Cantes e descantes – um

cante cabeça

Nuno PachecoO jornalista Nuno Pacheco, cujas crónicas leio sempre com prazer e proveito, debruçou-se no passado Domingo, no suplemento 2 do Público, sobre um tema da maior relevância. Como sempre.

Agora, foi o caso da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em Um Canto pelo Cante. O assunto interessa-me a diversos níveis, sobretudo como alentejano e como cidadão empenhado nas coisas da cultura, naturalmente incluindo as musicais.PÚBLICO

Merece-me o interessante e oportuno texto de Nuno Pacheco alguns comentários, que aqui desenvolverei. Para já, importa partilhar essa crónica dominical com os leitores do blog, pelo que aqui a reproduzo, com a devida vénia para com o autor e o jornal em apreço.

 canto pelo cante

UM CANTO PELO CANTE

 

Completam-se na terça-feira cinco meses sobre a entrega, no comité internacional da UNESCO, da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade. Isto depois de uma falsa par­tida em Março de 2012, adiada para um necessário amadurecimento do processo. Agora, em Dezembro de 2014 saberemos se o cante terá, nas classificações da UNESCO, e entre centenas de can­didaturas, o mesmo vitorioso destino do fado.

Entretanto, e porque uma candidatura exige que o “candidato” viva e assegure “saúde” no futuro, os promotores agitam-se. Um dia depois da entrega na UNESCO, a 27 de Março de 2013, o responsável  pela candidatura, Paulo Lima, dizia ao PÚBLICO que “muitas pessoas, cantadores, grupos corais, câmaras têm que ser sensibilizados para a impor­tância do que é este momento”. Porque o desafio da candidatura, sendo antigo, só agora começou.

Integrado neste esforço de notoriedade e cer­tificação, o Centro de Estudos Documentais do Alentejo dedica uma boa parte da mais recente edição da revista Memória Alentejana ao cante, em 20 páginas onde se reúnem artigos, ensaios, testemunhos, memórias históricas, assinados por An­tónio Cartageno, José Francisco Colaço Guerreiro, José Orta, João Mário Caldeira, Jorge Moniz, Pedro Mestre, Francisco Lourenço Teixeira, Francisco Torrão, Paulo Ribeiro, Eduardo M. Raposo (direc­tor da revista), com testemunhos de Maria Vitória Afonso e Domingos Montemor e um poema inédito de Urbano Tavares Rodrigues, datado de 13 de Fevereiro de 2012. Lendo-os, ficamos a saber melhor não só o significado do cante como da existência de uma confraria e de uma associação (a MODA) a ele dedicadas. Um mundo de histórias e de vozes.

Recuando no tempo, às recolhas de Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça (lançadas em LP e depois passadas a CD com selo da Strauss/Portugalsom), é curioso reler o que ambos escreveram sobre os cantos alentejanos no volume 4 da série, dedicado ao Alentejo. Depois de assinalar várias reservas e esconjurar os lugares comuns sobre o género, escreveu Lopes-Graça: “Não constituirá acaso grande temeridade o definir o povo alente­jano como sendo o mais ‘musical’ da gente portuguesa – entendendo-se por aí a sua natural capaci­dade para se traduzir e consciencializar em canto, a sua rara espontaneidade mélica, enfim, aquilo a que poderemos chamar a sua temperamental dispo­nibilidade lírica, o que o leva a achar boas todas as ocasiões, todas as horas, para dar largas à sua inata musicalidade. E, porven­tura, mais do que isso: a gravidade que põe no acto de cantar, para ele verda­deiro acto de identificação colectiva, de comunhão espiritual com os do seu sangue e da sua pátria, pa­ra onde quer que vá, onde quer que se encontre. Em roda, os olhos cerrados, expressão concentrada do rosto, o mais das vezes ombro a ombro ou braços com braços em ondula­da movimentação, assim entoam os ganhões alen­tejanos os seus cantos. E é como se cumprissem um antigo e necessário ritual”. Giacometti, por seu turno, notava: “Os textos poéticos, que, na sua tão viva variedade, até nós chegam, traduzem comple­xos específicos nos quais, através dum simbolismo que facilmente se deixa decifrar, se descobrem aspirações profundas, tal como o revelam aquelas quadras chamadas cantigas, que se desenvolvem em torno de motivos essenciais ou se renovam ao sabor dos acontecimentos e que nesta polifonia se­vera encontraram um como que suporte natural.” A isto acrescentava que a “lenta asfixia do canto coral e, mais geralmente, do canto tradicional alen­tejano, chamam a uma tomada de consciência”. O tempo ouviu-o, ainda que tardiamente.

Voltando à revista, cuja leitura se aconselha, o poema de Urbano Tavares Rodrigues ficará como um dos seus últimos textos (o escritor morreu a 9 de Agosto) a chegar a público. Um excerto final crista­liza a imagem que fixou do cante: “Cantam naquele silêncio/ ranchos de trabalhadores/ rurais que so­nham/ um amanhã/ de igualdade/ nos corações das casas/ de terra e pasto/ e a flor da paz/ sorri-lhes/ como só ela/ sabe sorrir na epifania/ na apoteose da luz só.” Por tudo isto, há-de cumprir-se a profecia de José Afonso (em Cantar Alentejano): “Ó Alentejo esquecido/ ‘inda um dia hás-de cantar”. A força do cante impor-se-á pela alma do seu povo.

 

Nuno Pacheco

2 – suplemento do jornal Público

Domingo, 25 de Agosto de 2013

 

 

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