Natal e Poesia

Hoje é dia de Natal. Para crentes e não crentes é o momento tradicional de cada ano para reunir em família e festejar. Infelizmente, a crise que o país atravessa transforma este Natal, no convívio de muitas famílias, num mero pretexto para reflectir mais em termos de sobrevivência que de esperança. O ano que se aproxima nada garante de positivo e as palavras de circunstância, bonitas e enfeitadas de lantejoulas brilhantes, soam a falso, sobretudo as mensagens encenadas, na quadra, pelas personalidades do costume. Enfim, tradições…

Encaremos o Natal com realismo e vivamo-lo no espírito da solidariedade e da fraternidade possíveis. A cultura integra-se nesse espírito e, aqui, a poesia é um instrumento privilegiado.

Os grandes autores, inspirados pela sua alma criativa, conseguem transformar as palavras simples em apelos carregados de sentido humano, “arrumando-as” em frases de valor interventivo, precisamente o inverso das vazias mensagens oficiais de circunstância.

Prefiro por isso os poetas aos presidentes, escolho as palavras autênticas e rejeito os fingimentos, troco a hipocrisia pela verdade.

Este é um exemplo entre mil, uma página de O Primeiro de Janeiro, do distante dia de 25 de Dezembro de 1982, mais de trinta anos atrás, que lembrou poetas e a sua mensagem, incluindo Régio já morto, mas vivo nos poemas que nos legou, nessa página antológica Natal e Poesia. Leio o seu poema Natal como uma perene mensagem de esperança, capaz de romper as trevas que neste preciso dia de hoje ensombram o convívio de muitos…

natal e poesia

 

 

NATAL

 

Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.

 

Distância Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.

 

Os que te dizem não,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Senão seu olho cego, ouvido surdo?

 

Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.

 

Na nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês.

 

Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que não te apagas,
Rompe mais uma vez a noite, que não é
Senão o dia de outras plagas.

 

Perpétua Luz, Contínua Oferta
À nossa escuridade interna
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.

 

                                                                   JOSÉ RÉGIO

 

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