PORTALEGRE – Que cultura? – Seis

cultura

A questão das sedes específicas da cultura é um falso problema. Quando se proclama que esta ou aquela modalidade cultural dispõe de uma maior ou menor vocação para se instalar ou desenvolver neste ou naquele local, estamos muito mais no plano da teoria que no da prática. Aliás, este princípio genérico aplica-se a muitos outros sectores da vida comunitária, como o económico.

Por que é Campo Maior uma referência incontornável no mundo do café, se ali nem se cultiva tal planta nem se colhe a sua baga? Por que consideramos os chocolates ou os relógios suiços como dos melhores quando naquele país não existem cacaueiros nem se fabrica o aço? Como pode situar-se uma grande produtora de filmes ou um famoso observatório astronómico num deserto se aquilo fica nos confins do mundo e longe da “civilização”?

Por que não pode ser Portalegre a Capital Nacional do Audiovisual? Depois de aparentemente vaguear a despropósito quis aqui chegar. É que este foi (será ainda?) o sonho de muito boa gente portalegrense.

Já tenho contado algumas vezes esta história e vou aqui brevemente abordá-la.

O termo audiovisual é moderno e designa genericamente as formas de comunicação que combinam som e imagem, assim como o produto gerado por elas, a própria tecnologia e mesmo a linguagem utilizada. O primeiro contacto de Portalegre com o audiovisual foi provocado pelo cinema, que aí dispôs de diversos salões e de sucessivas casas de espectáculos apropriados para o efeito. Mas a dimensão cultural do cinema, como objecto e pretexto de estudo e discussão, é-lhe mais tarde conferida pelos cine-clubes, que ultrapassam a mera e passiva posição do espectador, assim tornado crítico activo.

A pioneira tentativa de formar em Portalegre um cine-clube é protagonizada por um pequeno grupo de intelectuais, que conta com José Régio, Feliciano Falcão, Ernesto de Oliveira, António Teixeira, Baltasar Marcelino e outros, pelos inícios dos anos 60 do século XX. O Cine-Clube de Portalegre, Centro de Cultura Cinematográfica, teve uma gestação difícil (e original!), pelos controlos políticos de então, e não durou senão uns breves três anos.

Depois, o maior apaixonado pelo fenómeno audiovisual que conheci em Portalegre foi Francisco Queirós, quando era ainda professor do ensino primário, mas já então seriamente interessado pela sua aplicação didáctica. Esta inclinação levou-o mesmo à direcção nacional da Rádio Escolar, com sede em Vila Nova de Gaia.

Pelos inícios dos anos 80, um outro educador portalegrense, o jovem Francisco Pacheco, inserido na dinâmica do autêntico centro cultural, espontâneo, em que se tornara o Convento de Santa Clara, fundou aí o Cine Clube de Portalegre. Editou um interessante boletim, o Travelling, organizou ciclos temáticos de cinema que abrangeram outros concelhos vizinhos e cursos de formação, alguns de âmbito infanto-juvenil. A maior realização deste clube seria o 1.º Festival Internacional de Cinema sobre Ambiente, incluindo competição, jornadas infantis, feira do livro, retorspectivas, comunicações, colóquios e debates. Decorreu no Salão Euterpe (antiga Fábrica Real) e em Santa Clara, em Outubro de 1982.

Ao mesmo tempo, o saudosíssimo Atelier de Artes Plásticas (outro “milagre” de Santa Clara) e o Gabinete de Audiovisuais da Casa de Cultura (FAOJ), ao Corro, eram dinamizados pelo prof. Bentes Bravo, que teve a audácia de lançar o desafio de aqui organizar um Festival de Diaporama. Assisti pessoalmente à dura e quase “dramática” discussão que ele teve em Lisboa com o então director nacional do FAOJ (cujo nome não retive) e onde, contra toda a inicial expectativa, convenceu este a patrocinar o arrojado evento. A primeira edição, apenas nacional, aconteceu em Outubro de 1981, constando de exibição, competição e comunicações, um conjunto que trouxe a Portalegre algumas das mais famosas personalidades e ainda cultores de uma modalidade ao tempo extremamente exigente no plano técnico.

O festival apenas seria retomado em Abril de 1985, então sob a direcção do prof. Américo Ribeirinho da Silva, apoiado por uma boa parte da anterior equipa. Esta segunda edição, ainda nacional, decorreu no Cine Teatro Crisfal.

Dois anos depois, o então delegado regional do FAOJ, José Barradas, conseguiu não apenas organizar a terceira edição do Festival de Diaporama, como conceder-lhe um alargamento internacional, com o prestigioso patrocínio da Fédération Internationale de l’Art Photographique. A sua sede foi a Escola Secundária de São Lourenço, em Abril e Maio de 1987.

O mês de Outubro do ano seguinte, 1988, acrescentou um passo inédito nesta “instalação”, em Portalegre, de uma simbólica Capital Nacional do Audiovisual, com a criação de um Festival Internacional de Cinema, a juntar aos anteriores eventos, numa inédita iniciativa da Câmara Municipal. A primeira edição deste festival aconteceu sob a direcção do cineasta Lauro António, um homem afectivamente ligado a Portalegre, e incluiu os denominados Encontros do Cinema Português. José Régio e Manoel de Oliveira mereceram um justo lugar de destaque na programação.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

S.O.S. chaparro!

QUERCUS SUBER

 

O sobreiro, símbolo do Alentejo, foi classificado como Árvore Nacional de Portugal, “pormenor” que muito provavelmente será desconhecido por parte da imensa maioria dos cidadãos. Pois foi no dia 22 de Dezembro de 2011 que a Assembleia da República assim decidiu, através do Projecto de Resolução n.º 123/XII/1.ª

sobreiro realO sobreiro, que tem como desiganção científica o nome de Quercus suber, é também conhecido por sobro, sobreira ou mesmo chaparro. As zonas povoadas de sobreiros denominam-se montados. É uma árvore da família dos carvalhos, e tem como principal aplicação prática a periódica disponibilidade da sua “casca”, a cortiça. A extracção desta não prejudica o sobreiro, que a regenera no prazo de 9 ou 10 anos. O seu fruto, tal como acontece com outros carvalhos, é a bolota, também conhecida por lande ou glande. Serve para a alimentação humana e de outros animais. A madeira também é muito apreciada e teve uma decisiva importância histórica em construção naval na época dos Descobrimentos, utilizando-se hoje na indústria do mobiliário e noutros fins.

sobreiro umO sobreiro tem uma grande importância ecológica pois forma ecossistemas com elevada biodiversidade, como os sobreirais e o montado de sobro. É também sobejamente conhecida a sua importância económica no sector suberícola, com impactos muito positivos no PIB nacional e nas exportações internacionais.

Ora neste momento acontece que, contraditoriamente, o sobreiro está ameaçado.

 A direcção nacional da Quercus – Associação Nacional de Conservação da sobreiro quercusNatureza divulgou há pouco um comunicado em que dá conta da sua preocupação perante a próxima possibilidade de alterações na legislação que protege o sobreiro -Árvore Nacional-, actualmente em preparação no Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, a quem devia competir o máximo zelo na defesa do ambiente.

Prepara-se, ao que parece, uma simplificação processual no abate de sobreiros que não estejam integrados em povoamentos. Ora acontece que uma percentagem substancial de sobreiros adultos, em plena produção, se encontra nesta situação. Atendendo a que se trata de uma espécie de crescimento lento, que só começa a dar cortiça com cerca de 40 anos de idade, facilitar o corte indiscriminado de sobreiros significa o desbaratar de uma valiosa herança que as anteriores gerações nos legaram, de difícil e demorada reposição.

Os habitats de sobreiros, ou montados, pelo seu elevado aproveitamento agro-silvopastorial e industrial, são importantes não apenas por este valor económico, mas pela sua permanente função de conservação do solo, de regularização dos ciclos hidrológicos e de contributo para a manutenção da qualidade das águas.

sobreiro váriosO abate de sobreiros, pelas razões expostas, facilitará a instalação de monoculturas agrícolas e florestais intensivas, como os eucaliptais. E todos sabemos, para além dos estragos ambientais provocados por esta cultura, o que acontece todos os anos, infeliz e dramaticamente, com os incêndios florestais…    

É por isso indispensável que a opinião pública, normalmente “distraída” quanto a questões deste tipo, se consciencialize sobre a importância da ameaça que pende sobre o sobreiro.

Este é um assunto nacional, que implica a nossa intervenção, se ela se tornar necessária.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

O Governo visto pela SEDES

A SEDES acaba de divulgar uma tomada pública de posição sobre a actual sedes 1situação sócio-política. Em vez da transcrição do comunicado, aqui fica um comentário a propósito, muito interessante, reproduzido da página do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e subscrito por Francisco Mangas.

O prestígio daquela associação cívica, com um passado de luta pela Liberdade e pela Democracia, confere um inegável significado à apreciação crítica agora tão oportunamente divulgada.

Com a devida vénia, aqui fica a reprodução do texto do SMMP.

 

SEDES lança ataque violento ao Governo

“Todas as semanas escutamos anúncios de medidas que abrem novas frentes e criam medo e incerteza”. “Ninguém confia em quase nada prometido: isso é incompatível com uma saudável vivência democrática”. “Ninguém confia em quase nada que seja prometido pelo Governo”


SEDES. As políticas “erráticas” e as decisões “fora do tempo” abrem caminho a “incerteza e a “desconfiança”, que são “incompatíveis” com recuperação económica, investimento e emprego.


FRANCISCO MANGAS

É uma tomada de posição muito crítica da SEDES sobre políticas seguidas pelo Executivo de Pedro Passos Coelho. À situação económica e social “dramática” dos dias que correm junta-se a “incerteza” a minar a confiança dos portugueses. “Ninguém confia em quase nada que seja prometido pelo Governo: isto é incompatível com uma saudável vivência democrática”.

Num documento divulgado ontem, a Associação para o Desenvolvimento sedes 3Económico e Social (SEDES), presidida por Luís Campos e Cunha, afirma que a crise económica e social – “de proporções inesperadas até pelos mais pessimistas” – encontra a sua origem nas políticas adoptadas na última década, “agravadas pelo caminho seguido nos últimos anos”.

O Estado esteve “a dias de cessar pagamentos”. No entanto, o acordo com a troika, “longe de ser perfeito, evitou o pior”, afastou o cenário de bancarrota. Esse acordo, explica a SEDES, “só era relevante para evitar essa cessação de pagamentos”. Sendo assim, a ideia transmitida de que o “Estado está falido e, como tal, tudo é aceitável é, e tem sido, um erro grave: o acordo com a troika fez-se exactamente para evitar essa falência”.

Por outro lado, “erros de comunicação, políticas erráticas e decisões fora do tempo” abrem caminha a uma “incerteza absolutamente desnecessária” e a “um ambiente de desconfiança” em relação ao Estado de direito. Incerteza e desconfiança, na perspectiva dos responsáveis da associação cívica, são “incompatíveis com a recuperação da economia, do investimento e do emprego”. Todos as semanas “escutamos anúncios de medidas que abrem novas frentes e criam medo e incerteza”. A SEDES dá, como exemplo, a questão das pensões de sobrevivência. “Sem discutir se a política em causa é boa ou má, contesta-se, sim, a errância das decisões, a confusão dos conceitos, a impreparação das soluções, a intermitência dos anúncios, a contradição dos agentes”.

A recuperação do investimento, lê-se no documento divulgado ontem, só é possível por políticas “estáveis e previsíveis”. Neste momento, o “problema não é a falta de financiamento ou de incentivos, mas de credibilidade e estabilidade” política e das políticas. Episódios de crise governamental, como o do verão passado, “não se podem repetir!”

No capítulo da Segurança Social, o Governo, acusa a SEDES, “descredibilizou e retirou certeza jurídica” ao sistema de pensões “sem proceder a qualquer reforma visível”. Se se trata de um contrato entre o Estado e o cidadão, “não se entende a campanha sobre uma suposta insustentabilidade do sistema”. A mesmo exigência, refere o documento, se poderia aplicar às PPP rodoviárias ou às energias renováveis – “contratos muito mais susceptíveis de serem postos em causa”.

Mas se o Estado quiser, “como outros países já fizeram”, alterar unilateralmente as condições desses contratos com grandes empresas, “terá processos em tribunal de empresas fortes, apoiadas em bons advogados e com tempo para esperar”. No caso das pensões, “o Estado tem pela frente pessoas frágeis”, sem o tempo necessário para esperar “por decisões tardias dos tribunais”. A tomada de posição da SEDES, divulgada ontem, tem como base um estudo – “O impacto da crise no bem-estar dos portugueses” realizado no ano passado. Esse estudo mostra que o mal-estar dos portugueses leva a comportamentos com consequências negativas para economia e o emprego. “Seja a incerteza sobre as pensões actuais e futuras, sejam as alterações bruscas de impostos sejam as dúvidas sobre a simples data de pagamento de subsídio de férias, são inaceitáveis. A violação do Estado de direito e a inconstitucionalidade das medidas potenciam sem necessidade essa incerteza”.

Para a SEDES, que “continua atenta como há mais de 40 anos”, é “urgente “reformar o Estado, o sistema político e a forma de fazer política” em Portugal.


O QUE DIZ A SEDES SOBRE O PASSADO

Falência

“As políticas seguidas, em particular entre 2008 e 2010, conduziram o Estado a ficar, possivelmente, a dias de cessar pagamentos”. O acordo com a troika, “evitou o pior”. Mas “tem sido um erro grave” a “ideia de que o Estado está falido e, como tal, tudo é aceitável”.


SOBRE IMPOSTOS


Estabilidade

Importa “ter uma ideia minimamente estável do IRC, do IRS, do IMI, das futuras leis do trabalho, da TSU, etc”. Não havendo “uma perspectiva razoável sobre a evolução das políticas”, a consequência é que “não há investimento”.


SOBRE PENSÕES


Incerteza

“Todas as semanas anúncios de medidas que abrem novas frentes e criam medo e incerteza, como aconteceu recentemente com a questão das pensões de sobrevivência’.” E assim “contesta-se, sim, a errância das decisões”. Sendo que “qualquer pensão é um contrato entre o Estado e o cidadão”, importa ao Estado “saber que tem pela frente pessoas frágeis e que já não têm o tempo necessário para esperar por decisões tardias de tribunais”.


ASSOCIAÇÃO CÍVICA


Uma história em defesa da democracia

 

???????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????A SEDES, uma das mais antigas associações cívicas portuguesas, foi constituída em 1970. Os seus fundadores provinham de “diferentes formações académicas, estratos sociais, actividades profissionais e opções políticas”. O traço de união era “uma grande vontade de mudança” e a defesa do humanismo, do desenvolvimento sociocultural e a democracia”. Hoje, tal como há mais de 40 anos, “continua atenta” e é voz activa no reforço do sistema política para melhorar a democracia. O Conselho Coordenador é presidido por Luís Campos e Cunha e integra ainda, entre outros, Cristina Azevedo, Henrique Neto e Pedro Magalhães.

 

Saborzinho achocolatado – doze

título geral

XII – O MISTÉRIO DAS CARTAS TROCADAS

O novo GRANDE CONCURSO DA SIC, anunciado no número 62 do ABC-zinho, em 26 de Novembro de 1923, mal tinha terminado o anterior, será não apenas o último como também, provavelmente, o mais criativo.

Agora, a proposta é quase insólita: o jornal publicará uma série de cartas, exactamente seis, trocadas entre vários membros de duas famílias, a propósito de um assunto em que aparecem os famosos chocolates da S.I.C. (estou a seguir à letra o regulamento, daqui esta adjectivação). As referidas cartas, ainda para mais complicar a questão, não serão divulgadas pela ordem das respectivas datas, nem sequer sendo indicado o parentesco que une os subscritores.

Reproduzo agora textualmente o parágrafo seguinte:

Deverão portanto os leitores (depois de ter sido publicada a última) fazer de Sherlock-Holmes e deduzir, pela leitura delas, o que foi a tragédia chocolástica e Sicquesca que se passou no meio das duas famílias cujos membros trocaram tal correspondência…

O Tio Pirilau, certamente o autor do regulamento, procurou a seguir animar os potenciais concorrentes, quando concluiu que “o caso parece mais difícil do que realmente é!”

E o texto constante da contracapa desse número 63 do ABC-zinho (3 de Dezembro de 1923), terminará com uma “patriótica” e “achocolatada” máxima incentivadora:

Estejam atentos, vão lendo as cartas com cuidado e verão como a S.I.C. e os seus famosos chocolates fazem parte tão integrante da vida duma nação!

12 a

Recapitulo o contexto que envolve estes pormenores constantes de um simples jornal infanto-juvenil, com uma imensidade de leitores adultos. Ao tempo, os anos 20 do século XX, este tipo de publicações dispunha entre nós da tradição de conteúdos essencialmente moralistas (O Amigo da Infância, As Creanças, Jornal da Infância, o Supplemento Humoristico de O Seculo, O Gafanhoto, A Montanha para as Crianças…), dotados de meras ilustrações e de raras histórias aos quadradinhos. Cottinelli Telmo rompe com tudo isto, sobretudo com a infantilização patente no seu envolvimento. Sendo certo que se apoiou em alguma e seleccionada produção estrangeira, sobretudo inglesa e francesa, em muito a ultrapassou. A sua rara intuição, bem traduzida no nível afectivo e pedagógico, não isento de críticas pertinentes, da abundantíssima correspondência epistolar com os leitores, apenas dela encontrou paralelo na transbordante criatividade que punha em todas as múltiplas modalidades da sua intervenção jornalística.

12 b

Infelizmente, não disponho da totalidade da meia dúzia de cartas, mas apenas de quatro delas. Ainda assim, sobretudo analisando a solução do respectivo concurso, divulgada no número 75 do ABC-zinho, é possível reconstituir o seu integral conteúdo.

Com a proverbial pontualidade e rigor com que no jornal eram tratados todos os assuntos, incluindo naturalmente os concursos, a edição relativa a 25 de Fevereiro de 1924 fornecia a “chave” do enredo contido nas seis missivas. Ei-la:

 

A tragédia passada no seio das famílias Pinto e Peixoto, e de que se tirava a conclusão pela leitura das cartas publicadas no ZINHO, foi a seguinte:

Paulo escreveu a Pedro, pedindo-lhe para comprar uma caixa de bombons da S.I.C. que ele queria oferecer à mãe no dia dos anos. Quanto ao dinheiro, Pedro que fosse buscar à Rua do Alecrim o prémio que Paulo tinha ganho num concurso do ZINHO. O pai de Pedro lendo a carta de Pedro desconfia de qualquer coisa pouco correcta por parte do amigo de seu filho. Escreve ao pai de Paulo, etc. etc. – e desvenda-se o mistério. A mãe de Paulo envia a Pedro uma caixa de bombons, igual à que o filho lhe oferecera, por ele ter sabido guardar segredo e ter sido um tão precioso colaborador na obra de Paulo“.

E o Tio Pirilau conclui: “Aqui está, muito resumidamente, a tragédia… e o resultado deste concurso, outra tragédia para os que não ganharam!…

Sempre desabridamente irónico, este Tio Pirilau!

12 c

Assim terminaria a ligação publicitária, e não só, entre o ABC-zinho e a SIC, que em muito ultrapassou, como ficou demonstrado, a fabulosa História do Chocolate, com os seus quadros arrancados à patriótica e crítica crónica de selectos episódios vividos nos monárquicos tempos…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Portalegre na História e na Lenda… – Lenda de Monforte

lenda e história

XI – Uma lenda de Monforte

lendas 0 001Em 2002/2003 o jornalista José Viale Moutinho elaborou para o Diário de Notícias um trabalho inserido na Literatura Popular Portuguesa, recolhendo por todo o país um notável conjunto de lendas, depois publicado no jornal. Entre mais de três centenas de textos, cuidadosamente tratados, seleccionei os quinze relativos a outros tantos Concelhos do Distrito de Portalegre. Portanto, e pela sua ordem alfabética, serão recordados esses textos, ilustrados por Francisco Lança e Joana Imaginário.

Depois das lendas relativas a Alter do Chão, Arronches, Avis, Campo Maior, Castelo de Vide, Crato, Elvas, Fronteira, Gavião e Marvão, aqui fica hoje a de Monforte.

lendas 11 monforte

RÉGIO ESFEROGRAFICA MENTE

 e - régio e esferográfica

Ao que parece, foi nesta data de 1945 que a primeira caneta esferográfica americana terá sido posta no mercado, em produção autorizada pelo seu inventor, o húngaro Lazlo Biró. A novidade nem sequer era barata -custaria 12,95 dólares por unidade- mas rendeu uma pequena fortuna ao fabricante. Estas canetas Reynolds eram publicitadas como as primeiras que até escreviam debaixo de água. No lançamento venderam-se dez mil unidades…

Tal objecto de escrita, hoje banalizado, representou uma enorme inovação técnica e ofereceu imensas vantagens práticas.

O conceito em que se baseia a esferográfica terá sido patenteado em 1888 por e - régio bicsum cidadão americano que se servia do produto para marcar couros. Mas não teve qualquer exploração comercial. O jornalista húngaro Lazlo Biró, depois naturalizado argentino, decidiu pegar na ideia, utilizar tinta espessa que secava rapidamente e um tipo de ponta para o seu reservatório, um fino tubo, onde encaixou uma pequenina esfera. A inovação revelou-se muito funcional, pois essa caneta corria pelo papel, fazendo girar a bolinha que ia recolhendo e espalhando uma fina porção da tal tinta espessa. Assim, em finais da década de 30 do século XX, foi registada a patente da revolucionária caneta, uma nova filosofia de escrita. Após as penas e os aparos que se iam molhando no tinteiro e, mais tarde, ligados a um pequeno depósito,  as canetas de tinta permanente, surgia algo completamente novo.

Na Europa, mais ou menos na mesma altura do lançamento norte-americano, surgiram as BIC, uma abreviatura do nome de Marcel Bich, o seu fabricante. Como este inventou um processo expedito de produção em massa, o custo da sua esferográfica era bastante mais acessível -meio dólar!-, pelo que, no espaço de uma década, a BIC dominava o próprio mercado dos Estados Unidos.

Quem de nós, entre a geração dos cinquentões e para trás, não se lembra do anúncio televisivo que constantemente nos martelava a vista, pela TV, ou o ouvido, pela rádio:

Bic, bic, bic-bic-bic
Bic Laranja – escrita fina
Bic Cristal – escrita normal
Duas escritas à sua escolha
Bic, bic, bic-bic-bic

 

Quem não se lembra!?

O grupo BIC tornou-se poderoso. Hoje é líder em artigos de papelaria, isqueiros e sistemas de barbear. É por isso uma imagem de marca reconhecida em todo o mundo. Regista crescimentos constantes no seu volume de vendas, apesar da crise. O seu marketing, agressivo, mantém a frescura desses tempos heróicos da BIC Laranja e actualiza-se em função dos ícones modernos.

 

Quando penso em esferográficas, que naturalmente uso (prefiro a escrita normal, em vez da fina), penso também em José Régio. Todos nós, os gaiatos portalegrenses que o aturavam nos bancos do velho Liceu, sabíamos haver três coisas -como outra lenda dentro da sua própria!- que Régio nunca usaria: gabardinas, cigarros feitos e… esferográficas!

Régio refugiava-se, quase sempre, num sobretudo. Creio que o usava com mais frequência do que o próprio casaco. Seria uma protecção contra os suicidários ventos suões da sua Toada?

Quanto aos cigarros, manufacturava-os em estudado e mil vezes repetido ritual. Muitas vezes, desviando para a testa os óculos redondos, ei-lo abrindo a sua caixa metálica, do tabaco de onça, enrolando com mestria o fino cigarro que a seguir colava, passando-o pelos lábios. Depois, com um fósforo (também nunca lhe vimos qualquer isqueiro!), concluia a operação que lhe rendia o saboroso desfrutar do fumo. Demorado. Tranquilo.

Quanto ao instrumento de escrita, era-lhe particularmente grata a caneta de aparo. Sobre a sua mesa de trabalho, no pequeno compartimento da varanda mais a acácia, ainda hoje se encontra o tinteiro, o estojo-suporte das canetas -uma colecção!- e ainda o usado mata-borrão. Na criação solitária da sua obra magistral ou na emenda radical dos erros contidos nos nossos exercícios, ou pontos, de Português e de Francês, apenas mudava a cor da escrita, azul ou vermelha, de preferência…

e - régio e a lenda

Naturalmente, em alternativa, também se servia das canetas de tinta permanente. Em trânsito, fora do ambiente protector da sua toca (como chamava ao velho casarão do Largo da Boavista), mantinha desse modo o conservador e predilecto aparo.

e - régio escrita

Sobre os desenhos, os primorosos desenhos de Régio -segundo o abalizado parecer do seu biógrafo “artístico” -Joaquim Pacheco Neves-, nada consta sobre materiais de criação para além de lápis de grafite, lápis de cor, pincéis e canetas de aparo…

 

Nenhum de nós suspeitaria que esta trindade dos regianos mandamentos, perdão!, dos regianos comportamentos pudesse algum dia ser violada…

Mas foi, e bem a contragosto do próprio. Como não poderia deixar de ser.

Pelos finais já da sua vida, tinha trocado Portalegre por Vila do Conde e apenas voltava à cidade alentejana para aí acompanhar, por longos períodos, as complicadas e morosas obras de adaptação da sua velha morada a casa-museu. Então, já não frequentava a sua tertúlia do Café Central, tendo-a trocado por uma outra, com diferentes cúmplices, reunindo com regularidade no Diana-Bar, em Póvoa de Varzim. e - régio diana bar

E é precisamente daqui que são conhecidos os pecados “instrumentais” de Régio: algumas vezes, que ele -contrito!- confessa, usou esferográficas…

E isso tornara-se de tal modo impressivo para o “infractor”, que este sentiu necessidade de  exorcizar a “transgressão” às normas.

 

 

É do Diana-Bar, tornado local emblemático dos encontros e da alternativa tertúlia, que José Régio escreveu algumas das suas incontáveis cartas.

Esta foi para o seu amigo Flávio Gonçalves, e começou assim:


Vila do Conde, 15/7/68


Meu caro amigo

Este papel de Vila do Conde parte realmente do Diana-Bar da Póvoa.
De aí a esferográfica, – impossível trazer tinteiro de latão e pena de pato para o Diana-Bar.
E se não fossem estas manhãs aqui, junto da vidraça e com o céu e o mar à vista, a minha correspondência andaria ainda mais atrasada, e a minha obra adiantaria muito menos…
(…)

 

Uns meses depois, precisamente a 20 de Janeiro de 1969, Régio escrevia desse mesmo lugar, tornado carismático, a um outro amigo, Álvaro Salema. E começava assim a missiva:

                                                                                     Meu Querido Amigo:

 

Desculpe-me a esferográfica: Escrevo-lhe estas linhas de um bar da Póvoa, onde a esferográfica tem de ser o meu instrumento de trabalho… Há sossego, aqui, agora no Inverno, e o mar em frente. Que isto me incline à benevolência e à paciência.

Se fora necessário tal testemunho, a sua vibração e a sua revolta me daria a medida da sua estima pela minha poesia e da sua amizade pessoal. Obrigado, meu amigo (…). A minha poesia é que já não é só minha. (…)

 

José Régio assume, a contragosto, que transformou a esferográfica no seu “instrumento de trabalho”. E desculpa-se por isso…

Porém, vasculhando mais a fundo nas coisas regianas, encontra-se pelo menos um “antecendente” que vem dos distantes anos cinquenta, ainda de Portalegre.

e - régio emendasExistem provas da 4.ª edição do livro de poemas Biografia, onde pelo punho de José Régio se podem observar certas emendas, portanto autógrafas, algumas a cor azul e outras mesmo a negro, por traço de esferográficas…

Como esta edição, com desenhos de Júlio e publicada pela Portugália, foi lançada em 1956, datará desse ano ou do anterior, este “pecado original” de José Régio.

 

Estas constatações, no entanto, não permitem chegar a qualquer segura conclusão sobre se o poeta terá preferido a BIC Laranja ou a BIC Cristal.

Para ser absolutamente honesto, nem sequer me atrevo a garantir se José Régio teria alguma especial predilecção pela marca ou se usaria, nestas emergências, alguma esferográfica da concorrência.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

 

PS – Esta ligeira crónica foi batida e transferida directamente do teclado, monitor e memória do portátil para esta página do blog. Tudo por dentro das tecnologias digitais… Nada há aqui, portanto, de poético ou de esferográfico. Por mero acaso é manhã de um quase Inverno, estou junto à vidraça e com o céu e o mar à vista. Também acho isso estimulante, mas não estou em Póvoa de Varzim, não me chamo José e, sobretudo, nem sequer peço desculpa por usar tecnologias modernas…

 

 

 

Uma data de datas – LI – Astérix

NOTA PRÉVIA – Em 17 de Outubro, uma dúzia de dias atrás, quando aqui coloquei   ast8o anterior texto desta série Uma Data de Datas, decidi cometer deliberamente um erro, ao escrever o número de ordem 50, na habitual notação romana que uso desde o princípio. Corri o risco de passar por distraído ou, pior ainda, por iletrado… Escrevi XLX, violando regras básicas, pois é sabido que 50 corresponde simplesmente a L e não a 50-10+10, como propositadamente escrevi. E mantenho-o escrito assim, como marco “histórico”, uma vez que ninguém notou o “erro” ou, por pudor ou amizade, quem nele reparou evitou fazer-mo sentir…

Passada em branco esta espécie de “teste” à atenção (ou à sabedoria!?) dos leitores, retomo hoje a normalidade numérica, até pelo devido respeito pelos vencidos. Falo, obviamente, de Júlio César e dos outros romanos, vítimas da poção mágica a seguir abordada.

datas

 

LI – 29 de Outubro de 1959 – Nasceu Astérix

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Astérix é como a cortiça. Por vezes submerge, desaparece por uns tempos da superfície. Mas volta a emergir, como novo, rejuvenescido, depois de algum tempo.

Foi assim há dias, mais uma vez, e voltará a acontecer.

O recentíssimo álbum protagonizado pelo herói gaulês e pelo seu inseparável ast6Obélix, intitulado Astérix entre os Pictos, saltou para o mercado na passada quinta-feira, 24 de Outubro, em 15 países, incluindo Portugal, e foi o primeiro sem a assinatura conjunta de Uderzo e Goscinny, os seus criadores.

A solene pré-estreia acontecera dias antes, em Paris, com a presença dos novos autores, o argumentista Jean-Ives Ferri e o ilustrador Didier Conrad, contando também com Albert Uderzo, o primitivo desenhador das personagens, que supervisionou a nova história, e ainda com Anne Goscinny, filha do argumentista original, já falecido.

Astérix entre os Pictos, que é o 35º álbum da crónica dos “irredutíveis gauleses”, terá uma incrível tiragem de cinco milhões de exemplares e coloca Astérix e Obélix numa viagem à antiga Escócia, onde conhecerão os guerreiros Pictos.

Deixei passar em claro essas duas datas para saudar exclusivamente a de hoje, 29 de Outubro, quando se assinala a aparição, em 1959, da primeira página da história original –Astérix, o Gaulês– na revista Pilote.

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Desde então, contabilizam-se mais de 350 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo, traduzidos em cerca de oitenta línguas e trinta dialectos, contando-se entre estes o mirandês. Além disso, a série em BD já inspirou 11 adaptações para o cinema, sendo 8 de animação e as outras 3 com imagem e personagens reais. Os brinquedos, incluindo colecções das figurinhas, assim como os jogos, sobretudo os de computador para diversas plataformas, são incontáveis, e também não devemos esquecer um parque temático, do tipo “disneylândia”, dedicado ao mito Astérix.

ast3

A história-base das sucessivas aventuras é sempre a mesma, significando a eterna resistência dos patriotas residentes contra os invasores e ocupantes estrangeiros. A ajuda do maravilhoso é representada pela poção mágica do feiticeiro, que confere uma força invencível ao herói.

ast4As personagens principais, os protagonistas, são construídas segundo modelos muito vulgares na BD, um herói, o seu companheiro inseparável e um animal de estimação, correspondendo o trio Astérix, Obelix e  Idéiafix a Tintin, Haddock e Milou, um outro ultra-famoso conjunto de aventureiros.

Onde a série Astérix assume foros de grande originalidade é nos níveis de leitura e de interpretação que sugere e permite, na descodificação de estereótipos, nacionais ou regionais, e de alusões culturais, algumas destas carregadas de erudição histórica, literária ou artística. A sábia intervenção de personagens históricas de épocas diversas, a inclusão de frases célebres, trocadilhos e caricaturas revela uma sábia utilização de humor francês típico, sempre inserido a propósito e nas doses certas.

O uso, muitas vezes recorrente, de certas tiradas clássicas é outra característica inerente à construção dos enredos, no mais puro estilo de Goscinny, um mestre do argumento da BD.

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Astérix mudou de argumentista em 1977, necessariamente, após a morte de René Goscinny, mantendo-se Albert Uderzo no desenho das novas histórias que outros inventaram. Mas houve uma evidente quebra no nível global da série. Agora, com a retirada do desenhador, a saga de Astérix conhece uma dupla de criadores que dificilmente poderá manter o interesse que era assegurado por Goscinny e Uderzo. Mas os objectivos comerciais pesam decisivamente e casos como o de Hergé, que levou Tintin com ele para o túmulo, são cada vez mais raros…

Como atrás lembrei, foi a 29 de Outubro de 1959 que começou a história dos “irredutíveis gauleses”. O seu único temor é o de que o céu lhes caia sobre as cabeças.

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Mais de meio século depois, após três dezenas e meia de incursões pelo mundo antigo, os legítimos herdeiros de Vercingetórix continuam a sua luta contra os romanos. Aos bretões, egípcios, gregos, belgas, godos, helvéticos, normandos, hispânicos e até mesmo índios norte-americanos, juntaram-se agora os pictos (escoceses)… Quem se seguirá?

ast10Num simples palpite, acredito que os “irredutíveis gauleses” se lancem amanhã pelas Áfricas abaixo, atravessando o Sahara, ou pelo Helesponto (hoje Dardanelos), rumo aos Orientes, quem sabe se até à China dos Ming…

De qualquer forma, como já atrás disse, receio pela qualidade das narrativas. Não há criadores insubstituíveis, mas, tratando-se de Astérix & C.ª, o caso muda de figura. Não tenho a certeza de que nos não assalte alguma saudade…

Par toutatis!!!

 

António Martinó de Azevedo Coutinho