PADRE JOSÉ PATRÃO – 6

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Na morte do Padre Patrão

José Heitor Patrão manteve sempre as suas rotinas, indiferente ao sofrimento físico, para ele já habitual, gracejando mesmo com as suas dores. Quando por vezes eu me esquecia do seus frágeis pulsos e lhe apertava a mão com mais vigor, ele não podia evitar um esgar que logo disfarçava e me deixava constrangido pela escusada “violência”…

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Na companhia, quase inseparável, do seu grande amigo e colega Henrique Pires Marques, aparecia com frequência pelo café Ponto Final, na Fontedeira, logo após o almoço, ou, mais raramente, numa ida à parte alta da cidade, pelo Alentejano. Rezava as suas missas regulares, no Bonfim, depois no Lar do Sagrado Coração de Maria (o antigo Colégio feminino) e quem o quisesse encontrar bastava-lhe procurá-lo, onde estava quase sempre, na tranquila confusão do seu gabinete de trabalho, uma profusão de livros, imagens e apontamentos sem conta, donde avistava o clássico perfil da cidade pela larga janela. Era no Seminário, onde morou durante décadas e onde acumulou uma boa parte do seu vasto saber cultural, da sua rica biblioteca, do seu espólio, das suas memórias. Alternava idas à terra natal, Gavião, com programadas deambulações de estudo, catalogação ou recolha pelo património sacro, construído e icónico, espalhado pela Diocese.

Alinhava em tudo quanto fosse desafio ou provocação nas suas áreas predilectas do saber e estava sempre disponível para ajudar quem dele precisasse, quer nos domínios da fé quer nos temas culturais.

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Já abordei o momento inesperado -e por isso mais brutal- da sua morte, a 4 de Outubro de 2009, assim como o que pessoalmente me aconteceu a tão infausto propósito.

Após a morte, devidamente confirmada, o corpo foi conduzido para a Igreja de São Tiago, onde permaneceu até às 9 horas da manhã do dia seguinte, uma segunda-feira, sendo então rezada missa. Depois, foi trasladado para Gavião, sendo acompanhado por muitos amigos e colegas. O funeral, na sua terra, foi antecedido por uma cerimónia religiosa presidida pelo bispo da Diocese, D. Antonino Dias. Este, acompanhado no acto litúrgico por mais de três dezenas de sacerdotes, traçou um comovido elogio à personalidade do extinto. Lembrou então o perfil humano, sacerdotal, pedagógico e cultural do Padre Patrão, na simplicidade, elevação e alegria de viver que o caracterizavam. Todos ficámos mais pobres – foi o remate, justo e digno, dessa evocação.

O lento e longo cortejo fúnebre que o acompanhou ao cemitério foi a expressão possível do sentimento de dor e saudade que unia todos os inúmeros participantes.

Os três jornais da cidade, nas respectivas edições publicadas logo após o infausto acontecimento, expressaram nas suas capas e páginas interiores a dor sentida pela comunidade e deixaram para a posteridade relatos e testemunhos a tal propósito.

Primeiro foi o Fonte Nova, na sua edição de terça-feira, 6 de Outubro.

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Na capa, sob uma fotografia de meia página, ficou a legenda Padre José Patrão. O Homem, o Sacerdote, o Professor, o Amigo deixou-nos…

A página 3 foi preenchida pela reportagem do funeral, no Gavião, com três fotografias, cerimónia que tinha decorrido na véspera. Um caderno central, com quatro páginas ilustradas, constituiu uma espécie de sumário dossier dedicado à personalidade e obra do Padre Patrão. Aí figurou um “editorial” da responsabilidade do director do jornal, prof. Aurélio Bentes Bravo, uma “carta aberta” por mim próprio subscrita, dois breves excertos da biografia José Dias Heitor Patrão – Uma Vida ao Serviço dos Outros – da minha recente autoria, e o ensaio Magna Obra, expressamente redigido pelo dr. Mário Casa Nova Martins, grande amigo e admirador do extinto e um dos mentores da pública homenagem que lhe fora há pouco prestada.

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Seguiu-se, a 7 de Outubro, quarta-feira, o jornal Alto Alentejo.

Na capa, como título mais destacado, uma foto e a legenda Padre Patrão – Partiu o Homem fica a memória. Como expressivo sub-título, lia-se a seguir: Portalegre e Gavião choram a morte do homem e do sacerdote da cultura, da alegria e da amizade.

No interior, duas densas páginas continham o material elaborado a propósito. A reportagem, sob a designação Morreu o nosso Padre Patrão. Partiu o Homem, fica a memória, reflecte um emocionado texto, embora não assinado, da autoria do director Manuel Isaac Correia, outro grande e sincero amigo do Padre Patrão. Seguiu-se um sumário excerto da biografia já amplamente citada.

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Da página ao lado, sob a designação Homenagem ao Padre Patrão, constam diversos e valiosos testemunhos pessoais de alguns dos seus indefectíveis amigos: Caminhar com o Padre Patrão, de  Carlos Juzarte Rôlo; Padre Patrão marcava a diferença, do P.e Marcelino Marques; Até sempre, Padre Patrão, de Mário Freire; Dissemos hoje adeus ao Padre José Dias Heitor Patrão, de Jaime Estorninho; Perdemos um amigo na terra mas ganhámos um embaixador no Céu, de Joaquim Mourato; A propósito do Padre Patrão…, de José Polainas; e Um Homem Maior, de Mário Casa Nova Martins.

Finalmente, no dia 8, foi publicado O Distrito de Portalegre, o jornal da Diocese que o Padre Patrão  por diversas vezes dirigira.

A sua capa, toda negra, ostentava um retrato do extinto, de meio corpo. Ao lado, figurava o título: Padre Patrão – 03 de Maio de 1929 – 04 de Outubro de 2009.  Uma citação do próprio, datada de 5 de Maio desse ano, diz: “(…) procurei sempre servir e ajudar as pessoas, caminhar com elas e, nesse sentido, procurei fazer sempre melhor aquilo que podia. E também recebi muito. O sentido da nossa vida é uma experiência vivida no sentido dos outros e de Deus. A minha estadia em Portalegre foi positiva porque procurei sempre, com os outros, o melhor“. Logo abaixo, concluindo a capa, ficou um pequeno texto alusivo, da autoria de um outro seu fiel amigo, Fernando Correia Pina: “Um dia cairei como estas folhas e só espero, Senhor, que me recolhas e me guardes entre as infinitas páginas do teu caderninho de poemas“.

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O Editorial, A nossa morte na morte dos outros, subscrito por T.F. (Tavares Folgado, sacerdote, amigo e colega de José Patrão, e director do jornal), constitui uma peça de apreciável valor literário e de elevada significação. Da única página dedicada pelo semanário ao acontecimento constou uma reprodução a cores do quadro (um retrato) da autoria do artista portalegrense Luís Fernando Leite Rio, oferecido ao Padre Patrão por ocasião de recente homenagem que lhe fora prestada. O texto, integrado na secção Portalegre Cidade, tem o título Menos um padre, menos um homem, menos um artista – Adeus ao Padre Patrão. O artigo, não assinado, traçou-lhe um breve relato biográfico e descreveu a sua morte e o funeral.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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