PORTALEGRE – e agora?

As eleições autárquicas em Portalegre vistas de fora

 

ptgAgradaram-me globalmente os resultados das eleições autárquicas em Portalegre.

Ao nível local, no concelho de Portalegre, ficou comprovada uma íntima convicção, a de que a Democracia não se esgota nos partidos políticos, bem pelo contrário. O Povo, onde reside a tal enorme -e cada vez maior- maioria silenciosa, fez calar o mando dos responsáveis partidários e sancionou a sua miopia.

Portalegre é, a nível nacional, uma insignificância, mas o Porto conta e de que maneira….

Ao nível distrital, inserindo o Norte Alentejano no contexto do Grande Alentejo, verificou-se a confirmação da tese que aqui tenho defendido com frequência: somos diferentes. Em todo o restante território a que convenciona chamar Alentejo, o domínio socialista e comunista é absoluto, salvo uns raros independentes, pela primeira vez. No Norte Alentejano, há saudáveis excepções a tal uniformidade. Porém, esta excepcionalidade também encerra outra, a de que os sociais democratas, que aqui conseguiram resistir ao tsunami rosa e vermelho, não têm qualquer representatividade nas edilidades das três cidades do Norte Alentejano. Em 21 cadeiras não ocupam uma única!

A nível nacional, fiquei confortado com a demolidora derrota sofrida pelos actuais detentores do poder. O seu autismo, a sua subserviência aos poderes da estranja e a sua óbvia incompetência foram severamente penalizados. Saberão entender a lição? Duvido.

 

Volto à minha terra. A vitória absoluta de Adelaide Teixeira é o merecido resultado de uma vontade férrea, da determinação e da inteligência e nasce da sua rejeição aos caprichos partidários. É a supremacia da independência pessoal sobre as cangas colectivas.

Mas quase nada significará se for mantida a cinzenta e equívoca governação anterior, que tem conduzido Portalegre para o abismo da desqualificação.

São diferentes os dados, pois a presidente é-o agora por uma clara aprovação popular e não pela simples sucessão dinástica. Porque conta com um fiel aliado na própria freguesia citadina. Porque pode aproveitar (e espero que o saiba fazer) a inegável excepcionalidade dos dois ex-cabeças de outras listas, com estes valorizando um elenco autárquico carente de recursos humanos qualificados. Porque, para o futuro, não estará bloqueada pelos resíduos da desastrada linha governativa anterior, assim evitando a repetição de idênticos erros e encetando um período de recuperação, lento mas seguro.

Impõe-se para isso uma ruptura -absoluta- em Portalegre e apetece-me a este propósito citar os revolucionários do Maio de 68, naquilo que os orientava:

 

·         Sejam realistas, exijam o impossível!

·         A imaginação ao poder.

·         A revolução tem de ser feita nos homens antes de ser feita nas coisas.

·         O sonho é realidade…

 

Os meus votos para o percurso próximo da cidade e concelho de Portalegre concentram-se no desejo -único- do início de uma nova era, que já tarda. O bom senso, o equilíbrio e a força colectiva de uma comunidade poderão operar o milagre, que tem de ser desencadeado a partir de uma renovada edilidade.

As condições são de excepcionalidade, apesar de crise, e esta não pode servir de desculpa para tudo.

Portalegre vai erguer-se a custo do pântano onde tem sobrevivido ou afundar-se-á sem remédio. A diferença reside na vontade dos portalegrenses, criada e mantida pela edilidade em que acabam de depositar um inequívoco crédito de confiança.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Portalegre na História e na Lenda… – Lenda de Arronches

lenda e história

II – Uma lenda de Arronches

lendas 0 001Em 2002/2003 o jornalista José Viale Moutinho elaborou para o Diário de Notícias um trabalho inserido na Literatura Popular Portuguesa, recolhendo por todo o país um notável conjunto de lendas, depois publicado no jornal. Entre mais de três centenas de textos, cuidadosamente tratados, seleccionei os quinze relativos a outros tantos Concelhos do Distrito de Portalegre. Portanto, e pela sua ordem alfabética, serão recordados esses textos, ilustrados por Francisco Lança e Joana Imaginário.

Depois da lenda relativa a Alter do Chão, aqui fica hoje a de Arronches.

lendas 2 arronches 001

Peniche – Pormenores – XXVIII

Peniche Porm

XXVIII – Peniche em 1979 (nove e último)

 

Proximamente, tal como agora foi feito com esta evocação de 1982, aqui será abordado o conteúdo de um outro suplemento também dedicado a Peniche pelo jornal O Primeiro de Janeiro, em 27 de Novembro de 1979“.

Foi esta a “promessa” aqui deixada e agora cumprida, após os últimos oito “capítulos” dedicados ao referido suplemento, recheado de motivos “retrospectivos” de interesse.

Num balanço global, parece ter sido um trabalho empenhado por parte do grupo de redactores do jornal nortenho, ainda que apenas conste o nome do jornalista Sérgio Mourão, provavelmente coordenador da equipa.

peniche turismo 0O título/estribilho global que encima todas as páginas –Peniche A Ponta mais Ocidental da Península– constitui um bem intencionado mas panfletário slogan… Com efeito, qualquer menino com uma escolaridade normal sabe da Geografia pátria que a ponta mais ocidental da Península e da Europa não é o Cabo Carvoeiro mas o Cabo da Roca. Assim nos dizem as coordenadas da longitude de ambos os lugares: 9º 24′ 32” W para o primeiro, 9º 29′ 54” W para o segundo, o que equivale a dizer que a Roca bate o Carvoeiro por uns 5 graus bem medidos!

Observando as gravuras ilustrativas, 14 no total, nota-se nas que retratam a Peniche daquela época algumas nítidas e lógicas diferenças, em relação aos mesmo locais na actualidade. Apenas 4 delas se relacionam directamente com o mar, o que se explica pela grande diversidade de temas que os textos ilustrados abordam.

É considerável o volume publicitário incluído. Dos 15 blocos patentes, todos de dimensão apreciável, apenas 2 se referem a empresas alheias a Peniche, ambas de Lisboa, porém executando obras relacionadas com a comunidade, então ainda vila. Quanto à temática predominante nos blocos publicitários locais, sobressai directa ou indirectamente o mar, em 10 dos 13 contabilizados.

Resta abordar um dos anúncios, o de maior destaque, precisamente o da Comissão Municipal de Turismo de Peniche, em meia página.

peniche turismoÉ interessante analisá-lo naquilo que tem de mais interessante. Antes do mais, contrasta no seu tom de franco optimismo -“é, com justificadas razões, uma das terras mais progressivas do País“- com as declarações, realistas e prudentes, do presidente da mesmíssima autarquia que aqui subscreve esta afirmação.

Depois, o texto descreve de forma consistente as características e recursos locais, em termos de oferta turística, abordando de forma integrada o porto de mar, o pescado, as fábricas de conservas de peixe, os estaleiros de construção naval e as oficinas auto-mecânicas, passando depois à indústria artesanal das rendas de bilros e ao ensino/educação disponibilizado pela comunidade.

A relação costa/clima justifica a alusão ao lazer de veraneio, abordando a qualidade das praias sobretudo Baleal, Consolação e S. Bernardino. Não falta a indicação/promoção de um dos maiores e mais modernos parques de campismo nacionais diponibilizados.

Finalmente, com a descrição da Berlenga fica completo e espaço publicitário virado para a divulgação turística da Peniche na alvorada dos anos 80.

Como é evidente, devemos considerar como lógico complemento destas sumárias indicações alguns dos textos constantes do mesmo suplemento, como é o caso das referências ao riquíssimo património construído, sobretudo o religioso, do concelho.

Podemos também anotar algumas incoerências ou contradições nesta análise comparada (veja-se o caso da inexistência de um parque hoteleiro, por exemplo), sendo o balanço global, no entanto, aceitável e positivo.

Como seria hoje diferente a argumentação usada!

Os fortes motivos de atracção hoje disponíveis (provas desportivas, como a Corrida das Fogueiras, ou eventos religiosos e populares, como os Círios ou a Festa do Mar, por simples exemplos), onde avulta o “ex-libris” em que se transformou o surf, fenómeno certamente ainda impensável naquelas épocas, fazem hoje de Peniche um pólo económico/turístico bem diverso, para muito melhor, do existente nos tempos do suplemento de 1979…

 

Aqui ficou patente uma já longa abordagem aos arquivos. Mas como estes não ficaram esgotados, em próxima oportunidade voltaremos a uma Peniche de outras eras.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Uma data de datas – XLVI – José de Oliveira Cosme

datas

XLVI – 29 de Setembro de 1906 – Nasce José de Oliveira Cosme

 

José de Oliveira Cosme merece o cognome de “o homem dos sete instrumentos“. Nascido a 29 de Setembro de 1906 em Almoçageme, Colares, Sintra, bem cedo dominou os segredos da guitarra e integrou por isso diversas orquestras ligeiras. Chegou mesmo a participar no filme A Severa, de Leitão de Barros.

Com muito jeito para a escrita criativa, com agora se diz, produziu programas radiofónicos e colaborou em diversos jornais, sobretudo infanto-juvenis, entre os quais O Senhor Doutor, Rim-Tim-Tim e, sobretudo, ABC-zinho. Aqui, foi responsável pela criação de uma das suas personagens mais populares: o detective Metonarizentudo.

A convite de Mário de Aguiar foi chefe de redacção e logo depois director de um dos mais importantes semanários de BD nacionais, O Mundo de Aventuras.  Seria promovido a director literário da poderosa Agência Portuguesa de Revistas. Neste lugar, teve decisiva intervenção na edição de sucessivos títulos de êxito deste grupo de publicações, como Condor, Condor Popular, Rato Mickey, Tigre, Policial, Espaço, Guerra, Selecções, Tarzan, Roy Rogers e outros.

Fez parte do restrito grupo que, sob a forma de Comissão, preparou e oficializou nos anos 50 um diploma censório dirigido à Literatura Infantil, particularmente à banda desenhada. Isso acarretou-lhe algumas justas críticas, sobretudo da parte de um considerado jornal da especialidade, O Mosquito, que ficou arredado dessa responsabilidade.

cosme dois

Escreveu, sob diversas dedicatórias, alguns romances policiais.

Outra intervenção de Oliveira Cosme pouco conhecida respeita à coordenação de muitas cadernetas de cromos de grande sucesso, que criou ou adaptou, redigindo por vezes os seus textos.

Polivalente, a sua mais perene intervenção no mundo da comunicação social diz respeito a uma série que teve até agora versões em diversas modalidades, rádio, televisão, imprensa escrita e desenhada, teatro, etc. Trata-se de As Lições do Tonecas, aventuras de um cábula espirituoso e do seu (im)paciente mestre.

cosme quatro

Sob a forma de diálogos radiofónicos, esta carismática dupla estreou-se aos microfones do antigo Rádio Clube Português, em 9 de Julho de 1933, com uma frequência dominical que depressa passaria para dois dias por semana, como resposta a um êxito quase instantâneo e crescente. Um jovem e talentoso actor que faleceria pouco depois, Henrique Samorano, desempenhava então o papel de Tonecas, enquanto o professor era protagonizado pelo próprio Cosme.

O texto das diversas lições, arrumadas tematicamente, seria publicado em volumes da Colecção Pequenina, editada pela Empresa Literária Universal, obras que tiveram sucessivas tiragens. As capas originais procuraram “retratar” o próprio autor, no papel do mestre. Mais tarde, outras editoras patrocinariam novos relançamentos da obra. Tonecas seria intérprete de outros diálogos humorísticos noutros cenários ou situações, fora da sala de aulas, como o barbeiro ou o dentista.

cosme um

O Mundo de Aventuras publicaria uma sua adaptação sob a forma de banda desenhada, com bonecos de fraca qualidade da autoria de José Antunes, e mais recentemente, em 1996, a televisão (RTP) popularizaria ainda mais esta já “clássica” relação escolar entre um professor e um menino tão cábula como simpático e comunicativo. Quase todos os espectadores se lembrarão ainda dos protagonistas, Luís Aleluia e Morais e Castro, este também já falecido.

cosme três

José de Oliveira Cosme manteve sempre uma modesta discrição, ainda que a sua polivalência tivesse provocado uma positiva e popular intervenção cultural cujos efeitos permaneceram ao longo das diversas gerações.

Um seu filho, Raul, ainda ensaiou prosseguir a carreira literária do pai, sem no entanto atingir o mesmo invulgar e quase enciclopédico sucesso.

José de Oliveira Cosme morreu em Lisboa, onde residia, a 11 de Maio de 1973.

 

Os jornais também se abatem

ESTA CRÓNICA É DE MORTE (ANUNCIADA)

 

O Diário Popular foi um dos vários vespertinos nacionais outrora em voga, hoje todos desaparecidos.

Lisboeta e diário, nascera em 1942, tinha uma distribuição nacional e chegou a DP fim 6atingir grandes tiragens. Foi mesmo pioneiro no campo da reportagem, onde fez escola. Ficaram célebre as narrações “ao vivo” da erupção do vulcão dos Capelinhos, em 1957, ou da tomada de Goa pela União Indiana, em 1961-62. Também ficou ligado a eventos e iniciativas de sucesso como as noivas ou as marchas de Lisboa. Foi o primeiro órgão de comunicação social a dispor de um suplemento regular dedicado à informática, o Bit-Bit.

DP fim 2Alguns erros de gestão, sobretudo o imposto pelo Governo ao separar a lucrativa tipografia do então deficitário jornal, conduziram à extinção do Diário Popular.

Pelo jornal passaram alguns nomes famosos da imprensa nacional, como Urbano Carrasco, Fernando Correia, José de Freitas, Maria Antónia Palla, Acácio Barradas, Adelino Cardoso, Jacinto Baptista, Luís de Forjaz Trigueiros e muitos outros.

DP fim 1No dia 28 de Setembro de 1991, precisamente há 22 anos e era também um sábado por mera coincidência, foi publicado o derradeiro número do jornal, após meio século de vida. Não me lembro de situação similar acontecida com qualquer outro título em que o fim fosse tão tranquilo, quase uma espécie de morte assistida, de assumida eutanásia.

Com efeito, em função do desenrolar da operação de desmantelamento da empresa, a expectativa não englobava qualquer tipo de surpresa ou alternativa. O Diário Popular apagou-se tranquilamente ou, melhor, apagaram-no…

Daí que, quase estranhamente ou talvez não, o conteúdo do último número não DP fim 3integre qualquer palavra de despedida, de revolta, de promessa, de saudade, por parte dos responsáveis editoriais ou administrativos.

A capa seria o único sinal visível do fim, não fora a “indiscrição” de um simples colaborador, Bernardo de Brito e Cunha, signatário de uma coluna regular intitulada Crónica de BBC.

A capa reproduz “telegraficamente” o ofício há dias recebido da Gerência onde era contida a “sentença”, sem recurso: suspensão da publicação do Diário Popular a partir da edição de sábado, 28 de Setembro de 1991.

Vale a pena ler o texto de um jornalista “incómodo“, ainda por cima encimado por um título que não engana: Esta crónica é de morte.

Ironicamente, com uma simples mudança de umas vírgulas, um ou outro acerto em nomenclaturas e ligeiras correcções nos contextos, o artigo serve para explicar o que tem acontecido, agora mesmo, com uma infinidade de empresas nacionais.

Não é tristemente verdade?

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Adenda – Fui correspondente do Diário Popular em Portalegre. A partir de 1986 e praticamente até ao fim do jornal, desempenhei essas funções. Para ser sincero, não guardo daí grande memória ou qualquer orgulho pessoal. Nem chego a considerar o facto como merecedor de uma especial citação curricular…

Vivia por esses tempos inciais o entusiasmo da construção do Fonte Nova, DP fim 5colaborando com o Aurélio Bentes nesse aliciante projecto, o de um novo jornal na nossa terra. Estava portanto no seio das notícias e muitas para Lisboa enviei, na convicção do interesse geral do acontecimento narrado. Em vão ou quase. Quase não recordo as raras vezes em que, entalado num perdido cantinho (da província…) no grande jornal lisboeta, surgia, transformado em lacónica súmula, o meu bem intencionado labor. Fui percebendo que a dimensão da notícia tinha dois pesos e duas medidas, o que até era racional. Pelo menos vista do lado de lá.

Fui rareando os meus envios. Em 1988, recebi do então director do jornal -o prof. José Hermano Saraiva, imagine-se!- o ofício que reproduzo. Significava, a meu ver, uma aproximação dos tais “desavindos” critérios, o nacional e o regional.

DP fim 4

Voltei a enviar as minhas notícias, mas o “superior” acolhimento não revelou qualquer sensível alteração… Desisti.

Quando o jornal desapareceu, não senti qualquer especial emoção.

Mas lamentei, continuo a lamentar, o significado da perda das vozes livres que possam denunciar as incompetências, os caprichos, as prepotências e os abusos de todos os poderes, o da política, o da justiça, o da polícia, o da corrupção, o do crime, o da imprensa, o das redes sociais, o da sociedade em geral…

 Quando um jornal verdadeiramente autónomo morre ficamos todos mais desprotegidos.

 

 

Saborzinho achocolatado – quatro

título geral

IV – Doces e reais segredos

 

Os dois números seguintes do ABC-zinho não dedicam capas ou contracapas à série publicitária da empresa SIC. Porém, o 5 (19 de Dezembro de 1921) e o 6 (2 de Janeiro de 1922), incluem nas suas páginas interiores duas curtas historietas, assinadas por Albino, propositadamente concebidas para publicitar os chocolates e os bombons SIC. Registe-se que a capa do 5 é preenchida por uma singelo presépio, desenhado por Cottinelli, onde o Menino, precocemente, lê o ABC-zinho… A do 6 mostra um crocodilo, entre um boião de cola e uma tesoura, assim dando conta de se tratar de uma construção para armar, de papel, alusiva a uma colecção de bichos entretanto publicada em separata.

Ambas as contracapas foram ocupadas por uma outra assídua participação publicitária, a da casa Damião & C.ia, na Rua Garrett, 59, especializada em moda infantil.

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Voltando aos chocolates SIC, Albino é, nem mais nem menos, um pseudónimo de Stuart Carvalhais, que já dispunha de colaboração desde o primeiro número, com duas pequenas bandas desenhadas: O limpa chaminés e O trombone mágico. A historieta do n.º 5 é sobretudo a descrição do quotidiano, em dia de Natal, de um vulgar burguês: ler de manhã o ABC, o ABC a Rir e o ABC-zinho (mais publicidade às três edições do grupo), seguindo-se o banho, um pouco de ginástica, um breve percurso de trem (o táxi da época) e um chocolate SIC bebido (com agradável companhia!) em elegante pastelaria…

Já a banda desenhada do n.º 6 é mais “profunda”, com certo enredo que ultrapassa a simples sucessão cronológica anterior: o senhor Justiniano Simplício Taumaturgo da Costa resolve o magno problema da prenda de Ano Novo a ofertar à sua noiva, D. Rubicunda Formosina Engrácia da Silva Gama, através de uma caixa de chocolates e de um embrulhinho de bombons da… SIC!

A História do Chocolate, narrada através dos quadros históricos, continuou após esta breve interrupção, no n.º 7, que desprezou D. Sancho II e D. Dinis, preferindo-lhes o Bravo, Afonso IV. O texto diz que este serenava o seu mau-humor mal via um bombonzinho da SIC.

 Logo depois, a capa do oitavo exemplar do ABC-zinho, em 6 de Fevereiro de 1922, revelava Inês de Castro, deliciada com a degustação de bombons, sem dar conta da chegada dos seus matadores. A também “deliciosa” quadra que lhe serve de legenda relata, em estilo “camoneano”:

Estavas Linda Inês, posta em socêgo,

Da SIC mastigando o bom bombom

Quando os brutos, co’as facas da cosinha

Te mataram, p’r’ali, sem tom nem som

O número 9 é relativo ao Carnaval. Não traz o quadro histórico mas dedica a capa à SIC. A figura de um prestigitador (!?), com um fantoche na mão, de cartola, bengalim e rosa ao peito, tendo um passarinho pousado numa orelha, diz:

Depois do ABC-zinho a melhor coisa que há são os Bombons da S.I.C.  Experimentem.

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Na quinzena seguinte (o jornal tinha então este ritmo de publicação), a capa traz a continuação do triste episódio anterior, com a exemplar execução dos criminosos: O verdadeiro castigo dos assassinos de D. Inês foi este! Amarrados diante de uma explêndida caixa de bombons da S.I.C. sem lhe poderem chegar, morreram afogados na água que lhes cresceu na boca! Coitadinhos!

A mordaz ironia de Cottinelli Telmo transforma essa dupla alusão à tragédia histórica numa engenhosa paródia susceptível de cabalmente servir os seus objectivos publicitários.

Por uma imagem de outra fonte sei que o n.º 11 integra na sua capa a referência a  D. Fernando. E, a propósito, o “cronista” Telmo lembra-nos que ainda mais formosos do que o monarca são os chocolates SIC!

4c

Um hiato no 12, também inexistente na minha colecção pessoal é compensado pela ausência de quadro histórico.

O número 13, relativo a 17 de Abril de 1922, mostra-nos na contracapa Nuno Álvares Pereira em Aljubarrota, acrescentando-lhe o “segredo” da vitória:

Força D. Nuno. Com o chocolatinho da S.I.C. que tomamos
temos Aljubarrota ganha pela certa!

Assalta-me aqui uma dúvida. Disponho da contracapa original, colorida a vermelho. Porém, na página 44 da obra A Banda Desenhada Portuguesa 1914-1945 (Fundação Calouste Gulbenkian/Centro de Arte Moderna, 1997), assim como no suplemento já aqui referido, os autores reproduzem esta mesma imagem colorida a amarelo. Além disso diferem no cabeçalho, inexistente no exemplar que possuo. Tratar-se-á de um erro de impressão, de um retoque digitalizado ou terá mesmo existido uma outra edição do jornal?

De notar (efeitos de uma reforma ortográfica?) que a palavra crianças substitui a anteriormente escrita creanças.

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Não possuo o exemplar imediato, o 14, sobre o qual outras fontes consultadas me esclarecem ser D. Henrique, o Navegador, o tema escolhido para o quadro histórico. Nova questão pode ser aqui levantada, pois, ainda que se notem 4d1algumas características peculiares do estilo de Cottinelli Telmo, o quadro revela um sombreado pouco compatível com a habitual “linha clara”. No entanto, também ali não é fácil vislumbrar o traço dos então habituais ilustradores do ABC-zinho, em particular Rocha Vieira, Stuart/Albino, Emmérico Nunes, Alfredo Morais ou Filipe Rei… Fica alguma dúvida sobre a indiscutível identidade do autor do quadro histórico sobre o infante D. Henrique.

Quanto à legenda, não é das mais criativas, pois apenas descreve uma nau carregada de produtos SIC, revelando o infante num “medalhão”, a um canto.

Já o seguinte quadro, na contracapa do n.º 15, revela-nos um pormenor desconhecido da cultura do rei Eloquente. E mostra-nos, ainda, um raro recurso a balões que Cottinelli usou neste cartoon, atribuídos a um gato e um canário (!?). D. Duarte, para quem não sabia, foi autor de uma obra intitulada A História do Chocolate desde a Fundação do Planeta...

No exemplar de 19 de Junho de 1922, o 16, a História do Chocolate (a do ABC-zinho, claro!) lembra a produção legislativa de Afonso V. E diz a propósito:

D. Afonso V, o Africano. Entre outras coisas publicou as Ordenações Afonsinas onde ordenava que se comesse o chocolate da S.I.C., de manhãzinha, à tardinha e à noitinha! Que bom senso!

4e

Eis uma Constituição muito pragmática. E dietética!

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Uma rebelde plebe…

UM JORNAL INCÓMODO

A Plebe, um antigo semanário portalegrense que se publicou entre 1896 e 1932, com 1742 números, foi um dos títulos mais significativos da imprensa da cidade, em todos os tempos.

António Ventura, na sua oportuna e bem documentada obra Publicações Periódicas de Portalegre (1836- 1974), fornece-nos uma súmula muito interessante sobre o que foi a agitada vida de um jornal local que, depois de percorrer várias tendências políticas, acabou por se assumir como um baluarte republicano em pleno Estado Novo.

É notabilíssimo o elenco das personalidades que o dirigiram ou colaboraram nas suas páginas, ao longo dos 36 anos de publicação de A Plebe. Sem esgotar a lista, basta lembrar João Caldeira Rebollo, António José Lourinho, Adriano Tapadinhas, José Frederico Laranjo, Júlio César Cassola, padre José Sequeira, poeta José Duro, Carlos Bello Moraes, Francisco Tello Gonçalves, Jorge Frederico Velez Caroço, Severino Sant’Ana Marques, António Bentes de Oliveira, Tude de Souza, Apolino Marques, Manuel Subtil, João de Brito, Luiz Gomes, Francisco Ribeiro, João Camoezas, Galiano Tavares, Armando Neves, António Ferro, Teófilo Júnior, Casimiro Mourato ou Florindo Madeira (Pai)… Basta lembrar estas figuras locais para se dispor duma referência segura sobre a sua qualidade e também sobre a sua importância no contexto portalegrense, regional e mesmo nacional.

O semanário criou e desenvolveu uma interessante iniciativa, a edição irregular de um suplemento intitulado Álbum da Plebe, dedicado a uma figura, acontecimento ou localidade, sobretudo da região. Foram 20 os suplementos publicados, entre 1898 e 1902.

album plebe

Muito sumariamente, agora apenas evoco de passagem o jornal A Plebe, por ter passado ontem uma efeméride que desejo registar, pelo seu interesse. Voltarei em breve ao tema.

Em 1926, tinha acontecido a revolução de 28 de Maio, um golpe de Estado militar chefiado pelo general Gomes da Costa, a partir de Braga, que instaurou uma ditadura liderada pelo Exército. Em Junho, um novo golpe deixaria o general a assumir, só, o poder em Portugal. Logo no mês seguinte, repete-se a cena, sendo Gomes da Costa destituído e substituído pelo seu camarada de armas António Óscar Carmona. Foi esta a génese do Estado Novo.

A 22 de Setembro de 1926, o jornal A Plebe recebeu da parte da Comissão de Censura o ofício em que lhe são indicados os condicionalismos futuros, em termos das restrições, noticiosas e não só, a que as severas regras obrigarão. Numa clara atitude de rebeldia e até de provocação, a Redacção decidiu unilateralmente suspender a sua publicação, “em homenagem às suas velhas tradições de jornal liberal  e em respeito aos direitos de cidadão livre dos que a compõem“.

Mais acrescentou que pretendia “não se sujeitar a tal situação, que é um cúmulo“. E termina: “E se hoje se publica A Plebe é para comunicar a deliberação aos que com ela têm que ver e para se despedir dos seus leitores até um dia em que a Imprensa possa ser uma coisa digna desse nome“.

Isto foi escrito na edição do dia 26 de Setembro de 1926, num jornal com três dezenas de anos de existência, em Portalegre. Aqui fica a reprodução do histórico exemplar, uma simples folha com o verso preenchido por publicidade, também interessante. O episódio, sinal claro da coragem cívica e da dignidade de alguns resistentes, fez ontem 87 anos…

plebe suspensa 1

plebe suspensa 2

 

Durou quase um ano a resistência. Os republicanos portalegrenses sentiam em cada dia a necessidade de voltar a dispor de um órgão de opinião. Assim, no dia 14 de Setembro de 1927, ainda sob a mesma direcção, foi publicado o n.º 1562.

Mantinha-se então, mais férreo, o regime de censura. Faltaria ainda muito tempo para a Imprensa voltar a ser “uma coisa digna desse nome“…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho