PORTALEGRE – Que cultura? – Seis

cultura

A questão das sedes específicas da cultura é um falso problema. Quando se proclama que esta ou aquela modalidade cultural dispõe de uma maior ou menor vocação para se instalar ou desenvolver neste ou naquele local, estamos muito mais no plano da teoria que no da prática. Aliás, este princípio genérico aplica-se a muitos outros sectores da vida comunitária, como o económico.

Por que é Campo Maior uma referência incontornável no mundo do café, se ali nem se cultiva tal planta nem se colhe a sua baga? Por que consideramos os chocolates ou os relógios suiços como dos melhores quando naquele país não existem cacaueiros nem se fabrica o aço? Como pode situar-se uma grande produtora de filmes ou um famoso observatório astronómico num deserto se aquilo fica nos confins do mundo e longe da “civilização”?

Por que não pode ser Portalegre a Capital Nacional do Audiovisual? Depois de aparentemente vaguear a despropósito quis aqui chegar. É que este foi (será ainda?) o sonho de muito boa gente portalegrense.

Já tenho contado algumas vezes esta história e vou aqui brevemente abordá-la.

O termo audiovisual é moderno e designa genericamente as formas de comunicação que combinam som e imagem, assim como o produto gerado por elas, a própria tecnologia e mesmo a linguagem utilizada. O primeiro contacto de Portalegre com o audiovisual foi provocado pelo cinema, que aí dispôs de diversos salões e de sucessivas casas de espectáculos apropriados para o efeito. Mas a dimensão cultural do cinema, como objecto e pretexto de estudo e discussão, é-lhe mais tarde conferida pelos cine-clubes, que ultrapassam a mera e passiva posição do espectador, assim tornado crítico activo.

A pioneira tentativa de formar em Portalegre um cine-clube é protagonizada por um pequeno grupo de intelectuais, que conta com José Régio, Feliciano Falcão, Ernesto de Oliveira, António Teixeira, Baltasar Marcelino e outros, pelos inícios dos anos 60 do século XX. O Cine-Clube de Portalegre, Centro de Cultura Cinematográfica, teve uma gestação difícil (e original!), pelos controlos políticos de então, e não durou senão uns breves três anos.

Depois, o maior apaixonado pelo fenómeno audiovisual que conheci em Portalegre foi Francisco Queirós, quando era ainda professor do ensino primário, mas já então seriamente interessado pela sua aplicação didáctica. Esta inclinação levou-o mesmo à direcção nacional da Rádio Escolar, com sede em Vila Nova de Gaia.

Pelos inícios dos anos 80, um outro educador portalegrense, o jovem Francisco Pacheco, inserido na dinâmica do autêntico centro cultural, espontâneo, em que se tornara o Convento de Santa Clara, fundou aí o Cine Clube de Portalegre. Editou um interessante boletim, o Travelling, organizou ciclos temáticos de cinema que abrangeram outros concelhos vizinhos e cursos de formação, alguns de âmbito infanto-juvenil. A maior realização deste clube seria o 1.º Festival Internacional de Cinema sobre Ambiente, incluindo competição, jornadas infantis, feira do livro, retorspectivas, comunicações, colóquios e debates. Decorreu no Salão Euterpe (antiga Fábrica Real) e em Santa Clara, em Outubro de 1982.

Ao mesmo tempo, o saudosíssimo Atelier de Artes Plásticas (outro “milagre” de Santa Clara) e o Gabinete de Audiovisuais da Casa de Cultura (FAOJ), ao Corro, eram dinamizados pelo prof. Bentes Bravo, que teve a audácia de lançar o desafio de aqui organizar um Festival de Diaporama. Assisti pessoalmente à dura e quase “dramática” discussão que ele teve em Lisboa com o então director nacional do FAOJ (cujo nome não retive) e onde, contra toda a inicial expectativa, convenceu este a patrocinar o arrojado evento. A primeira edição, apenas nacional, aconteceu em Outubro de 1981, constando de exibição, competição e comunicações, um conjunto que trouxe a Portalegre algumas das mais famosas personalidades e ainda cultores de uma modalidade ao tempo extremamente exigente no plano técnico.

O festival apenas seria retomado em Abril de 1985, então sob a direcção do prof. Américo Ribeirinho da Silva, apoiado por uma boa parte da anterior equipa. Esta segunda edição, ainda nacional, decorreu no Cine Teatro Crisfal.

Dois anos depois, o então delegado regional do FAOJ, José Barradas, conseguiu não apenas organizar a terceira edição do Festival de Diaporama, como conceder-lhe um alargamento internacional, com o prestigioso patrocínio da Fédération Internationale de l’Art Photographique. A sua sede foi a Escola Secundária de São Lourenço, em Abril e Maio de 1987.

O mês de Outubro do ano seguinte, 1988, acrescentou um passo inédito nesta “instalação”, em Portalegre, de uma simbólica Capital Nacional do Audiovisual, com a criação de um Festival Internacional de Cinema, a juntar aos anteriores eventos, numa inédita iniciativa da Câmara Municipal. A primeira edição deste festival aconteceu sob a direcção do cineasta Lauro António, um homem afectivamente ligado a Portalegre, e incluiu os denominados Encontros do Cinema Português. José Régio e Manoel de Oliveira mereceram um justo lugar de destaque na programação.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

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