Saborzinho achocolatado – doze

título geral

XII – O MISTÉRIO DAS CARTAS TROCADAS

O novo GRANDE CONCURSO DA SIC, anunciado no número 62 do ABC-zinho, em 26 de Novembro de 1923, mal tinha terminado o anterior, será não apenas o último como também, provavelmente, o mais criativo.

Agora, a proposta é quase insólita: o jornal publicará uma série de cartas, exactamente seis, trocadas entre vários membros de duas famílias, a propósito de um assunto em que aparecem os famosos chocolates da S.I.C. (estou a seguir à letra o regulamento, daqui esta adjectivação). As referidas cartas, ainda para mais complicar a questão, não serão divulgadas pela ordem das respectivas datas, nem sequer sendo indicado o parentesco que une os subscritores.

Reproduzo agora textualmente o parágrafo seguinte:

Deverão portanto os leitores (depois de ter sido publicada a última) fazer de Sherlock-Holmes e deduzir, pela leitura delas, o que foi a tragédia chocolástica e Sicquesca que se passou no meio das duas famílias cujos membros trocaram tal correspondência…

O Tio Pirilau, certamente o autor do regulamento, procurou a seguir animar os potenciais concorrentes, quando concluiu que “o caso parece mais difícil do que realmente é!”

E o texto constante da contracapa desse número 63 do ABC-zinho (3 de Dezembro de 1923), terminará com uma “patriótica” e “achocolatada” máxima incentivadora:

Estejam atentos, vão lendo as cartas com cuidado e verão como a S.I.C. e os seus famosos chocolates fazem parte tão integrante da vida duma nação!

12 a

Recapitulo o contexto que envolve estes pormenores constantes de um simples jornal infanto-juvenil, com uma imensidade de leitores adultos. Ao tempo, os anos 20 do século XX, este tipo de publicações dispunha entre nós da tradição de conteúdos essencialmente moralistas (O Amigo da Infância, As Creanças, Jornal da Infância, o Supplemento Humoristico de O Seculo, O Gafanhoto, A Montanha para as Crianças…), dotados de meras ilustrações e de raras histórias aos quadradinhos. Cottinelli Telmo rompe com tudo isto, sobretudo com a infantilização patente no seu envolvimento. Sendo certo que se apoiou em alguma e seleccionada produção estrangeira, sobretudo inglesa e francesa, em muito a ultrapassou. A sua rara intuição, bem traduzida no nível afectivo e pedagógico, não isento de críticas pertinentes, da abundantíssima correspondência epistolar com os leitores, apenas dela encontrou paralelo na transbordante criatividade que punha em todas as múltiplas modalidades da sua intervenção jornalística.

12 b

Infelizmente, não disponho da totalidade da meia dúzia de cartas, mas apenas de quatro delas. Ainda assim, sobretudo analisando a solução do respectivo concurso, divulgada no número 75 do ABC-zinho, é possível reconstituir o seu integral conteúdo.

Com a proverbial pontualidade e rigor com que no jornal eram tratados todos os assuntos, incluindo naturalmente os concursos, a edição relativa a 25 de Fevereiro de 1924 fornecia a “chave” do enredo contido nas seis missivas. Ei-la:

 

A tragédia passada no seio das famílias Pinto e Peixoto, e de que se tirava a conclusão pela leitura das cartas publicadas no ZINHO, foi a seguinte:

Paulo escreveu a Pedro, pedindo-lhe para comprar uma caixa de bombons da S.I.C. que ele queria oferecer à mãe no dia dos anos. Quanto ao dinheiro, Pedro que fosse buscar à Rua do Alecrim o prémio que Paulo tinha ganho num concurso do ZINHO. O pai de Pedro lendo a carta de Pedro desconfia de qualquer coisa pouco correcta por parte do amigo de seu filho. Escreve ao pai de Paulo, etc. etc. – e desvenda-se o mistério. A mãe de Paulo envia a Pedro uma caixa de bombons, igual à que o filho lhe oferecera, por ele ter sabido guardar segredo e ter sido um tão precioso colaborador na obra de Paulo“.

E o Tio Pirilau conclui: “Aqui está, muito resumidamente, a tragédia… e o resultado deste concurso, outra tragédia para os que não ganharam!…

Sempre desabridamente irónico, este Tio Pirilau!

12 c

Assim terminaria a ligação publicitária, e não só, entre o ABC-zinho e a SIC, que em muito ultrapassou, como ficou demonstrado, a fabulosa História do Chocolate, com os seus quadros arrancados à patriótica e crítica crónica de selectos episódios vividos nos monárquicos tempos…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

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