O estranho caso dos dez negrinhos

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Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: mas nenhum está afoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.
Oito negrinhos vão a Devon de charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.
Seis negrinhos numa colmeia trabalham com afinco;
A um deles pica uma abelha, e então ficaram cinco.
Cinco negrinhos no tribunal, ver e julgar um facto;
Um ali foi julgado, e então ficaram quatro.
Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez
O arenque fumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no zoo, vendo leões e bois.
O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não sobrou nenhum.

Este poema, simples e narrativo, é uma cantiga popular inglesa, do vulgar tipo lengalenga ou canção de embalar. Mas é, sobretudo, o tema de um dos mais fabulosos romances policiais de todos os tempos.

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Li-o na minha juventude, sob a designação Convite para a Morte, quando foi divulgado com o número 18 na famosa Colecção Vampiro, da editora Livros do Brasil. Editado em 1948, foi no princípio dos anos 50 que encontrei aquele livro-de-bolso e nunca mais o esqueci.

Escrito nos anos 30 pela consagrada autora do género policial Agatha Christie, foi publicado pela primeira vez em 1939, sob o título original Ten Little Niggers (Os Dez Negrinhos). Logo a partir daqui se desenvolveria uma ridícula polémica, baseada nos pruridos racistas. Em Portugal foi dotado da designação atrás indicada. Aliás, uma edição recente (de 2008) entre nós divulgada pela RBA Coleccionables, S. A., chama-lhe As Dez Figuras Negras… Acrescente-se que as próprias traduções do poema, ambas diferentes entre si, são igualmente disparatadas. A versão que aqui apresento é decalcada da tradicional inglesa.

Já agora, para completar este absurdo capítulo, acrescentarei que nos Estados Unidos a obra foi apresentada com os títulos alternativos And Then There Were None (E Então não sobrou Nenhum) e Ten Little Indians (Dez Pequenos Índios)… No Brasil, nos anos 50, chegou a chamar-se O Vingador Invisível. A palavra Negrinhos era amaldiçoada!

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Portanto, e este é apenas um exemplo solto, a questão das traduções -por diversos motivos, linguísticos, culturais, sociológicos e até políticos- constitui um greve problema no acesso dos leitores à obra dos autores.

ten bNeste caso específico, o surrealismo interpretativo atingiu as raias do incrível, quando numa das edições brasileiras os negrinhos foram mesmo substituídos por soldadinhos, estropiando a poesia, alterando passagens da trama em função disso, eu sei lá mais o quê, barbaridades cometidas após a morte da autora, que nem podia por isso defender a integralidade da sua criação. Os complexos do racismo produziram por vezes piores efeitos que o próprio racismo…

Apesar de tudo isto, a verdade estatística aponta a obra em causa como a mais vendida entre a vastíssima produção da autora, sendo mesmo um dos maiores best-sellers absolutos de todos os tempos, com mais de 100 milhões de exemplares adquiridos.

O argumento serviu para adaptações ao teatro, à TV e ao cinema. Filmes, que eu saiba, há pelo menos sete, datados de 1945 (americano, dirigido por René Clair), 1965 (inglês, George Pollock), 1970 (italiano, Mario Bava), 1974 (inglês, Peter Collinson), 1987 (russo, Stanislav Govorukhin), 1989 (inglês, Alan Birkinshaw) e 2003 (americano, James Mangold). Dos que conheço, prefiro o inicial, não por ter sido o que vi em primeiro lugar, mas porque é aquele que, a preto e branco, melhor me parece reproduzir -e interpretar- as intenções, os ambientes e os próprios “climas” psicológicos do texto. Aliás, esse filme foi dirigido por um mestre do cinema…

Embora dispondo de um relativo e simbólico valor, se procurarmos listagens das melhores obras policiárias, encontramos quase sempre Ten Little Niggers nos primeiríssimos lugares, quase sempre à cabeça ou logo a seguir. Até já encontrei o título entre as cem maiores obras literárias de sempre, englobando todos os géneros. Não me cabe emitir qualquer juízo de valor, sobretudo em matéria de elevado grau de subjectividade. Sou aqui muito parcial, uma vez que também votaria pela positiva pois tenho pela obra um incondicional apreço.

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Não desvendarei do seu conteúdo senão aquilo que nada de essencial destrua no seu interesse, pois frustraria a curiosidade de quem nunca tenha lido esse romance policial.

A história é narrada na terceira pessoa e descreve as vivências de dez pessoas, estranhas entre si, que são convidadas para se deslocarem a uma ilha, por atraentes, distintas e irrecusáveis motivações.

Na ilha, são surpreendidas por uma voz, gravada, que acusa, um a um, todos os presentes, de graves e anónimos delitos que envolveram mortes. A reunião, acrescenta a voz, vai servir para a punição desses ignorados crimes.

O mar, agitado, impede o regresso e as comunicações. O isolamento é total e vão acontecer, uma a uma, as mortes dos dez acusados, três mulheres e sete homens. Pior do que isso, cada uma ocorre conforme as predições contidas num “inocente” poema infantil emoldurado no quarto de cada presente, prosseguindo um macabro ritual que mantém os sobreviventes numa tremenda angústia, depois em pânico, todos desconfiando da identidade do assassino que está entre eles…

O conjunto decorativo que encontraram no centro de uma grande mesa ostentava o grupo de dez pequenas estatuetas dos negrinhos, em porcelana, as quais vão desaparecendo, também uma a uma, ao ritmo das mortes reais.

Quando as condições climatéricas permitem o acesso à ilha, são aí encontrados ten edez cadáveres. O que aconteceu, como aconteceu e por que aconteceu? Esse é o mistério, só desvendado, genialmente, na última linha do último parágrafo da última página.

Uma confissão: apesar de saber tudo sobre a trama, reli o livro. E por mais de uma vez.

Agatha Christie, a “rainha do crime”, excedeu-se nesta criação, certamente elaborada com um extremo cuidado e contada num estilo simples e directo, fruto, de uma inteligência brilhante servida por uma escrita muito acessível, atributos só conjugados em personalidades excepcionais. Como ela foi.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Nota – Se tiver despertado suficiente interesse esta “provocação”, pode um potencial interessado na obra seguir uma ou outra (ou ambas) das seguintes sugestões práticas, para ler o romance policial na íntegra ou para visionar o filme legendado. Num como no outro caso, fica aqui, no entanto, um aviso prévio a propósito da linguagem algo estropiada, sobretudo devido a traduções defeituosas. Mas do mal o menos, perante a qualidade do que está à nossa disposição.

Para ler a obra, em 185 páginas (formato PDF), eis o endereço recomendado, entre muitos outros disponíveis:

ftp://81.193.246.194/cbver/EBOOKS_PT-BR/PDF/O%20Caso%20dos%20Dez%20Negrinhos%20-%20Agatha%20Christie-.pdf

Para visionar o filme no Youtube (versão de 1945, de René Clair), legendado, com cerca de 100 minutos de duração, aqui fica a sugestão do endereço, entre outros igualmente disponíveis:

http://www.youtube.com/watch?v=kCowduFJca4

Boas leituras e bons visionamentos!

 

Imagem versus palavra – IX

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Para além das fotos manipuladas que aqui fui recordando, sabe-se hoje que algumas das que a História consagrou como ícones de uma época, de um momento, de um local ou de um acontecimento irrepetível foram puras encenações. Nem sequer vou recuar mostrando algumas delas, o que seria fácil, como a do soldado da Guerra Civil Espanhola a ser atingido, a do célebre grupo de marines içando a bandeira americana no alto dum monte, em Iwo Jima, a do general executando um prisioneiro vietcong em Saigão, a do beijo romântico do Hôtel de Ville, em Paris, e outras que se sabe hoje terem sido repetidas para funcionarem como autênticas.

A recente polémica sobre a fotografia Um funeral em Gaza é apenas um episódio na série de intermináveis discussões em torno do valor da imagem e do seu papel num universo cada vez mais influenciado por ela.

Hoje, com as ferramentas gráficas e os programas informáticos de última geração, sempre renovados e oferecendo crescentes possibilidades de intervenção criativa, deixou de haver limites. Pode refazer-se uma vulgar imagem quase a partir do zero e transformá-la numa outra, distinta da original.

Aqui fica mais um conjunto de criações nestes domínios, recolhidas entre largos milhares de outras, similares.

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2. 2hhh

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João de Azevedo Coutinho – IX

cabeçalho

Levei algum tempo a recompor-me. Além disso, não quis que a emoção dos momentos que vivia, a quente, me levasse a tomar qualquer precipitada decisão.

Como fora possível que gente dita minha amiga tivesse sido capaz de se prestar a semelhante comportamento, tão cobarde como repugnante!? Ultrapassando a questão pessoal, ao nível do carácter e da dignidade, como tinha sido possível que se tivesse oficialmente desperdiçado uma oportunidade única para fazer justiça, para enriquecer o património local, para reparar um dívida de honra?

O programa previsto para Alter do Chão tinha de ser rectificado, em função da recusa da participação portalegrense na homenagem a João de Azevedo Coutinho, pelo que a minha primeira preocupação foi a de explicar aos interlocutores da Marinha o que tinha acontecido, salvaguardando a própria responsabilidade pessoal. Dei conta sumária do sucedido, prometendo para breve uma mais completa descrição do surrealista processo (ou pesadelo?) vivido.

No início de Setembro de 2002, menos de um mês após os últimos episódios desse processo, tinha já redigido duas cartas pessoais (praticamente idênticas) ao presidente e ao vereador, com sete páginas a que juntei mais duas contendo a proposta com a qual, um ano antes, eu justificara a designação toponímica da rua Iria Gonçalves – Mãe de Nun’Álvares Pereira. Estas duas cartas foram entregues no dia 6 de Setembro.

O seu teor, integral, foi até agora revelado apenas às autoridades da Marinha, no cumprimento da promessa feita de explicar pormenorizadamente o que acontecera.

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Não tive qualquer reacção por parte dos dois destinatários, com a ligeira excepção de um reparo do presidente, quando dias depois me encontrou no café portalegrense –Ponto Final– que frequentava com a minha mulher normalmente após o almoço. Que queria falar comigo – disse-me. Passaram desde então quase onze anos, onze anos!, e ele ainda não encontrou tal oportunidade…

Quanto ao vereador, creio que não deve ter lido a carta na íntegra -ou não lhe causou qualquer impressão ou não foi capaz de se confrontar com a verdade. Digo isto porque, tendo aí deixado bem clara a minha demissão de membro da Comissão Municipal de Toponímia (que o presidente tanto receara, ele lá sabia porquê!), continuei e receber durante muito tempo convocatórias e ofícios relativos a reuniões e outro material alusivo, como se nada tivesse acontecido…

Aliás tive também o cuidado, que me competia, de enviar a 10 de Setembro de 2002 ao presidente da Comissão Política Distrital de Portalegre do PSD uma carta-ofício onde agradeci a confiança correspondente ao convite para representar o partido na Comissão Municipal de Toponímia da qual -após cinco anos de desempenho- acabara de me demitir, por questões de ética e de coerência que nessa missiva apenas sumariamente abordei.

Se por absurdo eu tivesse recebido de alguém as cartas que enviei, tomaria em consciência uma das duas únicas respostas possíveis: ou pediria humildemente desculpa ao interlocutor, se lhe reconhecesse razão; ou reagiria com firmeza exigindo uma reparação pelo insulto. No entanto, no caso em apreço, verificou-se a confirmação do velho e sábio ditado popular: quem cala consente!

Obviamente, não revelarei agora, tal como intencionalmente não referi qualquer nome, o que então escrevi. Mas não resisto à tentação de transcrever os três parágrafos finais da carta, imediatamente antes dos curiais mas doloridos cumprimentos:

Se posso deixar-vos expressa uma (última) vontade é a de que deveis esquecer radicalmente o caso João de Azevedo Coutinho. Não mereceis ficar associados à reparação da injustiça que mantém o seu nome no esquecimento da nossa comunidade. Mas podeis acreditar que, nem que sejam precisos outros noventa anos, haverá inevitavelmente um portalegrense esclarecido, com a lúcida visão do interesse público, que sensibilizará a sua geração para a definitiva recuperação da heróica e magnífica memória de João de Azevedo Coutinho, com a justa e merecida dignidade.

E o episódio que agora protagonizámos entrará então na cinzenta contabilidade das oportunidades ingloriamente perdidas onde se situam os seus antecedentes.

Como portalegrense, espero e auguro melhor informada e mais esclarecida sorte para as vossas futuras decisões autárquicas, pois algumas não se limitarão à dimensão cultural de um isolado embora significativo evento, antes intervindo decisiva e decididamente no futuro de uma comunidade que depositou em vós esperanças de uma mudança antêntica, ainda virtual, por enquanto adiada…”

Foi assim que terminei as longas páginas de uma carta que desejava nunca ter escrito. Os portalegrenses, com excepção dos que partidariamente ficam limitados na sua livre e isenta apreciação, sabem que infelizmente os anos correspondentes à gestão em que estes autarcas detiveram o poder são dos mais funestos e improdutivos de toda a recente vida comunitária.

O caso João de Azevedo Coutinho revelou-se, portanto, paradigmático, e a minha carta lamentavelmente profética…

A mudança em que acreditei, em que muitos acreditámos, falhou ou, se aconteceu, foi no sentido inverso do desejável. E a incoerência toponímica não foi excepção, naquela desastrada actuação governativa.

Não muito tempo depois do infeliz e frustrado episódio que deu origem a esta série de crónicas, agora quase findas, aconteceu em Portalegre a justíssima homenagem à grande fadista Lucília do Carmo, natural da cidade. A tal propósito, a Câmara Municipal não teve qualquer relutância em eliminar da toponíma local a Travessa da Rua Nova, designação carregada de memórias históricas comunitárias, crismando-a de Rua Lucília do Carmo. Não faço a mínima ideia sobre se a Comissão de Toponímia, da qual já voluntariamente me tinha desligado, teria sido consultada. O que sei é que me teria batido inflexivelmente contra tal barbaridade.

A incoerência é, de facto, uma poderosa aliada da ignorância, da incompetência, da barbárie cultural…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

POLITICAMENTE INCORRECTO

Vogais e consoantes do acordo ortográfico POLITICAMENTE INCORRECTAS

 

O que dantes era emendado como erro básico de ortografia, próprio de gente burra, agora é mantido solenemente em artigos de jornal por vir com a chancela quase oficial da agência Lusa.

Pedro Correia

 

É um ensaio que se lê como um romance. Trata-se de uma edição recente e oportuna.

O autor, Pedro Correia, é um experimentado jornalista que, como confessa, sempre teve na língua portuguesa o seu principal instrumento de trabalho.

É portanto natural, e lógico, que um profissional defenda o seu posto de trabalho e os respectivos instrumentos e meios. E Pedro Correia sabe fazê-lo com inteligência, lucidez e humor, sempre com determinação e coragem.

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Sintetizando na contra-capa o seu “programa”, escreve aí: “O Acordo Ortográfico é tecnicamente inválido, politicamente inepto e materialmente impraticável“. E comprova, de forma indiscutível, esta tese.

E lembra que o actual presidente da República, que o ratificou, admite continuar a escrever em casa tal como aprendeu na escola. Que Pedro Correia me desculpe, mas acho que esta citação é a única debilidade da sua obra. Como pode o chefe de Estado ser exemplo, quando em público diz “fazerei” ou “cidadões“? Ou teria sido invocado para comprovar que o que dantes era emendado como erro básico de fonética, próprio de gente burra, deve ser agora consagrado como perfeitamente de acordo com o acordo? Se assim é, está perdoado!

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A colecção Politicamente Incorrecta, da Guerra e Paz, Editores, S. A., inclui volumes que colocam em contraditório temas significativos do nosso quotidiano: as contas da economia, a história de Portugal contemporâneo, o cérebro humano, o acordo ortográfico. Ricardo Arroja, Henrique Raposo, Alexandre Castro Caldas e, agora, Pedro Correia assumiram a responsabilidade de textos politicamente incorrectos sobre tais temáticas.

Pedro Correia conseguiu construir uma obra de destruição, de destruição total duma monstruosidade. Numa escrita muito clara e linear, ele sabe expor a linha do pensamento a que foi conduzido pela sua investigação pessoal sobre um processo arbitrário e pejado de contradições técnicas, que se esteve nas tintas para as vozes sensatas que o criticavam, fazendo no final impor politicamente uma caterva de incoerências por parte de parlamentares iletrados. Igorando a comunidade científica que atempadamente os avisou, alguns irresponsáveis meteram-nos num imbróglio agora difícil de resolver.

Pedro Correia conta-nos como foi e aponta-nos como deveria ser. Há algo irrecusável: não se pode manter a actual situação. Agora, uns respeitam o acordo, é lá com eles; outros mantêm-se fiéis à maneira escorreita e lógica como aprenderam a escrever; há ainda outros que não sabem bem se estão de acordo ou em desacordo, porque não entendem aquilo e porque também nada fazem para entender; finalmente, há os que aproveitam a confusão para inventar um acordo, fantasista, quase privativo da cada um, onde desculpabilizam todos os erros crassos que se sentem autorizados a cometer… E estes, infelizmente, vão-se constituindo em maioria cada vez menos silenciosa.

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É neste momento que surge uma obra lúcida, que deveria ser manual obrigatório em cada escola, em cada lar, na bancada parlamentar de cada deputado, no palácio de S. Bento e também, sobretudo, no de Belém.

Podem ser exportados alguns exemplares para o Brasil, para Angola, para Moçambique, para Cabo Verde, até lá para os confins de Timor, já agora também para Macau… Que não sejam esquecidas as Selvagens e a Berlenga.

Que sejam enviados, em correio expresso, uns livros destes a Francisco José Viegas, a Nuno Crato, a Santana Lopes e a outros protagonistas da farsa em curso… A Malaca Casteleiro não vale a pena, porque burro velho não aprende línguas, diz o povo. Ou será o Borda d’Água?

Morra o acordo, morra, pim!

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Entre o céu e o inferno

Já por diversas vezes aqui se falou no Osservatore Romano, o influente jornal oficioso do Vaticano. A última dessas vezes foi a propósito da “canonização” de Tintin, que motivou uma série de crónicas onde procurei desmontar toda uma panóplia de falaciosos argumentos em favor da pretensa militância católica do jovem jornalista de papel.

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A verdade, dia a dia confirmada, é que desde a entrada do jornalista italiano Giovanni Maria Vian para a direcção do jornal, em 2007, a linha editorial deste sofreu uma sensível evolução. Profundo conhecedor da Bíblia, especialista de questões do judaísmo e do cristianismo na antiguidade, assim como da história da tradição cristã e do papado contemporâneo, o responsável pela publicação oficiosa da Santa Sé preocupou-se em actualizar as temáticas aí desenvolvidas e fê-lo com coragem e sentido de modernidade apostando em temas de cultura popular, numa clara tentativa de ganhar novos públicos. Porém, tem acumulado alguns exageros. Ultimamente, certas críticas têm sido desencadeadas a propósito de posições públicas reveladas por alguns artigos divulgados, como o injustificado apoio à administração Obama, elogios a filmes inspirados em Harry Potter ou a canções dos Beatles, louvores a Michael Jackson (sobretudo por Thriller) ou à série televisiva The Simpsons… Isto, sobretudo, depois de duros textos anteriores carregados de denúncias sobre estes mesmíssimos temas, orientados portanto segundo sentidos radicalmente opostos.

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Depois, veio a controvérsia em torno da inspiração católica do heroísmo de Tintin e, mais recentemente, o escândalo de um novo artigo, divulgado em 30 de Junho passado, sob o esclarecedor título Hulk é católico de verdade?

Basicamente, é aqui questionada a religiosidade dos super-heróis, sendo passadas em revista as crenças religiosas de várias personagens da banda desenhada e do cinema de animação. O Osservatore Romano recorre a um portal norte-americano como principal fonte informativa. Por simples curiosidade fui consultá-lo e fiquei assustado, pois continha então nada mais nada menos do que 31 722 fichas (sempre em constante actualização) sobre personagens virtuais e personalidades reais, suas inserção social, filiação religiosa, principais aparições públicas e outras observações… Percebi assim, um pouco melhor, as denúncias de Edward Snowden sobre o controlo e a vigilância “big-brotherianas”… Se até as figuras da ficção não escapam!!!

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Antes de prosseguir, será bom que eu esclareça um ponto prévio. Prefiro, incomparavelmente, esta posição genérica de abertura do Vaticano. A Igreja Católica terá tudo a ganhar inserindo-se, de forma equilibrada e natural, no seu tempo e no seu mundo. Para extremismos religiosos, em nome da Fé, já bastaram à Humanidade as Cruzadas ou o Santo Ofício e para censura eclesiástica foram suficientes todos os Índexes, mais as fogueiras e as excomunhões… Até aqui tudo bem. No entanto, quando o jornalismo vaticano se mete nestes assuntos da vida secular, como os heróis de papel ou das telas e como os artistas da canção, do cinema ou da TV, por exemplo, então que o faça com conhecimento de causa, sem cair nas tentações de ridículos facilitismos, sem a exibição de flagrantes contradições, sem a ostentação da mais bacoca ignorância. E, depois, há também aqui questões melindrosas, de natureza doutrinal, e estas ainda me parecem mais paradoxais. Já lá vamos.

Escreveram os articulistas do Osservatore Romano que a série The Simpsons era um caminho realista para lidar com a religião. Sabe-se que o seu autor, Matt Groening, é agnóstico. Coloca por vezes a família Simpson em igrejas protestantes e até houve um episódio em que, perante a notícia do fim do mundo, todos os fiéis concentrados numa igreja fugiram para um bar de alterne próximo, enquanto os ocupantes deste se refugiavam no templo…

Homer Simpson bebe sem moderação, cultiva a preguiça e dorme durante as homilias mas, apesar destes “exemplares” comportamentos -e podia citar milhentos outros- o órgão informativo da Santa Sé considera-o um modelar cristão.

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Sobre a boneca Barbie, ainda no Verão do ano passado, o jornal do Vaticano se interrogava, na própria capa: “Quantos de nós já encontraram nas lojas uma Barbie calva, que poderia tranquilizar as crianças cujas mães estão sob quimioterapia?” Então -e o Osservatore esqueceu-se!- por que não um Action Man amputado de guerra ou uma cena de violação colectiva em peças de Lego?

Os Beatles já pregaram um mundo sem religião e atreveram-se à auto-classificação como mais famosos do que Jesus Cristo (John Lennon, em 1966). Lembram-se? Pois o Osservatore Romano, manifestando uma excepcional “abertura”, já elogiou o grupo e até destacou um dos seus clássicos álbuns, Revolver, como o melhor disco decente de rock (sic!)…

Um dos filmes favoritos desta santa crítica é Skyfall, da série 007, tendo merecido cinco artigos porque foi considerado como o primeiro a afastar-se de “clichés”. Noutros tempos, uma fita inocente de “capa e espada” era impiedosamente zurzida em qualquer jornal de paróquia. Lembro-me das páginas de severas recomendações morais -católicas- sobre cinema em O Distrito de Portalegre

O cardeal Joseph Ratzinger, numa carta de 2003, antes portanto da sua elevação ao pontificado, criticou severamente os livros da série Harry Potter como espiritualmente perigosos, por promoverem a bruxaria e o ocultismo, por revelarem seduções subtis que poderiam distorcer profundamente o cristianismo nas crianças. Pois, em Julho de 2009, o seu jornal elogiaria a adpatação do então recente filme da obra de J. K. Rowling (O Príncipe Misterioso), como o  mais bem sucedido da série, por “reflectir sobre a ideia do combate entre o bem e o mal e mostrar que para o bem vencer às vezes são precisos custos e sacrifícios“.

Vejamos agora, sumariamente, o caso de Hulk e seus camaradas, o mais recente.

Para já, Bruce Banner, o incrível Hulk na “vida civil”, foi casado pela Igreja (com Betty Rossi) e aparece frequentemente com um terço na mão. Depois, segundo acrescenta o jornal, este caso não é único nem isolado. O jornalista Clark Kent (Superman) revela vários sinais de religiosidade com explícitas e directas referências à fé cristã metodista, em diversos diálogos. Como o protestantismo é a religião mais popular nos Estados Unidos, o Vaticano aceita, relutantemente, que o Homem-Aranha seja um convicto protestante e que o Capitão América frequente aos domingos a função religiosa da sua comunidade.

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O Ciclope (dos X-Men) e Wolverine serão presbiterianos, e Batman episcopaliano. Selina Kyle, a Mulher Gato, que até tem uma irmã freira, será católica, ainda que não muito devota. Já o Vigilante Nocturno (também dos X-Men) é, esse sim, a mais devota de todas as personagens. A Coisa, do Quarteto Fantástico, rezou uma oração judaica tradicional (Shema Yisrael) numa história de 2002.

Depois, o diário católico destaca a dupla natureza, humana e divina, dos super-heróis, dotados de poderes que parecem versões actuais dos semi-deuses similares da antiguidade, mas com diferentes características, pois enquanto estes eram corruptos, mentirosos e entregues às suas paixões, os de agora combatem as injustiças do mundo e a prepotência dos gananciosos, intervindo para restabelecer uma ordem momentaneamente perdida.

E o Osservatore Romano conclui o seu artigo proclamando a necessidade de os heróis dos quadradinhos, independentemente da sua religião, serem positivos e justos para se saberem posicionar na eterna luta entre o bem e o mal, pois disso depende o futuro do mundo de hoje. A acrescenta: “Se por trás disso houver motivações religiosas, tanto melhor, já que não raro, desgraçadamente, a religião é usada para justificar a opressão e a violência“. 

Para além dos disparates patentes, preocupa-me a leitura subliminar desta crónica.

O Vaticano, a supor merecerem crédito os artigos do seu órgão oficioso, permite a  insinuação de que não existem ética ou moral  consistentes fora da esfera religiosa de conotação preferentemente cristã e católica. A insistência nesta temática, que começou com Tintin e agora se prolonga com Hulk e outros super-heróis, é preocupante, por revelar indesejáveis fundamentalismos. Qual será o próximo episódio desta perigosa escalada?

Rosa Ramos, jornalista do i, não tem qualquer hesitação em comentar este tema, intitulando-o As diabruras do jornal do Vaticano (Zoom Religião, 13 de Julho de 2013). Não vou tão longe, limitando-me a considerá-las como meras imbecilidades…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho