Saborzinho achocolatado – quatro

título geral

IV – Doces e reais segredos

 

Os dois números seguintes do ABC-zinho não dedicam capas ou contracapas à série publicitária da empresa SIC. Porém, o 5 (19 de Dezembro de 1921) e o 6 (2 de Janeiro de 1922), incluem nas suas páginas interiores duas curtas historietas, assinadas por Albino, propositadamente concebidas para publicitar os chocolates e os bombons SIC. Registe-se que a capa do 5 é preenchida por uma singelo presépio, desenhado por Cottinelli, onde o Menino, precocemente, lê o ABC-zinho… A do 6 mostra um crocodilo, entre um boião de cola e uma tesoura, assim dando conta de se tratar de uma construção para armar, de papel, alusiva a uma colecção de bichos entretanto publicada em separata.

Ambas as contracapas foram ocupadas por uma outra assídua participação publicitária, a da casa Damião & C.ia, na Rua Garrett, 59, especializada em moda infantil.

4a

Voltando aos chocolates SIC, Albino é, nem mais nem menos, um pseudónimo de Stuart Carvalhais, que já dispunha de colaboração desde o primeiro número, com duas pequenas bandas desenhadas: O limpa chaminés e O trombone mágico. A historieta do n.º 5 é sobretudo a descrição do quotidiano, em dia de Natal, de um vulgar burguês: ler de manhã o ABC, o ABC a Rir e o ABC-zinho (mais publicidade às três edições do grupo), seguindo-se o banho, um pouco de ginástica, um breve percurso de trem (o táxi da época) e um chocolate SIC bebido (com agradável companhia!) em elegante pastelaria…

Já a banda desenhada do n.º 6 é mais “profunda”, com certo enredo que ultrapassa a simples sucessão cronológica anterior: o senhor Justiniano Simplício Taumaturgo da Costa resolve o magno problema da prenda de Ano Novo a ofertar à sua noiva, D. Rubicunda Formosina Engrácia da Silva Gama, através de uma caixa de chocolates e de um embrulhinho de bombons da… SIC!

A História do Chocolate, narrada através dos quadros históricos, continuou após esta breve interrupção, no n.º 7, que desprezou D. Sancho II e D. Dinis, preferindo-lhes o Bravo, Afonso IV. O texto diz que este serenava o seu mau-humor mal via um bombonzinho da SIC.

 Logo depois, a capa do oitavo exemplar do ABC-zinho, em 6 de Fevereiro de 1922, revelava Inês de Castro, deliciada com a degustação de bombons, sem dar conta da chegada dos seus matadores. A também “deliciosa” quadra que lhe serve de legenda relata, em estilo “camoneano”:

Estavas Linda Inês, posta em socêgo,

Da SIC mastigando o bom bombom

Quando os brutos, co’as facas da cosinha

Te mataram, p’r’ali, sem tom nem som

O número 9 é relativo ao Carnaval. Não traz o quadro histórico mas dedica a capa à SIC. A figura de um prestigitador (!?), com um fantoche na mão, de cartola, bengalim e rosa ao peito, tendo um passarinho pousado numa orelha, diz:

Depois do ABC-zinho a melhor coisa que há são os Bombons da S.I.C.  Experimentem.

4b

Na quinzena seguinte (o jornal tinha então este ritmo de publicação), a capa traz a continuação do triste episódio anterior, com a exemplar execução dos criminosos: O verdadeiro castigo dos assassinos de D. Inês foi este! Amarrados diante de uma explêndida caixa de bombons da S.I.C. sem lhe poderem chegar, morreram afogados na água que lhes cresceu na boca! Coitadinhos!

A mordaz ironia de Cottinelli Telmo transforma essa dupla alusão à tragédia histórica numa engenhosa paródia susceptível de cabalmente servir os seus objectivos publicitários.

Por uma imagem de outra fonte sei que o n.º 11 integra na sua capa a referência a  D. Fernando. E, a propósito, o “cronista” Telmo lembra-nos que ainda mais formosos do que o monarca são os chocolates SIC!

4c

Um hiato no 12, também inexistente na minha colecção pessoal é compensado pela ausência de quadro histórico.

O número 13, relativo a 17 de Abril de 1922, mostra-nos na contracapa Nuno Álvares Pereira em Aljubarrota, acrescentando-lhe o “segredo” da vitória:

Força D. Nuno. Com o chocolatinho da S.I.C. que tomamos
temos Aljubarrota ganha pela certa!

Assalta-me aqui uma dúvida. Disponho da contracapa original, colorida a vermelho. Porém, na página 44 da obra A Banda Desenhada Portuguesa 1914-1945 (Fundação Calouste Gulbenkian/Centro de Arte Moderna, 1997), assim como no suplemento já aqui referido, os autores reproduzem esta mesma imagem colorida a amarelo. Além disso diferem no cabeçalho, inexistente no exemplar que possuo. Tratar-se-á de um erro de impressão, de um retoque digitalizado ou terá mesmo existido uma outra edição do jornal?

De notar (efeitos de uma reforma ortográfica?) que a palavra crianças substitui a anteriormente escrita creanças.

4d

Não possuo o exemplar imediato, o 14, sobre o qual outras fontes consultadas me esclarecem ser D. Henrique, o Navegador, o tema escolhido para o quadro histórico. Nova questão pode ser aqui levantada, pois, ainda que se notem 4d1algumas características peculiares do estilo de Cottinelli Telmo, o quadro revela um sombreado pouco compatível com a habitual “linha clara”. No entanto, também ali não é fácil vislumbrar o traço dos então habituais ilustradores do ABC-zinho, em particular Rocha Vieira, Stuart/Albino, Emmérico Nunes, Alfredo Morais ou Filipe Rei… Fica alguma dúvida sobre a indiscutível identidade do autor do quadro histórico sobre o infante D. Henrique.

Quanto à legenda, não é das mais criativas, pois apenas descreve uma nau carregada de produtos SIC, revelando o infante num “medalhão”, a um canto.

Já o seguinte quadro, na contracapa do n.º 15, revela-nos um pormenor desconhecido da cultura do rei Eloquente. E mostra-nos, ainda, um raro recurso a balões que Cottinelli usou neste cartoon, atribuídos a um gato e um canário (!?). D. Duarte, para quem não sabia, foi autor de uma obra intitulada A História do Chocolate desde a Fundação do Planeta...

No exemplar de 19 de Junho de 1922, o 16, a História do Chocolate (a do ABC-zinho, claro!) lembra a produção legislativa de Afonso V. E diz a propósito:

D. Afonso V, o Africano. Entre outras coisas publicou as Ordenações Afonsinas onde ordenava que se comesse o chocolate da S.I.C., de manhãzinha, à tardinha e à noitinha! Que bom senso!

4e

Eis uma Constituição muito pragmática. E dietética!

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

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