RÉGIO ESFEROGRAFICA MENTE

 e - régio e esferográfica

Ao que parece, foi nesta data de 1945 que a primeira caneta esferográfica americana terá sido posta no mercado, em produção autorizada pelo seu inventor, o húngaro Lazlo Biró. A novidade nem sequer era barata -custaria 12,95 dólares por unidade- mas rendeu uma pequena fortuna ao fabricante. Estas canetas Reynolds eram publicitadas como as primeiras que até escreviam debaixo de água. No lançamento venderam-se dez mil unidades…

Tal objecto de escrita, hoje banalizado, representou uma enorme inovação técnica e ofereceu imensas vantagens práticas.

O conceito em que se baseia a esferográfica terá sido patenteado em 1888 por e - régio bicsum cidadão americano que se servia do produto para marcar couros. Mas não teve qualquer exploração comercial. O jornalista húngaro Lazlo Biró, depois naturalizado argentino, decidiu pegar na ideia, utilizar tinta espessa que secava rapidamente e um tipo de ponta para o seu reservatório, um fino tubo, onde encaixou uma pequenina esfera. A inovação revelou-se muito funcional, pois essa caneta corria pelo papel, fazendo girar a bolinha que ia recolhendo e espalhando uma fina porção da tal tinta espessa. Assim, em finais da década de 30 do século XX, foi registada a patente da revolucionária caneta, uma nova filosofia de escrita. Após as penas e os aparos que se iam molhando no tinteiro e, mais tarde, ligados a um pequeno depósito,  as canetas de tinta permanente, surgia algo completamente novo.

Na Europa, mais ou menos na mesma altura do lançamento norte-americano, surgiram as BIC, uma abreviatura do nome de Marcel Bich, o seu fabricante. Como este inventou um processo expedito de produção em massa, o custo da sua esferográfica era bastante mais acessível -meio dólar!-, pelo que, no espaço de uma década, a BIC dominava o próprio mercado dos Estados Unidos.

Quem de nós, entre a geração dos cinquentões e para trás, não se lembra do anúncio televisivo que constantemente nos martelava a vista, pela TV, ou o ouvido, pela rádio:

Bic, bic, bic-bic-bic
Bic Laranja – escrita fina
Bic Cristal – escrita normal
Duas escritas à sua escolha
Bic, bic, bic-bic-bic

 

Quem não se lembra!?

O grupo BIC tornou-se poderoso. Hoje é líder em artigos de papelaria, isqueiros e sistemas de barbear. É por isso uma imagem de marca reconhecida em todo o mundo. Regista crescimentos constantes no seu volume de vendas, apesar da crise. O seu marketing, agressivo, mantém a frescura desses tempos heróicos da BIC Laranja e actualiza-se em função dos ícones modernos.

 

Quando penso em esferográficas, que naturalmente uso (prefiro a escrita normal, em vez da fina), penso também em José Régio. Todos nós, os gaiatos portalegrenses que o aturavam nos bancos do velho Liceu, sabíamos haver três coisas -como outra lenda dentro da sua própria!- que Régio nunca usaria: gabardinas, cigarros feitos e… esferográficas!

Régio refugiava-se, quase sempre, num sobretudo. Creio que o usava com mais frequência do que o próprio casaco. Seria uma protecção contra os suicidários ventos suões da sua Toada?

Quanto aos cigarros, manufacturava-os em estudado e mil vezes repetido ritual. Muitas vezes, desviando para a testa os óculos redondos, ei-lo abrindo a sua caixa metálica, do tabaco de onça, enrolando com mestria o fino cigarro que a seguir colava, passando-o pelos lábios. Depois, com um fósforo (também nunca lhe vimos qualquer isqueiro!), concluia a operação que lhe rendia o saboroso desfrutar do fumo. Demorado. Tranquilo.

Quanto ao instrumento de escrita, era-lhe particularmente grata a caneta de aparo. Sobre a sua mesa de trabalho, no pequeno compartimento da varanda mais a acácia, ainda hoje se encontra o tinteiro, o estojo-suporte das canetas -uma colecção!- e ainda o usado mata-borrão. Na criação solitária da sua obra magistral ou na emenda radical dos erros contidos nos nossos exercícios, ou pontos, de Português e de Francês, apenas mudava a cor da escrita, azul ou vermelha, de preferência…

e - régio e a lenda

Naturalmente, em alternativa, também se servia das canetas de tinta permanente. Em trânsito, fora do ambiente protector da sua toca (como chamava ao velho casarão do Largo da Boavista), mantinha desse modo o conservador e predilecto aparo.

e - régio escrita

Sobre os desenhos, os primorosos desenhos de Régio -segundo o abalizado parecer do seu biógrafo “artístico” -Joaquim Pacheco Neves-, nada consta sobre materiais de criação para além de lápis de grafite, lápis de cor, pincéis e canetas de aparo…

 

Nenhum de nós suspeitaria que esta trindade dos regianos mandamentos, perdão!, dos regianos comportamentos pudesse algum dia ser violada…

Mas foi, e bem a contragosto do próprio. Como não poderia deixar de ser.

Pelos finais já da sua vida, tinha trocado Portalegre por Vila do Conde e apenas voltava à cidade alentejana para aí acompanhar, por longos períodos, as complicadas e morosas obras de adaptação da sua velha morada a casa-museu. Então, já não frequentava a sua tertúlia do Café Central, tendo-a trocado por uma outra, com diferentes cúmplices, reunindo com regularidade no Diana-Bar, em Póvoa de Varzim. e - régio diana bar

E é precisamente daqui que são conhecidos os pecados “instrumentais” de Régio: algumas vezes, que ele -contrito!- confessa, usou esferográficas…

E isso tornara-se de tal modo impressivo para o “infractor”, que este sentiu necessidade de  exorcizar a “transgressão” às normas.

 

 

É do Diana-Bar, tornado local emblemático dos encontros e da alternativa tertúlia, que José Régio escreveu algumas das suas incontáveis cartas.

Esta foi para o seu amigo Flávio Gonçalves, e começou assim:


Vila do Conde, 15/7/68


Meu caro amigo

Este papel de Vila do Conde parte realmente do Diana-Bar da Póvoa.
De aí a esferográfica, – impossível trazer tinteiro de latão e pena de pato para o Diana-Bar.
E se não fossem estas manhãs aqui, junto da vidraça e com o céu e o mar à vista, a minha correspondência andaria ainda mais atrasada, e a minha obra adiantaria muito menos…
(…)

 

Uns meses depois, precisamente a 20 de Janeiro de 1969, Régio escrevia desse mesmo lugar, tornado carismático, a um outro amigo, Álvaro Salema. E começava assim a missiva:

                                                                                     Meu Querido Amigo:

 

Desculpe-me a esferográfica: Escrevo-lhe estas linhas de um bar da Póvoa, onde a esferográfica tem de ser o meu instrumento de trabalho… Há sossego, aqui, agora no Inverno, e o mar em frente. Que isto me incline à benevolência e à paciência.

Se fora necessário tal testemunho, a sua vibração e a sua revolta me daria a medida da sua estima pela minha poesia e da sua amizade pessoal. Obrigado, meu amigo (…). A minha poesia é que já não é só minha. (…)

 

José Régio assume, a contragosto, que transformou a esferográfica no seu “instrumento de trabalho”. E desculpa-se por isso…

Porém, vasculhando mais a fundo nas coisas regianas, encontra-se pelo menos um “antecendente” que vem dos distantes anos cinquenta, ainda de Portalegre.

e - régio emendasExistem provas da 4.ª edição do livro de poemas Biografia, onde pelo punho de José Régio se podem observar certas emendas, portanto autógrafas, algumas a cor azul e outras mesmo a negro, por traço de esferográficas…

Como esta edição, com desenhos de Júlio e publicada pela Portugália, foi lançada em 1956, datará desse ano ou do anterior, este “pecado original” de José Régio.

 

Estas constatações, no entanto, não permitem chegar a qualquer segura conclusão sobre se o poeta terá preferido a BIC Laranja ou a BIC Cristal.

Para ser absolutamente honesto, nem sequer me atrevo a garantir se José Régio teria alguma especial predilecção pela marca ou se usaria, nestas emergências, alguma esferográfica da concorrência.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

 

PS – Esta ligeira crónica foi batida e transferida directamente do teclado, monitor e memória do portátil para esta página do blog. Tudo por dentro das tecnologias digitais… Nada há aqui, portanto, de poético ou de esferográfico. Por mero acaso é manhã de um quase Inverno, estou junto à vidraça e com o céu e o mar à vista. Também acho isso estimulante, mas não estou em Póvoa de Varzim, não me chamo José e, sobretudo, nem sequer peço desculpa por usar tecnologias modernas…

 

 

 

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