Um crime de alta traição

Agência LUSITANA – Continua detido no Forte da Graça, em Elvas, reactivado para o efeito, o cidadão Bruno Miguel Azevedo Gaspar de Carvalho, ex-presidente do Sporting Clube de Portugal. Está sob custódia de um destacamento de cerca de sete dezenas de guardas prisionais, coadjuvados por dois pelotões de fuzileiros navais, uma vez que circulam informações, embora não confirmadas, de que um comando de membros da Torcida Verde, com o apoio de alguns selectos elementos do Directivo Ultras XXI, se prepara para uma operação de ataque às instalações prisionais de Elvas, a fim de libertar o detido.

Entretanto, as investigações em curso já estabeleceram fortes ligações entre as declarações separatistas de Bruno de Carvalho e forças oposicionistas moçambicanas, país de onde, como se sabe, é natural. Igualmente foi descoberto um diário íntimo do detido, em que este revela uma profunda divergência em relação ao seu tio-avô, Pinheiro de Azevedo, que foi primeiro-ministro do VI governo provisório, em 1975. Nesses escritos dos seus seis anos de idade, Bruno de Carvalho denuncia precocemente a intenção de promover uma contra-revolução no país, pois já então discordava radicalmente da definição do povo português como “sereno” e decidira fazer coisas que não fossem apenas “fumaça”. Citámos passagens do seu diário, com datas relativas a 1978.

Como amplamente foi divulgado pela comunicação social, Bruno de Carvalho foi detido dias após o discurso separatista pronunciado em Braga, perante adeptos do clube leonino, antes do jogo com o Vitória de Guimarães.

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Aí, o agitador propôs a retirada da cor vermelha da bandeira nacional, como forma de começar a resolver os problemas do país.

A ideia terá sido aplaudida por alguns dos presentes, que estão neste momento a ser cuidadosamente investigados pela Polícia Judiciária Militar. Estes agentes já encontraram provas reveladoras de que, no passo seguinte, Bruno de Carvalho iria propor a alteração da letra do hino nacional, no final da primeira estrofe, que deveria passar a:

 

Entre os Brunos da memória,

Ó Sporting sente-se a voz

Dos teus Stromp’s avós,

Que há-de guiar-te à vitória!

 

Ao que se pensa, a última estrofe conteria um apelo muito mais violento, mas, ao ser detido, Bruno de Carvalho ainda conseguiu engolir a folha de papel com tal escrito.

Ao terem conhecimento de tão insultuosa proclamação, verificaram-se enérgicos protestos por parte do Sport Comércio e Salgueiros, da Real Irmandade da Sereníssima Ordem Equestre e Militar de São Miguel de Ala, do Grupo Excursionista dos Amigos do Tinto de Alcafache de Cima e do Comité Central do Partido Comunista Português, este reunido com carácter de urgência, denunciando respectivamente o abusivo apelo à abolição da cor que preenche as suas camisolas, as suas capas, as suas boinas  e os seus tradicionais símbolos máximos. Ainda que sem confirmação oficial, o Manchester United ter-se-á também constituído assistente no processo penal em curso contra Bruno de Carvalho, aberto pela queixa-crime apresentada por aquelas quatro respeitáveis instituições nacionais.

Em contrapartida, o Partido Ecologista Os Verdes divulgou um vibrante comunicado manifestando a sua “activa solidariedade para com a oportuna proposta contida no patriótico discurso do lúcido cidadão” (fim da citação).

Sabe-se que o presidente Cavaco, sempre atento às grandes questões nacionais, vai reunir o Conselho de Estado, na intenção de conhecer a opinião dos conselheiros quanto à sua intenção de mudar a cor verde do pendão presidencial para vermelho, a fim de compensar a eventual retirada desta cor da bandeira nacional.

A fábrica Viarco, por seu lado, vai lançar uma série especial de caixas de lápis de cor, onde toda a dúzia é uniformemente vermelha, “como patriótica resposta à perigosa ameaça que pende sobre o nosso simbólico pendão” – lê-se no anúncio publicitário publicado pela conhecida empresa nos jornais diários.

Contactado por um jornalista, o constitucionalista Jorge Miranda considerou que Bruno de Carvalho, seguramente, não será condenado à morte por fuzilamento, uma vez que o seu crime não foi cometido num teatro de guerra. Ainda assim, ele pensa que a moldura penal aplicável nunca será inferior a vinte anos de reclusão, seguida da expulsão do país.

A este propósito, os juristas nacionais dividem-se entre duas posições, entendendo uns que deve ser o Tribunal Penal Internacional, de Haia, a julgar o caso, enquanto outros proclamam ser este um excelente pretexto para reactivar os tribunais colectivos do tempo do Estado Novo, com pides e tudo, Caxias e Tarrafal… Ao que se julga, a decisão final ainda não está tomada, não se descartando a hipótese da recuperação do Tribunal de Nuremberga, que julgou os criminosos nazis.

As investigações em curso, confirmando a excelente argúcia das nossas polícias, já permitiram identificar um perigoso cúmplice de Bruno de Carvalho. Trata-se de um cidadão francês de nome Siné (julga-se que é apenas um pseudónimo), que foi visto entre nós durante a Revolução de Abril de 1974 e que então por cá espalhou tenebrosas teorias separatistas, em tudo idênticas às actuais, portanto propondo também a violenta abolição da cor vermelha da bandeira nacional, conforme ineludíveis provas  (cartoons) já adicionadas ao processo.

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bruno 5 (732x1024)A Interpol divulgou atempadamente cartazes com fotografias do perigoso indivíduo, mas crê-se que ele terá clandestinamente fugido para a Síria, aí pedindo e tendo obtido asilo político, da parte do seu benemérito presidente Bashar al-Assad.

O Ministério Público ainda hesita na acusação de associação criminosa, uma vez que o detido contava apenas dois anos de idade à data da publicação dos subversivos cartoons.

Estas são as últimas notícias sobre o momentoso caso que apaixona a opinião pública nacional e europeia. A este  propósito, a governo da Grécia já emitiu um comunicado a demarcar-se do caso português. Segundo Atenas, na crise podem os dois países ser semelhantes, mas os gregos estão livres de sofrer mais cortes, nomeadamente o do vermelho, uma vez que, prudentemente, na sua bandeira apenas usam azul sobre fundo branco.

 

Última Hora – Um telegrama acabado de chegar à nossa Redacção dá conta de estar a decorrer neste preciso momento, no ministério da Administração Interna, uma reunião entre representantes das claques sportinguistas, o titular da pasta e altos comandos policiais, no sentido de definir com rigor a quantidade de degraus da Assembleia da República que poderão ser ocupados no decorrer da manifestação nacional de apoio a Bruno de Carvalho, exigindo a sua imediata e  incondicional libertação, prevista para a tarde de amanhã.

 

Largo dos Correios

26 de Novembro de 1967 – O APOCALIPSE – dois

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APOCALIPSE – dois

 

O que acontecera naquela noite fatídica, segundo os especialistas, fora uma precipitação excepcional, intensa e concentrada, calculada em termos de período de retorno nuns 500 anos, portanto com uma probabilidade de incidência de duas vezes em cada milénio. Aquilo, portanto, fora uma trágica coincidência!

As estações meteorológicas da região de Lisboa registaram cerca de um quinto da precipitação anual, naquelas escassas horas.

Depois, houve factores no terreno que amplificaram este dilúvio. Aqueles que os especialistas recensearam como mais significativos foram:

 

  • Vastas zonas da região intensamente urbanizadas e, portanto, impermeabilizadas;
  • Grande parte do coberto vegetal natural anteriormente destruído;
  • Construções transversais nos cursos de água, que dificultaram ou impediram a drenagem natural;
  • Rios e ribeiras da região carecidas de limpeza mínima;
  • Acumulação de lixos e detritos, incluindo mobiliário velho e electrodomésticos em zonas de cheia;
  • Redes fluviais canalizadas e tornadas em grande parte subterrâneas;
  • Sistemas de drenagem pluvial mal dimensionadas e acusando deficiente manutenção;
  • Coincidência da precipitação concentrada com a praia-mar do rio Tejo.

 

Estas circunstâncias, na sua maioria de responsabilidade humana, por desleixo ou erros técnicos, agravaram substancialmente a situação. Acrescente-se que alguns especialistas, nomeadamente da área relacionada com a ecologia, o urbanismo e a defesa do ambiente, como o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, tinham repetidamente alertado as autoridades e a opinião pública para a eventualidade de riscos semelhantes ao acontecido.

Acresce a circunstância de os fortes caudais que se formaram terem arrastado grande quantidade de detritos, como pedaços de solo e rocha, árvores, fragmentos de muros e paredes, mesmo blocos inteiros de casas destruídas pelas águas em torrente. O impacto destes detritos fragilizou as estruturas que encontraram pelo seu impetuoso percurso, muitas das quais cederam perante essa força imparável. Assim desapareceram ponte se pontões, caminhos e estradas.

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A situação na região da Grande Lisboa tornou-se caótica, incontrolável. As cheias causaram a morte de centenas de pessoas, o desalojamento de milhares, submergiram centenas de casas, pontes, vias de comunicação e outras infraestruturas colectivas. Alguns cálculos apontaram para prejuízos da ordem de 3 milhões de dólares a câmbios da época, muitos milhões de euros hoje, confesso que nem calculo quantos, mas certamente muitos, muitos…

Quanto ao número exacto de vítimas mortais, o regime, a certa altura, ordenou que se suspendesse a contagem e esta ficou congelada nos quatrocentos e tal, julgo que 427. Porém, ao que se julga como mais correcto, os mortos terão ultrapassado os 700, incluindo muitos desaparecidos nunca recuperados, quase seguramente arrastados pelas marés. Oficialmente, o governo citaria, apenas, cerca de 250 vítimas.

Os serviços oficiais de socorro revelaram-se manifestamente incapazes de controlar a caótica situação e valeu o apoio de corajosos voluntários, como as juventudes académicas, juntamente com bombeiros e militares. Vieram depois as manifestações cívicas de solidariedade, como peditórios, subscrições e espectáculos públicos de diversa natureza, para angariação de fundos destinados às vítimas sobreviventes. Novamente aqui se distinguiram os estudantes e sobretudo as estruturas católicas.   

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Uma realidade também escamoteada foi a circunstância de a maioria dos mortos (e desaparecidos) ter acontecido nos miseráveis bairros semiclandestinos dos arredores da capital, sobretudo em Algés. A baixa desta freguesia foi devastada por uma torrente de lamas, detritos e água, como eu próprio fui testemunha presencial.

Do outro lado da cidade, na zona de Frielas, Póvoa de Santo Adrião, Pontinha e Urmeira, na bacia do rio Trancão, e também em Odivelas, situavam-se aglomerados urbanos também bastante atingidos, onde casas de madeira dos “bairros da lata” foram engolidas pelas águas revoltas. Aquela zona foi chamada o “vale da morte”…

A própria Lisboa, cidade, ficou com zonas quase irreconhecíveis. A Avenida de Ceuta, em Alcântara, ficou submersa e o mar de lama desceu até à Avenida da Índia. Na Praça de Espanha e na Avenida de Liberdade apenas se podia circular de barco, pelo que as comunicações rodoviárias foram interrompidas e os transportes públicos paralisados.                   

Apesar da minimização oficial dos efeitos da tragédia, os seus ecos fizeram-se sentir na Europa que se revelou solidária, pois foi desencadeado um movimento de apoio internacional, sob a forma de donativos e de meios sanitários, em particular.

Enfim, a miséria humana, tanto a económica como a técnica, tinha-se revelado como um perfeito aliado da catástrofe natural, potenciando os seus efeitos devastadores.                     

                                     

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

 

Aqui e do outro lado do mar

Estou feliz. Uma prestigiada revista brasileira, que dispõe de versão digital, lembrou este blog nas suas páginas. Recebi ontem a boa nova pela sua directora executiva, Mirna Queiroz, que teve a gentileza de me comunicar o facto.

Trata-se de Pessoa – Revista de Cultura Lusófona (a revista que fala a sua língua), que assume por principal objectivo firmar-se como espaço de democratização do acesso à produção literária de língua portuguesa. A sua fácil abordagem pode fazer-se pelo endereço http://www.revistapessoa.com

Com efeito, uma das suas mais qualificadas colunistas, a escritora e académica Nilma Lacerda, dedicou palavras de extrema simpatia a um meu já antigo texto, O rol da roupa branca, aqui publicado em 25 de Novembro de 2012.

Interpreto esta recensão como um estímulo para prosseguir com empenho o meu modesto labor. E, por isso, devo aqui expressar a minha gratidão à autora do texto O rol de folhas brancas, Nilma Lacerda, e à responsável pela edição da revista, Mirna Queiroz.

Ser assim citado no Brasil nem sequer o sinto como uma “internacionalização”, pois o país irmão do outro lado do mar é para mim, e por razões de profundo afecto pessoal já aqui amplamente relatadas, uma extensão da pátria natal.

O blog Largo dos Correios/Fonte do Rosário alargou, por este feliz acontecimento, os seus horizontes

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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O CASO FERNANDO GREGO – três

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TERCEIRO ACTO

Que real importância e significado concede José Régio ao teatro? Que lugar ocupa o teatro na sua produção ficcional, na sua própria vida?

São estas duas questões fundamentais, cuja resposta nos concederá a possibilidade de entendermos algumas das suas posições pessoais perante os diversos e sucessivos encontros que teve com o teatro, como amador (já o sabemos!), como espectador, como crítico, como teorizador, como criador.

Isabel Cadete Novais, no seu artigo O teatro de José Régio (Boletim do Centro de Estudos Regianos n.º 10-11, Junho-Dezembro de 2002), cita quarenta e seis artigos do autor sobre tal tema, entre 1927 (em Presença n.º 7) e 1969 (em A Capital n.º 378), dispersos pelos seguintes periódicos: Presença, Revista de Portugal, Jornal de Notícias, O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto, Vértice, Ler, Espiral, Diário Popular, Diário de Notícias e A Capital. [falta aqui, no mínimo a Crónica Teatral, assinada R.P., no jornal portalegrense Alto Alentejo, de 15 de Dezembro de 1930]. Sendo uma quantidade considerável, ainda assim poderá constituir uma modesta percentagem num total seguramente contabilizado em largas centenas de textos produzidos por Régio, como colaboração em jornais e revistas.diário íntimo (569x800)

Onde esta relação assume uma dimensão comparada indiscutível é no seu próprio, embora irregular, Diário Íntimo, pois entre 274 entradas contam-se 88 contendo alusões ao teatro, algumas compreendendo diversas páginas. Em quase um terço dos seus registos diários, José Régio aborda temas teatrais, o que viu, o que leu e, acima de tudo, o que escreveu ou desejava escrever, o que disso outros disseram e escreveram, o que por isso ele se alegrou (pouco) ou se entristeceu (muito)…

É de certo modo possível por esses testemunhos compreender os sentimentos que o dramaturgo foi tecendo ao sabor das suas sucessivas vivências teatrais, nas emoções reveladas, nas confissões sussurradas, na amargura mal contida, na esperança tantas vezes frustrada…

José Régio, em certo diálogo com Óscar Lopes, confidenciou-lhe que, para si, o teatro era a parte mais original e por isso a mais incomprendida da sua obra.

A esta luz, de um quase desconcertante radicalismo, devemos ler os excertos que cronologicamente retirei do Diário, aqui os expondo sem qualquer comentário:

 

Portalegre, 7 de Maio de 1950
Acabo de escrever ao Casais Monteiro
:“… sei que nasci para fazer teatro, e que devo lutar pelo meu teatro, até com armas que, propriamente não sendo minhas, o teatro exige…”

 

Portalegre, 2 de Maio de 1952
Todas as grandes verdades do Teatro as descobri por mim, comigo – sonhando e realizando as minhas peças.

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Portalegre, 4 de Fevereiro de 1953

Estranho destino o do meu teatro! Jacob e o Anjo, com uma grande aura em Portugal, interessa a uma Companhia brasileira, interessa a holandeses que para cá escrevem nesse sentido, inte­ressa à Companhia do Nacional (Amélia e Robles), interessa a franceses que o conseguem levar à cena. Não está senão meio mês em Paris; mas é o bastante para provocar grande ruído. Todos os outros projectos da sua representação falham; começando pelo da sua representação em Portugal. Não obstante, é já uma peça inegavelmente célebre.

Benilde, que também provoca excepcional curiosidade e po­lémica, não consegue sustentar-se mais de quinze dias no Nacio­nal. Mas lança Maria Barroso, decerto admirável de sensibilidade no papel da protagonista. É traduzida para italiano, e publicada numa pequena revista de Teatro.

El-Rei Sebastião vale-me as críticas mais contraditórias que tenho recebido. Não voltei a ouvir falar do Grupo de Teatro Experimental que se propunha realizá-lo entre nós. Está traduzi­do para espanhol por um seu entusiasta de Espanha, que se pro­põe fazê-lo subir à cena. Até hoje, nada.

A Salvação do Mundo, aceite pela Companhia do Nacional (Amélia-Robles) e autorizada pelo Conselho de Leitura que fun­ciona junto do mesmo Teatro, – é proibida pelo ministro da Educação. Entregue, há mais de um ano, ao editor Eduardo Sal­gueiro, não consegue vir a público. Debalde escrevo cartas ou mando telegramas a este fantástico editor: Ele parece recomeçar a composição, envia-me provas que eu reenvio, esperançado, na volta do correio… e remergulha num silêncio exasperante e desanimador.

Assim o meu teatro já alcançou uma popularidade e expan­são ainda não atingidas pelo meu romance; mas parece destina­do a pouco vulgares vicissitudes, como se o perseguisse, talvez para o salvar, um Génio irónico e enigmático.

benilde 2 (800x375)Aspectos da minha religião: Várias vezes (todas as noites) rezei, de joelhos aos pés da cama, para que o Jacob e o Anjo tivesse bom êxito em Paris. Pedia isto a Deus não por mim, para satisfação do meu amor-próprio, mas para satisfação de meu Pai e de meus amigos. Sabia que me doeria muito a decepção deles perante um insucesso. E assim esperava, com este altruís­mo, comprar Deus: constrangê-lo a atender-me. Simultaneamen­te, pensava: “Mas poderá Deus interessar-se por estas ridículas mesquinhices humanas?” (O Problema da intervenção de Deus nos nossos pequeninos negócios terrenos foi sempre um meu problema.)

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Portalegre, 15 de Fevereiro de 1953
domingo de Carnaval
Fraqueza! fraqueza tudo isto! Eu devia sentir mais à superfície o que realmente sinto ao fundo: O meu Teatro vale, – porque é profundamente sincero. Eu não faço peças: Exprimo-me em Teatro. Que devera importar-me tudo o mais?! O futuro verá o que o presente não vê. Mas aqui ficarão registadas algumas das minhas fraquezas, já que ainda as tenho.

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Portalegre, 12 de Novembro de 1957

Vou fazer sair (o volumezinho já está composto) as Três Pe­ças em Um Acto. Continuo a pensar que sou um dramaturgo original, embora nenhuma das minhas peças corresponda, feita, ao que sonhei seria. E não há dúvida que a incompreensão da crítica (?) sobre o meu teatro me envenena. É uma fraqueza de que ainda não pude libertar-me. Chego a ser invejoso dos bons êxitos alheios, da atenção e da admiração que outros dramaturgos provocam – eu que, no fim e ao cabo, fico bastante frio perante os bons êxitos conseguidos.

 

Portalegre, 14 de Fevereiro de 1960
Por, de certo modo, me haver profissionalizado nas Letras, me tenho vindo corrompendo a ponto de ter ressentimentos mesquinhos… até a experimentar o degradante sentimento da inveja! Sim, várias vezes tenho tido inveja de bons êxitos alheios. Sobretudo em teatro, como autor de várias peças que não posso ter por inferiores às unanimemen­te aplaudidas, – e que, parece, eu nem chegarei a ver represen­tadas, e que os entendidos em teatro fingem, até, ignorar… Na verdade, porém, no fundo fundo, tocar-me-ão estas coisas? Importar-me-ei, verdadeiramente, com o prémio Nobel? Bem sei que não. Só numa camada relativamente superficial do meu ser, ou num primeiro grau da minha hierarquia. Para que essa coisa de lutar por um prémio literário me pareça simplesmente ridícula,ascender um pouco me basta.

 

A riquíssima dimensão artística e a excepcional qualidade literária de um homem capaz de assim traduzir uma paixão ao longo dos anos são raros atributos inerentes a alguém invulgarmente superior e, ao mesmo tempo, profundamente humano e frágil.

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

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Uma data de datas – LIX – Nasce Israel

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LIX – 29 de Novembro de 1947 – Partilha da Palestina pela ONU

 

Eram cerca das 16 horas do dia 29 de Novembro de 1947, precisamente há 66 anos, palest2 (439x800)em Lake Sucess, perto de Nova York, quando o presidente da Assembleia Geral da ONU, o brasileiro Oswaldo Aranha, abriu a votação que decidiria a sorte de uma região com pouco mais de 20 mil km2 no Oriente Médio. Os 56 países presentes deveriam votar a favor ou contra a partilha da Palestina em dois Estados: um árabe e outro judeu. E o presidente terá dito:

Todos os senhores sabem como votar. Os que são a favor dirão sim, os que são contra dirão não e os que se abstêm sabem o que dizer”. É que dias antes acontecera uma primeira tentativa, frustrada por carecer de uma maioria de dois terços, não obtida.

Como ainda não havia televisão, muito menos telemóveis ou  internet, era pela rádio que os habitantes do Mandato Britânico na Palestina acompanhavam a votação. Em função do fuso horário, já era noite em Jerusalém, Belém, Haifa, Ramallah e demais cidades da região. Mas quem, de um e outro dos lados, conseguia dormir com uma questão destas sendo decidida?

A região contava com uma população de um milhão e 300 mil árabes e cerca de 600 palest1 (533x800)mil judeus. Jerusalém, em princípio neutral, não ficaria com uns nem com outros: seria tutelada pela ONU. Segundo a proposta em votação, o futuro Estado judeu corresponderia a 55% do território, enquanto ao Estado árabe caberiam os restantes 45%.

A tensão era insuportável. O salão em que a votação ocorreria estava cheio de espectadores interessado e os corredores também repletos.

A segunda Assembleia Geral da ONU, entidade sucessora da finada Liga das Nações,  que havia falhado em sua missão de promover a paz, iria agora votar a decisiva Resolução n.º 181.

Finalmente, aconteceu a dramática votação definitiva: 33 países votaram favor do Plano, 13 votaram contra e 10 abstiveram-se. A Grã-Bretanha, directamente envolvida, absteve-se, mas tanto a Rússia como os Estados Unidos votariam a favor.

Os países da Liga Árabe presentes (Egipto, Síria, Líbano e Jordânia) manifestaram-se logo abertamente contrários à proposta e não reconheceram o novo Estado de Israel.

A Agência Judaica, que era ao tempo a máxima autoridade dos israelitas, aceitou a resolução, embora não ficasse satisfeita com algumas normas da solução aprovada, como por exemplo as restrições à futura imigração judia da Europa.

Poucos meses depois, em 14 de Maio de 1948, apenas algumas horas antes de cessar o prazo do Mandato Britânico e já em plena guerrilha civil entre árabes e judeus, foi declarada a Independência do Estado de Israel.

Os Estados árabes envolventes, Egipto, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano, reagiram imediatamente e os seus exércitos invadiram a região, com o declarado objectivo de eliminar o recém Estado de Israel do mapa.

Assim começaria a primeira guerra árabe-israelita.

 

palest4 (800x574)Hoje, Israel continua a erguer o Muro da Cisjordânia, uma barreira física que pretende separar os territórios palestinianos ocupados do seu próprio Estado. Alegam os judeus de que esta barreira já conseguiu reduzir a 10% o terrorismo interno proveniente, por infiltração, dos vizinhos árabes. O comprimento total do muro está previsto para cerca de 760 km, duas vezes o comprimento da linha de armistício traçada em 1949, após uma das guerras regionais.

Enquanto Israel denomina a barreira de Cerca de Segurança, os palestinianos chamam-lhe o Muro do Apartheid ou da Segregação Racial.

palest3 (800x430)A existência e o traçado de construção do Muro foram considerados ilegais pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia, em 2004, pois isola cerca de meio milhão de pessoas e corta ao meio terras palestinianas. Porém, Israel não acatou tal parecer e a construção continuou.

Pessoalmente, apesar da admiração e simpatia que já aqui revelei para com a causa israelita, não posso aceitar sem protesto a existência deste Muro.

Tal como procedi para com o Muro de Berlim, e pelas mesmas razões humanitárias.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

 

GALVEIAS – 1955-1957 – três

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Um certo dia, num dos nossos passeios motorizados pelos arredores -tínhamos ido até à Aldeia de Santa Margarida e voltávamos para jantar- por uma estrada que não existia e onde o trajecto se assemelhava a uma lide em que enfrentávamos sucessivos sobreiros num interminável montado, a certa altura o Américo deu um monumental trambolhão. Aprestei-me a socorrê-lo mas, ao vê-lo levantar-se sem visíveis maleitas, preocupei-me em prioritariamente recolher a sua preciosa agenda, que lhe tinha saltado do bolso do casaco. Ouvi-lhe por isso uma não 3 - casamentomenos monumental reprimenda porque mais me interessara socorrer a agenda do que a ele próprio… Bem lhe expliquei que me tranquilizara a sua pronta recuperação, mas creio que ainda hoje ele me não terá perdoada a arbitrariedade das minhas prioridades humanitárias.

Já por essa altura o Américo namoriscava a Arcângela, jovem e simpática colega que naquele ano lectivo de 56/57 reforçara a equipa pedagógica da nossa escola, vinda da vizinha Ponte de Sor. E a verdade é que aquilo acabou mesmo em casamento que para sempre durou. Eu, mais novo do que ele, ainda não pensava a sério nessas coisas, mas já tinha assumido com o amigo padre Manuel Tavares Folgado o compromisso de que seria ele quem me 3 - padre folgadocasaria, se um dia casasse. E assim aconteceu mesmo, cumprindo-se exemplarmente o acordo.

Quando em 1964, sete anos depois das Galveias, decidimos -eu e a Adrilete- juntar os nossos destinos, foi o nosso amigo sacerdote que em Fátima concretizou o combinado, com o testemunho presencial do Américo e da Arcângela, já entretanto casados.

 

Ora ia eu por aí fora perdido pelos recantos da memória, grata memória, porém rigorosamente esquecido de outros compromissos aqui assumidos, como o de partilhar a tal curiosa reportagem jornalística…

Mas, antes disso, impõe-se ainda uma outra prioridade, e garanto que será documentalmente a derradeira, antes da prometida. Trata-se de um Boletim, datado de Agosto de 1955, editado pela (incansável) Comissão Pró-Monumento à Benemérita Família Marques Ratão. O seu inegável interesse é múltiplo, no registo de factos e de nomes, na memória fotográfica de sítios e de pessoas, nos testemunhos de uma época da crónica de uma particular comunidade e, até, de um pouco da história geral deste nosso país, ao tempo…

 

Antes de República Popular de Galveias, aqui fica mais um episódio da grata memória colectiva dessa vila.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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TRANSPARÊNCIA MUNICIPAL

ÍNDICES DE TRANSPARÊNCIA MUNICIPAL

A TIAC – TRANSPARÊNCIA E INTEGRIDADE, ASSOCIAÇÃO CÍVICA é uma organização anti-corrupção, representante em Portugal da rede global anti-corrupção Transparency International.

tiac geral 0 (1024x319)Entre os seus declarados objectivos estão os de trabalhar para uma sociedade mais justa e uma democracia de qualidade em Portugal e desejar uma sociedade onde exista um acesso efectivo à informação por parte de uma cidadania informada, forte e participativa, uma sociedade que contemple uma regulação eficaz dos sistemas e organizações, uma Justiça célere, eficiente e ética e um verdadeiro sentido de responsabilidade social por parte de todos os agentes económicos.

Para isso, a TIAC intervém em cinco vertentes específicas:

 

  • Sensibilização pública dos cidadãos, desenvolvendo campanhas de informação, conferências, materiais educativos e iniciativas públicas sobre os temas da corrupção;
  • Investigação e Desenvolvimento, através da produção de relatórios, índices e dados estatísticos que permitam um conhecimento mais profundo e sistemático sobre a corrupção e o seu combate a nível nacional e internacional;
  • Monitorização de progressos, medindo e avaliando o grau de cumprimento, por Portugal, das convenções internacionais de que o Estado português é subscritor em matéria de corrupção e promoção do Governo Aberto e da transparência pública;
  • Lóbi político e advocacia social, trabalhando junto das autoridades públicas para que implementem em Portugal as melhores práticas de controlo e combate ao fenómeno da corrupção, nomeadamente através de reformas legislativas e da adoção de uma verdadeira Estratégia Nacional Contra a Corrupção;
  • Educação e apoio a denunciantes, prestando assistência aos cidadãos empenhados em denunciar suspeitas de corrupção às autoridades competentes.

 

A TIAC foi criada no dia 17 de setembro de 2010, data em que se tornou oficialmente Ponto de Contacto em Portugal da Transparency International (TI), que coordena e apoia um conjunto de organizações da sociedade civil a nível global que combatem a corrupção.

tiac dois (800x479)Ora, segundo a organização, o Poder Local constitui uma pedra angular da democracia Portuguesa, pelo papel fundamental que desempenha para o desenvolvimento das comunidades locais e a formação cívica dos cidadãos.

É unânime o reconhecimento do serviço prestado pelo Poder Local à consolidação democrática e ao desenvolvimento do país.

Porém -ainda segundo a TIAC-, nos últimos anos, o Poder Local tem vindo a sofrer inúmeras transformações e desafios que condicionam a qualidade e integridade da governação municipal, entre outros: a europeização do poder local; a globalização e o seu impacto social, económico e institucional; o crescente distanciamento dos eleitores em relação aos partidos e as novas formas de participação política; a maior exigência de rigor e de ética por parte dos cidadãos em relação aos seus eleitos locais; o aumento das competências das autarquias e a complexidade crescente do governo local; ou o impacto das novas tecnologias no relacionamento dos cidadãos com a governação local.

Respondendo a esta crescente preocupação pela saúde do Poder Local democrático, a Transparência e Integridade Associação Cívica decidiu desenvolver uma linha de investigação sobre estas matérias.

 

ÍNDICE DE TRANSPARÊNCIA MUNICIPAL

 

O Índice de Transparência Municipal (ITM) mede o grau de transparência das Câmaras Municipais através de uma análise da informação disponibilizada aos cidadãos nos seus web sites.

O ITM é composto por 76 indicadores agrupados em sete dimensões:

 

  • Informação sobre a Organização, Composição Social e Funcionamento do Município;
  • Planos e Relatórios;
  • Impostos, Taxas, Tarifas, Preços e Regulamentos;
  • Relação com a Sociedade;
  • Contratação Pública;
  • Transparência Económico-Financeira;
  • Transparência na área do Urbanismo.

A TIAC acaba de divulgar uma relação ordenada, onde analisa e sumaria, segundo estes seus critérios, os municípios portugueses. É um interessante estudo onde, tal como em qualquer ranking (veja-se o das escolas!) existe sempre alguma margem de reparo ou dúvida. De qualquer forma, é muito meritório o esforço de estudo e divulgação desta análise do comportamento das autarquias.

E é igualmente consolador observar o resultado obtido pelas Câmaras Municipais do Norte Alentejano, normalmente remetidas para lugares modestos quanto a determinados índices de desenvolvimento. Aqui, estando em causa a orientação global da sua acção, medida pela informação disponibilizada pelos seus web sites, ou páginas disponíveis na Internet, as autarquias norte-alentejanas revelam de maneira geral uma actuação merecedora de destaque. Aqui se mostram os respectivos ITM e lugar relativo na listagem que engloba os 308 municípios nacionais:

 

        Município                   ITM                Lugar n.º

  •  Sousel                         43                     42
  • Portalegre                   42                     49
  • Marvão                       40                     66
  • Gavião                        39                      85
  • Nisa                             36                    115
  • Ponte de Sor               36                    115
  • Monforte                    31                    181
  • Castelo de Vide          23                    256
  • Elvas                           23                    256
  • Fronteira                    23                    256
  • Alter do Chão            21                    266
  • Avis                             21                    266
  • Campo Maior            21                    266
  • Crato                          20                    272
  • Arronches                  19                    281

Como curiosidades, diga-se que o ranking é encimado pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, com 61 pontos de ITM, que Évora está em 17.º lugar, com 48 pontos, Lisboa em 115.º com 36, Coimbra em 9.º com 51, Porto em 26.º com 46, Castelo Branco em 37.º com 44 e Peniche em 237.º com 29.

De salientar, voltando ao Norte Alentejano, as honrosas posições de Sousel, Portalegre e Marvão, sitas no primeiro quartel da classificação, assim como os modestos desempenhos de Crato e Arronches, sobretudo.

tiac um (1280x94)O trabalho e empenho dos autarcas assim como o dos departamentos municipais que dirigem ou orientam deve ser destacado, sendo esta revelação pública um prémio ou uma sanção quanto ao rigor dessas diligências, traduzidas na qualidade do serviço disponibilizado às populações.

tiac geral (436x1280)

O conjunto, completo e dispondo de toda a informação, pode ser consultado no web site da TIAC – TRANSPARÊNCIA E INTEGRIDADE, ASSOCIAÇÃO CÍVICA.

 

                                     António Martinó de Azevedo Coutinho