Da imunidade

pascoalFiquemos apenas com as ideias principais: os professores estão de parabéns. A greve às avalia­ções de Junho teve a eficácia que se viu e conseguiu mesmo criar um embaraço ao Governo, perante a crispação da troika. Reconhecida assim por muitos, tratou-se de uma greve bem feita, servida por uma lógica de intransigência que há muito não se via (cerca de 20 dias em que se jogaram maté­rias capitais para as vidas de tantos docen­tes). O papel da Fenprof foi mais uma vez decisivo e desta vez acompanhado pela determinação da FNE. E, quer se queira quer não, Mário Nogueira foi determinan­te nesta contenda, mesmo que tenham sido dados todos os sinais da sua diabolização e da dos sindicatos em geral, com os argumentos mais rasteiros e vis. Mesmo que não desejem, e sem idolatrias saloias, é também a Mário Nogueira que muitos deverão agradecer a sobrevivência de uma série de prerrogativas que há-de permitir a recuperação de horários, a redução de muitos horários zero e o retardamento do espectro da mobilidade especial. Outros sectores da função pública não enjeitariam um semelhante intérprete das suas reivindicações.

A bem da qualidade do ensino foram obtidas algumas “vitórias”. Isso não significa que a área da Educação não esteja constantemente a ser bombardeada no seu cerne. Basta ver a disputa que ocorre entre escolas para abrir turmas, mediante ocultação de dados sobre alunos, criação de atractivos para os alunos, pressão ou imposição de turmas de ensino artístico em menos escolas, obrigação de certa oferta formativa ser exclusiva de determinada escola de área metropolitana. Um rol de expedientes para conter gastos (necessários à qualidade do ensino), reduzir horários, eliminar turmas, suprimir docentes e devolver a escola pública a uma pobreza em que a querem encerrar. Escola de pobrezinhos, de recursos parcos. Porque, bem o sabemos, a Educação é um negócio. Falta concretizá-lo.

Neste final de ano, sobra ainda a matéria remanescente dos exames (provas finais). É tempo de completar alguns dados por apurar. Regressemos ao caso particular e altamente controverso da prova de Português de 9.° ano.

A alternativa ao desastre dos exames de Português continuaria a ser a de os professores classificadores subtraírem à inevitável lei dos resultados um desvio relevável aos critérios de correcção. Acontece que, por mistérios insondáveis, uma outra lei (mais estulta do que aquela) parece fazer renunciar certos professores a alguma coisa do seu mundo moral, criando situações de rivalidade difíceis de explicar. Tentemos: um professor classificador a quem tenha sido distribuído um envelope de provas contendo um conjunto de muito boas prestações – por norma, os alunos de capital de distrito – tende a ser mais severo na correcção e essa austeridade serve para que não seja sentida, com tanto destaque, a diferença de resultados expectáveis em relação aos seus próprios alunos. Geralmente, destes pleitos as vítimas são os bons alunos. Mas há mais. Ao pedir reapreciações de provas, pude constatar (e não fui apenas eu quem o fez) que vários alunos estariam a ser prejudicados em vários pontos percentuais (em certos casos, a diferença entre o nível 3 e o 4 na pauta). Ora, isto faz pensar. Basta acrescentar que a infalibilidade não é um dom docente: uma dessas reapreciações permitiu-me verificar que a um aluno/a a quem fora atribuída a cotação total de 18 pontos (nível 1) tinham sido “retirados” 2 pontos, por negligência na contabilização.

Acontece, é certo. Mas neste caso isto dizia respeito à diferença entre uma
retenção (reprovação) e uma aprovação. Se pensarmos que estas coisas se podem
multiplicar por aí, e não apenas nas provas de Português, é de arrepiar, ainda
que me recuse a acreditar que os sinistros exemplares de más correcções
representem uma amostra, ínfima que seja, do trabalho dos professores.
É por isso que continuo a achar que uma coisa é comprometer os alunos durante
um ano, outra é descarregar sobre a sua prestação de exames toda a nossa intolerância.
Que não sejam os próprios docentes a empobrecer a escola pública, neste tempo em que todas as armas contam. Infelizmente, parece que há quem (sobretudo de fora) pense como Cristina Rico: que nas escolas públicas “se vive em estado mais puro” e que aquilo ali “é como brincar aos pobrezinhos”.

 

António Jacinto Pascoal
Professor

 

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