Os jornais também se abatem

ESTA CRÓNICA É DE MORTE (ANUNCIADA)

 

O Diário Popular foi um dos vários vespertinos nacionais outrora em voga, hoje todos desaparecidos.

Lisboeta e diário, nascera em 1942, tinha uma distribuição nacional e chegou a DP fim 6atingir grandes tiragens. Foi mesmo pioneiro no campo da reportagem, onde fez escola. Ficaram célebre as narrações “ao vivo” da erupção do vulcão dos Capelinhos, em 1957, ou da tomada de Goa pela União Indiana, em 1961-62. Também ficou ligado a eventos e iniciativas de sucesso como as noivas ou as marchas de Lisboa. Foi o primeiro órgão de comunicação social a dispor de um suplemento regular dedicado à informática, o Bit-Bit.

DP fim 2Alguns erros de gestão, sobretudo o imposto pelo Governo ao separar a lucrativa tipografia do então deficitário jornal, conduziram à extinção do Diário Popular.

Pelo jornal passaram alguns nomes famosos da imprensa nacional, como Urbano Carrasco, Fernando Correia, José de Freitas, Maria Antónia Palla, Acácio Barradas, Adelino Cardoso, Jacinto Baptista, Luís de Forjaz Trigueiros e muitos outros.

DP fim 1No dia 28 de Setembro de 1991, precisamente há 22 anos e era também um sábado por mera coincidência, foi publicado o derradeiro número do jornal, após meio século de vida. Não me lembro de situação similar acontecida com qualquer outro título em que o fim fosse tão tranquilo, quase uma espécie de morte assistida, de assumida eutanásia.

Com efeito, em função do desenrolar da operação de desmantelamento da empresa, a expectativa não englobava qualquer tipo de surpresa ou alternativa. O Diário Popular apagou-se tranquilamente ou, melhor, apagaram-no…

Daí que, quase estranhamente ou talvez não, o conteúdo do último número não DP fim 3integre qualquer palavra de despedida, de revolta, de promessa, de saudade, por parte dos responsáveis editoriais ou administrativos.

A capa seria o único sinal visível do fim, não fora a “indiscrição” de um simples colaborador, Bernardo de Brito e Cunha, signatário de uma coluna regular intitulada Crónica de BBC.

A capa reproduz “telegraficamente” o ofício há dias recebido da Gerência onde era contida a “sentença”, sem recurso: suspensão da publicação do Diário Popular a partir da edição de sábado, 28 de Setembro de 1991.

Vale a pena ler o texto de um jornalista “incómodo“, ainda por cima encimado por um título que não engana: Esta crónica é de morte.

Ironicamente, com uma simples mudança de umas vírgulas, um ou outro acerto em nomenclaturas e ligeiras correcções nos contextos, o artigo serve para explicar o que tem acontecido, agora mesmo, com uma infinidade de empresas nacionais.

Não é tristemente verdade?

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Adenda – Fui correspondente do Diário Popular em Portalegre. A partir de 1986 e praticamente até ao fim do jornal, desempenhei essas funções. Para ser sincero, não guardo daí grande memória ou qualquer orgulho pessoal. Nem chego a considerar o facto como merecedor de uma especial citação curricular…

Vivia por esses tempos inciais o entusiasmo da construção do Fonte Nova, DP fim 5colaborando com o Aurélio Bentes nesse aliciante projecto, o de um novo jornal na nossa terra. Estava portanto no seio das notícias e muitas para Lisboa enviei, na convicção do interesse geral do acontecimento narrado. Em vão ou quase. Quase não recordo as raras vezes em que, entalado num perdido cantinho (da província…) no grande jornal lisboeta, surgia, transformado em lacónica súmula, o meu bem intencionado labor. Fui percebendo que a dimensão da notícia tinha dois pesos e duas medidas, o que até era racional. Pelo menos vista do lado de lá.

Fui rareando os meus envios. Em 1988, recebi do então director do jornal -o prof. José Hermano Saraiva, imagine-se!- o ofício que reproduzo. Significava, a meu ver, uma aproximação dos tais “desavindos” critérios, o nacional e o regional.

DP fim 4

Voltei a enviar as minhas notícias, mas o “superior” acolhimento não revelou qualquer sensível alteração… Desisti.

Quando o jornal desapareceu, não senti qualquer especial emoção.

Mas lamentei, continuo a lamentar, o significado da perda das vozes livres que possam denunciar as incompetências, os caprichos, as prepotências e os abusos de todos os poderes, o da política, o da justiça, o da polícia, o da corrupção, o do crime, o da imprensa, o das redes sociais, o da sociedade em geral…

 Quando um jornal verdadeiramente autónomo morre ficamos todos mais desprotegidos.

 

 

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