O Álbum de Portugal

1953 aconteceu há sessenta anos.

Portugal, país de brandos costumes (alguém diria mais tarde habitado por um “povo sereno“), era então consagrado ao Imaculado Coração de Maria. Aliás, era o tempo da sagração da Basílica de Fátima, finalmente concluída após demorada construção. Desta diria na época o cardeal Cerejeira, eminência parda do regime, que funcionava como “miraculosa anti-Rússia“…

Era então omnipresente a hierarquia da Igreja Católica, enquanto o país vivia o arranque do I Plano de Fomento, com aposta governamental na industrialização. Nas eleições desse ano para a Assembleia Nacional, o partido único ocupara todas as 120 cadeiras disponíveis, em virtude das insanáveis divisões da Oposição. Tudo pacífico e legal.

Foi solenemente aprovada a Lei Orgânica do Ultramar, nova designação do Império Colonial. Escondeu-se no entanto um terrível massacre acontecido em São Tomé e desvalorizavam-se as “ameaças” da União Indiana sobre Goa, ainda entregues aos pacíficos satyagrahi

1953 aconteceu há sessenta anos, neste país de brandos costumes, habitado por um povo sereno, seguindo as superiores máximas da trindade Deus, Pátria e Família e as orientações de um líder providencial, ao que se diz então apaixonado por uma jornalista francesa. Casada.

 

1953, a fazer fé nas declarações do próprio jornal, foi um “ano triunfal daso século iniciativas publicitárias” de O Século. O diário, que marcou de forma vincada quase 100 anos de vida, entre 1880 e 1977, é uma referência incontornável na imprensa nacional. Gerando no seu seio outros títulos de qualidade (O Século Ilustrado, Vida Mundial ou Modas e Bordados, por ex.), criando invulgares instituições como uma Colónia Balnear que durante décadas trouxe à praia largos milhares de crianças desfavorecidas do interior do país, O Século destacou-se, igualmente, pelos concursos que soube organizar.

No ano em apreço, sob a segura direcção de João Pereia da Rosa, as suas iniciativas neste campo foram O Congresso da Bicharada, Onde está o Gato? e Álbum de Selos do Álbum de Portugal. Este último concurso gerou uma espécie de caderneta autónoma, um folheto de 52 páginas, impresso a uma cor e com capa em quadricromia.

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Trabalho entregue a Gustavo de Matos Sequeira (1880-1962), escritor, dramaturgo, especialista em temas olisiponenses e colaborador do jornal, o Álbum de Portugal consistiu numa divulgação das belezas naturais e monumentais do país, na parte continental. Com óbvias e explícitas intenções de propaganda turística, os valores nacionais, monumentais, paisagísticos, artísticos, climáticos e humanos foram descritos e ilustrados ao sabor da sensibilidade do consagrado autor.

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Assente numa relação ordenada por distritos, a partir de Lisboa e Setúbal, subindo depois pelo litoral até ao Norte, descendo a seguir pelo interior e terminando no Algarve, a organização do álbum inclui um cuidado texto sequencial com adequado complemento fotográfico, sobretudo de arquivo.

Resumo a alusão ao folheto a referências a dois distritos, tendo em vista as terras que mais me interessam, Portalegre, onde nasci e vivi, e Peniche, onde resido.

Começo por Leiria, o distrito que engloba a então vila de Peniche. Entre Santarém e Coimbra, as duas páginas com que a terra do Lis e do Lena foi contemplada incluem 8 fotografias e um desenho de “típico” tema marítimo (nazareno?). A descrição, começando pela cidade capital, Leiria, passa à Batalha e a Alcobaça, de onde segue para Óbidos, Nazaré, Fátima e Pombal, terminando com brevíssima alusão a Pedrógão e Figueiró dos Vinhos. As fotografias correspondem às referidas localidades. Portanto, lendo e relendo, nem uma palavra sobre Peniche. Importante porto de pesca, dotado de magníficas praias e sede de apreciável indústria conserveira, para citar apenas três argumentos incontornáveis, não mereceu Peniche ao elevado critério de Matos Sequeira uma única linha, uma só  pálida imagem…

Tenho para mim uma possível “explicação”. Peniche era, ao tempo, um nome impronunciável, tal como Tarrafal. Sede de uma temida prisão política na sua Fortaleza, não conviria ao regime que qualquer dispensável referência trouxesse ao espírito dos serenos portugueses qualquer desnecessária apoquentação, que perturbasse os pacíficos brandos costumes indígenas.

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Já quanto a Portalegre as duas páginas incluem alargada descrição ilustrada com as 8 “regulamentares” fotografias e o típico desenho de cariz “folclórico” alentejano: o pastor de cajado e safões e a ceifeira. Quanto a alusões, para além da capital do distrito, Portalegre, encontramos Elvas, Avis, Marvão, Flor da Rosa  e Castelo de Vide. As gravuras, logicamente, limitam-se a estas localidades. Como falha que, ao tempo, me parece a mais flagrante citarei Alter do Chão, sobretudo pela sua Coudelaria, então florescente e famosa.  

A descrição da cidade de Portalegre é sumária, embora abrangendo o essencial da sua riqueza patrimonial e da sua beleza envolvente, natural.

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Assim era a ditosa Pátria nossa amada, citação camoneana devidamente assinalada na contracapa do folheto Álbum de Portugal, dado à estampa pelo jornal O Século em 1953.

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Foi há sessenta anos, tempo de duas gerações, quase uma eternidade…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

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