O CASO FERNANDO GREGO – dez

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DÉCIMO ACTO

 

10-1O diário de José Régio contém ainda três explícitas referências aos pedidos de autorização que continuou recebendo para encenação de algumas das suas obras. Esta derradeira “selecção” é variada: uma solicitação avulsa  e individual (a única que merece alusão mais desenvolvida), grupos experimentais não discriminados e um grupo escolar, amador.

 

Portalegre, 17 de Maio de 1959

Sempre ocupado, sobreocupado, com variadas coisas. Princi­palmente, nos últimos tempos, com a 2.a edição das Histórias de Mulheres (da Portugália) e a conclusão do 4.° volume d‘A Velha Casa (que já está a compor-se, sem eu ainda o haver concluído; mas é a melhor maneira de o concluir). Continuo a receber con­vites de Grupos de Teatro Experimental para representação de peças minhas. Infelizmente, tenho de lhes dizer não! Infelizmen­te, esses Grupos não podem dispor dos recursos exigidos. Hoje escrevo a um homem que me escreve do Porto (Matosinhos).

10-3 (773x800)“Meu Amigo:

Sem o conhecer me permito tratá-lo assim, pois tenho por meus amigos todos que se interessam pelo meu teatro. E fico-lhes muito agradecido, pois a eles devo o estímulo que me não dão as companhias de profissionais e as oficialidades que dizem prote­ger o teatro português.

E, agora, vamos ao caso: Jacob e o Anjo esteve para ser rea­lizado há cerca de dois anos pela Companhia do Monumental. As citadas oficialidades levantaram toda a espécie de obstáculos a esse projecto, e, em razão ainda doutras circunstâncias, o em­presário acabou por desistir. Entretanto, porém, eu falara a Fernando Lopes Graça para compor a música exigida pela peça. Ele começou a compô-la, e a parte coral seria cantada por um dos seus grupos corais. A mim próprio prometi que ‘Jacob e o Anjo’ não iria à cena senão com essa música. Primeira condição. Além disso, para que resulte, (ou antes: para que na verdade se realize cenicamente) a peça exige um palco vasto, um desempe­nho difícil e condigno, cenários e guarda-roupa ricos, efeitos de luz e toda a encenação bem estudados. Sem o que, nem chegará a viver no palco a vida que julgo que tem. Muito dinheiro e ainda mais trabalho (além do Amor) são necessários. – Ora eu ainda há poucos dias apresentava estas mesmas razões a um Grupo de Teatro 10-2 (800x637)Experimental de Lisboa que também se propunha realizar em cena Jacob e o Anjo. Tive de lhe dizer não. – E sabe Deus quanto isso me custa! Infeliz, infelicissimamente, são as Compa­nhias de profissionais (que quase só se interessam pelos grandes sucessos estrangeiros) as mais bem apetrechadas para representarem peças como as minhas. E os outros é que têm o Sonho, os outros é que têm o Amor, – e eu tenho de lhes dizer não! E quantas vezes não sonho eu próprio que Jacob e o Anjo poderia dar um belo espectáculo!

Ao meu Amigo ainda me não atrevo a dizer nada. Como…, se nada sei não já só das suas faculdades pessoais, como de todas as outras possibilidades necessárias?! de todos os outros recursos?

Precisamente por estar virgem, como diz, a peça exige muitos cuidados na sua primeira noite de amor… isto é: na sua primei­ra apresentação ao público. Que me diz a tudo isto?

                                                                                                                         José Régio”

O destinatário desta carta assinava-se José Cayolla, e a sua carta era convincente, vibrante e ousada na sua sobriedade.

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Portalegre, 8 de Março de 1960

Para representação de Jacob e o Anjo, já recebi este ano três convites, todos de teatros experimentais. Lamento ser obriga­do, pelas exigências da peça, a recusar a minha autorização. E ficam feridos comigo.

 

Portalegre, 13 de Março de 1960

Recebo novo convite – agora dum grupo dramático dos Estudantes Universitários do Porto – para representação de Jacob e o Anjo. Este ano é o ano do Jacob e do seu Anjo! E pena con­tinuar a tratar-se dum grupo de amadores. E não porque eu antipatize com tais grupos, bem pelo contrário. Mas pode um grupo de amadores pôr em cena Jacob e o Anjo como deve ser?!

Quero (com uma vontade de fora, pois as minhas verdadeiras confissões estão nos meus livros) escrever nestas páginas alguma coisa de pessoal… isto é: de particular: do homem, não do escritor. E tão raro o consigo! A prova de que sou fundamentalmente um artista – é que as minhas próprias confissões pessoais hão-de to­mar forma artística: serem poemas, romances, teatro… Hão-de mascarar-se com personagens, cenas, símbolos, observações e análises de aparência geral. Um diário é uma coisa informe; e a mi­nha vontade profunda é sempre dar forma. Devo já ter dito isto.

 

E, pelo início dos anos 60, quando se preparava para a reforma profissional e iria depois regressar com maiores demoras à terra natal, Vila do Conde, José Régio termina o capítulo relativo às solicitações de interessados na encenação das suas peças.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho


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