Manuel Nunes Marques (1933-2013) – Um Amigo

MANUEL NUNES MARQUES – IN MEMORIAM

 

Soube agora da morte do Manuel Nunes Marques, um amigo de há muito, pormm 0 outros amigos comuns, o Tito e o Florindo. Era uma notícia esperada, dada a luta tenaz e corajosa que o Manuel vinha travando contra mal que não perdoa.

Mas a sua generosidade, o sentimento de fraternidade que sempre praticou com todos, nomeadamente como os amigos, manteve-o -até ao fim- próximo das causas em que acreditava e que praticava. Coerente, foi dos mais decididos e activos membros de grupos que sempre mantiveram acesa a chama da amizade que se molda nos tempos da juventude. Foi assim o Manuel Marques, a quem se deve a co-organização de todos os convívios que reuniram, sobretudo, a “malta” do velho Liceu de Portalegre.

Foi em 2011 que com ele estive pela última vez, por dificuldades minhas de continuar a participar pessoalmente nos encontros posteriores onde ele esteve presente. Ainda em Março alinhou no almoço regular, praticamente mensal, que junta os “emigrados” lagóias da Grande Lisboa.

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E ele estava, agora mesmo, empenhado na organização da grande reunião prevista para Portalegre, no próximo dia 1 de Junho, de que aqui daremos atempada conta quando houver um programa definido.

O Manuel Nunes Marques, na desconcertante simplicidade da sua relação pessoal, escondia a reconhecida competência científica que o tornou um nome incontornável nos domínios da moderna astronomia nacional. O texto da autoria do seu principal colaborador, e natural sucessor, na Direcção do Observatório Astronómico de Lisboa, Prof. Rui Agostinho, que com a devida vénia a seguir reproduzo, dá conta do decisivo papel desempenhado por Manuel Marques na modernização e no crescimento e afirmação científica da prestigiada instituição.

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Nascido em 1933 em Santo António das Areias, Marvão, o Manuel estudou depois em Portalegre e em Castelo Branco. O complemento académico da sua formação e o brilhante desempenho profissional e científico daí derivado estão bem documentados no texto do Prof. Rui Agostinho, pelo que lhe seria redundante acrescentar o quer que fosse.

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Mas a formação cívica e humana do Manuel teve outras traduções práticas, pois a ele se devem as iniciativas pioneiras que, há mais de trinta anos, começaram a reunir com regularidade, nomeadamente no Cantinho Alentejano, alguns seus antigos colegas dos bancos do Liceu portalegrense. Depois, outros se juntaram, a partir do conhecimento que progressivamente se alargou. Até hoje. Será justo, por isso, afirmar que o espírito do Manuel Marques estará intimamente ligado ao que aconteceu e acontecerá, sempre que os velhos estudantes de Portalegre se juntarem em confraternização.

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Os seus textos, alguns patentes e disponíveis na Internet, revelam a sua imensa sabedoria científica e a capacidade de a comunicar.

Sportinguista dos quatro costados, interrompeu as suas férias, certa vez em Agosto de  1999, por ocasião de um eclipse, o último do milénio. Logo o jornal Record aproveitou o facto para o destacar, considerando-o a Figura da Semana. Já não assistiu, infelizmente, à saída das trevas do eclipse onde mergulhou há tanto tempo o seu, e meu, Sporting!

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Manuel Nunes Marques faleceu na madrugada do dia 18, pelas 2.30 horas. O seu corpo esteve em câmara ardente na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Olivais Sul, tendo sido rezada Missa de Corpo Presente pelas 15 horas de hoje, seguindo-se o funeral com destino ao Cemitério da sua terra natal, Santo António das Areias.

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O Manuel Marques deixa uma saudade imensa nos seus amigos, e muitos são, pelas qualidades humanas, sobretudo pela fraternidade, que generosamente partilhou com todos nós.

mm 8Este testemunho, que posso aqui concretizar, deve-se ao contributo de dois dos seus mais fiéis amigos, o Tito e o Florindo. É, pois, uma lembrança colectiva de homenagem.

Lembrar o Manuel Nunes Marques com afecto é, por isso, uma obrigação moral que aqui modestamente cumprimos, sabendo que o fazemos em nome e tácita representação de todos aqueles que tiveram a ventura de o contar como amigo. Inesquecível.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

(mais o Tito Costa Santos e o Florindo Madeira)

 

MANUEL NUNES MARQUES

 

O engenheiro Manuel Nunes Marques formou-se em Engenharia Geográfica na FCUL em 1961. Depois de passar pelo exército foi professor de matemática no Colégio Militar de Lisboa (1965-1969), o qual deixou para ingressar o quadro de astrónomos do OAL (Janeiro de 1969). Aí trabalhou com os instrumentos clássicos deste observatório: o importante círculo meridiano que deu renome à astronomia portuguesa no final do séc. XIX, os instrumentos de passagens para a medição da Hora Sideral e o grande telescópio equatorial.

Nas décadas mais recentes do século passado o OAL, observatório astronómico nacional, esteve integrado na Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (JNICT) como instituição de investigação e serviço público. Contudo, ao ser extinta em 1992, a JNICT negociou a integração do OAL numa das Universidades em Lisboa. O papel do vice-director engenheiro Nunes Marques foi fundamental, pois a sua relação com a FCUL, que nesta altura se traduzia em ser professor convidado do Departamento de Matemática, defendeu a sua integração na UL, pois só aí se encontrava o ambiente científico adequado ao desenvolvimento futuro do OAL.

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Apesar do trabalho de astronomia que o OAL ia fazendo, o engenheiro Nunes Marques manteve uma relação profunda com o grupo de Matemática Aplicada da FCUL, em particular no ensino da Astronomia Geodésica, cadeira que leccionou durante muitos anos, com gosto e brio.

Atendendo a que o OAL pertenceu desde o séc. XIX à rede europeia de geodesia como um ponto de referência, desde cedo o OAL adquiriu receptores de GPS para modernizar o seu trabalho, também ligado com a Hora Legal.

Estes instrumentos foram usados no ensino da Engenharia Geográfica da FCUL, tal como os telescópios de passagens meridiana no OAL, que ele sempre usou para os trabalhos práticos dos alunos da FCUL.

A Hora Legal foi outra das suas incumbências, não só com a aquisição de um relógio de quartzo de alta precisão no princípio dos anos 70, mas como a pessoa que defendeu a compra de três relógios atómicos de césio para o OAL, nos anos 80. Assim, esta casa manteve o padrão da Hora Legal em Portugal.

Em 1994 o OAL foi integrado na FCUL, por decisão do Senado da UL, e o mm 7engenheiro Nunes Marques assumiu o cargo de director, que manteve até à sua aposentação em 2002. A sua perspectiva sobre o futuro do OAL indicava que a astrofísica deveria ser o caminho a seguir, daí que a aproximação do grupo de astrofísica (do DF) em 1994, foi acalentada. Começámos a fazer palestras públicas no OAL, e a desenvolver a ligação do OAL à sociedade, a qual tinha esmorecido nos tempos do anterior director.

Foi a sua direcção que permitiu a ligação da astronomia portuguesa do séc. XIX com a moderna astrofísica da FCUL e depois com a investigação histórica deste observatório nacional. O seu legado permanece hoje num património histórico que está vivo, associado a uma astrofísica florescente que se mantém como referência da astronomia nacional, seja na investigação, seja nos serviços públicos da Hora Legal, dos pareceres legais, ou na relação com a sociedade em geral que nos procura.

Bem haja!

 Rui Jorge Agostinho
Director do Observatório Astronómico de Lisboa

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