Uma data de datas – LI – Astérix

NOTA PRÉVIA – Em 17 de Outubro, uma dúzia de dias atrás, quando aqui coloquei   ast8o anterior texto desta série Uma Data de Datas, decidi cometer deliberamente um erro, ao escrever o número de ordem 50, na habitual notação romana que uso desde o princípio. Corri o risco de passar por distraído ou, pior ainda, por iletrado… Escrevi XLX, violando regras básicas, pois é sabido que 50 corresponde simplesmente a L e não a 50-10+10, como propositadamente escrevi. E mantenho-o escrito assim, como marco “histórico”, uma vez que ninguém notou o “erro” ou, por pudor ou amizade, quem nele reparou evitou fazer-mo sentir…

Passada em branco esta espécie de “teste” à atenção (ou à sabedoria!?) dos leitores, retomo hoje a normalidade numérica, até pelo devido respeito pelos vencidos. Falo, obviamente, de Júlio César e dos outros romanos, vítimas da poção mágica a seguir abordada.

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LI – 29 de Outubro de 1959 – Nasceu Astérix

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Astérix é como a cortiça. Por vezes submerge, desaparece por uns tempos da superfície. Mas volta a emergir, como novo, rejuvenescido, depois de algum tempo.

Foi assim há dias, mais uma vez, e voltará a acontecer.

O recentíssimo álbum protagonizado pelo herói gaulês e pelo seu inseparável ast6Obélix, intitulado Astérix entre os Pictos, saltou para o mercado na passada quinta-feira, 24 de Outubro, em 15 países, incluindo Portugal, e foi o primeiro sem a assinatura conjunta de Uderzo e Goscinny, os seus criadores.

A solene pré-estreia acontecera dias antes, em Paris, com a presença dos novos autores, o argumentista Jean-Ives Ferri e o ilustrador Didier Conrad, contando também com Albert Uderzo, o primitivo desenhador das personagens, que supervisionou a nova história, e ainda com Anne Goscinny, filha do argumentista original, já falecido.

Astérix entre os Pictos, que é o 35º álbum da crónica dos “irredutíveis gauleses”, terá uma incrível tiragem de cinco milhões de exemplares e coloca Astérix e Obélix numa viagem à antiga Escócia, onde conhecerão os guerreiros Pictos.

Deixei passar em claro essas duas datas para saudar exclusivamente a de hoje, 29 de Outubro, quando se assinala a aparição, em 1959, da primeira página da história original –Astérix, o Gaulês– na revista Pilote.

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Desde então, contabilizam-se mais de 350 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo, traduzidos em cerca de oitenta línguas e trinta dialectos, contando-se entre estes o mirandês. Além disso, a série em BD já inspirou 11 adaptações para o cinema, sendo 8 de animação e as outras 3 com imagem e personagens reais. Os brinquedos, incluindo colecções das figurinhas, assim como os jogos, sobretudo os de computador para diversas plataformas, são incontáveis, e também não devemos esquecer um parque temático, do tipo “disneylândia”, dedicado ao mito Astérix.

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A história-base das sucessivas aventuras é sempre a mesma, significando a eterna resistência dos patriotas residentes contra os invasores e ocupantes estrangeiros. A ajuda do maravilhoso é representada pela poção mágica do feiticeiro, que confere uma força invencível ao herói.

ast4As personagens principais, os protagonistas, são construídas segundo modelos muito vulgares na BD, um herói, o seu companheiro inseparável e um animal de estimação, correspondendo o trio Astérix, Obelix e  Idéiafix a Tintin, Haddock e Milou, um outro ultra-famoso conjunto de aventureiros.

Onde a série Astérix assume foros de grande originalidade é nos níveis de leitura e de interpretação que sugere e permite, na descodificação de estereótipos, nacionais ou regionais, e de alusões culturais, algumas destas carregadas de erudição histórica, literária ou artística. A sábia intervenção de personagens históricas de épocas diversas, a inclusão de frases célebres, trocadilhos e caricaturas revela uma sábia utilização de humor francês típico, sempre inserido a propósito e nas doses certas.

O uso, muitas vezes recorrente, de certas tiradas clássicas é outra característica inerente à construção dos enredos, no mais puro estilo de Goscinny, um mestre do argumento da BD.

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Astérix mudou de argumentista em 1977, necessariamente, após a morte de René Goscinny, mantendo-se Albert Uderzo no desenho das novas histórias que outros inventaram. Mas houve uma evidente quebra no nível global da série. Agora, com a retirada do desenhador, a saga de Astérix conhece uma dupla de criadores que dificilmente poderá manter o interesse que era assegurado por Goscinny e Uderzo. Mas os objectivos comerciais pesam decisivamente e casos como o de Hergé, que levou Tintin com ele para o túmulo, são cada vez mais raros…

Como atrás lembrei, foi a 29 de Outubro de 1959 que começou a história dos “irredutíveis gauleses”. O seu único temor é o de que o céu lhes caia sobre as cabeças.

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Mais de meio século depois, após três dezenas e meia de incursões pelo mundo antigo, os legítimos herdeiros de Vercingetórix continuam a sua luta contra os romanos. Aos bretões, egípcios, gregos, belgas, godos, helvéticos, normandos, hispânicos e até mesmo índios norte-americanos, juntaram-se agora os pictos (escoceses)… Quem se seguirá?

ast10Num simples palpite, acredito que os “irredutíveis gauleses” se lancem amanhã pelas Áfricas abaixo, atravessando o Sahara, ou pelo Helesponto (hoje Dardanelos), rumo aos Orientes, quem sabe se até à China dos Ming…

De qualquer forma, como já atrás disse, receio pela qualidade das narrativas. Não há criadores insubstituíveis, mas, tratando-se de Astérix & C.ª, o caso muda de figura. Não tenho a certeza de que nos não assalte alguma saudade…

Par toutatis!!!

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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