STOP

02035-acordo-ortografico-nao-obrigado

Diretor para o disparate, ou não?
(excecionalmente, o título assume o aspeto linguístico oficial)

 

Estava eu, na tarde da segunda-feira, a ler o mais tranquilamente que era possível o meu diário predilecto (creio que toda a gente que comigo convive pelo blog já percebeu ser o Diário de Notícias), passando as páginas carregadas de temas pouco desejáveis. Logo na capa a notícia da morte de um notável cidadão do qual não percebi a razão do ocultamento curricular da sua antiga função de presidente da Assembleia Municipal de Alter do Chão (não li nem ouvi ainda falar deste desempenho cívico do reputado economista), e o título por onde se ficou a saber que o Estado continua a demolir sistematicamente a sua função social, deste vez retirando o rendimento de inserção a 136 mil antigos beneficiários. Ainda se tivesse sido por fraude…

Depois a rentrée, tal como se costuma chamar ao regresso ao trabalho (!?) das instituições políticas e partidárias, excepto (continuo a ler) os senhores juízes do Constitucional, e logo a seguir outro desastre, este ainda mais terrível, talvez o pior de sempre, os incêndios tradicionais da época, este ano mortíferos como nunca…

Passei a seguir por páginas cheias de quotidiano, “monstruosidades vulgares” como Régio lhes chamaria, e cheguei à tragédia química da Síria, autêntica ou encenada, cometida por quem sabe-se lá, porque é conveniente resistir à tentação das acusações conveninentes e fáceis. Ao lado, a Tunísia e o Egipto completavam a actual desolação islâmica…

Na página 24 estaquei, incapaz de ler e perceber o título de caixa alta: Jovem fotógrafa de 23 anos diz que “vida não para com uma violação”

parar

Vida não é (feita) para violações, pensei, mas o sentido não parecia bater certo… De repente fez-se o tal clic: o que os fulanos do jornal queriam escrever, porque terá sido o que a jovem violada na Índia (mais uma!) efectivamente disse, seria: vida não pára com violação. O acento, ou a falta dele, faz toda a diferença!

Não percebem isto os responsáveis pela direcção do jornal? Não entendem a estupidez de assim ser estropiado o próprio sentido daquilo que, com necessária clareza, desejam colocar nas páginas depois consultadas pelos vulgares leitores?

Não vale a pena continuar a descrição do restante conteúdo, excepto no que respeita às páginas de opinião, independentes, assinadas por personalidades com aparição regular ou pontual. Aqui, felizmente, reina a sensatez. Os três signatários da secção, na segunda-feira, deixaram bem expressa a sua correcta e unânime posição linguística, desprezando convictamente a cretina moda oficial, vulgo: acordo ortográfico.

Porém, ainda mais significativa é a posição de José Bandeira, cartoonista habitual, colaborador permanente do jornal. Ele faz questão de afixar na sua inspirada tira diária uma nota: Este cartoonista não sabe escrever segundo as regras do novo acordo ortográfico.

Bem sei que a vida não pára com uma violação (linguística), mas que é afectada, lá isso é…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

2 thoughts on “STOP

  1. Percebo a predilecção por um jornal diário, seja ele qual for… Mas se és assim tanto contra o denominado “acordo” – e eu estou totalmente de acordo (sem aspas) contigo – não deverias repensar a tua predilecção de fonte informativa?

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