Um crime de alta traição

Agência LUSITANA – Continua detido no Forte da Graça, em Elvas, reactivado para o efeito, o cidadão Bruno Miguel Azevedo Gaspar de Carvalho, ex-presidente do Sporting Clube de Portugal. Está sob custódia de um destacamento de cerca de sete dezenas de guardas prisionais, coadjuvados por dois pelotões de fuzileiros navais, uma vez que circulam informações, embora não confirmadas, de que um comando de membros da Torcida Verde, com o apoio de alguns selectos elementos do Directivo Ultras XXI, se prepara para uma operação de ataque às instalações prisionais de Elvas, a fim de libertar o detido.

Entretanto, as investigações em curso já estabeleceram fortes ligações entre as declarações separatistas de Bruno de Carvalho e forças oposicionistas moçambicanas, país de onde, como se sabe, é natural. Igualmente foi descoberto um diário íntimo do detido, em que este revela uma profunda divergência em relação ao seu tio-avô, Pinheiro de Azevedo, que foi primeiro-ministro do VI governo provisório, em 1975. Nesses escritos dos seus seis anos de idade, Bruno de Carvalho denuncia precocemente a intenção de promover uma contra-revolução no país, pois já então discordava radicalmente da definição do povo português como “sereno” e decidira fazer coisas que não fossem apenas “fumaça”. Citámos passagens do seu diário, com datas relativas a 1978.

Como amplamente foi divulgado pela comunicação social, Bruno de Carvalho foi detido dias após o discurso separatista pronunciado em Braga, perante adeptos do clube leonino, antes do jogo com o Vitória de Guimarães.

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Aí, o agitador propôs a retirada da cor vermelha da bandeira nacional, como forma de começar a resolver os problemas do país.

A ideia terá sido aplaudida por alguns dos presentes, que estão neste momento a ser cuidadosamente investigados pela Polícia Judiciária Militar. Estes agentes já encontraram provas reveladoras de que, no passo seguinte, Bruno de Carvalho iria propor a alteração da letra do hino nacional, no final da primeira estrofe, que deveria passar a:

 

Entre os Brunos da memória,

Ó Sporting sente-se a voz

Dos teus Stromp’s avós,

Que há-de guiar-te à vitória!

 

Ao que se pensa, a última estrofe conteria um apelo muito mais violento, mas, ao ser detido, Bruno de Carvalho ainda conseguiu engolir a folha de papel com tal escrito.

Ao terem conhecimento de tão insultuosa proclamação, verificaram-se enérgicos protestos por parte do Sport Comércio e Salgueiros, da Real Irmandade da Sereníssima Ordem Equestre e Militar de São Miguel de Ala, do Grupo Excursionista dos Amigos do Tinto de Alcafache de Cima e do Comité Central do Partido Comunista Português, este reunido com carácter de urgência, denunciando respectivamente o abusivo apelo à abolição da cor que preenche as suas camisolas, as suas capas, as suas boinas  e os seus tradicionais símbolos máximos. Ainda que sem confirmação oficial, o Manchester United ter-se-á também constituído assistente no processo penal em curso contra Bruno de Carvalho, aberto pela queixa-crime apresentada por aquelas quatro respeitáveis instituições nacionais.

Em contrapartida, o Partido Ecologista Os Verdes divulgou um vibrante comunicado manifestando a sua “activa solidariedade para com a oportuna proposta contida no patriótico discurso do lúcido cidadão” (fim da citação).

Sabe-se que o presidente Cavaco, sempre atento às grandes questões nacionais, vai reunir o Conselho de Estado, na intenção de conhecer a opinião dos conselheiros quanto à sua intenção de mudar a cor verde do pendão presidencial para vermelho, a fim de compensar a eventual retirada desta cor da bandeira nacional.

A fábrica Viarco, por seu lado, vai lançar uma série especial de caixas de lápis de cor, onde toda a dúzia é uniformemente vermelha, “como patriótica resposta à perigosa ameaça que pende sobre o nosso simbólico pendão” – lê-se no anúncio publicitário publicado pela conhecida empresa nos jornais diários.

Contactado por um jornalista, o constitucionalista Jorge Miranda considerou que Bruno de Carvalho, seguramente, não será condenado à morte por fuzilamento, uma vez que o seu crime não foi cometido num teatro de guerra. Ainda assim, ele pensa que a moldura penal aplicável nunca será inferior a vinte anos de reclusão, seguida da expulsão do país.

A este propósito, os juristas nacionais dividem-se entre duas posições, entendendo uns que deve ser o Tribunal Penal Internacional, de Haia, a julgar o caso, enquanto outros proclamam ser este um excelente pretexto para reactivar os tribunais colectivos do tempo do Estado Novo, com pides e tudo, Caxias e Tarrafal… Ao que se julga, a decisão final ainda não está tomada, não se descartando a hipótese da recuperação do Tribunal de Nuremberga, que julgou os criminosos nazis.

As investigações em curso, confirmando a excelente argúcia das nossas polícias, já permitiram identificar um perigoso cúmplice de Bruno de Carvalho. Trata-se de um cidadão francês de nome Siné (julga-se que é apenas um pseudónimo), que foi visto entre nós durante a Revolução de Abril de 1974 e que então por cá espalhou tenebrosas teorias separatistas, em tudo idênticas às actuais, portanto propondo também a violenta abolição da cor vermelha da bandeira nacional, conforme ineludíveis provas  (cartoons) já adicionadas ao processo.

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bruno 5 (732x1024)A Interpol divulgou atempadamente cartazes com fotografias do perigoso indivíduo, mas crê-se que ele terá clandestinamente fugido para a Síria, aí pedindo e tendo obtido asilo político, da parte do seu benemérito presidente Bashar al-Assad.

O Ministério Público ainda hesita na acusação de associação criminosa, uma vez que o detido contava apenas dois anos de idade à data da publicação dos subversivos cartoons.

Estas são as últimas notícias sobre o momentoso caso que apaixona a opinião pública nacional e europeia. A este  propósito, a governo da Grécia já emitiu um comunicado a demarcar-se do caso português. Segundo Atenas, na crise podem os dois países ser semelhantes, mas os gregos estão livres de sofrer mais cortes, nomeadamente o do vermelho, uma vez que, prudentemente, na sua bandeira apenas usam azul sobre fundo branco.

 

Última Hora – Um telegrama acabado de chegar à nossa Redacção dá conta de estar a decorrer neste preciso momento, no ministério da Administração Interna, uma reunião entre representantes das claques sportinguistas, o titular da pasta e altos comandos policiais, no sentido de definir com rigor a quantidade de degraus da Assembleia da República que poderão ser ocupados no decorrer da manifestação nacional de apoio a Bruno de Carvalho, exigindo a sua imediata e  incondicional libertação, prevista para a tarde de amanhã.

 

Largo dos Correios

26 de Novembro de 1967 – O APOCALIPSE – dois

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APOCALIPSE – dois

 

O que acontecera naquela noite fatídica, segundo os especialistas, fora uma precipitação excepcional, intensa e concentrada, calculada em termos de período de retorno nuns 500 anos, portanto com uma probabilidade de incidência de duas vezes em cada milénio. Aquilo, portanto, fora uma trágica coincidência!

As estações meteorológicas da região de Lisboa registaram cerca de um quinto da precipitação anual, naquelas escassas horas.

Depois, houve factores no terreno que amplificaram este dilúvio. Aqueles que os especialistas recensearam como mais significativos foram:

 

  • Vastas zonas da região intensamente urbanizadas e, portanto, impermeabilizadas;
  • Grande parte do coberto vegetal natural anteriormente destruído;
  • Construções transversais nos cursos de água, que dificultaram ou impediram a drenagem natural;
  • Rios e ribeiras da região carecidas de limpeza mínima;
  • Acumulação de lixos e detritos, incluindo mobiliário velho e electrodomésticos em zonas de cheia;
  • Redes fluviais canalizadas e tornadas em grande parte subterrâneas;
  • Sistemas de drenagem pluvial mal dimensionadas e acusando deficiente manutenção;
  • Coincidência da precipitação concentrada com a praia-mar do rio Tejo.

 

Estas circunstâncias, na sua maioria de responsabilidade humana, por desleixo ou erros técnicos, agravaram substancialmente a situação. Acrescente-se que alguns especialistas, nomeadamente da área relacionada com a ecologia, o urbanismo e a defesa do ambiente, como o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, tinham repetidamente alertado as autoridades e a opinião pública para a eventualidade de riscos semelhantes ao acontecido.

Acresce a circunstância de os fortes caudais que se formaram terem arrastado grande quantidade de detritos, como pedaços de solo e rocha, árvores, fragmentos de muros e paredes, mesmo blocos inteiros de casas destruídas pelas águas em torrente. O impacto destes detritos fragilizou as estruturas que encontraram pelo seu impetuoso percurso, muitas das quais cederam perante essa força imparável. Assim desapareceram ponte se pontões, caminhos e estradas.

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A situação na região da Grande Lisboa tornou-se caótica, incontrolável. As cheias causaram a morte de centenas de pessoas, o desalojamento de milhares, submergiram centenas de casas, pontes, vias de comunicação e outras infraestruturas colectivas. Alguns cálculos apontaram para prejuízos da ordem de 3 milhões de dólares a câmbios da época, muitos milhões de euros hoje, confesso que nem calculo quantos, mas certamente muitos, muitos…

Quanto ao número exacto de vítimas mortais, o regime, a certa altura, ordenou que se suspendesse a contagem e esta ficou congelada nos quatrocentos e tal, julgo que 427. Porém, ao que se julga como mais correcto, os mortos terão ultrapassado os 700, incluindo muitos desaparecidos nunca recuperados, quase seguramente arrastados pelas marés. Oficialmente, o governo citaria, apenas, cerca de 250 vítimas.

Os serviços oficiais de socorro revelaram-se manifestamente incapazes de controlar a caótica situação e valeu o apoio de corajosos voluntários, como as juventudes académicas, juntamente com bombeiros e militares. Vieram depois as manifestações cívicas de solidariedade, como peditórios, subscrições e espectáculos públicos de diversa natureza, para angariação de fundos destinados às vítimas sobreviventes. Novamente aqui se distinguiram os estudantes e sobretudo as estruturas católicas.   

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Uma realidade também escamoteada foi a circunstância de a maioria dos mortos (e desaparecidos) ter acontecido nos miseráveis bairros semiclandestinos dos arredores da capital, sobretudo em Algés. A baixa desta freguesia foi devastada por uma torrente de lamas, detritos e água, como eu próprio fui testemunha presencial.

Do outro lado da cidade, na zona de Frielas, Póvoa de Santo Adrião, Pontinha e Urmeira, na bacia do rio Trancão, e também em Odivelas, situavam-se aglomerados urbanos também bastante atingidos, onde casas de madeira dos “bairros da lata” foram engolidas pelas águas revoltas. Aquela zona foi chamada o “vale da morte”…

A própria Lisboa, cidade, ficou com zonas quase irreconhecíveis. A Avenida de Ceuta, em Alcântara, ficou submersa e o mar de lama desceu até à Avenida da Índia. Na Praça de Espanha e na Avenida de Liberdade apenas se podia circular de barco, pelo que as comunicações rodoviárias foram interrompidas e os transportes públicos paralisados.                   

Apesar da minimização oficial dos efeitos da tragédia, os seus ecos fizeram-se sentir na Europa que se revelou solidária, pois foi desencadeado um movimento de apoio internacional, sob a forma de donativos e de meios sanitários, em particular.

Enfim, a miséria humana, tanto a económica como a técnica, tinha-se revelado como um perfeito aliado da catástrofe natural, potenciando os seus efeitos devastadores.                     

                                     

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

 

Aqui e do outro lado do mar

Estou feliz. Uma prestigiada revista brasileira, que dispõe de versão digital, lembrou este blog nas suas páginas. Recebi ontem a boa nova pela sua directora executiva, Mirna Queiroz, que teve a gentileza de me comunicar o facto.

Trata-se de Pessoa – Revista de Cultura Lusófona (a revista que fala a sua língua), que assume por principal objectivo firmar-se como espaço de democratização do acesso à produção literária de língua portuguesa. A sua fácil abordagem pode fazer-se pelo endereço http://www.revistapessoa.com

Com efeito, uma das suas mais qualificadas colunistas, a escritora e académica Nilma Lacerda, dedicou palavras de extrema simpatia a um meu já antigo texto, O rol da roupa branca, aqui publicado em 25 de Novembro de 2012.

Interpreto esta recensão como um estímulo para prosseguir com empenho o meu modesto labor. E, por isso, devo aqui expressar a minha gratidão à autora do texto O rol de folhas brancas, Nilma Lacerda, e à responsável pela edição da revista, Mirna Queiroz.

Ser assim citado no Brasil nem sequer o sinto como uma “internacionalização”, pois o país irmão do outro lado do mar é para mim, e por razões de profundo afecto pessoal já aqui amplamente relatadas, uma extensão da pátria natal.

O blog Largo dos Correios/Fonte do Rosário alargou, por este feliz acontecimento, os seus horizontes

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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O CASO FERNANDO GREGO – três

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TERCEIRO ACTO

Que real importância e significado concede José Régio ao teatro? Que lugar ocupa o teatro na sua produção ficcional, na sua própria vida?

São estas duas questões fundamentais, cuja resposta nos concederá a possibilidade de entendermos algumas das suas posições pessoais perante os diversos e sucessivos encontros que teve com o teatro, como amador (já o sabemos!), como espectador, como crítico, como teorizador, como criador.

Isabel Cadete Novais, no seu artigo O teatro de José Régio (Boletim do Centro de Estudos Regianos n.º 10-11, Junho-Dezembro de 2002), cita quarenta e seis artigos do autor sobre tal tema, entre 1927 (em Presença n.º 7) e 1969 (em A Capital n.º 378), dispersos pelos seguintes periódicos: Presença, Revista de Portugal, Jornal de Notícias, O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto, Vértice, Ler, Espiral, Diário Popular, Diário de Notícias e A Capital. [falta aqui, no mínimo a Crónica Teatral, assinada R.P., no jornal portalegrense Alto Alentejo, de 15 de Dezembro de 1930]. Sendo uma quantidade considerável, ainda assim poderá constituir uma modesta percentagem num total seguramente contabilizado em largas centenas de textos produzidos por Régio, como colaboração em jornais e revistas.diário íntimo (569x800)

Onde esta relação assume uma dimensão comparada indiscutível é no seu próprio, embora irregular, Diário Íntimo, pois entre 274 entradas contam-se 88 contendo alusões ao teatro, algumas compreendendo diversas páginas. Em quase um terço dos seus registos diários, José Régio aborda temas teatrais, o que viu, o que leu e, acima de tudo, o que escreveu ou desejava escrever, o que disso outros disseram e escreveram, o que por isso ele se alegrou (pouco) ou se entristeceu (muito)…

É de certo modo possível por esses testemunhos compreender os sentimentos que o dramaturgo foi tecendo ao sabor das suas sucessivas vivências teatrais, nas emoções reveladas, nas confissões sussurradas, na amargura mal contida, na esperança tantas vezes frustrada…

José Régio, em certo diálogo com Óscar Lopes, confidenciou-lhe que, para si, o teatro era a parte mais original e por isso a mais incomprendida da sua obra.

A esta luz, de um quase desconcertante radicalismo, devemos ler os excertos que cronologicamente retirei do Diário, aqui os expondo sem qualquer comentário:

 

Portalegre, 7 de Maio de 1950
Acabo de escrever ao Casais Monteiro
:“… sei que nasci para fazer teatro, e que devo lutar pelo meu teatro, até com armas que, propriamente não sendo minhas, o teatro exige…”

 

Portalegre, 2 de Maio de 1952
Todas as grandes verdades do Teatro as descobri por mim, comigo – sonhando e realizando as minhas peças.

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Portalegre, 4 de Fevereiro de 1953

Estranho destino o do meu teatro! Jacob e o Anjo, com uma grande aura em Portugal, interessa a uma Companhia brasileira, interessa a holandeses que para cá escrevem nesse sentido, inte­ressa à Companhia do Nacional (Amélia e Robles), interessa a franceses que o conseguem levar à cena. Não está senão meio mês em Paris; mas é o bastante para provocar grande ruído. Todos os outros projectos da sua representação falham; começando pelo da sua representação em Portugal. Não obstante, é já uma peça inegavelmente célebre.

Benilde, que também provoca excepcional curiosidade e po­lémica, não consegue sustentar-se mais de quinze dias no Nacio­nal. Mas lança Maria Barroso, decerto admirável de sensibilidade no papel da protagonista. É traduzida para italiano, e publicada numa pequena revista de Teatro.

El-Rei Sebastião vale-me as críticas mais contraditórias que tenho recebido. Não voltei a ouvir falar do Grupo de Teatro Experimental que se propunha realizá-lo entre nós. Está traduzi­do para espanhol por um seu entusiasta de Espanha, que se pro­põe fazê-lo subir à cena. Até hoje, nada.

A Salvação do Mundo, aceite pela Companhia do Nacional (Amélia-Robles) e autorizada pelo Conselho de Leitura que fun­ciona junto do mesmo Teatro, – é proibida pelo ministro da Educação. Entregue, há mais de um ano, ao editor Eduardo Sal­gueiro, não consegue vir a público. Debalde escrevo cartas ou mando telegramas a este fantástico editor: Ele parece recomeçar a composição, envia-me provas que eu reenvio, esperançado, na volta do correio… e remergulha num silêncio exasperante e desanimador.

Assim o meu teatro já alcançou uma popularidade e expan­são ainda não atingidas pelo meu romance; mas parece destina­do a pouco vulgares vicissitudes, como se o perseguisse, talvez para o salvar, um Génio irónico e enigmático.

benilde 2 (800x375)Aspectos da minha religião: Várias vezes (todas as noites) rezei, de joelhos aos pés da cama, para que o Jacob e o Anjo tivesse bom êxito em Paris. Pedia isto a Deus não por mim, para satisfação do meu amor-próprio, mas para satisfação de meu Pai e de meus amigos. Sabia que me doeria muito a decepção deles perante um insucesso. E assim esperava, com este altruís­mo, comprar Deus: constrangê-lo a atender-me. Simultaneamen­te, pensava: “Mas poderá Deus interessar-se por estas ridículas mesquinhices humanas?” (O Problema da intervenção de Deus nos nossos pequeninos negócios terrenos foi sempre um meu problema.)

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Portalegre, 15 de Fevereiro de 1953
domingo de Carnaval
Fraqueza! fraqueza tudo isto! Eu devia sentir mais à superfície o que realmente sinto ao fundo: O meu Teatro vale, – porque é profundamente sincero. Eu não faço peças: Exprimo-me em Teatro. Que devera importar-me tudo o mais?! O futuro verá o que o presente não vê. Mas aqui ficarão registadas algumas das minhas fraquezas, já que ainda as tenho.

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Portalegre, 12 de Novembro de 1957

Vou fazer sair (o volumezinho já está composto) as Três Pe­ças em Um Acto. Continuo a pensar que sou um dramaturgo original, embora nenhuma das minhas peças corresponda, feita, ao que sonhei seria. E não há dúvida que a incompreensão da crítica (?) sobre o meu teatro me envenena. É uma fraqueza de que ainda não pude libertar-me. Chego a ser invejoso dos bons êxitos alheios, da atenção e da admiração que outros dramaturgos provocam – eu que, no fim e ao cabo, fico bastante frio perante os bons êxitos conseguidos.

 

Portalegre, 14 de Fevereiro de 1960
Por, de certo modo, me haver profissionalizado nas Letras, me tenho vindo corrompendo a ponto de ter ressentimentos mesquinhos… até a experimentar o degradante sentimento da inveja! Sim, várias vezes tenho tido inveja de bons êxitos alheios. Sobretudo em teatro, como autor de várias peças que não posso ter por inferiores às unanimemen­te aplaudidas, – e que, parece, eu nem chegarei a ver represen­tadas, e que os entendidos em teatro fingem, até, ignorar… Na verdade, porém, no fundo fundo, tocar-me-ão estas coisas? Importar-me-ei, verdadeiramente, com o prémio Nobel? Bem sei que não. Só numa camada relativamente superficial do meu ser, ou num primeiro grau da minha hierarquia. Para que essa coisa de lutar por um prémio literário me pareça simplesmente ridícula,ascender um pouco me basta.

 

A riquíssima dimensão artística e a excepcional qualidade literária de um homem capaz de assim traduzir uma paixão ao longo dos anos são raros atributos inerentes a alguém invulgarmente superior e, ao mesmo tempo, profundamente humano e frágil.

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

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Uma data de datas – LIX – Nasce Israel

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LIX – 29 de Novembro de 1947 – Partilha da Palestina pela ONU

 

Eram cerca das 16 horas do dia 29 de Novembro de 1947, precisamente há 66 anos, palest2 (439x800)em Lake Sucess, perto de Nova York, quando o presidente da Assembleia Geral da ONU, o brasileiro Oswaldo Aranha, abriu a votação que decidiria a sorte de uma região com pouco mais de 20 mil km2 no Oriente Médio. Os 56 países presentes deveriam votar a favor ou contra a partilha da Palestina em dois Estados: um árabe e outro judeu. E o presidente terá dito:

Todos os senhores sabem como votar. Os que são a favor dirão sim, os que são contra dirão não e os que se abstêm sabem o que dizer”. É que dias antes acontecera uma primeira tentativa, frustrada por carecer de uma maioria de dois terços, não obtida.

Como ainda não havia televisão, muito menos telemóveis ou  internet, era pela rádio que os habitantes do Mandato Britânico na Palestina acompanhavam a votação. Em função do fuso horário, já era noite em Jerusalém, Belém, Haifa, Ramallah e demais cidades da região. Mas quem, de um e outro dos lados, conseguia dormir com uma questão destas sendo decidida?

A região contava com uma população de um milhão e 300 mil árabes e cerca de 600 palest1 (533x800)mil judeus. Jerusalém, em princípio neutral, não ficaria com uns nem com outros: seria tutelada pela ONU. Segundo a proposta em votação, o futuro Estado judeu corresponderia a 55% do território, enquanto ao Estado árabe caberiam os restantes 45%.

A tensão era insuportável. O salão em que a votação ocorreria estava cheio de espectadores interessado e os corredores também repletos.

A segunda Assembleia Geral da ONU, entidade sucessora da finada Liga das Nações,  que havia falhado em sua missão de promover a paz, iria agora votar a decisiva Resolução n.º 181.

Finalmente, aconteceu a dramática votação definitiva: 33 países votaram favor do Plano, 13 votaram contra e 10 abstiveram-se. A Grã-Bretanha, directamente envolvida, absteve-se, mas tanto a Rússia como os Estados Unidos votariam a favor.

Os países da Liga Árabe presentes (Egipto, Síria, Líbano e Jordânia) manifestaram-se logo abertamente contrários à proposta e não reconheceram o novo Estado de Israel.

A Agência Judaica, que era ao tempo a máxima autoridade dos israelitas, aceitou a resolução, embora não ficasse satisfeita com algumas normas da solução aprovada, como por exemplo as restrições à futura imigração judia da Europa.

Poucos meses depois, em 14 de Maio de 1948, apenas algumas horas antes de cessar o prazo do Mandato Britânico e já em plena guerrilha civil entre árabes e judeus, foi declarada a Independência do Estado de Israel.

Os Estados árabes envolventes, Egipto, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano, reagiram imediatamente e os seus exércitos invadiram a região, com o declarado objectivo de eliminar o recém Estado de Israel do mapa.

Assim começaria a primeira guerra árabe-israelita.

 

palest4 (800x574)Hoje, Israel continua a erguer o Muro da Cisjordânia, uma barreira física que pretende separar os territórios palestinianos ocupados do seu próprio Estado. Alegam os judeus de que esta barreira já conseguiu reduzir a 10% o terrorismo interno proveniente, por infiltração, dos vizinhos árabes. O comprimento total do muro está previsto para cerca de 760 km, duas vezes o comprimento da linha de armistício traçada em 1949, após uma das guerras regionais.

Enquanto Israel denomina a barreira de Cerca de Segurança, os palestinianos chamam-lhe o Muro do Apartheid ou da Segregação Racial.

palest3 (800x430)A existência e o traçado de construção do Muro foram considerados ilegais pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia, em 2004, pois isola cerca de meio milhão de pessoas e corta ao meio terras palestinianas. Porém, Israel não acatou tal parecer e a construção continuou.

Pessoalmente, apesar da admiração e simpatia que já aqui revelei para com a causa israelita, não posso aceitar sem protesto a existência deste Muro.

Tal como procedi para com o Muro de Berlim, e pelas mesmas razões humanitárias.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

 

GALVEIAS – 1955-1957 – três

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Um certo dia, num dos nossos passeios motorizados pelos arredores -tínhamos ido até à Aldeia de Santa Margarida e voltávamos para jantar- por uma estrada que não existia e onde o trajecto se assemelhava a uma lide em que enfrentávamos sucessivos sobreiros num interminável montado, a certa altura o Américo deu um monumental trambolhão. Aprestei-me a socorrê-lo mas, ao vê-lo levantar-se sem visíveis maleitas, preocupei-me em prioritariamente recolher a sua preciosa agenda, que lhe tinha saltado do bolso do casaco. Ouvi-lhe por isso uma não 3 - casamentomenos monumental reprimenda porque mais me interessara socorrer a agenda do que a ele próprio… Bem lhe expliquei que me tranquilizara a sua pronta recuperação, mas creio que ainda hoje ele me não terá perdoada a arbitrariedade das minhas prioridades humanitárias.

Já por essa altura o Américo namoriscava a Arcângela, jovem e simpática colega que naquele ano lectivo de 56/57 reforçara a equipa pedagógica da nossa escola, vinda da vizinha Ponte de Sor. E a verdade é que aquilo acabou mesmo em casamento que para sempre durou. Eu, mais novo do que ele, ainda não pensava a sério nessas coisas, mas já tinha assumido com o amigo padre Manuel Tavares Folgado o compromisso de que seria ele quem me 3 - padre folgadocasaria, se um dia casasse. E assim aconteceu mesmo, cumprindo-se exemplarmente o acordo.

Quando em 1964, sete anos depois das Galveias, decidimos -eu e a Adrilete- juntar os nossos destinos, foi o nosso amigo sacerdote que em Fátima concretizou o combinado, com o testemunho presencial do Américo e da Arcângela, já entretanto casados.

 

Ora ia eu por aí fora perdido pelos recantos da memória, grata memória, porém rigorosamente esquecido de outros compromissos aqui assumidos, como o de partilhar a tal curiosa reportagem jornalística…

Mas, antes disso, impõe-se ainda uma outra prioridade, e garanto que será documentalmente a derradeira, antes da prometida. Trata-se de um Boletim, datado de Agosto de 1955, editado pela (incansável) Comissão Pró-Monumento à Benemérita Família Marques Ratão. O seu inegável interesse é múltiplo, no registo de factos e de nomes, na memória fotográfica de sítios e de pessoas, nos testemunhos de uma época da crónica de uma particular comunidade e, até, de um pouco da história geral deste nosso país, ao tempo…

 

Antes de República Popular de Galveias, aqui fica mais um episódio da grata memória colectiva dessa vila.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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TRANSPARÊNCIA MUNICIPAL

ÍNDICES DE TRANSPARÊNCIA MUNICIPAL

A TIAC – TRANSPARÊNCIA E INTEGRIDADE, ASSOCIAÇÃO CÍVICA é uma organização anti-corrupção, representante em Portugal da rede global anti-corrupção Transparency International.

tiac geral 0 (1024x319)Entre os seus declarados objectivos estão os de trabalhar para uma sociedade mais justa e uma democracia de qualidade em Portugal e desejar uma sociedade onde exista um acesso efectivo à informação por parte de uma cidadania informada, forte e participativa, uma sociedade que contemple uma regulação eficaz dos sistemas e organizações, uma Justiça célere, eficiente e ética e um verdadeiro sentido de responsabilidade social por parte de todos os agentes económicos.

Para isso, a TIAC intervém em cinco vertentes específicas:

 

  • Sensibilização pública dos cidadãos, desenvolvendo campanhas de informação, conferências, materiais educativos e iniciativas públicas sobre os temas da corrupção;
  • Investigação e Desenvolvimento, através da produção de relatórios, índices e dados estatísticos que permitam um conhecimento mais profundo e sistemático sobre a corrupção e o seu combate a nível nacional e internacional;
  • Monitorização de progressos, medindo e avaliando o grau de cumprimento, por Portugal, das convenções internacionais de que o Estado português é subscritor em matéria de corrupção e promoção do Governo Aberto e da transparência pública;
  • Lóbi político e advocacia social, trabalhando junto das autoridades públicas para que implementem em Portugal as melhores práticas de controlo e combate ao fenómeno da corrupção, nomeadamente através de reformas legislativas e da adoção de uma verdadeira Estratégia Nacional Contra a Corrupção;
  • Educação e apoio a denunciantes, prestando assistência aos cidadãos empenhados em denunciar suspeitas de corrupção às autoridades competentes.

 

A TIAC foi criada no dia 17 de setembro de 2010, data em que se tornou oficialmente Ponto de Contacto em Portugal da Transparency International (TI), que coordena e apoia um conjunto de organizações da sociedade civil a nível global que combatem a corrupção.

tiac dois (800x479)Ora, segundo a organização, o Poder Local constitui uma pedra angular da democracia Portuguesa, pelo papel fundamental que desempenha para o desenvolvimento das comunidades locais e a formação cívica dos cidadãos.

É unânime o reconhecimento do serviço prestado pelo Poder Local à consolidação democrática e ao desenvolvimento do país.

Porém -ainda segundo a TIAC-, nos últimos anos, o Poder Local tem vindo a sofrer inúmeras transformações e desafios que condicionam a qualidade e integridade da governação municipal, entre outros: a europeização do poder local; a globalização e o seu impacto social, económico e institucional; o crescente distanciamento dos eleitores em relação aos partidos e as novas formas de participação política; a maior exigência de rigor e de ética por parte dos cidadãos em relação aos seus eleitos locais; o aumento das competências das autarquias e a complexidade crescente do governo local; ou o impacto das novas tecnologias no relacionamento dos cidadãos com a governação local.

Respondendo a esta crescente preocupação pela saúde do Poder Local democrático, a Transparência e Integridade Associação Cívica decidiu desenvolver uma linha de investigação sobre estas matérias.

 

ÍNDICE DE TRANSPARÊNCIA MUNICIPAL

 

O Índice de Transparência Municipal (ITM) mede o grau de transparência das Câmaras Municipais através de uma análise da informação disponibilizada aos cidadãos nos seus web sites.

O ITM é composto por 76 indicadores agrupados em sete dimensões:

 

  • Informação sobre a Organização, Composição Social e Funcionamento do Município;
  • Planos e Relatórios;
  • Impostos, Taxas, Tarifas, Preços e Regulamentos;
  • Relação com a Sociedade;
  • Contratação Pública;
  • Transparência Económico-Financeira;
  • Transparência na área do Urbanismo.

A TIAC acaba de divulgar uma relação ordenada, onde analisa e sumaria, segundo estes seus critérios, os municípios portugueses. É um interessante estudo onde, tal como em qualquer ranking (veja-se o das escolas!) existe sempre alguma margem de reparo ou dúvida. De qualquer forma, é muito meritório o esforço de estudo e divulgação desta análise do comportamento das autarquias.

E é igualmente consolador observar o resultado obtido pelas Câmaras Municipais do Norte Alentejano, normalmente remetidas para lugares modestos quanto a determinados índices de desenvolvimento. Aqui, estando em causa a orientação global da sua acção, medida pela informação disponibilizada pelos seus web sites, ou páginas disponíveis na Internet, as autarquias norte-alentejanas revelam de maneira geral uma actuação merecedora de destaque. Aqui se mostram os respectivos ITM e lugar relativo na listagem que engloba os 308 municípios nacionais:

 

        Município                   ITM                Lugar n.º

  •  Sousel                         43                     42
  • Portalegre                   42                     49
  • Marvão                       40                     66
  • Gavião                        39                      85
  • Nisa                             36                    115
  • Ponte de Sor               36                    115
  • Monforte                    31                    181
  • Castelo de Vide          23                    256
  • Elvas                           23                    256
  • Fronteira                    23                    256
  • Alter do Chão            21                    266
  • Avis                             21                    266
  • Campo Maior            21                    266
  • Crato                          20                    272
  • Arronches                  19                    281

Como curiosidades, diga-se que o ranking é encimado pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, com 61 pontos de ITM, que Évora está em 17.º lugar, com 48 pontos, Lisboa em 115.º com 36, Coimbra em 9.º com 51, Porto em 26.º com 46, Castelo Branco em 37.º com 44 e Peniche em 237.º com 29.

De salientar, voltando ao Norte Alentejano, as honrosas posições de Sousel, Portalegre e Marvão, sitas no primeiro quartel da classificação, assim como os modestos desempenhos de Crato e Arronches, sobretudo.

tiac um (1280x94)O trabalho e empenho dos autarcas assim como o dos departamentos municipais que dirigem ou orientam deve ser destacado, sendo esta revelação pública um prémio ou uma sanção quanto ao rigor dessas diligências, traduzidas na qualidade do serviço disponibilizado às populações.

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O conjunto, completo e dispondo de toda a informação, pode ser consultado no web site da TIAC – TRANSPARÊNCIA E INTEGRIDADE, ASSOCIAÇÃO CÍVICA.

 

                                     António Martinó de Azevedo Coutinho    

                  

Adriano Moreira – Palavras para pensar

Foi sempre um dos mais lúcidos políticos do seu tempo, do nosso tempo. A idade não lhe retirou qualquer faculdade, pelo que a clareza do seu pensamento atravessa as décadas e os regimes, mantendo uma invejável coerência.

A entrevista relativamente recente que o professor Adriano Moreira concedeu à jornalista Mara Dionísio, para os microfones da Rádio Renascença, aqui fica para leitura e meditação. São palavras serenas, que não precisam de apelar à violência e à demissão, para deixarem um recado incontornável.

Com a devida vénia à Rádio Renascença e à jornalista Mara Dionísio, eis as palavras e os conceitos de um Mestre, que aqui trago, uma vez mais.

António Coutinho

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Foi ministro de Salazar durante o Estado Novo. Mais tarde, liderou o CDS e foi deputado na Assembleia da República. Atravessou muitas crises, mas esta “é a pior” de todas. Aos 91 anos, Adriano Moreira considera que tem de haver a capacidade de questionar os técnicos da “troika” e lamenta que tenha sido esquecida a carta que Vítor Gaspar escreveu quando se demitiu. Relativamente ao guião apresentado por Paulo Portas para a reforma do Estado, considera que lhe “parece exagerado chamar ‘reforma do Estado'” ao documento. Pede aos partidos para se questionarem – “é preciso ver no CDS qual é a presença da doutrina social da igreja” -, e alerta o Governo para os sinais que evidenciam a perda de “legitimidade de exercício: Não faltam exemplos de distanciamento entre os programas anunciados para as eleições e as medidas tomadas”. Ainda assim, e apesar de tudo, acredita: “Lembrem-se que chegámos à Índia sem bússola”.

(De uma entrevista da jornalista Mara Dionísio para a Rádio Renascença)

 

– O relatório do FMI sobre as oitava e nona avaliações ao programa de assistência financeira a Portugal diz que os cortes nos salários e nas pensões são irreversíveis. Depois de tudo o que já aconteceu, o país é capaz de resistir a mais medidas deste cariz?

As autoridades técnicas precisam de ser corrigidas pela capacidade dos estadistas. Os estadistas não têm que ficar nem submetidos, nem pressionados por opiniões dos técnicos: aproveitam as opiniões dos técnicos e exercem a sua responsabilidade e capacidade de estadistas. Penso que nenhum estadista destes países pobres, incluindo o Governo português, pode ignorar que atingimos a fadiga tributária e que essa circunstância não diminuiu de gravidade por índices ligeiros e melhorias sazonais, que não são de futuro assegurado. Têm que prestar atenção aos sinais que traduzem que o Governo, que é legítimo pela eleição, vai perdendo a legitimidade de exercício, porque o desconforto, a desigualdade, a pobreza da sociedade da sociedade civil progridem e isso é uma situação muito perigosa.

– Este Governo já perdeu a “legitimidade de exercício”?

Acho que tem sido bastante afectada. E porquê? Não faltam exemplos de distanciamento entre os programas anunciados para as eleições e as medidas tomadas para a execução do Governo. E há a falta de coincidências entre as medidas, os objectivos e os resultados. É evidente que isto não pode deixar de afectar a legitimidade de exercício. Este fenómeno – que é grave – não é exclusivo de Portugal. Em toda a Europa, a legitimidade de exercício dos governos está a ser afectada. Por isso, já começa a haver sinais de reacções, de movimentos de extrema-direita. Por outro lado, invoca-se com frequência que se Portugal assumiu as obrigações que assumiu com a ‘troika’, então tem de cumprir. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas também não tenho dúvidas que tem outras obrigações que tem de cumprir, que são as convenções do BIT [Bureau International du Travail] em relação aos trabalhadores, obrigações assumidas com as Nações Unidas, obrigações assumidas na NATO… E não se pode limitar o país à obrigação da definição do programa feito pela ‘troika’, que se traduz em resumir o conceito estratégico nacional em Orçamento.

– Qual é o conceito estratégico nacional?

Não há. É esse o problema. Não há desde 1974. 

– Em Julho, Vítor Gaspar demitiu-se do cargo e escreveu uma carta endereçada ao primeiro-ministro admitindo que a receita da austeridade seguida não estava a funcionar. Porquê continuar a insistir na austeridade?

O senhor professor praticou um acto, que deve ser louvado, de integridade académica – declarou que se tinha enganado. Isso é uma coisa que faz parte da ética universitária e deve fazer parte da ética de governantes. Simplesmente essa carta fundamental desapareceu da discussão pública. E, portanto, dá a impressão que se foi embora o ministro, mas ficou a receita. Ele adoptou aquela metodologia convencido de que era a conveniente e depois avisa honestamente ‘isto está errado, não conduziu aos resultados que eu imaginava’ – é estranho que isso seja posto de lado e esquecido. Não é explicável.

– Que propostas alternativas à austeridade devem ser colocadas em cima da mesa?

Só conheço uma sede onde podem ser modificadas estas orientações: chama-se Conselho Europeu. Conheço outra sede, que nunca foi experimentada, que é o Conselho Económico e Social das Nações Unidas. E é aí que as coisas têm que ser discutidas. A situação, apesar de algumas certezas que os economistas têm e depois os resultados não correspondem, é a seguinte: juízos de certeza ninguém pode fazer; juízos de probabilidade são uma audácia; e juízos de possibilidade devem ser feitos sempre com a prevenção de que pode acontecer outra coisa. O que me leva a concluir que o imprevisto está à espera de uma oportunidade.

– O que é que quer dizer com isso?

Você não pode adivinhar os resultados. O imprevisto está à espera de uma oportunidade.

– As manifestações podem tornar-se violentas?

O imprevisto está à espera de uma oportunidade.

– Qual é o papel da Alemanha na Europa: é solução ou problema?

Não é novidade que a Alemanha seja um problema. Tivemos duas guerras civis, chamadas mundiais, em que o problema principal foi a Alemanha. E uma condição infeliz da História é que às vezes estas calamidades acontecem por factos sem grande significado. Por exemplo, a primeira grande guerra começou por assassinarem um príncipe: não é assim um grande acontecimento histórico, mas custou 20 milhões de mortos. A segunda guerra começou porque se elegeu um sujeito medíocre para chanceler – custou 50 milhões de mortos. De maneira que nunca podemos saber – por isso é que eu digo que o imprevisto está à espera de uma oportunidade. Há um relatório das Nações Unida que dizia esta coisa: o mundo está confrontado com duas ameaças: as armas de destruição maciça e a miséria. Estamos a chegar lá.

– Neste momento, a Alemanha tem excedente orçamental e foi aberta uma investigação ao excedente externo alemão. Pelo contrário, Portugal tem défice. Porque é que nunca houve superavit na democracia portuguesa? 

Todos os dias você ouve os melhores economistas a discutir isso. Veja se encontra lá uma boa resposta.

– Leu o guião da reforma do Estado?

Li.

– O que é que achou do documento?

Parece-me exagerado chamar ‘reforma do Estado’. Aquilo não é reforma do Estado – é reforma da administração e do comportamento na administração do Estado. Porque a reforma do Estado implica a estrutura do aparelho do poder e, portanto, implica a redefinição da função do Presidente da República, por exemplo; implica a definição do Conselho de Estado, a redefinição do regime das eleições e um outro aspecto também fundamental: que cada partido trate de redefinir as suas convicções e projectos, porque os partidos nasceram à volta de visões diferentes do mundo e da vida, mas para quando nasceram. Ora, a Revolução foi em 74. Neste momento em que estamos – 2013 -, o mundo é outro. Talvez cada partido devesse redefinir a sua concepção do mundo e da vida.

– Como é que vê o CDS nesta coligação?

Devo dizer que não tomo parte em actividades políticas. Portanto, não sei de contratos e negociações. A impressão que dá muitas vezes ao público é que a coordenação não é muito perfeita. Com vários problemas e equívocos em declarações públicas dos ministros. Não vale a pena agravar a situação lembrando-os. Mas eu julgo que aquilo que principalmente inquieta o CDS é que a interrupção do mandato do Governo teria efeitos negativos nas relações que decorrem do acordo feito com a ‘troika’ e, portanto, com o mercado.

– O CDS mantém uma coligação para evitar um mal maior?

Parece-me. A mim ninguém me perguntou.

– É essa a sua opinião?

A minha opinião é que é isso. E todos os partidos têm que redefinir a sua concepção do mundo e da vida: é preciso ver no PSD qual é a ainda a presença da social-democracia e no CDS qual é a presença da doutrina social da igreja, que para mim é fundamental. Em todos os partidos, é público que as divergências começam a aparecer honestamente sobre a orientação do mundo e da vida.

– Tem vários netos. Tem medo por eles, do futuro deles neste contexto tão difícil?

Tenho 13 netos – a primeira chegou à maturidade esta semana – e tenho seis filhos – uma está a acabar o estágio da ordem dos advogados. A minha inquietação pelo futuro deles é grande.

– O que é que lhes costuma dizer?

Isto exactamente que lhe digo a si. Converso com eles, não trato de amenizar as circunstâncias das coisas como as vejo e, naturalmente, eles hão-de encontrar respostas que provavelmente não coincidem com as que eu procurei na vida que me aconteceu viver. Com a diferença de que nós conhecíamos mais da ordem do mundo do que hoje conhecemos. As interrogações são inúmeras, vemos a nossa juventude mais qualificada a emigrar e cada vez que os mais qualificados emigram, a circunstância do país piora. E eu vou-lhe dizer porquê: cada vez que a ciência e a técnica avançam, é preciso mais gente altamente qualificada, mas menos gente para trabalhar. A sociedade tem que se organizar de outra maneira.

– Ao longo destes 91 anos atravessou várias fases da vida pública portuguesa, atravessou muitas crises. Recorda-se de alguma que tenha comparação com esta?

Não. Acho que é a pior crise que o país atravessou até hoje. Os desafios são tremendos e eu creio que é o próprio Ocidente que está em perigo. Vou publicar um livro, que se chama ‘Memórias do Outono Ocidental – Um Século Sem Bússola’. Para animar os portugueses, digo que, apesar de tudo, lembrem-se que chegámos à Índia sem bússola.

O fim de O Jornal

MDS00346 (566x800)Nem sequer atingiu o número mil, embora ficasse relativamente perto, no 927.

Semanário, O Jornal começou a publicar-se em Maio de 1975, pouco mais de um ano após a Revolução de Abril, e atingiu uma qualidade editorial que fez escola.

Era propriedade de uma sociedade de jornalistas, a Projornal, e foi seu primeiro director Joaquim Letria, que lhe soube imprimir um estilo muito próprio. Seguiram-se-lhe dois outros nomes respeitados do panorama jornalístico nacional: José Carlos de Vasconcelos e José Silva Pinto, sendo este o seu responsável à data da extinção, 27 de Novembro de 1992, uma efeméride que hoje passa.

Pertencia ao grupo Projornal um conjunto de outras notáveis publicações, das quais ainda algumas permanecem: Jornal da Educação, Se7e, O Bisnau, Jornal de Letras e História.

O grupo multinacional suíço Edipresse adquiriu O Jornal e decidiu substituí-lo pela revista Visão, iniciada em 1993. Assim se sacrificou, aos interesses do mercado, um notável título que aqui hoje se recorda, com a reprodução de algumas páginas do seu derradeiro exemplar, um número para guardar, como se salientava na capa. Segui o judicioso conselho…

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Se um jornal é a história do instante, em que se procura captar a quente o que vai ser lido a frio, muitos foram os ‘instantes’ entre 1975 e 1992 que procurámos relatar com a objectividade possível. – assim escreveu o director no seu derradeiro editorial, Serenidade – e visão. Creio que são palavras justas. Não guardei apenas o último exemplar, mas muitos dos que retrataram episódios históricos desses anos febris do pós-25 de Abril.

As capas, algumas capas de O Jornal, ficaram na história do nosso jornalismo, particularmente na história do nosso fotojornalismo. O Jornal Ilustrado, uma revista incluída no próprio semanário a partir de 1986, constituiu igualmente uma positiva inovação.

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Tornar-se-ia exaustiva a relação dos jornalistas, cronistas, colaboradores regulares e eventuais da publicação, mas é seguro que quase todas as personalidades culturais, artísticas, sociais e políticas do tempo passaram pelas páginas do semanário.

A morte de O Jornal, portanto, não se revestiu do habitual dramatismo que rodeia quase sempre o final de uma publicação regular.

A sua natural passagem para a forma de uma revista com distintos moldes editoriais acabou por constituir uma aposta ganha, pois a Visão, legítima herdeira do anterior semanário, afirmou-se no mercado jornalístico nacional.

 

26 de Novembro de 1967 – O APOCALIPSE – um

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APOCALIPSE – um

 

No dia 26 de Novembro de 1967 escolhi o pior dos sítios para estar presente. Vivi de perto, ainda que sem consequências de maior, uma das piores catástrofes naturais que afligiram o nosso país.

Na véspera, um sábado, tinha ido com a mulher, o filho e a sogra a Torres Vedras, para aí nos despedirmos de uns primos amigos que iam em breve emigrar. Era raro por essa altura deslocarmo-nos para tão longe de Portalegre, pelo que planeáramos prolongar esse fim-de-semana em convívio com outros familiares na zona da Grande Lisboa. A etapa seguinte seria Cascais, onde ficaríamos em casa do meu irmão José Eduardo, enquanto a minha sogra iria até Algés, confraternizar com o seu irmão Manuel que aí residia.

O automóvel que eu possuía nesse tempo, um antigo mas resistente Hillman, portava-se sempre bem e a viagem entre Torres Vedras, pelas estradas da época, correu com inteira normalidade. A única nota destoante consistiu nas pesadas nuvens cor de chumbo que se iam acumulando no horizonte, preenchendo pouco a pouco todo o espaço do céu. Pelo fim da tarde chegámos a Cascais e, seguindo o plano traçado, fui logo a seguir acompanhar a minha sogra a Algés. 

Começara entretanto a chover antes de chegarmos ao largo fronteiro à estação terminal da Linha, onde o automóvel ficou estacionado (ainda sobravam então os lugares para isso!), aguardando o meu regresso. A casa do Tio Manuel ficava muito próxima da estação de Algés, pelo que foi rápida toda a operação. No regresso, já as coisas se tinham agravado seriamente, pois chovia a cântaros, de tal modo que as carruagens do comboio circulavam com as portas abertas a fim de que a água acumulada dentro se escoasse, sobretudo nas curvas…

Os passageiros, quase todos jornal 0 (735x1024)operários e empregados que regressavam a casa (ainda se trabalhava nos sábados), ironizavam a pretexto da situação, gracejando pelo facto de nenhum deles ter tomado qualquer precaução de defesa contra a chuva, de todo imprevista.

Ao chegar junto ao automóvel já não havia iluminação pública, mas eu conhecia o trajecto até ao Bairro da Torre, junto à Praça de Touros, onde o meu irmão residia. A chuva era torrencial e a água acumulada chapinhava por todos os lados correndo em caudal por ruas e passeios. Não se via ninguém.

Ao chegar a uma rotunda próxima do Pavilhão Desportivo, deparei com um charco de água cuja extremidade não vislumbrava e cuja profundidade em absoluto ignorava. Parei, indeciso quanto à resolução a tomar. A verdade é que não conhecia alternativas e inverter ali a marcha também não se me afigurava uma manobra fácil. Decidi seguir em frente, confiando na sorte, mas percorrida uma dezena de metros ou pouco mais, pelo charco adentro, a viatura imobilizou-se, o motor parou e não consegui pô-lo novamente em marcha.  

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Não havia outra solução senão prosseguir a pé. Saí do carro, que era alto, ficando logo com água quase até aos joelhos. Fui recolher um guarda-chuva que sempre trazia no porta bagagens, fechei as portas com a chave (ainda não tinha sido inventado o fecho centralizado!) e procurei orientar-me pela escuridão dentro. Lembro-me de ter passado, logo ali ao lado e ainda em plena rotunda, por dois indivíduos -provavelmente funcionários da Câmara Municipal com pesados fatos de oleado- que procuravam abrir um buraco no pavimento com um grande ponteiro metálico que batiam furiosamente contra o asfalto…

Em plena escuridão, procurando vencer a força da torrente que descia a longa alameda por onde penosamente me ia deslocando, encharcado até aos ossos e enregelado de frio, mantinha estupidamente aberto o guarda-chuva que nada me protegia. Creio que, naquelas circunstâncias, perdemos a capacidade de actuar com lógica e apenas nos move o instinto da sobrevivência. Não imaginava quão longe ficava o bairro onde morava o meu irmão…

Pareceu-me uma eternidade o tempo e sobre-humano o esforço que o trajecto ia exigindo. A cada momento receava escorregar e ser levado em turbilhão pela torrente, a cada instante pensei não ter já mais energia disponível para o passo seguinte, cada vez mais pesado e doloroso, numa marcha muito mais automática do que convicta. Quando caí, desfalecido, à porta familiar feita porto de abrigo, pegaram em mim, despiram-me e enfiaram-me numa banheira com água morna, onde pouco a pouco fui devolvido ao estado normal…

jornal 2 (1024x709)Durante a noite a chuva continuou a cair impiedosamente e ouvimos fortes explosões cuja causa só mais tarde iríamos perceber. De qualquer forma, não fazíamos a mínima ideia do que se estava a passar, até porque os telefones há muito tinham deixado de funcionar e a própria energia eléctrica falhava a espaços…

No dia seguinte, pela alvorada, já não chovia. Após termos reflectido, em conjunto, sobre a que haveria de mais lógico a fazer e quais as prioridades e considerar, começámos pela recuperação do meu automóvel. Ele lá estava, já em seco, embora rodeado de lama e destroços diversos, sobretudo ramagens. Abrimos o capot, limpámos as velas, mas o motor não arrancou. Rebocámo-lo então até ao cimo da alameda que penosamente eu percorrera na véspera e deixámo-lo embalar um pouco, engrenando então uma velocidade. Pegou quase de imediato e esse problema ficou resolvido.

A etapa seguinte era o resgate da minha sogra. No carro do meu irmão, um Simca Aronde, seguimos pela Marginal fora. Foi então que começámos, progressivamente, a tomar alguma consciência do que tinha sucedido. As largas dezenas de veículos “arrumados” nas bermas da estrada, na maior parte dos casos acusando severos estragos, davam para perceber o que lhes tinha acontecido ao serem surpreendidos pela água, por obstáculos arrastados por esta, até mesmo pela derrocada de barreiras próximas.  

fotos 1 (1280x308)A primeira nota de um mais insólito dramatismo foi-nos transmitida pela incrível imagem de alguns cavalos imóveis, de ventres inchados e de patas esticadas para o ar, que estavam lá em baixo, sob um viaduto por onde passámos, não sei se em Oeiras ou em Carcavelos. O espectáculo que Algés nos ofereceu era dantesco, com automóveis literalmente espetados no alto das lanças que encimavam as grades dos jardins das residências. A água, alagando tudo, tinha-os arrastado para ali e, quando desceu, deixou-os transformados em grotescos “frangos” metálicos no espeto… Algumas ruas revelaram-se intransponíveis, pelos destroços ali acumulados. Quando chegámos a casa do Tio Manuel, que morava numa cave, acontecera ali uma das inúmeras tragédias pessoais que a inundação provocara. Na residência em frente, uma sua vizinha já idosa ficara bloqueada precisamente na porta da saída. A água entrava em cachão pela escada abaixo, vinda da rua, mas também brotava em golfadas pelos esgotos pois o  nível do Tejo, onde estes então desaguavam, tinha subido de tal modo que em vez de aceitar repelia com violência todos os caudais. A senhora tinha ficado entalada entre a porta entreaberta e os móveis entretanto deslocados e projectados pela força das águas invasoras, por todos os lados. Não houve força humana que conseguisse retirá-la dali e ela acabara por ficar submergida pela imparável torrente, que implacavelmente subiu, morrendo afogada perante o desespero das impotentes testemunhas.

Quando vejo na televisão os horrores de catástrofes semelhantes -e há pouco tal aconteceu  na Sardenha onde em 24 horas choveu o equivalente à pluviosidade normal de seis meses!- lembro-me ainda claramente do horror daquela noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 e das suas quase inenarráveis consequências, já lá vão quarenta e seis anos…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho