EUSÉBIO – O ARTILHEIRO

É provavelmente uma das qualidades desportivas mais próprias de um dos maiores futebolistas nacionais de todos os tempos. Os pontapés ou as cabeçadas do pantera negra eram mortíferos, tanto na violência como na pontaria, constituindo um dos poderosos atributos de Eusébio da Silva Ferreira.

Mas não é desta artilharia, arma futebolística do fabuloso marcador de golos, que quero falar. A arma é igualmente a artilharia e o seu “utente” é o mesmo, mas falamos de um assunto diferente: exército em vez de desporto.

Comecemos pelo princípio.eusébio e salazar

Em 1962, ensaiava Eusébio os primeiros passos no Benfica, foi-se revelando um temível goleador. Nessa época, ajudou o clube a conquistar o Campeonato e a Taça de Portugal, chegando à final da Taça dos Campeões Europeus que ganhou por 5-3 ao poderoso Real Madrid, assim confirmando o êxito do ano anterior.

Eusébio começou a ser assediado por tentadoras propostas vindas de toda a Europa. A Juventus acenou-lhe com um salário mais de 50 vezes superior ao que o Benfica lhe pagava e o Real Madrid terá igualado tal oferta…

eusébio 11A intervenção do governo de Salazar terá transformado o futebolista moçambicano (Moçambique “tecnicamente” era Portugal…) numa espécie de “monumento nacional”, intocável. Nem foi preciso publicar a “resolução” no Diário do Governo, bastando enviar o cidadão para a tropa. Esta subtileza invalidou de imediato um pré-acordo com os italianos, pois seria impensável o Estado Novo dispensar um seu soldado, ainda por cima para a estranja.

E foi assim que o mancebo Eusébio da Silva Ferreira se tornou o recruta 1987/63 da 1.ª bateria de instrução do RAAF (Regimento de Artilharia Antiaérea Fixa), com quartel em Queluz. Eusébio seria portanto duplamente artilheiro, dentro e fora dos estádios, disparando diferentes munições contra distintos alvos, balizas ao aeronaves, umas e outras preferentemente adversárias…

Enquanto militar, Eusébio chegou a participar em encontros e torneios que, ao tempo, eram jogados com alguma frequência por membros das forças armadas de diversos países. Embora sem dispor da certeza absoluta de que a lista esteja completa, pode recordar-se:

 

Lisboa – 26 de Fevereiro de 1964: Portugal; 7 – Luxemburgo; 1

Luxemburgo – 25 de Março de 1964: Luxemburgo; 3 – Portugal; 3

Porto – 1 de Abril de 1964: Portugal; 0 – França; 0

Nantes – 15 de Abril de 1964: França; 2 – Portugal; 1

Atenas – 25 de Novembro de 1964: Grécia; 1 – Portugal, 1

 

Daquilo que conheço, as mais significativas recordações do militar Eusébio da eusébio 1Silva Ferreira figuram numa pequena brochura especial editada pela Agência Portuguesa de Revistas nesses anos sessenta, dedicada aos que chamou “quatro grandes” do nosso futebol, ou seja, aos que tinham vestido a camisola de uma selecção internacional, europeia ou mundial: Travassos, José Augusto, Simões e Eusébio.

José Travassos (1926-2002) era um futebolista de outra geração, comparado com os restantes, sendo o único que já faleceu. Ainda que hoje algo ofuscados pelo brilho de Cristiano Ronaldo, um astro de outra dimensão e de outro tempo, todos eles foram praticantes de excepção, merecedores de lembrança e de justo destaque.

Torna-se interessante, a diversos níveis, reler o que foi escrito e mostrado nesses anos sessenta, quando a imprensa desportiva se pautava por outros valores e quando os restantes meios de comunicação, nesse campo, quase se limitavam a relatos e outras instantâneas transmissões.

Por isso, devem ser vistos com compreeensão, no “magazine” (assim lhe chamou a editora) Os 4 Gigantes do Futebol Português, alguns curiosos pormenores de uma encenadíssima reportagem: os “bólides” ostentados pelos futebolistas, as suas “proezas” musicais, as suas predilecções “culturais”, os seus “ídolos”…

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Voltemos ao artilheiro Eusébio, razão principal de ser destas linhas. Numa dupla página em quadricromia, o recruta surge em quatro fotografias, devidamente acompanhadas por legendas, tão “espontâneas” quanto as respectivas imagens:

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Eusébio passeando despreocupadamente no campo, depois de sair do quartel;

A primeira coisa que Eusébio fez ao chegar ao estágio da selecção, foi ir à cozinha do hotel “inspeccionar” o pitéu do dia;

O telefone tocou e o íeusébio 10dolo do Benfica atendeu. Uma admiradora, como não podia deixar de ser…;

Eusébio inicia-se na condução de moto, sob as vistas de um colega da tropa.

 

Eusébio da Silva Ferreira foi um praticante a quem o Benfica e o futebol nacional devem páginas de glória e triunfos sem conta.

Naturalmente, o episódio da sua ida à tropa não está isento de controeusébio 8vérsia.

No entanto Manuel Sérgio, a ele aludindo, desvalorizou-o, lembrando que anos mais tarde, já depois do cumprimento do serviço militar, Eusébio veria inviabilizada, por bem diversas razões, uma hipotética ida para o Inter de Milão. O mito, portanto, para o conceituado comentador e ensaísta, foi excessivamente empolado.

Aqui fica patente, pela sua curiosidade, o registo de Eusébio enquanto duplo artilheiro…

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António Martinó de Azevedo Coutinho

Calvet de Magalhães e a Flama – quatro

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Igualdade de oportunidades é tema e título do artigo que o professor Calvet de Magalhães fez publicar na Flama de 19 de Novembro de 1971. Em pleno consulado marcelista e não em plena democracia, lembre-se a diferença. Hoje em dia um texto similar seria realista e talvez demasiado óbvio, quase redundante. Nesses tempos, foi um grito de alerta, uma clara demonstração de coragem cívica e do uso de uma linguagem pouco conforme com as normas de então.

Falar da igualdade como um direito humano e não apenas educacional, criticar o valor do dinheiro como factor de discriminação entre os cidadãos, citar os meios de fortuna como absurda única garantia ou possibilidade de uma formação de nível superior e, sobretudo, exigir uma redistribuição democrática dos recursos públicos, portanto advogar avant la lettre uma revolução estrutural da economia nacional, todo este conjunto de argumentos então expendidos constitui um notável, lúcido e corajoso depoimento.

Quando levianamente alguns democratas de fresca data acusaram em 1974 Calvet de Magalhães de cumplicidades com o Estado Novo, apenas revelavam uma profunda ignorância sobre a sua autêntica personalidade. Confundir os recursos e a lberdade de acção que as autoridades educativas e políticas lhe tenham concedido com uma hipotética compensação pela fidelidade ao regime correspondeu à prática de uma flagrante injustiça. Mas aconteceu…

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Que se releia com a devida atenção um texto publicado há mais de quarenta anos, desenvolvendo reflexões rigorosamante lógicas, mas então silenciadas. E que se considere esta forma de pensar e a sua exposição pública como coerentes manifestações de forte personalidade que as subscreveu.

Em tempos de silêncio e de censura.

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A BOLA – (dois)

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ERA UM REDONDO VOCÁBULO

(NOS TEMPOS EM QUE A BOLA ERA REDONDA)

 

A Flama, na sua edição de 6 de Fevereiro de 1970, há mais de quatro décadas, descreve uma interessante fase da vida do jornal A Bola. Sob o sugestivo título Agora ‘A Bola’ é de Prata, a revista retrata um período áureo da crónica do então tri-semanário desportivo. Ao mesmo tempo, critica as contradições da legislação laboral da época e alude a pequenos “segredos” duma verdadeira equipa e do seu trabalho quotidiano.

Porém, para mim, aquilo que a Flama apresenta de mais significativo é o retrato “de família” do grupo de jornalistas que então redigia e ilustrava a Bíblia, metáfora que ao tempo até seria justa, dada a qualidade doutrinal, formativa, e o respeito pela verdade informativa dos seus relatos.

Com efeito, alguns dos mais respeitados nomes da nossa imprensa desportiva estão ali juntos, numa verdadeira selecção jornalística nacional da época, titulares de uma classe que fez escola, infelizmente hoje residual, quase de arquivo…

O jornal, indepedentemente da sua legítima vocação desportiva, era uma publicação plena de qualidade literária. Ficaram famosas algumas das suas crónicas regulares, escritas numa linguagem formalmente irrepreensível, onde o estilo constituia uma verdadeira lição prática da arte de bem escrever em qualquer suporte. Autêntico manual do mais escorreito português, cada exemplar de A Bola representava uma antologia de qualidade formal, independentemente da sua específica temática.

Em Maio de 1977 conheci Vítor Santos, em Portalegre, onde ele se deslocara em serviço especial do seu jornal, para cobertura de um dos mais belos e decisivos encontros de futebol das crónicas desportivas lagóias: um celebérrimo Desportivo-Estrela de transcendente importância classificativa.

A sua qualidade humana ficou amplamente comprovada, pela carinhosa atenção que dedicou aos jovens alunos da Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, seus “colegas” também “em serviço” nesse encontro de futebol, apesar de profissionalmente se encontrar muito ocupado. As palavras, por ele ditas e gravadas em reportagem ao vivo ou depois escritas no seu jornal, ficaram como testemunho de um homem dotado da rara sensibilidade e da capacidade pedagógica bastantes para incentivar os mais jovens pelo exemplo, simples e prático, contido nessa improvisada mas inesquecível lição.

Como tenciono aqui dedicar a essa Operação Futebol alguma posterior atenção, detatalharei então esse episódio e outros acontecidos a tal propósito.

Por hoje, partilha-se a interessante reportagem de Flama, com destaque para a imagem dos 13 elementos do primeiro “team” de A Bola, tal como os denominou a apreciada revista. Ali figuram, sem exagero, alguns mestres quotidianos da nossa língua.

A reportagem a seguir transcrita é assinada por outro nome consagrado: Joaquim Letria.

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Eles descobriram a receita: três vezes por semana, atiram para a rua mais de uma centena de milhar de exemplares com informação objectiva sobre o desporto nacional e internacional. Sendo os mais viajados da Imprensa portuguesa, recebem salários elevados e alguns são co-proprietários do jornal. Transportam o testemunho duma obra pioneira em Portugal há um quarto de século. Portanto, e não admira…

AGORA ‘A BOLA’ É DE PRATA

“A Bola” é um caso muito especial. É o único jornal do País que conta entre os seus proprietários cinco jorna­listas e um membro do quadro administra­tivo: Vítor Santos, Carlos Pinhão, Alfredo Farinha, Aurélio Márcio e dr. Silva Resen­de (redactores) e Filipe Casquilho Faria (da administração). Cada um deles é titular de quatro por cento do capital social da Socie­dade Viera Desportiva Lda., um sonho há 25 anos tornado realidade por Ribeiro dos Reis, Cândido de Oliveira e dr. Vicente de Melo, actualmente director do prestigioso trissemanário e único sobrevivente do grupo fundador.

 A ÚNICA FORMA VIÁVEL

Quando na Europa as sociedades de re­dactores irrompem com uma vitalidade extraordinária, e são apontadas como única forma viável de garantir a independência das publicações, há alguns anos que na escura e ruidosa Travessa da Queimada funciona uma, embora de moldes distintos das que ultima­mente têm surgido em França.

Um facto curioso (e lastimável) é o de que os únicos homens que podem orgulhar-se de constituir em Portugal uma sociedade de redactores não são considerados oficial­mente, ao contrário do que acontece na maioria dos países, jornalistas profissionais. À face duma legislação incompreensível como a nossa, os jornalistas dos semanários aguar­dam, ainda, a regulamentação do decreto que, se lhes deu o título, não lhes abriu as portas dos respectivos sindicatos.

Mas “os rapazes da Queimada”, os “rapa­zes” da equipa que três vezes por semana atira para a rua um dos mais vivos jornais portugueses, não se preocupam excessiva­mente em ser jornalistas de direito, porque o são de facto. Esta injustiça não impede, também, que os redactores não-societários sejam pagos a um nível superior ao dos seus colegas de alguns dos diários mais pode­rosos.

COBERTURA MUNDIAL

Talvez o leitor não saiba que “A Bola” é lida aos milhares em cidades como Caracas, Toronto, Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires, Paris, Munique, Dusseldorf, Luanda, Lourenço Marques, etc. Mas para que este “prodígio” aconteça, um árduo tra­balho de equipa foi desenvolvido ao longo de anos, sob a dinâmica chefia de Vítor San­tos que “empurrou” a sua Redacção para a maior amplitude de reportagens no es­trangeiro de todos os órgãos de Informação em todos os tempos. Quando, de manhã, uma pessoa lê “A Bola” no eléctrico, não ima­gina nem se preocupa com quanto custou a transmissão de uma crónica e reportagem de duas páginas de um enviado especial no Iraque, Paraguai, México, E.U.A., Equador, ou a cobertura de um enviado especial nas voltas em bicicleta a França ou a Espanha. O leitor, neste caso, só sabe que lê “A Bola” porque traz aquilo que ele quer ler, tenha acontecido onde quer que fosse.

Se, um dia, houvesse que fazer um arresto aos bens materiais de “A Bola”, os fiscais estariam num verdadeiro embaraço, porque nada mais encontrariam para levar do que máquinas de escrever e velhas secretárias. Longe de nós esta imagem, no entanto, pois o trissemanário é um dos jornais mais prósperos da nossa Imprensa. Mas a verdade é que, embora a “equipa da Queimada” sem­pre tenha procurado apresentar um bom jornal, graficamente atraente, nunca se preo­cupou com as aparências: desde a sua fun­dação que “A Bola” tem vivido em andares alugados e é totalmente feita na Sociedade Industrial de Imprensa, proprietária do “Diá­rio Popular”, à qual dá a ganhar alguns mi­lhares de contos por ano.

Também noutro aspecto constitui “A Bo­la” um caso único na Imprensa portuguesa: é o único grande jornal que se dá ao luxo de recusar dezenas de contos de publicidade por semana, porque a Redacção entende que, em primeiro lugar, está o texto para servir os seus leitores – e só depois a publicidade entra no espaço disponível. Esta é uma faceta que lhe permite afirmar, com orgulho, ser um jornal que vive exclusivamente do pú­blico, através das suas tiragens de mais de 100 mil exemplares, três vezes por semana.

Texto de Joaquim Letria

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Então, este jornal desportivo era de prata. Infelizmente, agora é de latão.

E todos ficámos a perder com essa dispensável vulgarização.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Uma data de datas – XLI – Libertação de Paris

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XLI – 25 de Agosto de 1944 – Libertação de Paris

 

No dia 25 de Agosto de 1944, quase há 70 anos (cumprir-se-ão em 2014), rendeu-se de gaulle 1a última guarnição alemã que ocupava Paris. Assim terminava a operação militar que libertou a capital da França, dominada e administrada há anos, desde 1940, pelas forças nazis de Hitler. Momento verdadeiramente histórico, teve para os franceses e os Aliados o significado de uma recuperação há muito ansiada e um sinal claro do final de uma longa guerra.

Com o desembarque acontecido na Normandia no Dia D, 6 de Junho de 1944, as tropas norte-americanas puderam assegurar um avanço vitorioso sobre as terras francesas ainda ocupadas.

Paris era um caso especial, pelo seu carisma de capital, pelo que foram as próprias forças da Resistência Francesa, liderada pelo Comité de Libertação local, que lançaram a iniciativa de um combate rua a rua, esquina a esquina, prédio a prédio, contra os ocupantes alemães. A 19 de Agosto foi lançado um concertado ataque final, que recebeu reforços cinco dias depois, através dos combatentes das Forças Francesas do Interior, logo a seguir da organização França Livre, os partisans, até que chegaram as tropas da 4.ª Divisão de Infantaria dos Estados Unidos da América, já então rodeadas de uma notável popularidade, a partir do histórico desembarque de 6 de Junho e do seu imparável avanço desde então.

de gaulle 2O general Charles De Gaulle, que se tinha exilado em Londres para daí dirigir a Resistência, desembarcara entretanto com os aliados. Dirigia desde então um governo provisório, já em terras francesas.

O comandante alemão da região metropolitana de Paris era, desde há escassos dias, o general Von Choltitz. Ele tinha acabado de receber expressas ordens pessoais do próprio Hitler implicando uma alternativa: defender a cidade com todos os recursos, tendo carta branca para tal, ou destruí-la por completo antes da retirada.

O general tentara um contacto prévio com a Resistência, no entanto infrutífero.  Por isso, na tarde do dia 25, capitulou perante os libertadores, contrariando com sensatez o ultimato hitleriano.

No seu quartel-general em Berlim, Hitler estava desesperado com as notícias da entrada e avanço da Resistência e dos Aliados em Paris, enfurecendo-se. Terá mesmo berrado para o seu colaborador, general Jodl: – Paris já está a arder?

Este episódio, autêntico, deu origem a um romance (Dominique Lapierre e Larry Collins, Ed. Robert Laffont, 1964) e a um filme (real. René Clément, 1966), homónimos.

Em Paris, onde De Gaulle chegaria nesse histórico 25 de Agosto de 1944, aconteceu pelo serão uma cerimónia diante da Prefeitura. Aí, o general e político francês proferiu um emocionado discurso que ficou célebre, aludindo ao sofrimento da capital martirizada pela longa ocupação nazi, mas preconizando o futuro da sua liberdade e autodeterminação.

Eis o seu texto, no original e na íntegra:

Nous sommes ici. Nous sommes ici chez nous dans Paris levé, debout pour se libérer et qui a su le faire de ses mains. Non, nous ne dissimulerons pas cette émotion profonde et sacrée. Il y a là des minutes, nous le sentons tous, qui dépassent chacune de nos pauvres vies. Paris, Paris outragé, Paris brisé, Paris martyrisé mais Paris libéré ! Libéré par lui-même, libéré par son peuple avec le concours des armées de la France, avec l’appui et le concours de la France tout entière : c’est-à-dire de la France qui se bat. C’est-à-dire de la seule France, de la vraie France, de la France éternelle.

No dia seguinte, ele participou na triunfal parada da 2.ª Divisão Blindada Francesa, sob o comando do general Leclerc, desde o Arco do Triunfo atéà catedral de  Notre Dame, pelos Champs Elysées abaixo.

Um dramático e emotivo Te Deum assinalaria a Libertação de Paris, episódio marcante da II Guerra Mundial.

A BOLA – (um)

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ERA UM REDONDO VOCÁBULO

(NOS TEMPOS EM QUE A BOLA ERA REDONDA)

 

1 bola 1Não quero lembrar hoje as imortais criações de Zeca Afonso nem sequer Era um Redondo Vocábulo, por muitos considerada a sua mais inspirada canção.

O mais redondo vocábulo que agora me ocorre é a esférica bola, uma bola especial, A Bola – Jornal de Todos os Desportos.

Sou do tempo do tri-semanário desportivo mais considerado em Portugal, a Bíblia, como era carinhosamente tratado. Isso nada tem a ver -opinião pessoal partilhada por muito boa gente- com o estado a que chegou ou a que foi chegando, parcial, pouco isento, polémico, nivelado por baixo, modesto na forma e sobretudo nos conteúdos.

Conheço o actual êxito da sua página na Internet e do seu canal televisivo, mas também sei que hoje é fácil por ali obter audiências mais ou menos instantâneas, que nada acrescentam em autêntica qualidade ou em consistente mérito aos seus titulares.

As leis da concorrência são implacáveis mas não justificam que se recorra a todos os meios 1 bola 2para atingir qualquer fim, sobretudo na conquista de efémeros, ainda que necessários, volumes de venda e contratos publicitários. A crónica dos mais recentes anos da nossa imprensa desportiva está cheia de casos pouco recomendáveis, onde a ética tem sido desprezada, onde os valores morais são espezinhados, onde a tradição de passados gloriosos é simplesmente esquecida. E A Bola tem sido fértil  em exemplos deste abastardamento, seguindo as pisadas globalmente patentes no universo desportivo onde se insere. Como privilegiado órgão de comunicação, que deveria contribuir para a educação das massas frequentadoras dos estádios e dos pavilhões, não tem sabido utilizar os seus inestimáveis recursos e a influência que ainda lhe resta numa concertada orientação para tal objectivo. Como é evidente, esta crítica não se dirige apenas ao jornal em causa mas a todos os restantes meios de comunicação nacionais virados para o fenómeno desportivo, impressos, televisivos, radiofónicos… Se destaco A Bola é apenas por achar que, pelo seu exemplar passado, lhe cabem 1 bola 3especiais responsabilidades.

Fundado a 29 de Janeiro de 1945, o jornal ganhou rapidamente uma dimensão compatível com o lugar que progressivamente começou a ocupar na imprensa nacional. Era um bi-semanário (segundas e sextas), que depressa passaria a tri-semanário (segundas, quintas e sábados), concorrendo sobretudo com O Mundo Desportivo (segundas, quartas e sextas), fundado também nesse ano e desaparecido na década de 70, assim como com a excelente revista semanal Stadium.

Em Março de 1989 passou a quadri-semanário (com o acréscimo dos domingos), até atingir o ritmo de jornal diário, no ano de 1995, em Fevereiro.

É inegável o papel de A Bola, que iniciou a sua publicação precisamente nos alvores da implantação do profissionalismo no futebol português. A promoção e o desenvolvimento do desporto nacional, particularmente do futebol, devem-lhe muito. Progressivamente, o alcance do jornal ultrapassou fronteiras, ganhando apreciável dimensão junto dos largos milhares de emigrantes espalhados pela 1 bola 6Europa, Estados Unidos da América, Brasil e pelo resto do mundo, não esquecendo as antigas colónias. A partir de certa altura passou a dispor de edições impressas localmente em diversas “sucursais” fora de Portugal continental. Não poderá ser esquecida, portanto, a significativa função agregadora do jornal na diáspora, porque não constitui exagero afirmar que um pouco por todo o lado onde se fala português se lê A Bola

A década de 60 marcou um período de crescimento e implantação do jornal 1 bola 7desportivo, coincidente com alguns feitos do futebol nacional, tais como as duas vitórias do Benfica na Taça dos Campeões Europeus, a do Sporting na Taça das Taças e o brilhante terceiro lugar na selecção no Campeonato do Mundo de 1966. Guardei nas minhas colecções exemplares relacionados com todas essas inesquecíveis datas e ainda hoje, quando os revejo e releio, me impressiona a qualidade e a oportunidade jornalísticas aí patentes.

A fascinante crónica de A Bola começou a ser escrita pela mão das três invulgares personalidades dos seus fundadores: Cândido de Oliveira, Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo.

Aproveitando um antigo título disponibilizado pelo Diário de Lisboa, seu detentor, 1 bola 5eles decidiram à mesa do café lançar um negócio baseado no crescente interesse público pelo desporto, quando se anunciava o fim próximo da Segunda Guerra Mundial. Os três amigos, praticamente da mesma idade, eram diferentes nas suas personalidades mas unidos no sonho e na ambição.

António Ribeiro dos Reis (1896-1961) foi jogador de futebol, dirigente e jornalista, tendo seguido em paralelo uma carreira miltar, de onde se passaria à reserva com a patente de tenente-coronel em 1950. Benfiquista do coração, foi seleccionador nacional de futebol.

Cândido Plácido de Oliveira (1896-1958) era norte-alentejano, nascido em Fronteira. Estudioso do futebol, assumiu sempre posições de grande frontalidade cívica, tornando públicas as suas críticas a Hitler, Mussolini, Franco e Salazar, que o levariam à prisão pela PIDE e ao envio para o campo de concentração do Tarrafal. Foi obviamente demitido dos Correios, Telégrafos e Telefones, onde chegara ao lugar de inspector.

Além de notável praticante desportivo, foi também seleccionador nacional de futebol e treinou a célebre equipa dos “violinos”, no Sporting, além de outras equipas.

Vicente de Melo, nascido em 1987 em Mourisca do Vouga, sobreviveu aos seus amigos, pois faleceria apenas em 1972. Foi empresário e dirigente do Benfica.

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A Bola custava um escudo, dez tostões, a unidade monetária da época, e constituiu um êxito jornalístico quase instantâneo. A sua histórica sede ficava na Travessa da Queimada (antiga Travessa dos Poiais) em pleno Bairro Alto, numa colina de Lisboa, em velho palacete do século XVII, onde estiveram as redacções de outros órgãos de comunicação social, como o Correio da Europa (1902) ou o Diário Ilustrado (1872-1910)…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Patalino, uma glória elvense

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Nunca convivi com Domingos Carrilho Demétrio, o popular Patalino. Mas semprepatalino 4 admirei, nos campos de jogo, a sua forma elegante e mortífera de alvejar com os pés ou com a cabeça as redes contrárias.

Nasceu pobre, jogou descalço com bolas trapeiras contra outros gaiatos pelas ruas de Elvas e aí foi perseguido por zelosos polícias quando isso era “crime” público… Como aconteceu com quase todos nós, nesses “heróicos” tempos.

A invulgar habilidade que o distinguia levou-o, sucessivamente, ao ingresso em diversos clubes da sua terra e -imagine-se- em 1943-44 chegou até a envergar a camisola do Lanifícios de Portalegre, ao que parece apenas em dois ou três encontros. Depois de algumas vicissitudes, ingressou no Lusitano de Évora, onde se manteve entre 1952 e 1956.

No Campo Estrela, o estádio do Lusitano, muitas vezes o vi rematar com sucesso às patalino 5balizas adversárias, fossem do Sporting ou de Benfica…

Chegou mesmo à internacionalização, embora o final da sua carreira futebolista o conduzisse a alguns clubes pouco sonantes, como o Luso do Barreiro e o Arrentela…

Morreu em 1989 e a sua terra natal que -ao contrário de outras- distingue e honra a memória dos filhos ilustres, atribuiu-lhe um lugar na toponímia local, concedeu o seu nome ao estádio da cidade e aí implantou solenemente um busto, que o perpetua como o mais famoso desportista elvense.

Aliás, já desde 1948 que estava “imortalizado” numa biografia ilustrada da autoria do publicista borbense Joaquim Azinhal Abelho (1911-1979), intitulada Patalino: o astro de “O Elvas” (Elvas, Livraria Cybele, Colecção Bordalo Botto).

patalino 6A revista Flama, sempre atenta aos exemplos positivos do espectáculo ou de desporto, por diversas vezes trouxe Patalino às suas páginas.

Aqui fica a reprodução desses testemunhos sobre aquele que foi um dos mais destacados futebolistas alentejanos de todos os tempos. O primeiro, que é o mais significativo, integra uma reportagem da autoria de João Xara Brasil (17 de Junho de 1949), sendo os outros simples apontamentos de referência, aliás positiva, sobretudo para com o exemplo de digna modéstia que Patalino sempre revelou. São relativos a edições de 23 de Março de 1951 e de 24 de Abril de 1953.

Eis portanto Domingos Carrilho Demétrio, Patalino nos estádios, futebolista de eleição nos tempos dum futebol em que os clubes indígenas alinhavam com muito mais portugueses do que sérvios ou sul-americanos nas suas equipas de honra.

Ainda havia, de facto, honra.

E vergonha.

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As Aventuras de um Mundo

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AS AVENTURAS DE UM MUNDO

 

Há dias, em 18 de Agosto, passou uma efeméride, grata na minha infância, que ainda perdura.

mav 2Foi em 1949, eu tinha então 14 anos, que iniciou a sua publicação um dos mais fascinantes jornais de banda desenhada (histórias aos quadradinhos, assim se dizia na época) editados em Portugal. Refiro-me a O Mundo de Aventuras.

Reconheço hoje que ele não foi um modelo de organização nem de coerência. Mudou algumas vezes de formato, de numeração, de estilo e até mesmo de conteúdo, mas trouxe consigo algumas novidades a que não estávamos habituados. Qualquer dia, dedicarei um espaço regular para aqui ir revelando alguns interessantes pormenores dessas crónicas que fizeram daquele jornal um marco mav 3na história da literatura infanto-juvenil portuguesa.

Tendo durado até Janeiro de 1987 (38 anos e meio de vida e quase dois mil exemplares!), não se limitou às suas páginas semanais, pois publicou separatas com construções de armar e cromos para cadernetas, quadros e motivos para emoldurar, concursos, números especiais comemorativos, colecções autónomas (Espaço, Policial, Selecções, Guerra) ou “adjacentes” (Audácia, Grilo, Águia, Tigre, Condor Popular, Ciclone…), almanaques, antologias, álbuns especiais, etc.

mav 4Começou com o modelo clássico, histórias de continuação, mas enveredou depois pela publicação de narrativas completas em cada número. De início, trouxe a novidade da importação de heróis e séries de origem norte-americana, invertendo a prática até aí habitual entre nós, da colheita em fontes europeias, sobretudo francófonas, inglesas e espanholas.

Pertencendo ao grupo editorial da poderosa e polifacetada Agência Portuguesa de Revistas, teve com directores Mário de Aguiar e José de Oliveira Cosme, na sua primeira fase, mais tarde substituídos por Vitoriano Rosa e António Verde.

Tornar-se-ia impossível aqui apresentar a relação completa dos heróis que O Mundo de Aventuras revelou aos seus leitores, mas lembro, entre outros, Príncipe Valente, Red Ryder, Tarzan, Roy Rogers, Brick Bradford, Flash Gordon, mav 5Cisco Kid, Rip Kirby, Mandrake, Kit Carson, Red Cannyon, Johnny Hazard, Fantasma, Julieta Jones, Superman, Louis Ciclon, Gringo, Rusty Riley, Jungle Jim, Big Ben Bolt, Joe Palooka, Popeye, Agente Secreto X9, Garth, Matt Dillon e muitos mais, citando de memória…

Alguns dos criadores nacionais de qualidade colaboraram no jornal, como Vítor Péon, Roussado Pinto, Carlos Alberto Santos, Carlos Roque, José Antunes, Jobat (José Baptista), Jorge Magalhães, José de Matos-Cruz, Augusto Trigo, Catherine Labey, Luís Louro e Eduardo Teixeira Coelho.

Na linha de certa irregularidade que caracterizou a sua publicação, O Mundo de mav 6Aventuras estreou-se com um formato de grandes dimensões, que iria progressivamente reduzindo em sucessivas fases posteriores, revelando também alterações nas cores usadas, na capa e no miolo, assim como no próprio número de páginas. Apenas não alterou o ritmo semanal da publicação, excepto na conturbada fase final…

Enfim, recuperando uma efeméride que apenas não registei no dia exacto para não perturbar uma edição regiana em duas partes, aqui fica uma primeira evocação da saudosa memória de um jornal que -sem qualquer margem para dúvidas!- nos ajudou, a mim e aos da minha geração, a sermos o que somos.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho