Uma rebelde plebe…

UM JORNAL INCÓMODO

A Plebe, um antigo semanário portalegrense que se publicou entre 1896 e 1932, com 1742 números, foi um dos títulos mais significativos da imprensa da cidade, em todos os tempos.

António Ventura, na sua oportuna e bem documentada obra Publicações Periódicas de Portalegre (1836- 1974), fornece-nos uma súmula muito interessante sobre o que foi a agitada vida de um jornal local que, depois de percorrer várias tendências políticas, acabou por se assumir como um baluarte republicano em pleno Estado Novo.

É notabilíssimo o elenco das personalidades que o dirigiram ou colaboraram nas suas páginas, ao longo dos 36 anos de publicação de A Plebe. Sem esgotar a lista, basta lembrar João Caldeira Rebollo, António José Lourinho, Adriano Tapadinhas, José Frederico Laranjo, Júlio César Cassola, padre José Sequeira, poeta José Duro, Carlos Bello Moraes, Francisco Tello Gonçalves, Jorge Frederico Velez Caroço, Severino Sant’Ana Marques, António Bentes de Oliveira, Tude de Souza, Apolino Marques, Manuel Subtil, João de Brito, Luiz Gomes, Francisco Ribeiro, João Camoezas, Galiano Tavares, Armando Neves, António Ferro, Teófilo Júnior, Casimiro Mourato ou Florindo Madeira (Pai)… Basta lembrar estas figuras locais para se dispor duma referência segura sobre a sua qualidade e também sobre a sua importância no contexto portalegrense, regional e mesmo nacional.

O semanário criou e desenvolveu uma interessante iniciativa, a edição irregular de um suplemento intitulado Álbum da Plebe, dedicado a uma figura, acontecimento ou localidade, sobretudo da região. Foram 20 os suplementos publicados, entre 1898 e 1902.

album plebe

Muito sumariamente, agora apenas evoco de passagem o jornal A Plebe, por ter passado ontem uma efeméride que desejo registar, pelo seu interesse. Voltarei em breve ao tema.

Em 1926, tinha acontecido a revolução de 28 de Maio, um golpe de Estado militar chefiado pelo general Gomes da Costa, a partir de Braga, que instaurou uma ditadura liderada pelo Exército. Em Junho, um novo golpe deixaria o general a assumir, só, o poder em Portugal. Logo no mês seguinte, repete-se a cena, sendo Gomes da Costa destituído e substituído pelo seu camarada de armas António Óscar Carmona. Foi esta a génese do Estado Novo.

A 22 de Setembro de 1926, o jornal A Plebe recebeu da parte da Comissão de Censura o ofício em que lhe são indicados os condicionalismos futuros, em termos das restrições, noticiosas e não só, a que as severas regras obrigarão. Numa clara atitude de rebeldia e até de provocação, a Redacção decidiu unilateralmente suspender a sua publicação, “em homenagem às suas velhas tradições de jornal liberal  e em respeito aos direitos de cidadão livre dos que a compõem“.

Mais acrescentou que pretendia “não se sujeitar a tal situação, que é um cúmulo“. E termina: “E se hoje se publica A Plebe é para comunicar a deliberação aos que com ela têm que ver e para se despedir dos seus leitores até um dia em que a Imprensa possa ser uma coisa digna desse nome“.

Isto foi escrito na edição do dia 26 de Setembro de 1926, num jornal com três dezenas de anos de existência, em Portalegre. Aqui fica a reprodução do histórico exemplar, uma simples folha com o verso preenchido por publicidade, também interessante. O episódio, sinal claro da coragem cívica e da dignidade de alguns resistentes, fez ontem 87 anos…

plebe suspensa 1

plebe suspensa 2

 

Durou quase um ano a resistência. Os republicanos portalegrenses sentiam em cada dia a necessidade de voltar a dispor de um órgão de opinião. Assim, no dia 14 de Setembro de 1927, ainda sob a mesma direcção, foi publicado o n.º 1562.

Mantinha-se então, mais férreo, o regime de censura. Faltaria ainda muito tempo para a Imprensa voltar a ser “uma coisa digna desse nome“…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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