O Álbum de Portugal

1953 aconteceu há sessenta anos.

Portugal, país de brandos costumes (alguém diria mais tarde habitado por um “povo sereno“), era então consagrado ao Imaculado Coração de Maria. Aliás, era o tempo da sagração da Basílica de Fátima, finalmente concluída após demorada construção. Desta diria na época o cardeal Cerejeira, eminência parda do regime, que funcionava como “miraculosa anti-Rússia“…

Era então omnipresente a hierarquia da Igreja Católica, enquanto o país vivia o arranque do I Plano de Fomento, com aposta governamental na industrialização. Nas eleições desse ano para a Assembleia Nacional, o partido único ocupara todas as 120 cadeiras disponíveis, em virtude das insanáveis divisões da Oposição. Tudo pacífico e legal.

Foi solenemente aprovada a Lei Orgânica do Ultramar, nova designação do Império Colonial. Escondeu-se no entanto um terrível massacre acontecido em São Tomé e desvalorizavam-se as “ameaças” da União Indiana sobre Goa, ainda entregues aos pacíficos satyagrahi

1953 aconteceu há sessenta anos, neste país de brandos costumes, habitado por um povo sereno, seguindo as superiores máximas da trindade Deus, Pátria e Família e as orientações de um líder providencial, ao que se diz então apaixonado por uma jornalista francesa. Casada.

 

1953, a fazer fé nas declarações do próprio jornal, foi um “ano triunfal daso século iniciativas publicitárias” de O Século. O diário, que marcou de forma vincada quase 100 anos de vida, entre 1880 e 1977, é uma referência incontornável na imprensa nacional. Gerando no seu seio outros títulos de qualidade (O Século Ilustrado, Vida Mundial ou Modas e Bordados, por ex.), criando invulgares instituições como uma Colónia Balnear que durante décadas trouxe à praia largos milhares de crianças desfavorecidas do interior do país, O Século destacou-se, igualmente, pelos concursos que soube organizar.

No ano em apreço, sob a segura direcção de João Pereia da Rosa, as suas iniciativas neste campo foram O Congresso da Bicharada, Onde está o Gato? e Álbum de Selos do Álbum de Portugal. Este último concurso gerou uma espécie de caderneta autónoma, um folheto de 52 páginas, impresso a uma cor e com capa em quadricromia.

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Trabalho entregue a Gustavo de Matos Sequeira (1880-1962), escritor, dramaturgo, especialista em temas olisiponenses e colaborador do jornal, o Álbum de Portugal consistiu numa divulgação das belezas naturais e monumentais do país, na parte continental. Com óbvias e explícitas intenções de propaganda turística, os valores nacionais, monumentais, paisagísticos, artísticos, climáticos e humanos foram descritos e ilustrados ao sabor da sensibilidade do consagrado autor.

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Assente numa relação ordenada por distritos, a partir de Lisboa e Setúbal, subindo depois pelo litoral até ao Norte, descendo a seguir pelo interior e terminando no Algarve, a organização do álbum inclui um cuidado texto sequencial com adequado complemento fotográfico, sobretudo de arquivo.

Resumo a alusão ao folheto a referências a dois distritos, tendo em vista as terras que mais me interessam, Portalegre, onde nasci e vivi, e Peniche, onde resido.

Começo por Leiria, o distrito que engloba a então vila de Peniche. Entre Santarém e Coimbra, as duas páginas com que a terra do Lis e do Lena foi contemplada incluem 8 fotografias e um desenho de “típico” tema marítimo (nazareno?). A descrição, começando pela cidade capital, Leiria, passa à Batalha e a Alcobaça, de onde segue para Óbidos, Nazaré, Fátima e Pombal, terminando com brevíssima alusão a Pedrógão e Figueiró dos Vinhos. As fotografias correspondem às referidas localidades. Portanto, lendo e relendo, nem uma palavra sobre Peniche. Importante porto de pesca, dotado de magníficas praias e sede de apreciável indústria conserveira, para citar apenas três argumentos incontornáveis, não mereceu Peniche ao elevado critério de Matos Sequeira uma única linha, uma só  pálida imagem…

Tenho para mim uma possível “explicação”. Peniche era, ao tempo, um nome impronunciável, tal como Tarrafal. Sede de uma temida prisão política na sua Fortaleza, não conviria ao regime que qualquer dispensável referência trouxesse ao espírito dos serenos portugueses qualquer desnecessária apoquentação, que perturbasse os pacíficos brandos costumes indígenas.

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Já quanto a Portalegre as duas páginas incluem alargada descrição ilustrada com as 8 “regulamentares” fotografias e o típico desenho de cariz “folclórico” alentejano: o pastor de cajado e safões e a ceifeira. Quanto a alusões, para além da capital do distrito, Portalegre, encontramos Elvas, Avis, Marvão, Flor da Rosa  e Castelo de Vide. As gravuras, logicamente, limitam-se a estas localidades. Como falha que, ao tempo, me parece a mais flagrante citarei Alter do Chão, sobretudo pela sua Coudelaria, então florescente e famosa.  

A descrição da cidade de Portalegre é sumária, embora abrangendo o essencial da sua riqueza patrimonial e da sua beleza envolvente, natural.

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Assim era a ditosa Pátria nossa amada, citação camoneana devidamente assinalada na contracapa do folheto Álbum de Portugal, dado à estampa pelo jornal O Século em 1953.

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Foi há sessenta anos, tempo de duas gerações, quase uma eternidade…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Calvet de Magalhães e a Flama – cinco

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As bichas escolares

Utilizando a terminologia ao tempo usada para designar aquilo a que hoje chamamos filas, dada a conotação entretanto atribuída ao termo bichas, em calão provindo do país irmão, utilizando essa terminologia, o professor Calvet de Magalhães abordou uma questão menor do quotidiano escolar. Questão menor, porque abarca situações pontuais bem diversas das grandes problemáticas pedagógicas, sociais e políticas onde a Escola geralmente se situa.

Ao seleccionar este artigo, originalmente publicado na Flama do dia 28 de Julho de 1972, procurei mostrar outra faceta da enciclopédica temática dominada pelo mestre. Com efeito, as questões da administração escolar foram também objecto da sua reflexão e da sua experiência prática, a partir da escola que dirigiu com mão segura e competente. Pode alguém considerar, com alguma ligeireza, que a eventual banalidade da situação abordada nas bichas escolares sai da habitual norma qualitativa própria de uma coluna jornalística. Não estou de acordo com tão apressada avaliação, pois não devem existir assuntos vedados a uma análise, e respectiva divulgação pública, desde que dotada de sentido didático, apta por isso a fornecer dados susceptíveis da contribuir para a resolução ou minimização de situações similares.

Foi assim que li As bichas escolares, onde encontrei as qualidades que o professor Calvet de Magalhães emprestava a tudo aquilo que abordava: seriedade, conhecimento de facto, universalidade, sentido prático, profundidade. Não nos esqueçamos de que o seu artigo póstumo, que o Diário de Lisboa publicou e já reproduzi em devido tempo respeitava aos seguros escolares. Não havia, para o professor, qualquer assunto tabu ou menos digno de atenção.

Calvet artigo 5

STOP

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Diretor para o disparate, ou não?
(excecionalmente, o título assume o aspeto linguístico oficial)

 

Estava eu, na tarde da segunda-feira, a ler o mais tranquilamente que era possível o meu diário predilecto (creio que toda a gente que comigo convive pelo blog já percebeu ser o Diário de Notícias), passando as páginas carregadas de temas pouco desejáveis. Logo na capa a notícia da morte de um notável cidadão do qual não percebi a razão do ocultamento curricular da sua antiga função de presidente da Assembleia Municipal de Alter do Chão (não li nem ouvi ainda falar deste desempenho cívico do reputado economista), e o título por onde se ficou a saber que o Estado continua a demolir sistematicamente a sua função social, deste vez retirando o rendimento de inserção a 136 mil antigos beneficiários. Ainda se tivesse sido por fraude…

Depois a rentrée, tal como se costuma chamar ao regresso ao trabalho (!?) das instituições políticas e partidárias, excepto (continuo a ler) os senhores juízes do Constitucional, e logo a seguir outro desastre, este ainda mais terrível, talvez o pior de sempre, os incêndios tradicionais da época, este ano mortíferos como nunca…

Passei a seguir por páginas cheias de quotidiano, “monstruosidades vulgares” como Régio lhes chamaria, e cheguei à tragédia química da Síria, autêntica ou encenada, cometida por quem sabe-se lá, porque é conveniente resistir à tentação das acusações conveninentes e fáceis. Ao lado, a Tunísia e o Egipto completavam a actual desolação islâmica…

Na página 24 estaquei, incapaz de ler e perceber o título de caixa alta: Jovem fotógrafa de 23 anos diz que “vida não para com uma violação”

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Vida não é (feita) para violações, pensei, mas o sentido não parecia bater certo… De repente fez-se o tal clic: o que os fulanos do jornal queriam escrever, porque terá sido o que a jovem violada na Índia (mais uma!) efectivamente disse, seria: vida não pára com violação. O acento, ou a falta dele, faz toda a diferença!

Não percebem isto os responsáveis pela direcção do jornal? Não entendem a estupidez de assim ser estropiado o próprio sentido daquilo que, com necessária clareza, desejam colocar nas páginas depois consultadas pelos vulgares leitores?

Não vale a pena continuar a descrição do restante conteúdo, excepto no que respeita às páginas de opinião, independentes, assinadas por personalidades com aparição regular ou pontual. Aqui, felizmente, reina a sensatez. Os três signatários da secção, na segunda-feira, deixaram bem expressa a sua correcta e unânime posição linguística, desprezando convictamente a cretina moda oficial, vulgo: acordo ortográfico.

Porém, ainda mais significativa é a posição de José Bandeira, cartoonista habitual, colaborador permanente do jornal. Ele faz questão de afixar na sua inspirada tira diária uma nota: Este cartoonista não sabe escrever segundo as regras do novo acordo ortográfico.

Bem sei que a vida não pára com uma violação (linguística), mas que é afectada, lá isso é…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Cantes e descantes – um

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Nuno PachecoO jornalista Nuno Pacheco, cujas crónicas leio sempre com prazer e proveito, debruçou-se no passado Domingo, no suplemento 2 do Público, sobre um tema da maior relevância. Como sempre.

Agora, foi o caso da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Um Canto pelo Cante. O assunto interessa-me a diversos níveis, sobretudo como alentejano e como cidadão empenhado nas coisas da cultura, naturalmente incluindo as musicais.PÚBLICO

Merece-me o interessante e oportuno texto de Nuno Pacheco alguns comentários, que aqui desenvolverei. Para já, importa partilhar essa crónica dominical com os leitores do blog, pelo que aqui a reproduzo, com a devida vénia para com o autor e o jornal em apreço.

 canto pelo cante

UM CANTO PELO CANTE

 

Completam-se na terça-feira cinco meses sobre a entrega, no comité internacional da UNESCO, da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade. Isto depois de uma falsa par­tida em Março de 2012, adiada para um necessário amadurecimento do processo. Agora, em Dezembro de 2014 saberemos se o cante terá, nas classificações da UNESCO, e entre centenas de can­didaturas, o mesmo vitorioso destino do fado.

Entretanto, e porque uma candidatura exige que o “candidato” viva e assegure “saúde” no futuro, os promotores agitam-se. Um dia depois da entrega na UNESCO, a 27 de Março de 2013, o responsável  pela candidatura, Paulo Lima, dizia ao PÚBLICO que “muitas pessoas, cantadores, grupos corais, câmaras têm que ser sensibilizados para a impor­tância do que é este momento”. Porque o desafio da candidatura, sendo antigo, só agora começou.

Integrado neste esforço de notoriedade e cer­tificação, o Centro de Estudos Documentais do Alentejo dedica uma boa parte da mais recente edição da revista Memória Alentejana ao cante, em 20 páginas onde se reúnem artigos, ensaios, testemunhos, memórias históricas, assinados por An­tónio Cartageno, José Francisco Colaço Guerreiro, José Orta, João Mário Caldeira, Jorge Moniz, Pedro Mestre, Francisco Lourenço Teixeira, Francisco Torrão, Paulo Ribeiro, Eduardo M. Raposo (direc­tor da revista), com testemunhos de Maria Vitória Afonso e Domingos Montemor e um poema inédito de Urbano Tavares Rodrigues, datado de 13 de Fevereiro de 2012. Lendo-os, ficamos a saber melhor não só o significado do cante como da existência de uma confraria e de uma associação (a MODA) a ele dedicadas. Um mundo de histórias e de vozes.

Recuando no tempo, às recolhas de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça (lançadas em LP e depois passadas a CD com selo da Strauss/Portugalsom), é curioso reler o que ambos escreveram sobre os cantos alentejanos no volume 4 da série, dedicado ao Alentejo. Depois de assinalar várias reservas e esconjurar os lugares comuns sobre o género, escreveu Lopes-Graça: “Não constituirá acaso grande temeridade o definir o povo alente­jano como sendo o mais ‘musical’ da gente portuguesa – entendendo-se por aí a sua natural capaci­dade para se traduzir e consciencializar em canto, a sua rara espontaneidade mélica, enfim, aquilo a que poderemos chamar a sua temperamental dispo­nibilidade lírica, o que o leva a achar boas todas as ocasiões, todas as horas, para dar largas à sua inata musicalidade. E, porven­tura, mais do que isso: a gravidade que põe no acto de cantar, para ele verda­deiro acto de identificação colectiva, de comunhão espiritual com os do seu sangue e da sua pátria, pa­ra onde quer que vá, onde quer que se encontre. Em roda, os olhos cerrados, expressão concentrada do rosto, o mais das vezes ombro a ombro ou braços com braços em ondula­da movimentação, assim entoam os ganhões alen­tejanos os seus cantos. E é como se cumprissem um antigo e necessário ritual”. Giacometti, por seu turno, notava: “Os textos poéticos, que, na sua tão viva variedade, até nós chegam, traduzem comple­xos específicos nos quais, através dum simbolismo que facilmente se deixa decifrar, se descobrem aspirações profundas, tal como o revelam aquelas quadras chamadas cantigas, que se desenvolvem em torno de motivos essenciais ou se renovam ao sabor dos acontecimentos e que nesta polifonia se­vera encontraram um como que suporte natural.” A isto acrescentava que a “lenta asfixia do canto coral e, mais geralmente, do canto tradicional alen­tejano, chamam a uma tomada de consciência”. O tempo ouviu-o, ainda que tardiamente.

Voltando à revista, cuja leitura se aconselha, o poema de Urbano Tavares Rodrigues ficará como um dos seus últimos textos (o escritor morreu a 9 de Agosto) a chegar a público. Um excerto final crista­liza a imagem que fixou do cante: “Cantam naquele silêncio/ ranchos de trabalhadores/ rurais que so­nham/ um amanhã/ de igualdade/ nos corações das casas/ de terra e pasto/ e a flor da paz/ sorri-lhes/ como só ela/ sabe sorrir na epifania/ na apoteose da luz só.” Por tudo isto, há-de cumprir-se a profecia de José Afonso (em Cantar Alentejano): “Ó Alentejo esquecido/ ‘inda um dia hás-de cantar”. A força do cante impor-se-á pela alma do seu povo.

 

Nuno Pacheco

2 – suplemento do jornal Público

Domingo, 25 de Agosto de 2013

 

 

Ainda (e sempre) Martin Luther King

A Agência Lusa distribuiu ontem pelos órgãos de comunicação um interessante e oportuno texto de análise crítica do histórico discurso de Luther King aqui aludido e transcrito.

Pelo seu manifesto interesse, aqui fica reproduzido, com a devida vénia em relação à sua origem.

 

Discurso de Luther King é ‘oratória cívica democrática’
e não marketing político

 

O que distingue o célebre discurso “I Have a Dream”, que Martin Luther King proferiu há 50 anos, é que “é uma grande peça da oratória cívica democrática, e não marketing político”, sublinha o investigador José Luís Garcia.

Inquirido pela Lusa sobre a importância dessa mensagem de Luther King, emitida a 28 de Agosto de 1963, no Lincoln Memorial, em Washington, num tom profético que utilizava por pensar que poderiam ser as suas últimas palavras, tal era a frequência das ameaças de morte que recebia por defender a igualdade racial nos Estados Unidos, o professor da Universidade de Lisboa foi contundente: “‘I Have a Dream’ não é um ‘slogan’, é a primeira enunciação de um discurso com muito sentido que tem a ressonância da voz comunitária”.

“Este é um discurso muito importante por aliar um conteúdo forte com uma retórica extraordinária”, defendeu o académico, doutorado em Ciências Sociais e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

Esse conteúdo “advém da invocação dos próprios princípios democráticos dos Estados Unidos da América, isto é, limita-se a dizer algo que hoje em dia nos parece muito óbvio, e que é: a população negra é cidadã daquele país e, como cidadã daquele país, tem de estar num plano claro de igualdade de oportunidades, no plano político, no plano cívico, no plano social”, frisou.

Para José Luís Garcia, o que o discurso do prémio Nobel da Paz 1964 conseguiu foi “transformar aquilo que aparecia muitas vezes como apenas uma promessa, como uma espécie de situação hipócrita – ‘nós temos estas ideias, mas não as passamos à prática’ – numa plataforma para ser posta em prática, ou seja, rompeu com a hipocrisia da sociedade norte-americana”.

“E é um discurso que trabalha muito bem isso, porque, numa altura em que havia discursos muitíssimo radicais, este não é radical nos conteúdos que exige, não pode ser classificado como um discurso marxista, ou um discurso comunista: é um discurso democrata e liberal que a única coisa que diz é ‘passemos do discurso à prática’, ou seja, sugere não uma agenda radical, mas uma agenda que, partindo das próprias promessas da democracia, deve ser actualizada”, observou.

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Por outro lado, do ponto de vista retórico, referiu, trata-se de um discurso “absolutamente extraordinário, porque tem a ressonância da voz comunitária, tem uma ressonância quase religiosa e um ritmo e um conjunto de repetições na construção das frases que são imediatamente capazes de gerar emoções”.

“A própria ideia de ‘I Have a Dream’, a ideia de um sonho, é porque esse era precisamente o sonho que já existia nos Estados Unidos da América, que eram o mundo do Sonho Americano, e, portanto, o sonho era transformar o sonho em realidade”, apontou.

“A formulação de ‘I Have a Dream’, ou seja, ‘Eu tenho um sonho’, é já uma formulação de tipo poético-religioso, de tipo mítico-religioso, extremamente emotiva e com uma grande capacidade de mobilização”, e o resultado foi “um discurso emocionante, cheio de significado e claramente apreensível” que se tornou um marco na história dos Estados Unidos e transformou Martin Luther King num herói.

A passagem dos 50 anos do discurso de Luther King vai ser assinalada, na quarta-feira, no mesmo local onde o proferiu, pelo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

 

Agência Lusa, em 27 de Agosto de 2013

Da imunidade

pascoalFiquemos apenas com as ideias principais: os professores estão de parabéns. A greve às avalia­ções de Junho teve a eficácia que se viu e conseguiu mesmo criar um embaraço ao Governo, perante a crispação da troika. Reconhecida assim por muitos, tratou-se de uma greve bem feita, servida por uma lógica de intransigência que há muito não se via (cerca de 20 dias em que se jogaram maté­rias capitais para as vidas de tantos docen­tes). O papel da Fenprof foi mais uma vez decisivo e desta vez acompanhado pela determinação da FNE. E, quer se queira quer não, Mário Nogueira foi determinan­te nesta contenda, mesmo que tenham sido dados todos os sinais da sua diabolização e da dos sindicatos em geral, com os argumentos mais rasteiros e vis. Mesmo que não desejem, e sem idolatrias saloias, é também a Mário Nogueira que muitos deverão agradecer a sobrevivência de uma série de prerrogativas que há-de permitir a recuperação de horários, a redução de muitos horários zero e o retardamento do espectro da mobilidade especial. Outros sectores da função pública não enjeitariam um semelhante intérprete das suas reivindicações.

A bem da qualidade do ensino foram obtidas algumas “vitórias”. Isso não significa que a área da Educação não esteja constantemente a ser bombardeada no seu cerne. Basta ver a disputa que ocorre entre escolas para abrir turmas, mediante ocultação de dados sobre alunos, criação de atractivos para os alunos, pressão ou imposição de turmas de ensino artístico em menos escolas, obrigação de certa oferta formativa ser exclusiva de determinada escola de área metropolitana. Um rol de expedientes para conter gastos (necessários à qualidade do ensino), reduzir horários, eliminar turmas, suprimir docentes e devolver a escola pública a uma pobreza em que a querem encerrar. Escola de pobrezinhos, de recursos parcos. Porque, bem o sabemos, a Educação é um negócio. Falta concretizá-lo.

Neste final de ano, sobra ainda a matéria remanescente dos exames (provas finais). É tempo de completar alguns dados por apurar. Regressemos ao caso particular e altamente controverso da prova de Português de 9.° ano.

A alternativa ao desastre dos exames de Português continuaria a ser a de os professores classificadores subtraírem à inevitável lei dos resultados um desvio relevável aos critérios de correcção. Acontece que, por mistérios insondáveis, uma outra lei (mais estulta do que aquela) parece fazer renunciar certos professores a alguma coisa do seu mundo moral, criando situações de rivalidade difíceis de explicar. Tentemos: um professor classificador a quem tenha sido distribuído um envelope de provas contendo um conjunto de muito boas prestações – por norma, os alunos de capital de distrito – tende a ser mais severo na correcção e essa austeridade serve para que não seja sentida, com tanto destaque, a diferença de resultados expectáveis em relação aos seus próprios alunos. Geralmente, destes pleitos as vítimas são os bons alunos. Mas há mais. Ao pedir reapreciações de provas, pude constatar (e não fui apenas eu quem o fez) que vários alunos estariam a ser prejudicados em vários pontos percentuais (em certos casos, a diferença entre o nível 3 e o 4 na pauta). Ora, isto faz pensar. Basta acrescentar que a infalibilidade não é um dom docente: uma dessas reapreciações permitiu-me verificar que a um aluno/a a quem fora atribuída a cotação total de 18 pontos (nível 1) tinham sido “retirados” 2 pontos, por negligência na contabilização.

Acontece, é certo. Mas neste caso isto dizia respeito à diferença entre uma
retenção (reprovação) e uma aprovação. Se pensarmos que estas coisas se podem
multiplicar por aí, e não apenas nas provas de Português, é de arrepiar, ainda
que me recuse a acreditar que os sinistros exemplares de más correcções
representem uma amostra, ínfima que seja, do trabalho dos professores.
É por isso que continuo a achar que uma coisa é comprometer os alunos durante
um ano, outra é descarregar sobre a sua prestação de exames toda a nossa intolerância.
Que não sejam os próprios docentes a empobrecer a escola pública, neste tempo em que todas as armas contam. Infelizmente, parece que há quem (sobretudo de fora) pense como Cristina Rico: que nas escolas públicas “se vive em estado mais puro” e que aquilo ali “é como brincar aos pobrezinhos”.

 

António Jacinto Pascoal
Professor

 

Uma data de datas – XLII – Martin Luther King

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XLII – 28 de Agosto de 1963 – I Have a Dream

É a primeira vez que repito, nesta “secção” de efemérides, um tema. Trata-se de king 4Martin Luther King, figura única da luta contra a discriminação racial.

Com efeito, no dia 4 de Abril, dediquei-lhe uma nota a propósito do seu assassinato. Deixei então uma breve resenha biográfica desse lúcido e corajoso lutador pelos direitos humanos e até uma ligeira alusão ao acontecimento cujos 50 anos hoje mesmo se cumprem: o seu histórico discurso I Have a dream!

A 28 de Agosto de 1963, no final da Marcha a Washington por Empregos e Liberdade, que levou mais de 200000 manifestantes de todos os Estados Unidos à ampla esplanada fronteira ao Memorial de Lincoln, o activista político negro Martin Luther King pronunciou um emocionado e vibrante discurso que ficou registado para a posteridade como a melhor oratória pública dos E.U.A. de todo o século XX.

É esse momento histórico que hoje evoco, pelo audiovisual e pela transcrição integral.

Retoquei a versão formal do discurso, sem nada alterar do seu conteúdo, para compensar a desastrada legendagem do videograma…

 

Estou contente por juntar-me a vós no dia que ficará como a maior demonstração pela liberdade na História da nossa Nação.

Cem anos atrás, um grande americano [Lincoln], sob cuja simbólica sombra nos encontramos, assinou a Proclamação da Emancipação. Esse importante decreto chegou como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham sofrido nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite dos seus cativeiros.

Mas, cem anos depois, os negros ainda não são livres.

Cem anos depois, a vida dos negros ainda é tristemente limitada pelas algemas da segregação e pelas cadeias de discriminação.

king 1Cem anos depois, os negros vivem isolados numa ilha de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, os negros ainda adoecem pelos recantos da sociedade americana e encontram-se exilados na sua própria terra.

Assim, viemos aqui hoje para desdramatizar essa vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital da nossa Nação para trocar um cheque. Quando os arquitectos de nossa República escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todos os americano seriam os seus herdeiros. Esta nota era uma promessa de que todos os homens, sim, os homens negros como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, liberdade e busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não cumpriu esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu às gentes negras um cheque sem cobertura, um cheque que voltou marcado com “fundos insuficientes”.

Mas recusamo-nos a acreditar que o banco da justiça seja falível. Nós recusamo-nos a acreditar que não haja capital suficiente de oportunidades nesta nação.

Assim, nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América essa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou para tomar o remédio tranquilizante dos meios termos.

Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de Democracia.

Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.

Agora é o tempo para erguer a nossa Nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a Nação negligenciar a urgência deste momento. Este Verãoking 2 sufocante do legítimo descontentamento dos negros não passará até termos um renovador Outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Os que esperam ver agora os negros contentes terão um violento despertar se a Nação voltar à situação de sempre.

Mas há algo que eu tenho para dizer à minha gente que se encontra no pórtico do palácio da justiça. No processo de conquista do nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de acções de injustiças. Não vamos satisfazer a nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre teremos de conduzir a nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que o nosso criativo protesto degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos de subir às majestosas alturas da união da força física com a força de alma. A nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter desconfiança para com todas as pessoas brancas, para com muitos dos nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, pois entendem que o seu destino está ligado ao nosso. Eles perceberem que a sua liberdade está indissoluvelmente ligada à nossa. Nós não podemos caminhar isolados.

E como caminhamos, temos de fazer a promessa de que sempre marcharemos à frente. Não podemos retroceder. Há os que estão perguntando aos devotos dos direitos civis: “Quando estarão satisfeitos?”

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto os negros forem vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto os  nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não puderem ter hospedagem nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um negro não puder votar no Mississipi e um outro negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivos para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós nunca estaremos satisfeitos até que a justiça e a rectidão deslizem como as águas de uma poderosa correnteza.

Não me esqueci de que alguns de você vieram até aqui após grandes provas e sofrimentos. Alguns de vocês vieram recentemente das celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde a busca pela liberdade deixou marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Vocês são os veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Louisiana, voltem para as ruas sujas e os guetos das nossas cidades do norte, sabendo que, de alguma maneira, esta situação pode e será mudada. Não se deixem cair no vale de desespero.

Digo hoje a vocês, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e de amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraízado no sonho americano.

king 3Eu tenho um sonho de que um dia esta Nação se levantará e viverá o verdadeiro significado da sua crença – nós celebraremos esta verdade e ela será clara para todos, a de que todos os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho de que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão sentar-se juntos, à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho de que um dia, até mesmo o Estado de Mississipi, um Estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho de que os meus quatro pequenos filhos vão um dia viver  numa Nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu carácter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho de que um dia, no Alabama, com os seus racistas malignos, com o seu governador que tem os lábios gotejando palavras de violência e negação; nesse justo dia, no Alabama, meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho de que um dia todo o vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa Nação  numa bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, encarcerar juntos, defender a liberdade juntos e, quem sabe, seremos um dia livres. Este será o dia, este será o dia em que todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado:

 

“Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde os meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!”

 

E se a América for uma grande Nação, isto tem de se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.
Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos grandes Alleghenies da Pensylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouvir-se-á o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitirmos que o sino da liberdade soe, quando nós deixarmos ele soar em toda as moradia e em todos os vilarejos, em todos os Estado e em todas as cidade, nós poderemos antecipar aquele dia em que todas as crianças de Deus, os homens pretos e os homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir as mãos e cantar juntos as palavras do antigo espiritual negro:

 

“Livres, enfim. Livres, enfim.

Agradecemos a Deus, todo-poderoso, somos finalmente livres.”

 

Martin Luther King Jr.
Washington DC, em 28 de Agosto de 1963