Uma data de datas – XLII – Martin Luther King

datas

XLII – 28 de Agosto de 1963 – I Have a Dream

É a primeira vez que repito, nesta “secção” de efemérides, um tema. Trata-se de king 4Martin Luther King, figura única da luta contra a discriminação racial.

Com efeito, no dia 4 de Abril, dediquei-lhe uma nota a propósito do seu assassinato. Deixei então uma breve resenha biográfica desse lúcido e corajoso lutador pelos direitos humanos e até uma ligeira alusão ao acontecimento cujos 50 anos hoje mesmo se cumprem: o seu histórico discurso I Have a dream!

A 28 de Agosto de 1963, no final da Marcha a Washington por Empregos e Liberdade, que levou mais de 200000 manifestantes de todos os Estados Unidos à ampla esplanada fronteira ao Memorial de Lincoln, o activista político negro Martin Luther King pronunciou um emocionado e vibrante discurso que ficou registado para a posteridade como a melhor oratória pública dos E.U.A. de todo o século XX.

É esse momento histórico que hoje evoco, pelo audiovisual e pela transcrição integral.

Retoquei a versão formal do discurso, sem nada alterar do seu conteúdo, para compensar a desastrada legendagem do videograma…

 

Estou contente por juntar-me a vós no dia que ficará como a maior demonstração pela liberdade na História da nossa Nação.

Cem anos atrás, um grande americano [Lincoln], sob cuja simbólica sombra nos encontramos, assinou a Proclamação da Emancipação. Esse importante decreto chegou como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham sofrido nas chamas da injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite dos seus cativeiros.

Mas, cem anos depois, os negros ainda não são livres.

Cem anos depois, a vida dos negros ainda é tristemente limitada pelas algemas da segregação e pelas cadeias de discriminação.

king 1Cem anos depois, os negros vivem isolados numa ilha de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, os negros ainda adoecem pelos recantos da sociedade americana e encontram-se exilados na sua própria terra.

Assim, viemos aqui hoje para desdramatizar essa vergonhosa condição.

De certo modo, nós viemos à capital da nossa Nação para trocar um cheque. Quando os arquitectos de nossa República escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todos os americano seriam os seus herdeiros. Esta nota era uma promessa de que todos os homens, sim, os homens negros como também os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, liberdade e busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não cumpriu esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a América deu às gentes negras um cheque sem cobertura, um cheque que voltou marcado com “fundos insuficientes”.

Mas recusamo-nos a acreditar que o banco da justiça seja falível. Nós recusamo-nos a acreditar que não haja capital suficiente de oportunidades nesta nação.

Assim, nós viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.

Nós também viemos para recordar à América essa cruel urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou para tomar o remédio tranquilizante dos meios termos.

Agora é o tempo para transformar em realidade as promessas de Democracia.

Agora é o tempo para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado pelo sol da justiça racial.

Agora é o tempo para erguer a nossa Nação das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a Nação negligenciar a urgência deste momento. Este Verãoking 2 sufocante do legítimo descontentamento dos negros não passará até termos um renovador Outono de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Os que esperam ver agora os negros contentes terão um violento despertar se a Nação voltar à situação de sempre.

Mas há algo que eu tenho para dizer à minha gente que se encontra no pórtico do palácio da justiça. No processo de conquista do nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de acções de injustiças. Não vamos satisfazer a nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre teremos de conduzir a nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que o nosso criativo protesto degenere em violência física. Novamente e novamente nós temos de subir às majestosas alturas da união da força física com a força de alma. A nossa nova e maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos ter desconfiança para com todas as pessoas brancas, para com muitos dos nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui hoje, pois entendem que o seu destino está ligado ao nosso. Eles perceberem que a sua liberdade está indissoluvelmente ligada à nossa. Nós não podemos caminhar isolados.

E como caminhamos, temos de fazer a promessa de que sempre marcharemos à frente. Não podemos retroceder. Há os que estão perguntando aos devotos dos direitos civis: “Quando estarão satisfeitos?”

Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto os negros forem vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto os  nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não puderem ter hospedagem nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um negro não puder votar no Mississipi e um outro negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivos para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós nunca estaremos satisfeitos até que a justiça e a rectidão deslizem como as águas de uma poderosa correnteza.

Não me esqueci de que alguns de você vieram até aqui após grandes provas e sofrimentos. Alguns de vocês vieram recentemente das celas estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde a busca pela liberdade deixou marcas pelas tempestades das perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Vocês são os veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Louisiana, voltem para as ruas sujas e os guetos das nossas cidades do norte, sabendo que, de alguma maneira, esta situação pode e será mudada. Não se deixem cair no vale de desespero.

Digo hoje a vocês, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades de hoje e de amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraízado no sonho americano.

king 3Eu tenho um sonho de que um dia esta Nação se levantará e viverá o verdadeiro significado da sua crença – nós celebraremos esta verdade e ela será clara para todos, a de que todos os homens são criados iguais.

Eu tenho um sonho de que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão sentar-se juntos, à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho de que um dia, até mesmo o Estado de Mississipi, um Estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o calor de opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho de que os meus quatro pequenos filhos vão um dia viver  numa Nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu carácter. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho de que um dia, no Alabama, com os seus racistas malignos, com o seu governador que tem os lábios gotejando palavras de violência e negação; nesse justo dia, no Alabama, meninos negros e meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Eu tenho um sonho de que um dia todo o vale será exaltado, e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do Senhor será revelada e toda a carne estará junta.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul. Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa Nação  numa bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, encarcerar juntos, defender a liberdade juntos e, quem sabe, seremos um dia livres. Este será o dia, este será o dia em que todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado:

 

“Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde os meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!”

 

E se a América for uma grande Nação, isto tem de se tornar verdadeiro.

E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da montanha de New Hampshire.
Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas de Nova York.

Ouvirei o sino da liberdade nos grandes Alleghenies da Pensylvania.

Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies do Colorado.

Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.

Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra da Geórgia.

Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.

Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.

Em todas as montanhas, ouvir-se-á o sino da liberdade.

E quando isto acontecer, quando nós permitirmos que o sino da liberdade soe, quando nós deixarmos ele soar em toda as moradia e em todos os vilarejos, em todos os Estado e em todas as cidade, nós poderemos antecipar aquele dia em que todas as crianças de Deus, os homens pretos e os homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir as mãos e cantar juntos as palavras do antigo espiritual negro:

 

“Livres, enfim. Livres, enfim.

Agradecemos a Deus, todo-poderoso, somos finalmente livres.”

 

Martin Luther King Jr.
Washington DC, em 28 de Agosto de 1963

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