena frieza, quase com naturalidade. Em relação a Jorgen limita-se a constatar o óbito: “Finou-se. Não há mais nada a fazer...”. Ao deparar com o escrito deixado pelo suicida Wolff, ainda exclama: “Meu Deus! O desgraçado… Isto é terrível…”. Mas, logo a seguir, conclui: “Mas este sacrifício talvez não sirva para nada…” No plano moral e ético, o mais interessante comentário a esta cena será protagonizado pelo rude capitão Haddock, que quase chega a agredir um dos Dupont/d quando este chama “bandido” a Wolff: “Se alguma vez mais lhe ouvir uma só falta de respeito que seja para com a memória deste herói, atiro-o ao espaço para ir ter com ele!

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Haddock, cuja personalidade geralmente se orienta por impulsos, dispensando planificações e avaliações das iniciativas que intuitivamente protagoniza, revela neste episódio, bastante “adulto” no conjunto da obra hergeniana, sentimentos mais expectáveis em Tintin.

Aliás Denis Tillinac cita, e fá-lo de forma pertinente, os três comparsas fundamentais de Tintin, deles registando as imperfeições clássicas, a que num sentido quase bíblico chama tentações: uísque para Haddock, ossos para Milou, ciência aplicada para Tournesol. Juntemos agora, a este propósito, a ligeireza com que o autor já atrás referira, ironicamente, as aparições do anjo da guarda ao capitão e do diabrete ao cão, incontornáveis figuras catequéticas invocadas por Hergé.

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Quase apetece voltar a Emmanuel Kant e a Santo Agostinho mas não devo ir tão longe, ficando pelo bem e pelo mal, rigorosamente regianos, que existem em cada ser humano (Milou é muito mais do que um cão!), o lado celestial e o lado demoníaco de cada um de nós. As aparições angélicas e diabólicas sofridas por Milou e por Haddock encontram lógica explicação na luta interior das suas respectivas consciências, sobretudo em cruciais momentos de difícil escolha alternativa duma via, duma atitude…

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As alegorias de que Hergé se serve constituem um riquíssimo material sobre o qual se escreveram e escreverão inúmeros tratados. E quem não sabe da edição de obras de sucesso como O Evangelho segundo os Simpson, O Evangelho segundo os Beatles, O Evangelho segundo os Peanuts, O Evangelho segundo Lost (Perdidos), O Evangelho segundo Harry Potter, e outros mais?

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Atendendo a que já existem alguns ensaios “marginais“, não teremos um dia destes “O Evangelho segundo Tintin“?

 António Martinó de Azevedo Coutinho

AJUDADA em Portalegre

Mãos amigas fizeram-me chegar a notícia que aqui divulgo.
Parece-me uma iniciativa digna do melhor acolhimento, pelo que a divulgo de imediato, esperando assim fazer chegar a boa nova aos portalegrenses da diáspora que por aqui, neste blog, se vão encontrando. À distância, ser-me-á difícil uma partipação tão activa quanto desejaria. Tento compensar assim esta lacuna pessoal.
Portalegre, na profunda crise que atravessa, iniciada antes desta, mais global, que agora nos afecta, bem precisa duma sacudidela nas consciências, capaz de produzir uma viragem na situação que as “forças” ditas públicas, ou oficiais, se têm revelado manifestamente incapazes de gerar. Os amigos que vejo envolvidos nesta iniciativa são gente de boa vontade e dotada de sentimentos do altruísmo e de generosidade, dos que enfrentam e vencem dificuldades sem conta.
Assim sejam agora capazes de dar corpo a este voluntarioso empreendimento.
Nos links amigos deste blog, numa coluna à direita, consta o acesso fácil à página da AJUDADA, onde os interessados poderão colher mais e mais actualizada informação.

 Portalegre acolhe encontro internacional inspirado
na economia da dádiva

Pensar um novo modelo de economia, a partir dos valores essenciais da vida em comunidade e abrangendo conceitos negligenciados como a dádiva e a partilha, é o desafio que terão em mãos os participantes de um encontro internacional a realizar em Portalegre, entre os dias 14 e 16 de Junho.

Nesta iniciativa é esperada a participação de personalidades como Charles Einsenstein, autor de “Economia Sagrada” (Sacred Economics), e Mark Boyle, autor do livro “O Homem Sem Dinheiro“, instituições como a Transition Network, representantes de projectos nacionais e internacionais que estão a promover a transformação das suas comunidades, além de um leque variado de entidades locais e regionais que se propõem trabalhar em conjunto com vista a transformar o encontro numa plataforma capaz de desencadear acções positivas para o futuro.
O processo de organização do encontro, apresentado como pioneiro no seu âmbito, obedecerá a regras distintas daquelas que pautam um evento clássico, fazendo apelo ao contributo de todos os envolvidos em consonância com o espírito da economia da dádiva (gift economy).

As ideias de entreajuda e de criação colectiva reflectem-se na expressão escolhida para tema do programa – “AJUDADA” -, alusão a uma prática ancestral comum em muitas zonas rurais, na qual os elementos de uma comunidade se juntavam para dar apoio nos trabalhos agrícolas de uma propriedade.

O programa previsto desenrolar-se-á durante três dias, cada um dos quais pensados de forma a tocar perspectivas e realidades diferentes. No primeiro dia terão lugar conferências, debates e mesas redondas, a que se seguem, no dia seguinte, oficinas, actividades de rua com múltiplas intervenções no espaço público, mostra de projectos de âmbito local e momentos de festa. O último destes três dias fará apelo à implementação concreta de projectos de maior envergadura planificados na fase preparatória e que reunirão a comunidade local e todos os participantes da AJUDADA.

ajudada

 PROGRAMA PREVISTO

1ºdia  Cabeça
Colocando em perspectiva o tema da economia da dádiva:
Partilha de reflexões, visões e narrativas, explorando de forma interactiva o Potencial para a transformação da nossa comunidade.
Conferências, tertúlias e mesas redondas
 2ºdia Coração
Sonhando a diferença:
Exploração criativa partilhada, encontrando formas de expressar as dádivas de cada um à comunidade, tendo Portalegre como palco.
Oficinas, actividades de rua, projectos de âmbito local e momentos de festa. 
 3ºdia  Mãos
Semeando o futuro:
Implementação concreta de projectos de maior envergadura planificados numa fase preparatória e que vão reunir a comunidade local e todos os participantes da AJUDADA.

Facebook e o bezerro de ouro

Facebook e o bezerro de ouro

 pascoalO Facebook é um modo de comunicação que nos torna simultaneamente mais próximos e distantes dos outros. Como ferramenta utilitária, não tem a capacidade de um blogue ou de uma página. O Facebook é volátil e aparentemente não suporta grandes textos nem a presunção de reflexões mais demoradas – é-lhe quase estranha a crise em que vivemos. Chega a habitar na mais profunda anestesia. O blogue sim: escreve-se e aquilo fica ali para ser lido. Mas quem é que lá vai?

Tem o Facebook a vantagem de “captar” a assistência – normalmente uma comunidade próxima designada por “amigos”, através desses sinais estúpidos que inventou para se sacralizar (“gosto”, “fulano assinalou-te”, “sicrano comentou algo”). Porém, a realidade é que os facebookianos não gostam de perder tempo, preferem o gossip leviano. A Wikipedia tem uma boa definição disto: “idle talk or rumor about the personal or private affairs of others. It is one of the oldest and most common means of sharing facts, views and slander”. Portanto, tudo redunda na vacuidade do mexerico. E, para mais, os aderentes pintam uma imagem de si que os converte numa espécie de seres ideais e sem defeitos. Lá está Clarice a dizer-nos aquilo que não gostamos de ouvir: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. Além disso, não se trocam grandes ideias, mas sugestões, gostos, tendências. Um assunto nunca se debate verdadeiramente. Dir-se-ia que se passa pelas coisas sem as ver. É como se os facebookianos fossem uma multidão de cegos que, em última análise, gritam para o seu próprio umbigo.

Eu aderi recentemente (mas não fui o último dos moicanos – há muita gente mais inteligente do que eu que se mantém intacta) ao Facebook e também não vejo muita coisa. A não ser que o interesse seja mesmo esse: passar os olhos sobre, espreitar, espiar, espiolhar. Depois, há as pessoas que se expõem de uma forma gritante e os que – esta é mesmo boa – conhecemos na vida real e nem aparecem, ou fingem que nem aparecem, porque sentem a síndrome do pássaro na mira da espingarda, sentem que “nós lá estamos e os vamos ver”. Chega mesmo a sentir-se que há uma comunidade vigiada em que se entra e cujo pacto assenta na lei do mutismo. Bom, e há o capuchinho vermelho e o lobo mau, as alcateias, o lobo vestido com a pele de cordeiro e mais umas quantas histórias clássicas, de que a mais interessante será mesmo a inversa, a do cordeiro vestido de lobo, com ares de farsola e muita bazófia.

É de um constrangimento deprimente verificar como todos nos tornámos big brothers uns doa outros e até de nós mesmos. Uma imensa irmandade. Vigiamo-nos com um provincianismo gritante encorajados por uma vaidade bastante superficial e, ao mesmo tempo, por uma fantasia de grandeza humilhante e a condescendência perante os pequenos méritos, resultado do poder das representações em criarem (falsas) realidades. Representações de representações, cada vez mais inconsistentes. Vigiamo-nos como os leprosos que, entre si, investigam cada ferida, na qual o ego não tem um papel nada marginal.

Muito acima disto está a comunicação na imprensa (como desejo que o papel não nos fuja tão cedo e mantenha tangível o que ainda há de palpável!). Aí há lugar para o desafio da palavra, para o debate da ideia. E o palco serve uma assembleia vasta, não conhecida mas razoavelmente fiel.

Melhor do que isto, só o livro, o book, último reduto do pensamento livre. O Facebook  – vendedor de promessas – faz-nos escravos de ideias básicas, de comentários ridículos, de toques e berloques, de chats absurdos e inconsequentes, de seguidores que recomendam coisas do arco-da-velha. Já o livro é tão sincero como um rosto sem máscaras, porque não tem nada a perder – aliás, a crítica pode até arrasá-lo, mas ele ali está, com a sua decência e coragem, com a audácia de um edifício inteiro. Podemos, porém, continuar a alimentar os bezerros de ouro da escravidão no Facebook, mas tenhamos consciência disso. Essa “comunidade imaginada” que nos mima a toda a hora é uma ilusão pura e dura, uma consolação estranha. Que, ainda por cima, nos anestesia para o mundo e suas causas.

Pode ser que ainda se possa mudar de ideias. Afinal de contas, muitas das pessoas que gravitam por ali são mesmo amigas e não apenas “amigos”.

 António Jacinto Pascoal

O regresso utilitário dos cromos

Curiosamente, nos últimos tempos, tem-se verificado um regresso a primeiro plano das colecções de cromos.

Um dos casos, muito recente, vem de Portalegre, do Clube Desportivo Portalegrense, herdeiro -ou sucessor- do Grupo homónimo de tempos heróicos, duas vezes Campeão Nacional da Terceira Divisão, fora outras notáveis notas de um currículo invejável. O lado azul do meu coração ainda recorda sucessivas jornadas no antigo Estádio da Fontedeira, quando o Desportivo constituía um temível adversário de qualquer equipa da sua igualha que o visitasse. Depois, uma eterna rivalidade com outro clube da cidade, o Estrela, criava um especial clima de emulação, nem sempre contido no plano meramente desportivo. Outros tempos, outras crónicas futebolísticas, que até nem vêm agora para o caso.

Este diz respeito ao lançamento duma colecção de cromos, com a respectiva caderneta, sobre o Clube Desportivo Portalegrense. Disso apenas me chegaram os ecos, conseguindo colher de forma indirecta alguma informação, incluindo imagens, que provavelmente nem serão dos cromos propriamente ditos, quase nada sabendo portanto sobre a organização da própria colecção, estrutura da respectiva caderneta e outros pormenores.

cromo desportivo

De qualquer forma, a pesquisa sumária e colateral que pude efectuar revelou-se positiva, pois deparei com diversas imagens de muita gente nova, sobretudo crianças e raparigas, envergando com evidente orgulho uma camisola carregada de prestígio. Se isso significa formação séria e adesão convicta, então o clube vai por um bom caminho. Faço sinceros votos nesse sentido.

Quanto à colecção de cromos propriamente dita, a iniciativa -nada tendo de inédito pois conhecem-se casos relativos a alguns outros clubes, nacionais e não só- deve saudar-se, pois pode representar no caso concreto de Portalegre um acréscimo de interesse mobilizado em torno do clube, concedendo-lhe uma desejada evidência positiva além duma eventual fonte de receita.

Outro caso, distinto mas também recente, chegou-nos igualmente pela comunicação social.

Aqui, a colecção de cromos e a respectiva caderneta são iniciativa não dum clube desportivo mas duma paróquia religiosa, católica. O exemplo vem de Pernes, freguesia do concelho de Santarém. Um jovem padre, ali colocado há seis meses, confrontou-se com missas vazias de fiéis.

Entre as várias estratégias destinadas a enfrentar e resolver o grave problema de desertificação da sua igreja, o sacerdote organizou uma caderneta sobre o Evangelho e todos os domingos distribui um cromo para lá ser colado. Segundo parece, a ideia funciona e o tempo enche-se.  

Pelos vistos, neste caso não haverá receita material (pelo contrário), mas a promoção e a evidência estão garantidas.

Também não conheço mais pormenores. Se o cromo distribuido em cada domingo for igual para todos os fiéis coleccionadores, a coisa não terá tanta piada.

Assim, não poderia imaginar tão interessantes diálogos em Pernes como eventualmente serão os de Portalegre. Por exemplo, lá para o Alentejo, pode ser do estilo: –Olha, ainda me falta o guarda-redes de época de 1950. Como tenho dois Cristóvãos Canários, não queres trocar por um Martelo? Mas no Ribatejo não poderá acontecer uma proposta do género: –Só me saem Parábolas do Filho Pródigo… Já tenho cinco e ainda preciso do Tiago, filho de Zebedeu, na página dos Apóstolos!

O pároco de Pernes, aliás, não deve ter tido grande dificuldade na organização da caderneta, porque no comércio (ou indústria?) da especialidade contam-se diversos exemplares do género.

cromo religioso

De qualquer forma, acho que esta ressurreição dos cromos pode ser melhor explorada. Por exemplo, no campo da política e com a mesma finalidade. Como a aceitação e o prestígio dos respectivos profissionais andam bastante por baixo, também poderia ser emitida uma caderneta alusiva e distribuídos os respectivos cromos, para remediar a questão.

Como é óbvio, dado o melindre do tema, tudo terá de ser feito com precaução. Os cromos, se forem vendidos, provavelmente ninguém os compra. Parece ser melhor a táctica de Pernes, oferecê-los a troco de alguma coisa. Sugere-se a seguinte estratégia: os cromos devem ser fornecidos de borla a todos os cidadãos que vão à chegada ou à partida de um ministro em qualquer lado e batam palmas; se for o primeiro-ministro têm direito a dois cromos por cabeça; se for o presidente da República, a três. Um estudante que então não cante a Grândola recebe um cromo; se for desempregado cabem-lhe dois.  Cada ordem da polícia, desde que cumprida, garante um; se o cumprimento não for antecedido de qualquer tipo de refilanço, dois, podendo ser mesmo três, desde que o cidadão se msotre bastante rápido e cortez. Se um paciente for capaz de aguentar cinco minutos, seguidos, da transmissão duma sessão do parlamento terá direito a um cromo, recebendo outros, suplementares, por cada período extra de mais dez minutos. Quem consiga assistir a uma sessão completa, garantirá um bónus, suplementar, de cinco cromos. Ouvir uma mensagem de Natal presidencial, sem desligar o televisor nem mudar de canal,  corresponde a seis cromos e por aí fora, segundo uma tabela que constará da própria caderneta, distribuida gratuitamente a todos os cidadãos que forem votar nas próximas eleições para a nova Legislatura. Espera-se, assim, reduzir substancialmente a percentagem dos abstencionistas.

Os especialistas do marketing político nem sequer precisam de qualquer dica capapessoal, mas sempre avanço uma: convém que a colecção não seja um mero instrumento de propaganda, do tipo Estado Novo. Por isso, os cromos devem ser acompanhados de textos -breves legendas- de certo modo críticos q.b., com uma dose, comedida, de humor à mistura. Não vou agora defender que se entregue tal tarefa de redacção a Francisco Louçã ou a alguém do Bloco de Esquerda, a quem até nem falta sentido irónico, nem, pior ainda, a Medina Carreira ou a Vasco Pulido Valente… Sugiro, mais moderadamente,  Ricardo Araújo Pereira ou João Miguel Tavares, por exemplo.

Enquanto o projecto dos cromos políticos não for oficialmente concretizado, deixo aqui algumas sugestões, embora limitadas, de uma eventual capa para a caderneta e de alguns putativos exemplares.

cromos políticos 1

cromos políticos 2

Última nota alusiva. Parece-me vantajoso que os cromos sejam autocolantes. Empregar aquela cola liofilizada -como nos antigos selos do correio- que tem de ser humedecida antes de usar, apresenta aqui um inconveniente: o de muitos utentes não terem a certeza absoluta sobre qual a face onde devem cuspir.

 António Martinó de Azevedo Coutinho