Teria Obelix andado por ali?

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Ao Jorge de Oliveira

Quanto a Obelix, nada está provado, mas existe a certeza -absoluta- da presença de Oliveirix, e por diversas vezes. Não se lhe conhecem os eventuais laços de relação familiar, mas este é igualmente forte, embora menos rotundo que o outro, julgando-se que também apreciará javali no espeto e tendo ambos -seguramente- uma incontornável atracção por menires.

Jorge de Oliveira é professor na Universidade de Évora e a sua especialidade é aquele período em que os homens viviam em torno ou dentro das pedras, quando estas eram deuses e templos, refúgio e lar, armas e ferramentas.

historia jorgedeoliveiraO Jorge não caiu em pequeno num caldeirão de poção mágica, como Obelix, mas é igualmente dotado de uma força imensa que se chama amizade, sendo permanente a sua disponibilidade ao serviço dos outros. Quando há uns tempos precisei de dispor de uma colectânea das cartas trocadas entre o Juiz Miguel Carlos, meu avô “brasileiro”, e o seu amigo Frei Manuel do Cenáculo, arcebispo de Évora, foi ao Jorge que pedi esse favor. Tive o conjunto das digitalizações da correspondência original disponível na volta do correio…

 

Mas não foi este o único serviço que ele me prestou. Quando as nossas vidas se historia menir1cruzaram, quer nos domínios do Parque Natural da Serra de São Mamede, quer no âmbito da Região de Turismo do Norte Alentejano, foi ele que me desvendou, por todos aqueles vastos territórios, de Nisa a Arronches, de Alter à raia de Espanha, os ignotos segredos das pedras que ele conhecia como ninguém, nas antas, nos menires, nas grutas, nas pinturas rupestres, nas peças e artefactos duma pré-História que ele domina a palmo. Os textos, imagens e publicações que a tal propósito produziu constituem um inestimável acervo cultural e científico, para nosso proveito.

Quero hoje citar -apenas- o Menir da Meada (Castelo de Vide) e por diversas historia menir2razões. Em primeiro lugar, porque este acaba de receber uma justa consagração, ao ser classificado como Monumento Nacional (Decreto 16/2013, de 24 de Junho), num conjunto que abrangeu a Ponte da Arrábida (Porto), o Castelo de Penamacor, o Cromeleque de Vale de Maria do Meio (Évora), o Santuária de São João de Arga (Caminha) e o Abrigo do Lagar Velho (Leiria).

Depois, e sobretudo, porque a distinção concedida ao Menir da Meada é, ao mesmo tempo, a consagração do arqueólogo Jorge de Oliveira. Ninguém, como ele, merece tal associação. Descoberto em 1965, na Tapada do Cilindro, constitui uma peça erguida no intervalo de tempo correspondente aos períodos Neolítico e Calcolítico, dispondo de uma forma fálica relacionada com rituais de fertilidade da época. É o maior de toda a Península Ibérica, com os seus 7 metros de altura e 1,5 de diâmetro, pesando cerca de 15 toneladas aquele trabalhado bloco de granito da região.

Quando o Jorge pela primeira vez mo mostrou, após um necessário corta-mato, o menir estava fragmentado, revelando-se a base, que aflorava do solo mais ou menos um metro, ligeiramente inclinada. A outra parte, de grandes dimensões, estava tombada por terra, apontando o Poente. Notava-se que ambas as zonas de fractura estavam alteradas, algo desgastadas pelo tempo e por certo vandalismo à mistura. Algumas décadas assim permaneceu, até Jorge de Oliveira conseguir idealizar e obter apoio suficiente para realizar uma obra tecnicamente complexa, a de recuperar o menir devolvendo-lhe a sua original grandeza, em postura e dimensão.

historia menhirmeadaConseguiu-o há precisamente vinte anos, em 1993, pelo que o estatuto agora reconhecido ao monumento neolítico lhe deve uma substancial parcela de mérito e de cumplicidade. O saber e a persistência de Jorge de Oliveira transformaram um destroço numa verdadeira obra de arte. O texto que ele colocou numa bela separata da revista Ibn Maruán n.º 5 (Câmara Municipal de Marvão/Edições Colibri, 1995), sobre o trabalho de recuperação do Menir da Meada e o seu enquadramento histórico e geográfico na bacia do Rio Sever, leio-o como um documento apaixonado, simultaneamente científico e confessional, objectivo e intimista, sobre a gesta que foi a primitiva implantação e, milénios após, a reimplantação (apetecia-me escrever: ressurreição!) de um das mais importantes marcos da presença humana naqueles sítios.

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Aqui fica um pouco da memória desses tempos e desses acontecimentos, com um justo e fraterno abraço de admiração e de parabéns para o amigo Jorge de Oliveira.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Dois Roteiros

UMA BD COMO REGISTO DA MEMÓRIA DE PORTUGAL
POR QUE NÃO!?

Nesta maré de estatutos patrimoniais de excepção que felizmente nos tem assolado, uma das últimas novidades respeita ao chamado Roteiro de Álvaro Velho, diário da primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, entre 1497 e 1499. Álvaro Velho, um barreirense nascido em data incerta que -marinheiro, soldado ou degredado (?)- acompanhou e viveu essa saga, está indigitado como o autor dessa espécie de romance de aventuras, saboroso exemplar da literatura de viagens, testemunho precioso, embora incompleto, de uma travessia pioneira.

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O documento, cuja cópia pertence à Biblioteca Municipal do Porto, foi proposto ao Comité Internacional do Programa Memória do Mundo, um departamento especializado da Unesco que existe desde 1997, como candidato à integração no Registo da Memória do Mundo. Este estatuto tem como objectivo a preservação do património documental que tal justifique, como a própria designação deixa facilmente antever.

???????????????????????????????O Comité, reunido na Coreia do Sul, aceitou a pretensão portuguesa em 18 de Junho de 2013 e juntou o Roteiro de Álvaro Velho ao acervo já classificado, neste momento contando com 245 itens, quatro dos quais de proveniência nacional. Para além deste último, já ali figuravam a Carta de Pêro Vaz de Caminha ao rei de Portugal, D. Manuel I, sobre a chegada ao Brasil, datada de 1 de Maio de 1500, (classificada em 2005); o Tratado de Tordesilhas -embora este na sua versão em castelhano-, redigido em 7 de Junho de 1494 (classificada em 2007); e um vasto conjunto de de cerca de oitenta milhares de documentos escritos de 1161 a 1699, denominado Corpo Cronológico e dotado de enorme interesse sobre as relações entre os europeus e os povos africanos, asiáticos e latino-americanos (também classificado em 2007).

É muito interessante e oportuna a missão deste Comité da Unesco, ainda pouco divulgado e conhecido. Desde o legado do arquitecto Óscar Niemeyer a obras originais de Che Guevara, incluindo o seu diário de campanha na Bolívia, e também a testemunhos de vítimas do Holocausto (para que não esqueça!), o diversificado património já recolhido e classificado permite admitir que nunca a Humanidade será atacada por uma grave “amnésia colectiva”…

Voltemos ao Roteiro. Ainda que se fale por vezes no original, este perdeu-se sem remédio. O exemplar existente na Biblioteca Municipal do Porto (e integralmente disponível on line) é a sua mais antiga cópia, a única conhecida entre as que terão sido elaboradas.

Encadernado em pergaminho, o precioso manuscrito inclui, para além do pormenorizado diário, ainda que com muitos saltos temporais e espaciais, a descrição de alguns reinos orientais, preços de especiarias e outras mercadorias e um interessante vocabulário da “linguajem de Calecut”.

Em nome de Deus, Amém. Na era de 1497 mandou el-rei D. Manuel, o primeiro deste nome em Portugal, a descobrir, quatro navios, os quais iam em busca de especiarias, dos quais navios ia por capitão-mor Vasco da Gama, e dos outros: dum deles Paulo da Gama, seu irmão, e do outro Nicolau Coelho. (…) Partimos do Restelo um sábado, que eram oito dias do mês de Julho da dita era de 1497, nosso caminho, que Deus Nosso Senhor deixe acabar em seu serviço. Amém“.

A este início não corresponde, no entanto, um regresso às origens, pois o Roteiro fica abruptamente interrompido numa escala na Guiné, mais precisamente nos baixios do Rio Grande, a 25 de Abril de 1499, território onde o autor teria permanecido o e vivido oito anos (1499-1507). Uma teoria que pretende fazer luz sobre todo este nebuloso processo criativo sugere que Álvaro Velho teria redigido o seu diário após o regresso ao continente, em 1507. Depois, uma cópia do Roteiro seria encontrada por Alexandre Herculano, mais de três séculos depois, em 1834, na Biblioteca do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, e então depositada na Biblioteca Pública e Municipal do Porto, onde se encontra.

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Há semanas (Uma data de datas – XXX, em 20 de Maio passado), lembrei aqui a chegada de Vasco da Gama à Índia, denominando intencionalmente o texto como O Caminho do Oriente. E, quando ainda nem sequer imaginava o destaque internacional que pouco depois viria a ser concedido ao Roteiro, expliquei então a minha escolha:

Depois, há aqui um outro motivo, muito pessoal, a confirmar esta opção. Trata-se de uma das mais fascinantes criações em banda desenhada que povoaram a minha meninice: O Caminho do Oriente. Obra-prima do desenhador português Eduardo Teixeira Coelho, com argumento de Raul Correia assente no Roteiro de Álvaro Velho, foi originalmente publicada no jornal infanto-juvenil O Mosquito, entre 18 de Agosto de 1946 e 30 de Junho de 1948, num total de 333 páginas. Não mais esqueci essa fabulosa e longa aventura, que criou no meu espírito uma especial interpretação da figura de Vasco da Gama“.

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Hoje, precisamente porque é o dia 30 de Junho e se cumprem 65 (sessenta e cinco!) anos sobre o termo da publicação dessa fabulosa e longa aventura (repito sem qualquer hesitação os adjectivos!), quero aqui insistir na sua evocação. E quero lembrar, partilhando com os leitores a emoção pessoal que senti, e ainda sinto, esse final da adaptação do Roteiro, segundo a pena do argumentista Raul Correia e, sobretudo, segundo o inspirado traço do desenhador Eduardo Teixeira Coelho.

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0 - caminho 3A solução descoberta por Raul Correia para nos propor uma descrição da viagem foi recontá-la através da visão ingénua, porém verosímil e consistente, de um jovem grumete virtual, Simão Infante. O complemento da interpretação gráfica dessa renovada história foi valorizado, em estilo narrativo e em qualidade estética, através da arte de um mestre do desenho dos quadradinhos, ainda que muito assente numa escola de que o grande Harold Foster (Príncipe Valente) foi pioneiro, desprezando balões, onomatopeias e outros signos específicos da linguagem da BD. Eduardo Teixeira Coelho, autor de muitos outros trabalhos de excepcional qualidade, atingiu com O Caminho do Oriente um momento alto na sua longa carreira.

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É minha intenção elaborar e aqui divulgar um alargado estudo sobre esta banda desenhada, ainda que já possamos dispor, a tal propósito, de um magnífico ensaio da autoria de António Dias de Deus, máximo expoente nacional nestas coisas da história e da análise crítica dos nossos quadradinhos.

0 - caravelaTenho a certeza de que, um dia destes, alguém -responsável e qualificado- proporá à Unesco as Aventuras de Tintin para juntar ao acervo do Registo da Memória do Mundo. Estou a falar bem a sério!

Atrevo-me, mais modestamente, a esperar que entre nós se pense com urgência em preservar o Registo da Memória de Portugal. E, aqui, apresento desde já a candidatura de O Caminho do Oriente, de Álvaro Velho, Raul Correia e Eduardo Teixeira Coelho.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Gente crescida à volta das fogueiras

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À memória do amigo António Alves Seara

Hoje corro eu.

Há dezassete anos, quando regularmente visitava Peniche, fiquei vivamente impressionado pela oportunidade de ter assistido à Corrida das Fogueiras.

Agora, que vivo em Peniche, não me limitarei a sentir, de fora, essas emoções. Sou o inscrito n.º 2644, mais metade da família local, na Corrida das Fogueirinhas, seis quilómetros, porque a outra, mais a sério, é para os “profissionais”…

Para já, nem sequer sei bem se logo ao serão vou ser capaz de chegar ao fim. Confio nisso e, se assim acontecer, serei vitorioso. Ganharei a corrida ex-aequo comigo próprio, provavelmente ultrapassando-me.

fogueirinhas 1Em 1996, quando escrevi a crónica Gente Crescida à Volta das Fogueiras, tinha como objectivo publicá-la -tal como aconteceu- no Fonte Nova, o jornal da minha terra, Portalegre, e do meu “coração”. Mas o Seara, um amigo certo com quem então em Peniche convivia, prolongando a fraternidade de muitos anos, pediu-me para a partilhar na sua Voz do Mar. Fi-lo com gosto e senti-me com isso honrado.

Depois, ele chamou-me “conhecido jornalista”, coisa que nunca fui, mas que compreendi pois conheço os exageros a que a amizade por vezes nos conduz.

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Gostava de o ter ainda ao meu lado, embora desta vez eu não esteja muito virado para partilhar crónicas, mas passadas e largas, e tão rápidas e seguras quanto possível.

Mas logo vou lembrar-me dele, sentindo como também me faz falta, aqui e agora, como falta fazem sempre os tais amigos certos, em qualquer lugar do mundo.

É por ele, sobretudo por ele, que repito hoje, textualmente (apenas lhe juntando as “gravuras” anexas), o que escrevi no dia 1 de Julho de 1996, quase, quase há dezassete anos bem contados, quando a Corrida das Fogueiras me fez sentir a força duma comunidade em torno duma tradição que sabe acarinhar e manter.

São coisas assim que constroem os sítios. São coisas destas que formam as pessoas.

 

 GENTE CRESCIDA À VOLTA DAS FOGUEIRAS

 

De há anos que habitualmente passo algum do meu tempo numa pequena e simpática cidade do litoral, onde ainda me surpreendo com hábitos e costumes bem distintos dos que, por estas terras do norte alentejano, nos marcam.

No passado fim-de-semana aconteceu por lá uma corrida pedestre que a natural curiosidade e o expresso desafio de amigos me levaram a presenciar.

O primeiro sinal fora-me fornecido pelos cartazes que enchiam os espaços a isso destinados, paredes e montras em especial, proclamando a edição número de ordem não sei quantos da tradicional e clássica “Corrida das Fogueiras”. Num percurso de 15 quilómetros, bordejando o mar em quase toda a sua já apreciável extensão, a prova inseria-se mesmo no contexto de um conhecido troféu desportivo nos domínios do atletismo.

Mergulhei então mais a sério do que imaginara no ambiente da corrida. Acompanhado por sábio e experimentado cicerone, percorri previamente o traçado. Um pouco por todo o lado, preparava-se com profissionalismo um serão diferente. Para além da rigorosa marcação, quilómetro a quilómetro, de todo o duro percurso, empilhavam-se estrategicamente fragmentos de paletes de contentores destinados a constituir, pelo fogo, a nomenclatura justificativa do título da prova. Mais tarde, interrompendo o negrume da noite, as fogueiras constituiram simbólico testemunho e significativa imagem de marca. No concertado trabalho entre os aprumados escuteiros que alimentavam o fogo e os diligentes bombeiros que, posteriormente, anulavam os seus efeitos, desde logo encontrei justificação para o desconforto pessoal de enfrentar a noite de vento um pouco agreste, como é hábito por aquelas bandas do litoral oeste.

Porém, residiu na massa inicialmente quase indistinta dos próprios concorrentes o mais interessante da prova. Não sei quantos eram, mas seguramente muito mais de um milhar… à partida! E, surpreendentemente, talvez não muito menos… à chegada! Como é lógico, talvez o último tenha chegado -não posso precisá-lo com rigor- uma dilatada hora depois do primeiro. O que não teve, aliás, a mínima importância…

Dispus do privilégio de –atravessado por estratégico plano o sinuoso trajecto da corrida- acompanhar de muito perto e com inusitada frequência toda a prova. Bem cedo deixei de me preocupar, confesso-o!, com a cabeça do pelotão e a consequente luta pelo pódio. O que me prendeu foi a capacidade de um já maduro concorrente envolto numa inacreditável indumentária rosa eléctrico, a persistência de um invisual encostado ao seu paciente par, o insólito grupo excursionista constituído por uns quantos sexagenários ou, talvez, septagenários, os muitos conjuntos familiares onde só terá faltado cãozinho e papagaio para se apresentarem na máxima força, umas quantas consideráveis barrigas ou débeis cargas-de-ossos, gente, muita gente de óculos com imensas dioptrias, alguns coxos, não sei quantos diabéticos, asmáticos também alguns outros, certamente, todos heróis anónimos daquela noite tornada, afinal, inesquecível. Que me lembre, todos os que fixei, de início com algum injusto, irónico ou mesmo cruel comentário, depois, pouco a pouco, com quase desvelado e carinhoso apoio, embora apenas moral, todos vi chegarem ao fim… E, juro-o!, num primeiríssimo e ex-aequo lugar!

Foi essa, para mim, a grande lição da Corrida das Fogueiras, edição 1996.

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Se aqui trago, por hoje, esta crónica (aparentemente) banal, ela não é menos sentida do que outras, talvez mais espectaculares.

Poluem-me ainda o espírito as aderências do bacoco empate parlamentar e das suas repugnantes sequelas, tanto as políticas como as chamadas desportivas. Quando reflicto sobre as ameaçadoras promessas da Liga do Pontapé na Bola de não mais investirem na formação -como se fosse aí que delapidassem milhões!-, junto-lhe a partir de agora a pedagógica lembrança daquela respeitável gente crescida correndo em volta das fogueiras. Se aquilo não era o povo, onde é que estava o povo?!

Seguramente, tal como eu, estão-se olimpicamente borrifando para a mafiosa classe dirigente do desporto luso, salvaguardadas as raras excepções que, felizmente, ainda por aqui restam. A imensa maioria daquela gente não precisa, para nada, da formação prodigalizada por suas excelências. Se puder fazer escola, autêntica, aquele contagioso espírito até pode produzir campeões.

Acredito, muito sinceramente, que não há nada mais profissional do que um bom amador.

 

Portalegre, 1 de Julho de 1996
António Martinó de Azevedo Coutinho

 

A vigésima quinta hora

DESDE HÁ TRÊS ANOS QUE OS NOSSOS DIAS
JÁ NÃO TÊM 24 HORAS

Escrito desta maneira, o título até se parece com uma daquelas previsões dos Mayas que anunciam um próximo fim-do-mundo. Nada disso. Apenas significa que em 2010, na precisa data cuja terceira efeméride hoje mesmo se cumpre, aconteceu o fim de um jornal que se denominava, precisamente, 24 horas. A língua portuguesa é de facto muito traiçoeira ou, pelo menos, assim a tornamos.

O 24 horas era, por deliberada decisão dos seus responsáveis editoriais, um jornal sensacionalista. Teria caído em desgraça por isso? Não tenho tal certeza, pois um outro, que lhe segue hoje tais pisadas, goza de imenso sucesso.

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Não sou eu quem assim classifica o defunto diário; são os próprios jornalistas que o declararam, no seu número de morte (assim o denominou um antigo director, hoje subdirector de um outro diário).

24 capaA 29 de Junho de 2010, nessa derradeira edição -4415-, a capa do extinto jornal manteve a sua linha editorial, como aqui se pode apreciar: agressiva, provocatória, original… Mas encerrou contradições, pois enquanto aqui declarou, alto e bom som, que a partir de amanhã (…) já não estará cá para contar tudo, o seu director, Nuno Azinheira, proclama em título do Editorial: “Adeus não! Até já…”

A maior parte dos seus jornalistas, hoje dispersos por diversas outras publicações, estão em plena actividade. Augurou-o então o director: “O 24 horas chega hoje ao fim, mas não morre hoje. Não morrerá nunca. Porque quando surgiu, há 12 anos, trouxe uma nova forma de jornalismo, uma nova forma de perguntar, sem medos nem preconceitos, uma nova forma de escrever, desempoeirada e sem teias de aranha. O 24 horas não morrerá nunca, enquanto houver um jornalista livre e sem medo. O 24 horas não morrerá nunca enquanto as redacções deste país estiverem, como estão, cheias de profissionais que passaram por esta casa“. Como tese, teórica, concordo em absoluto com estas palavras, embora mantenha algumas reservas sobre se o jornal em apreço foi um modelo da sua aplicação prática.

O número de morte apresentou alguns relatórios da sua própria “autópsia”. Observemos sumariamente um destes, relativo à frequência temática das capas e seus protagonistas. Eis o “top”: Maddie – 145; Carlos Cruz – 70; Cristiano Ronaldo – 68; José Sócrates – 53; Herman José – 51; Vale e Azevedo – 50; António Guterres – 48; Manuela Moura Guedes – 38; José Castelo Branco – 32; Pinto da Costa – 31.

A relação é suficientemente significativa e dispensa comentários sobre as lógicas da respectiva selecção, em termos de popularidade e de vedetismo…

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Entre as diversas opiniões sobre o 24 horas, escolhi a do apresentador Manuel Luís Goucha para aqui parcialmente transcrever, porque me pareceu um dos mais rigorosos e autênticos “retratos” do jornal, entre dezenas de outros testemunhos: “Tenho pena que desapareça o 24 horas, porque era verdadeiramente o jornal dos espectáculos, das pessoas que fazem televisão. Nesse aspecto, era único. Na TVI, todas as manhãs, eu e a Cristina líamos o 24 horas de fio a pavio, porque lá encontrávamos notícias e matérias para desenvolver no nosso programa“.

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Termino esta referência, aparentemente necrológica sem o ser, com uma outra transcrição, esta integral, da autoria de Francisco Penin, ex-director de programas da SIC: “O dia sem 24 horas é uma má notícia. O título foi sempre provocador, intrusivo, polémico, inconveniente, intrometido e com uma interpretação muito livre de algumas realidades. Por muito que pessoalmente nunca tivesse sido fã do género editorial do 24 horas, é exactamente por isso que considero o seu desaparecimento uma má notícia. Prezo muito a liberdade de expressão… prezo-a acima de muitas outras convicções pessoais e, por isso, defenderei a existência de uma voz como a do 24 horas e especialmente porque essa mesma voz não alinha pela minha“.

Assino por baixo. Aliás, se não pensasse deste modo não teria ocupado assim este espaço, nem teria gasto assim este tempo, nem teria assim partilhado estas convicções com quem aqui me lê.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Voltaram os Hunos!…

Lamentável. É a única classificação possível para mais um caso de vandalismo urbano descrito na edição de Domingo passado do jornal Público.

A pretexto de remodelação, a Câmara Municipal de Castelo de Vide está a fazer intervenções em calçadas no centro histórico da vila e em caminhos medievais, onde o pavimento tradicional tem sido substituído por alfalto ou lajes de granito.

Ainda por cima, assim diz a notícia, a pedra usada é importada da China em vez de ter origem na região, onde nem sequer faltam as pedreiras…

Um responsável autárquico [estou a citar expressamente o texto] nem sequer desmente a intervenção, apenas declarando que a alegada descaracterização é “absolutamente falsa, pois as calçadas apenas foram valorizadas com a criação de percursos pedestres, criados para ampliar e valorizar a oferta turística, e com a instalação de passadeiras pedonais“. Também nega a importação chinesa, pois o granito, embora seja amarelo, será da zona…

A responsável cultural da região afirma que não foi solicitado previamente qualquer parecer, obrigatório numa zona abrangida pela protecção do património. E o desrespeito por esta norma institucional parece óbvio. Daí, a natural queixa da Direcção Regional da Cultura junto da Inspecção-Geral das Finanças, que detém as devidas competências na matéria.

Outra referência, adjacente, descreve o facto de a mesma autarquia ter decidido identificar o bairro onde se situa uma das mais importantes judiarias portuguesas com uma Estrela de David, em empedrado, junto a bocas de esgoto…

Também mal explicada pelo responsável autárquico, tal implantação parece, com efeito, uma “judiaria”. Ou será grotesca “homenagem”, de péssimo gosto, ao Holocausto?

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Enfim, chegam do Norte Alentejano notícias do moderno vandalismo.

Lembro-me do espanto com que, há um bom par de anos, no vizinho município de Marvão, em companhia de companheiros do Parque Natural de São Mamede, passámos por antigos carreiros e azinhagas de acesso a zonas da raia, onde o empredrado original tinha sido obscenamente coberto de asfalto…

Ainda há pouco tempo atrás, então, aqueles pisos ostentavam a tradicional cobertura de granito, nalguns locais pejada de enormes pedregulhos colocados por guardas e guardias na intenção de impedir ou dificultar a utilização dessas rotas do contrabando…

Se lhes juntarmos o vandalismo há anos perpetrado pelas autoridades portalegrenses no urbano Parque da Corredora, a coberto do alibi POLIS, teremos um relatório de algumas recentes barbaridades oficiais cometidas no Norte Alentejano, no seu tradicional “triângulo turístico”.

O pior de tudo é que nada disto é reversível, pois as malfeitorias são definitivas.

E a verdade é que Átila e os seus selváticos Hunos tiveram mais atenuantes.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Imagem versus Palavra – V

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Eis mais uma série de fotografias, de diversas épocas e latitudes, onde a censura interventiva impôs a sua desprezível “lei”.

Numa fotografia de 1942, o ditador fascista italiano Mussolini pretendia aparecer em cima do cavalo com um ar heróico. Na segunda imagem observam-se as manipulações efectuadas em relação à primeira fotografia (a verdadeira), desde o céu mais escuro e com nuvens, para dar um ar mais dramático à imagem, até ao tratador do cavalo, que foi removido. Tudo foi assim montado com o objectivo de fazer centrar o olhar apenas em Mussolini, valorizando-o.

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Também Hitler mandou manipular imagens, tal como se comprova por esta fotografia. Na verdadeira (a segunda), fixada numa visita do líder nazi à cineasta Leni Riefenstahl, em 1937, Adolf Hitler (ao centro) está ao lado de Joseph Goebbels (segundo a contar da direita). Na primeira fotografia, manipulada, Goebbels foi removido.

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Nunca se soube ao certo porque Goebbels, ministro da Propaganda no início do Terceiro Reich e um dos arquitectos do Holocausto, foi retirado da fotografia, mas supõe-se que tivesse sido por um seu caso extraconjugal com uma actriz. Observe-se a mancha branca após a manipulação fotográfica, ainda analógica.

Nesta fotografia adulterada, de 1936, à esquerda, Mao Tsé-Tung (que na foto está à direita, de mãos na cintura) “removeu” outro dirigente do Partido Comunista da China, Po Ku (o primeiro à esquerda na outra foto), porque este caiu em desgraça…

5e - foto j

O chamado “Gang dos Quatro”, facção política composta por quatro dirigentes ultra-radicais do Partido Comunista da China que se destacaram durante a Revolução Cultural e foram posteriormente acusados de uma série de crimes, foi retirado do registo de uma cerimónia em memória de Mao Tsé-Tung realizada na Praça da Paz Celestial, em 1976.

A fotografia de baixo (a original) é do n.º 38 do Pekin Information, de 20 de Setembro de 1976, e a de cima da revista La Chine en Constrution, n.º 11/12, do final desse mesmo ano.

5d - foto o

Quando, no Verão de 1968, Fidel Castro (à direita) aprovou a intervenção soviética na Checoslováquia, o revolucionário cubano Carlos Franqui (ao meio da foto original) cortou relações com o regime e foi para o exílio na Itália. A sua imagem foi removida dos registos fotográficos. Franqui escreveria sobre o sentimento íntimo de ser assim “apagado”: “Descobri a minha morte fotográfica. Será que existo? Sou um pouco de preto, sou um pouco de branco,  sou um merda, apenas um fantoche de Fidel”.

5h - foto n

Após a “Primavera de Praga”, em 1969, o ex-primeiro ministro checo Alexander Dubcek foi apagado dos registos, como se pode ver neste exemplo. Na primeira fotografia, ele figura entre o dirigente Husak Bilak, que aceitaria a invasão soviética, e o presidente Ludvik Svoboda. Na segunda, desapareceu, notando-se o nítido desvio de um edifício no fundo da imagem, sobrepondo outro, devido ao “cirúrgico” corte… 

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Aqui, o cosmonauta russo Grigoriy Nelyubov (a cabeça mais alta na fotografia da esquerda) foi retirado da grupo, datado de 1961, pois foi expulso do programa  -liderado por Yuri Gagarin, o primeiro ser humano a subir ao espaço-, na primeira equipa que saiu da órbita da Terra. Supostamente, isto aconteceu por mau comportamento do cosmonauta “sumido”.

5g - foto m

Quando as suspeitas de que o líder norte-coreano Kim Jong Il estivesse gravemente doente correram mundo, a agência nacional  distribuiu várias fotografias, mostrando o ditador em excelentes condições físicas. No entanto, muitas dessas imagens apresentavam profundas inconsistências ao serem examinadas. Observe-se, em detalhe, a descontinuidade do rebordo de madeira no palanque! Tudo leva a crer que a imagem do líder norte-coreano tenha sido ali inserida, operação facilitada pelos processos digitais, no entanto mal usados…

5f - foto g

A terminar esta série, eis um caso, grosseiro, que transgride toda a ética e decência icónicas…

Lavrentiy Beria, todo-poderoso chefe da polícia política soviética e membro do Politburo, caiu em desgraça após a morte de Stalin. Executado como “agente imperialista”, entrou na lista dos nomes a apagar da “história”. Aqui, o zelo oficial ultrapassou todos os limites do razoável, quando os assinantes da Grande Enciclopédia Soviética foram “convidados” a cortar com uma lâmina as páginas 21/22 do tomo 5.º, onde figuravam o nome, a fotografia e a biografia do proscrito. Em seu lugar foi fornecida uma outra folha para aí colar, contendo novas entradas, escritas à medida, sobre Bergholz, Friedrich Wilhelm (banal personagem que escreveu no séc. XVIII um diário passado na Rússia) e sobre o Estreito de Bering.

5i - foto zzz

Sem comentários, por pura vergonha.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Página do diário português de Anne Frank

 Sábado, 1 de Junho de 2013

Querida Kitty,

 

pascoalEsta manhã fui constantemente interrompida pelo choro da minha mãe. O tio Otto tentou consolá-la, falando-lhe de um emprego que lhe tinha sido prometido. A mãe não parava de chorar e a mim só me apetecia bater-lhe para acabar com aquele ruído. Não porque o seu lamento me fosse indiferente, mas porque eu estava esgotada e sentia-me, cada dia, a deprimir.

Hoje a mãe deveria estar contente: recebeu os 370€ do subsídio de desemprego do pai. Mas depois dizia que já estava tudo destinado, que era necessário para a renda da casa, para as propinas do Hans, para o leite especial da Petronella, que é alérgica como tu sabes. Temos o frigorífico recheado de vegetais: feijão verde, cenouras, nabos. E comemos vezes sem conta batatas cozidas. Nas prateleiras ainda há muitas latas de atum e feijão. Não passamos fome, mas o tio Otto insiste em falar em dificuldades e, quando me fala disso, sorri-me e diz-me que a “situação é passageira”. Estão sempre a usar uma palavra: austeridade. Não sei bem o que é, mas sei que uma pessoa austera é uma pessoa com quem é difícil de conversar. Deixa-me explicar melhor: ontem a Petronella vomitou e a mãe ficou nervosa. O pai irritou-se e mandou alguém limpar aquilo tudo. A mãe gritou-lhe de um modo que eu nunca tinha visto e o tio Otto falou-nos a todos como se quisesse confortar-nos. Só o Hans não disse nada. O tio Otto disse: “é a austeridade”. Eu imaginei que houvesse alguma senhora assim chamada. Cheguei mesmo a olhar para o meu pai e arquitectei logo ali alguma sua aventura amorosa, tal era o estado da minha mãe. Mas não quis falar disso ao Hans. Só lhe perguntei se ele sabia de alguma coisa. O Hans disse-me para estar calada, que eu era muito nova para perceber aquilo. Disse-me também para não comentar as coisas que os adultos diziam em casa. Então pareceu-me mesmo que o meu pai tinha um caso fora do casamento e que essa era a razão do choro da minha mãe.

 

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Decidi tentar perceber quem era a Austeridade. Já tinha ouvido o nome a alguns amigos, mas nunca havia ligado. Talvez fosse uma dessas rameiras que se metem com os homens de todas as mulheres casadas. Sabia também que alguns dos irmãos e tios dos meus amigos estavam a deixar o país, porque não encontravam futuro aqui. O futuro, para eles, tinha a ver com o trabalho e com o dinheiro. Queriam poupar e não sabiam como. Os meus pais já não me carregavam o telemóvel há meses e eu reaprendi a falar com os amigos apenas na escola. As funcionárias olhavam para nós de uma forma ríspida, quando púnhamos o pão no tabuleiro e não o comíamos todo. Reparei que algumas repreendiam os alunos, mas ficavam com o pão para elas. Fiquei a saber que a mãe do Paulo ia às sobras dos hiper-mercados, arrecadando os produtos fora de validade. Mas a Clara contou-me que a mãe dela fazia o mesmo e que as mães de muitas meninas da escola também o faziam. Os que tinham pais na construção civil passaram a ter muitas dificuldades e não foram autorizados a ir à visita de estudo a Sintra. Lisboa, dizia o Pedro, estava “a pão e água”. Mesmo assim, muitos adultos compravam bilhetes caros para os jogos de futebol. Eu não entendia muito bem este problema. No que reparei foi que, em poucos meses, seis colegas minhas ficaram com os pais divorciados e que os pais do Van Daan foram viver para casa dos avós dele. Além disso, a Margot disse-nos que um vizinho nosso, o pai da Maria, que tinha sido em tempos funcionário público, se matou a tiro de caçadeira, porque já andava há mais de um ano de pijama em casa, sem nada que fazer, senão a ver anúncios nos jornais. Pediram-lhe uma mão em troca de emprego, disse Margot. Depois a outra mão. E finalmente a cabeça.

O tio Otto falava na nova ordem económica teutónica e nas arbitrariedades políticas do renovado sistema prussiano. Dizia isto sempre com um sorriso malicioso ao canto da boca que me punha enervada. Ele acrescentava que os alemães são os melhores em tudo: na música, na literatura, na filosofia. E no resto. Quando dizia “no resto”, rematava com uma gargalhada.

Se eu souber que a culpa do estado a que chegámos é da tal Austeridade, hei-de rebentar-lhe a boca e arrancar-lhe os dentes. “Não admito que esta ‘Knutscherei’ continue. Não lamentarei as minhas acções, e comportar-me-ei da forma que eu achar que devo”! Faças o que fizeres, deixa a minha família em paz!

 

Tua, Anne

 

António Jacinto Pascoal
Professor