AJUDADA 2013 em PORTALEGRE

ajudada

FALTAM DUAS SEMANAS…

De hoje a duas semanas começará a AJUDADA 2013.

Se ainda não sabe o que é, está ainda a tempo, mas por pouco…

Basta clicar nos Links Amigos, logo aqui mesmo na coluna à direita.

Trata-se de uma página permanentente actualizada, onde constam todas as informações necessárias, desde o programa e objectivos até o que é preciso saber quanto a acolhimento, alojamento, alimentação, transportes, estacionamentos, etc, com mapas e esquemas simples e práticos, além de uma navegação interactiva muito bem organizada e amigável.

Para mais, é possível ter acesso a tudo em língua portuguesa, espanhola ou inglesa.

 

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Em 14, 15 e 16 de Junho, AJUDADA 2013 em Portalegre!

 

PADRE JOSÉ PATRÃO – 7

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ECOS DA MEMÓRIA

Não se extinguiram logo os ecos da memória do Padre Patrão.

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O Fonte Nova, que pela data de publicação, não tivera oportunidade para recolher depoimentos a propósito do recente perda, fê-lo da sua edição seguinte,  precisamente a alusiva aos seus 25 anos de vida.

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Em página e meia, sob a genérica designação O Padre Patrão continua entre nós, ficaram registados os testemunhos dos seus colegas Marcelino Marques e Bonifácio Bernardo, bem como de outras personalidade que com ele tinham de perto convivido: José Mata Cáceres, Florindo Madeira, Nuno Oliveira, Jorge Martins, Jaime Estorninho, Leonel Cardoso Martins e José Polainas. Em página própria, o agradecimento da família e a notícia da Missa do 7.º Dia completaram as alusões ao Padre José Dias Heitor Patrão.

Um dos mais significativos e emotivos testemunhos da comunidade surgiu então na página da associação Pés Vagarosos na Internet.

O Padre Patrão sempre tivera para com o grupo juvenil um especial carinho, Depois da visita guiada à Sé Catedral, inserida na iniciativa À Conversa com…, estava programada para muito breve um encontro similar com pretexto na Igreja do Senhor do Bonfim, onde o sacerdote durante muitos anos rezara uma missa semanal e que constituía, como os amigos denominavam, a sua “menina dos olhos“.

Foi do seguinte teor o texto divulgado pelos Pés Vagarosos, no dia 7 de Outubro de 2009:

Dizer-se que o Padre José Patrão era um amigo tornou-se um lugar comum. Mas nós, os Pés Vagarosos, queremos aqui e agora reafirmá-lo.

7 - 2Nunca esqueceremos o estimulante carinho que nos dedicou, e esperaremos para todo o sempre a próxima e sábia visita ao Senhor do Bonfim que só faltava, mesmo, calendarizar para data bem próxima.

O Padre José Patrão deixou-nos uma magnífica herança e temos todos obrigação, para com a sua grata memória, de estarmos à altura de a compreender e respeitar.

As suas lições de profundo e simples humanismo marcaram as gerações que tiveram a felicidade de o conhecer e de com ele privar. Em cada uma das nossas gratas sensibilidades ficarão para todo o sempre esses sinais de um Homem e Sacerdote com invulgar estatura.

O seu lugar na nossa sociedade fica vazio, mas o espaço que sempre ocupará nos nossos corações compensará a sua perda.

Até amanhã, Padre e Amigo José Patrão!

 

Mas não ficaria por aqui o grupo quanto à sua dívida de gratidão. Logo concretizaria nova iniciativa virada para demonstrar o efectivo reconhecimento dessa relação. No dia 2 de Dezembro, divulgou o seguinte convite à comunidade, pela página, na imprensa local e através de cartazes espalhados pela cidade:

VENHA (RE)CONHECER CONNOSCO O SENHOR DO BONFIM

A construção da Igreja do Senhor do Bonfim, em Portalegre, data do primeiro quartel do século XVIII. O seu estilo barroco é enriquecido por talhas douradas, pinturas, imagens e painéis de azulejos, num conjunto que a torna um templo de grande beleza e valor patrimonial.

Em mais uma das suas habituais Conversas com, a Associação Pés Vagarosos 7 - 4conta agora com a honrosa colaboração da Paróquia de S. Lourenço e da Escola Superior de Educação de Portalegre, com a generosa e activa participação do Prof. Doutor Domingos Bucho, que há meses nos encantou com uma visita guiada similar realizada no Mosteiro de São Bernardo.

Assim, ficam por este meio convidados todos os interessados em participar nesta iniciativa cultural. Basta para isso comparecerem, sem necessidade de qualquer inscrição prévia, pelas 10 horas da manhã do sábado, dia 12 de Dezembro, no adro da Igreja do Senhor do Bonfim, em Portalegre.

Estudioso e profundo conhecedor do nosso património, o Doutor Domingos Bucho dar-nos-á a conhecer a história e as tradições ligadas ao belo templo, assim como nos revelará pormenores relacionados com o seu valioso recheio.

Para além desta aliciante proposta, o evento vai integrar uma cerimónia simples mas significativa, com a qual a Associação Pés Vagarosos pretende homenagear o Padre José Patrão, um seu grande e inesquecível amigo, que há pouco nos deixou mais pobres.

7 - 3O Padre José Patrão conversara connosco, em Junho de 2008, sobre a Sé, Memórias e Lugares, e ainda perdura, na lembrança de quantos com ele partilharam uma inesquecível tarde passada em conjunto na nossa Sé Catedral, a dádiva do seu saber e da sua fascinante personalidade.

Por tudo isto, venha conhecer (ou rever) connosco a Igreja do Senhor do Bonfim.

 

A visita constituiu um êxito, pelo qualificado “cicerone”, pela riqueza do templo e pela considerável participação, assim como um intenso momento de saudade, pela homenagem então prestada para com a memória do um Amigo de todos, ali tão presente. Eis o devido relato, em 16 de Dezembro, retirado da página dos Pés Vagarosos:

 

VISITA GUIADA À IGREJA DO BONFIM
E HOMENAGEM AO PADRE PATRÃO

No regresso às nossas tradicionais Conversas com… contámos novamente com a prestimosa colaboração do Prof. Doutor Domingos Bucho. O pretexto foi a belíssima Igreja do Senhor do Bonfim, constituíndo também a oportunidade para o grupo lembrar um bom e saudoso Amigo, que há pouco perdemos: o Padre José Dias Heitor Patrão.

Esta visita, concretizada na manhã do passado dia 12, sábado, teve uma digna resposta por parte da comunidade, quer quantitativamente, quer na qualidade dos voluntários participantes, e contou com a prestimosa colaboração da Paróquia de S. Lourenço e da Escola Superior de Educação de Portalegre.

Torna-se quase desnecessário recordar o encantamento proporcionado pela visita. O seu responsável, dotado de um sólido domínio da história, das tradições e do rico recheio do templo, aliou ao fluente discurso uma reconhecida capacidade comunicativa. A talha dourada, os painéis de azulejos, os retábulos e as imagens sacras foram apresentados e descritos com sábia maestria que encantou e elucidou os interessados participantes.

No final, em sala anexa ao templo e digna do evento, foi descerrada uma fotografia do Padre José Patrão, artisticamente composta pelo Prof. Bentes Bravo, com uma placa alusiva à homenagem ali prestada e às sua razões. O Padre Patrão deixa uma boa parte da sua memória local intimamente ligada à Igreja do Senhor do Bonfim, onde rezou missa durante longos anos. Amigo desde sempre do nosso grupo, após a visita guiada à Sé Catedral que preencheu com a extrema competência que lhe era peculiar, tinha planeado este mesmo serviço cultural que apenas faltava calendarizar. O seu prematuro desaparecimento constituiu uma dura e irreparável perda para toda a comunidade. Por isso, em nosso nome e no de todos os seus incontáveis amigos e admiradores, ficou patente para o futuro esta simbólica lembrança.

Recordaram a qualidade humana, pastoral e científica do Padre José Patrão, em breves mas sentidas palavras, os seus amigos Professor Domingos Bucho, Padre Américo Agostinho e, em nome do nosso Grupo, o seu Presidente, José Carlos Louro.

Os Pés Vagarosos agradecem, uma vez mais, a todos os participantes nesta iniciativa, destacando a colaboração da Paróquia de S. Lourenço e da Escola Superior de Educação de Portalegre, e endereçando um especial obrigado ao Prof. Doutor Domingos Bucho, com cuja disponibilidade e competência sempre contaremos.
Em breve aqui divulgaremos novas iniciativas, neste como noutros sectores abarcados pelos nossos objectivos de cultura, lazer e saudável convívio.

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Associando a memória do Padre Patrão ao Senhor do Bonfim -“a sua menina dos olhos“- os seus jovens amigos deixaram para a posteridade uma perene ligação de homenagem e saudade.

António Martinó de Azevedo Coutinho

PORTATRISTE

Ontem, como cidadão portalegrense, senti-me envergonhado.

Uma reportagem da SIC trouxe-me, e ao mundo todo, os ecos duma cidade apodrecida, com imóveis degradados cujos restos, derrocados, permanecem por mais de uma década como feias cicatrizes no tecido urbano, com prédios em sério risco de iminente ruína que obrigam a radicais proibições de circulação, até mesmo pedonal, pelas vias circundantes.

Ontem, como cidadão ausente da sua terra, senti-me quase confortado no meu voluntário exílio.

Esta recordação da minha saudosa cidade, dos seus sítios e das suas gentes, alinhou na regra, quase geral, de que as novidades de lá vindas são negativas, de que aquilo que de lá ecoa pela positiva não é novo.

 

Portalegre sofreu há anos, e durante quase uma eternidade, a aparatosa operação de requalificação urbana e de valorização ambiental que deu pela pomposa designação de POLIS.

Já depois disso, penduraram-lhe pelas fachadas de alguns prédios degradados uns berrantes aventais azuis, com a promessa de que a modernização depressa os transformaria. Para melhor, supõe-se.

Existem em Portalegre, obviamente, estratégias e planos autárquicos -obrigatórios- destinados à reabilitação urbana, tal como são conhecidos programas nacionais e até europeus, comunitários, com idênticas finalidades.

Portalegre, só neste milénio, acumulou largas dezenas de milhões de euros em endividamento.

A pergunta lógica é: para quê e por quê tudo isto, se a cidade nos revela um estado de lamentável, ostensiva e crescente degradação?

 

prédio sicO exemplo de ontem ainda me doeu mais.

Não sou vidente ou adivinho, nem sequer aprendiz de bruxarias.

Não sou empreiteiro ou mestre de obras, até mesmo trolha.

Não sou autarca ou engenheiro, muito menos fiscal de obras de construção civil.

Sou, apenas, um cidadão interessado pela sua terra, no que em nada me distingo do mais comum dos mortais. Naquilo em que me diferencio da maioria, embora alinhando com milhares, muitos milhares de outros cidadãos, é no facto de em vez de discutir futebol, política, petiscos e mulheres à mesa do café ou da tasca, prefiro passar o que penso ao papel, neste caso informatizado e com acesso universal, uma espécie de caderno diário de apontamentos, falíveis e precários embora, mas sinceros e intencionais. Nunca me interessou, com efeito, ser neutro. Para tanto prefiriria o silêncio. Este blog é, desde há quase um ano, a pública montra das minhas confidências, daquelas que entendo partilhar, porque a gente tem sempre segredos, que são apenas nossos…

No dia 18 de Agosto de 2012, há mais de nove meses, coloquei aqui um texto intitulado Pelas ruas da cidade, completado pelo sub-título Um dia a casa vem abaixo? E deixei aí algumas fotografias alusivas.

O tema é exactamente o da deprimente reportagem de ontem, daquela situação, daquele mesmíssimo prédio, daquela silenciosa e permanente ameaça pública. Silenciosa, entenda-se, até ao momento da derrocada. Por grotesca piada, vi e ouvi alguém, responsável, dizer que estavam a ser colocados uns sensores (o termo não era este, mas o sentido serve) para saber o estado real do edifício. Percebi que é mais importante saber se aquilo virá abaixo às 14h 30m e 16s do dia 25 de Setembro ou às 02h 14m 45s do dia 16 de Outubro, em vez de resolver, com prioritário carácter de urgência, a situação de risco e de desconforto existente. Parece humor negro.

Quando ouvi o testemunho de alguém, com sérias dificuldades de locomoção, que vai ser obrigado a penosamente percorrer no quotidiano um trajecto três vezes superior ao habitual, enquanto aquela situação se mantiver, fiquei a pensar em como se pode ser tão insensível, tão inconsciente, usando tão lamentável demagogia, perante as realidades mais objectivas, perante os direitos humanos mais elementares…

 

Enfim, vai longo este imperioso desabafo, que me cansou, que me penaliza como portalegrense. E, pensando na triste herança que os futuros autarcas da minha pobre terra vão receber, fico a tentar perceber se os candidatos o serão por assumido heroísmo cívico, por compromisso partidário, por lagóia paixoneta ou por simples distracção…

De qualquer forma, não invejo os próximos vencedores.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

um dia esfriado

DIA DO CORPO DE DEUS

 

O padre Marcelino Marques, pároco da freguesia da Sé, Portalegre, em declarações públicas à Rádio da sua (e minha) terra, criticou ontem a suspensão do feriado do Corpo de Deus, argumentando que “o Estado, ao tentar encontrar soluções para esta crise económica, pode estar a criar outro tipo de crises“.

E acrescentou que “os feriados não são meros dias de descanso e servem para aproximar pessoas que estavam nas suas aldeias, que emigraram para outras paragens e que aproveitavam estas tradições religiosas para regressar às suas origens“. Concluindo, afirmou: “Não é com mais ou menos um dia de trabalho que se resolvem os problemas do país. Mais tarde ou mais cedo, aspectos que são fundamentais para a boa convivência humana e cristã podem deixar de ter tanto peso, quando se pensa em coisas mais efémeras“.

Imprudentes declarações estas, porque põem em causa o espírito cristão dos nossos governantes, a começar pelo Supremo Magistrado da Nação que, como é sabido, para além de crente em Deus, alarga esse piedoso sentimento a Nossa Senhora de Fátima, como há pouco e bem a propósito publicamente revelou.

Depois, porque desprezam o facto de, com grande magnanimidade, o Governo ter mantido o feriado do Natal, já que, quanto à Páscoa, a Igreja tomara prudentemente a precaução de a marcar para um Domingo.

Finalmente, porque as palavras do padre Marcelino Marques constituem inequivocamente um crime de terrorismo verbal, punido por lei. Espera-se, por isso, como está na moda, que ele venha a exarar publicamente uma prudente mea culpa. Pode, neste caso particular, acompanhá-la pela recitação de três Actos de Contrição.

A verdade é que ninguém pode pôr em causa a inegável influência que este dia de trabalho desempenhou na evidente recuperação económica obtida pelo Governo. E quanto ao respeito pelas tradições religiosas, tal como o lançamento dos cristãos às feras, ou os Autos de Fé da Santa Inquisição, temos de as actualizar… E este louvável e corajoso esforço do Governo vai claramente nesse sentido.

Daqui envio, piedosamente, um forte abraço de admiração e muita amizade ao padre Marcelino Marques.

António Martinó de Azevedo Coutinho

P.S. – Que não se confunda este cumprimento a um amigo, aliás sincero, com qualquer tipo de solidariedade para com as suas declarações. E que esta posição pessoal chegue ao conhecimento do Governo, de quem espero, por isto, a atribuição duma comenda no próximo Dia da Raça, perdão, no próximo 10 de Junho. Pode ser a Ordem da Malta, por exemplo… Da Malta Descontente e Indignada, claro!

Tintin – Um herói católico – XIV

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Catorze – Mensagens bíblicas ou  Tintin livre dos  livros

Denis Tillinac alude metaforicamente à Bíblia. Dá a entender que Tintin traduz reminiscências catequéticas quando alude a São João Evangelista, considera-o depois como um Cruzado sem belicismo ou como um missionário desprovido de proselitismo.

No entanto, a verdade é que ninguém aprende, apenas pelo Catecismo, que São 14 - 1João Evangelista foi chamado a Águia de Pathmos, porque foi nessa pequena ilha grega do Mar Egeu que escreveu o seu Apocalipse e que é sempre representado na companhia duma águia, por ser esta o símbolo da percepção e da contemplação na iconografia cristã medieval. 

Além de que Tintin revela por vezes sentimentos ou tendências algo violentos e tenta, empenhadamente, converter outras personagens à sua causa… Portanto, uma vez mais, este esforço de beatifição do herói fica bastante aquém das intenções.

14 - 0No entanto, talvez haja algumas outras relações da odisseia tintinesca com o Livro dos Livros.

Por exemplo, logo no Congo, o jovem toma uma atitude “salomónica”, ao dividir um chapéu de palha pelos dois candidatos à sua posse. Milou, filosoficamante, conclui que o seu humano companheiro faz um papel de “pequeno” Salomão, o sábio e justo rei de Israel. Depois, próximo do final, é novamente Milou que lembra de forma explícita David e Golias, outras 14 - 2figuras bíblicas, ao pousar “fotogenicamente” sobre um búfalo inanimado…

Mas a mensagem bíblica mais forte é dada pela súbita ascensão aos céus que salva Tintin, no último momento, de ser esmagado por uma manada de búfalos em fúria. O avião salvador, expressamente enviado em sua intenção mas vindo não se sabe donde nesse preciso momento, tem como emblema uma cegonha, símbolo do nascimento (os bebés que chegam de Paris pendurados do seu bico), neste caso quase “renovando” a vida ao herói (ressurreição!?).

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Porém, Tintin adopta nesta circunstância uma atitude bem pouco “evangélica”. Completamente esquecido da missão de reportagem que o levara a África e, sobretudo, totalmente indiferente para com os amigos que inopinadamente aí deixava, apenas comentaria em estilo turístico: “Adeus África, onde ainda havia tantas coisas para ver!… E a caminho da Europa, aguardando a América!…

O piloto (anjo!?) dera-lhe previamente conta da sua nova missão de apostolado…

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Alguns estudiosos da obra (como Jean-Marie Apostolidès, em Les Métamorphoses de Tintin) consideram este episódio como uma espécie de paródia à Páscoa cristã, que conduz os indígenas à posterior adoração da efígie (ou fetiche) do “boula matari” (indivíduo sagrado) misteriosamente desaparecido… Esta interessante e sedutora teoria é no entanto desmentida quando recorremos a uma fonte complementar, decisiva e esclarecedora. Trata-se da capa de um exemplar da revista Le Petit Vingtième relativa a 11 de Junho de 1931, onde se pode ver um ancião que diz à criança a seu lado, apontando os céus, que ali vai Tintin de regresso à Bélgica. Aliás, na revista anterior, a capa ilustrava o episódio do avião, denominando-o de salvador, enquanto a seguinte referia que a aeronave sobrevoava então o deserto do Sahara, perante o comentário de tuaregs que confirmavam a presença do herói a bordo, na sua viagem de regresso à pátria.

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Em devido tempo, ficou comentado o “milagre” do Sol, na versão vivida por Tintin entre os Incas (Le Temple du Soleil). Também já se abordou a expectativa do “milagre” que Wolff invoca na sua carta de suicida, a bordo da nave lunar (On a marché sur la Lune). Para completar uma trilogia faltará referir a notícia de capa dum jornal norte-americano que relata como Tintin foi poupado à morte, trucidado por um comboio (Tintin en Amérique), em título de caixa alta: “SALVO MIRACULOSAMENTE“. 14 - 6

Tintin é claramente um praticante das virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade. Cumpre os mandamentos da Santa Madre Igreja q.b., pois em relação a alguns fica por se saber -por manifesta carência de oportunidades ou de provas- qual o seu comportamento. Santificaria os Domingos ou honraria pai e mãe? É que raramente se identifica o dia exacto em que se situa o seu quotidiano e não se lhe conhecem familiares, próximos ou remotos…

Entre os inimigos da sua alma, estão o mundo da violência e da corrupção, diversas associações de malfeitores muito bem organizadas, traficantes de droga e de armas, facínoras da pior espécie, e também representantes do próprio demónio, capitaneados pelo temível Rastapoupolos, como já sabemos. Apenas a tentação da carne o não assalta, como também já ficou demonstrado.

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Em contrapartida, teremos de assinalar em Tintin outros atributos e virtudes, alguns bem pouco teologais, como a eterna juventude, o espírito universalista, o conhecimento enciclopédico ou a capacidade atlética com dimensão olímpica.

Eis um simples exemplo das suas invulgares prerrogativas: – Quem forneceu ao jovem jornalista o prévio conhecimento de todas as línguas, incluindo a dos símios (Congo), apenas com ligeiras excepções para a sildava e a arumbaya, que se saiba?… A bíblica maldição de Babel, pelos vistos, não o afectou.

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E assim, nestas perplexidades, caímos no mítico, afastando-nos do bíblico, rondamos as fronteiras do herético, abandonando o sagrado.

Em boa verdade vos digo: provavelmente estarei e desviar Tintin do caminho dos altares.

Que Denis Tillinac me perdoe…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Crónica em jeito de sermão quase quase zoológico

Vieira-Sermao-de-Santo-Antonio-1671[1]As palavras versus o silêncio
(ou o bicho-homem)

Três coisas podem destruir o homem: muito falar e pouco saber; muito gastar e pouco ter; muito presumir e pouco valer
Provérbio popular português

1 – Apetecia-me dedicar expressamente esta crónica a certos políticos (ou pensadores) da nossa praça. Porém, atendendo a que ficaria incurso no espírito do provérbio que acima cito, poderia passar por vaidade o honesto recado aqui contido. Por isso prefiro exprimir a esperança de que a alguns valha este desabafo. É que a bom entendedor meia palavra basta.

Ou, citando o padre António Vieira: “Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são precisas obras”.

2 – A maior virtude dos que falam (ou dos que escrevem, acrescento!) é calar o que não devem dizer. Se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro. Bem sei, no entanto, que tanto um como o outro destes metais pode ser ordinário q.b., isto é, de baixo quilate.

“Cada um fala como quem é” – dizia o povo, nos tempos em que o povo costumava ter razão. Bom é saber calar até ser tempo de falar. Da palavra que soltamos, somos escravos; a que retemos é nossa escrava.

Porém, é também verdade que calando se desonra quem, por medo, se cala.

3 – Assalta-me uma dúvida: será que os homens que ladram, tal como os cães, não mordem? Na ausência de uma resposta inequívoca, deixemos os nobres animais em paz e regressemos aos humanos.

Escreveu um dia D. Francisco Manuel de Melo: “Nunca me arrependi do que não disse”. Seremos todos capazes de exercer sobre o que efectivamente dizemos ou escrevemos um semelhante acto de humildade intelectual?

Duvido, sobretudo porque as palavras mostram o que cada um é.

4 – Não há más palavras se as puserem no seu lugar. Mas há discursos tão perversos e deliberadamente tão mal intencionados que nenhuma palavra, por melhor que seja, lhes pode servir.

Também não há palavras mal ditas se não forem mal entendidas. Mas há discursos tão pateticamente imbecis e tão platonicamente cretinos que nenhuma palavra, aí, pode ser aceite ou compreendida.

Por isso, e uma vez mais, me socorro do povo enquanto sábio: “Palavra boa unge, palavra má punge”.

5 – Se pela boca morre o peixe, será lícito julgar que pela palavra se perde o homem?

Se os pássaros se agarram pelo bico, então os homens podem ser agarrados pela língua?

Nem tanto ao mar nem tanto à terra…

Mas, verdade verdadinha, palavra fora da boca é como pedra fora da mão ou, se preferirmos uma imagem menos violenta, palavra fora da boca não volta atrás.

6 – Palavra puxa palavra ou as palavras são como as cerejas e, por este andar, não me calo tão depressa.

Confesso que esta crónica acaba por revelar um pendor muito mais zoológico do que o previsto, à partida.

Por isso, afigura-se-me bastante lógico que a termine com uma nova versão de velha máxima popular: Vozes de certos políticos, de certos pensadores e de todos os burros não chegam aos céus.

António Martinó de Azevedo Coutinho

ADENDA – Amanhã cumprem-se 781 anos sobre a canonização de Santo António. Se houvesse lugar para alguma ligação do Vaticano ao moderno “Livro dos Livros” que dá pelo nome de Guinness, então ia para lá direitinho tal máximo de rapidez processual porque António (Fernando) de Bulhões foi santificado menos de um ano após a morte, tal era a fama dos seus milagres e, daí, a aura de santidade avant la lettre.
Porque são insondáveis os desígnios do destino, das coincidências e de outros transcendentes fenómenos do quotidiano, talvez eu tenha sido por isso impelido a deixar hoje e aqui este “sermão”.
SANTANTONSanto António é padroeiro de Portugal, a par de Nossa Senhora da Conceição, por solene proclamação do papa Pio XI, em 1934. Mas, muito antes, já Leão XIII o constituíra como padroeiro da cidade de Portalegre e da respectiva diocese. Foi em 1896.
A cidade tem retribuído essa honra, nem sempre de melhor forma, nem sempre com a desejada coerência ou permanência. Temos um convento com tal designação, que foi depois seminário adventista, colégio, sede de instituição de protecção à infância desvalida, centro de saúde mental e está hoje, creio, mais ou menos entregue à sua sorte… Há uma avenida com o seu nome, Santo António, onde ficava a antiga azinhaga de acesso ao convento; foi essa a designação do moderno e afamado Colégio criado pelo bispo D. Agostinho de Moura nos anos 50, hoje também quase esquecido; é nome alternativo duma das velhas portas da cidade medieval, a de Alegrete; o Grupo Pró-Portalegre, de activa memória, tornando-se confraria, juntou a sua designação à anterior nomenclatura.
Que me recorde, foi em 1996, durante as Festas da Cidade, organizada a última mostra de imagens e outros ícones relativos ao padroeiro, ainda uma iniciativa do saudoso padre José Patrão. Houve também dois cortejos (não sei se mais algum!) mais ou menos etnográficos ou folclóricos, dedicados ao santo. Acho no entanto absurdo que a esses desfiles se tenha chamado procissões…
A mais consistente presença de Santo António em Portalegre é hoje representada pela nova Igreja que lhe foi consagrada, no Bairro dos Assentos, segundo projecto do conceituado arquitecto João Luís Carrilho da Graça, natural da cidade.
A memória do santo padroeiro, durante alguns anos amplamente disponível no Museu Municipal em espaço preenchido pelas colecções alusivas generosamente doadas a Portalegre por Herculano Curvelo, foi seriamente afectada pelas obras estruturais ali concretizadas. A Câmara Municipal, que ainda há um ano reconhecia essa colecção antoniana como o maior acervo nacional da especialidade (Agenda Cultural CMP, Junho de 2012), não teve o mínimo escrúpulo em sacrificá-la, em nome (!?) da modernidade, tornando-a praticamente residual ou meramente simbólica no que respeita à sua pública exposição…
Sem embargo de reconhecer a óbvia qualidade da reinstalação museológica, uma indispensável dose de bom senso oficial teria evitado tão ostensivo desprezo pelo santo e pela nobreza do doador daquele valioso espólio.
Enfim, Portalegre no seu melhor.

Bispos portalegrenses

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Prometi a divulgação de algumas notas, episódios e outros dados, julgados interessantes, sobre os Bispos D. António Ferreira Gomes (1949-1952) e D. Agostinho Lopes de Moura (1953-1978), que foram titulares da Diocese de Portalegre ou Portalegre-Castelo Branco (a partir de 18 de Julho de 1956).

Tenho vindo a preparar essa série com todo o empenho, e já contei com o precioso contributo de amigos como Olga Ribeiro e João Fevereiro Mendes, a quem agradeço a inestimável colaboração.

Posso hoje acrescentar que iniciarei a colocação dos textos a partir do dia 6 de Junho, Quinta-feira, após o termo do trabalho sobre o Padre José Patrão.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho