Como cresce uma cidade – cinco

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PORTALEGRE – como cresce uma cidade – 5

 

Afirmei atrás que em Portalegre nada existe, devidamente organizado, que se possa assemelhar a um Centro Interpretativo.

Mas há, ou houve, dispersos ou perdidos por concretas oportunidades ou abstractas inspirações, peças soltas, intenções, realidades, sonhos, projectos…

Um trabalho de organização como o que defendo é uma obra colectiva. Nunca poderá reduzir-se ao esforço isolado de um qualquer franco-atirador, por mais inspirado ou certeiro que se revele. Os solistas fazem falta no conjunto onde se inserem e o seu contributo é sempre significativo. Mas não bastam.

Num brevíssimo alcance da memória, posso recordar a simples título de exemplo uma mostra da História Militar de Portalegre, elaborada por Domingos Bucho sob a forma de alguns painéis didácticos profusamente ilustrados. Encontrava-se tal exposição publicamente patente no rés-do-chão da torre de menagem do castelo, antes da descaracterização que aquele espaço sofreu a pretexto do Programa Polis. E a verdade é que, sendo então o monumento muito visitado, aquele capítulo da história da comunidade portalegrense era revelado de forma exemplar.

Com a oficial vandalização do castelo, para além de nem sequer terem sido cumprido os objectivos traçados, perderam-se sem honra nem glória certas funções que anteriormente desempenhava, com mérito e proveito, incluindo a permanente exposição da riquíssima crónica militar de Portalegre. Pura e simplesmente, os painéis desapareceram do domínio público…

Este é um exemplo pedagógico, pela negativa. Mostra, no entanto, que foi e é possível avançar no conhecimento da comunidade e partilhar essa conquista.

O sistemático esforço de grupos etnográficos do Concelho, não apenas na recolha e interpretação de antigas músicas, marcações e cantos, mas ainda na investigação das raízes tradicionais, com organização de peças de diversa natureza, do traje aos utensílios, dos contos aos costumes, dos dizeres às práticas festivas, religiosas e familiares, numa recuperação de passados quotidianos populares e até eruditos – todo este sistemático labor significa um valioso contributo no sentido de melhor conhecermos as nossas mais vernáculas e autênticas raízes.

Sou do tempo em que, ainda gaiato, percorria e corria os vastos espaços de São Bernardo, onde estava instalado, pelos finais dos anos 30, na década de 40 e em boa parte dos anos 50, o nosso Museu Municipal. A sua deslocação para o antigo seminário e escola, junto à Sé Catedral, significou um avanço civilizacional de considerável alcance. A sua recente renovação acrescentou-lhe qualidade mas amputou-o duma parcela significativa, especialmente se o encararmos do ponto de vista que aqui exploro, precisamente o do melhor conhecimento da nossa História local. Não faz sentido louvar Santo António como o padroeiro da cidade, dedicar-lhe mesmo um moderno templo, e simultaneamente escamotear uma rara e invulgar mostra iconográfica, de agrado geral, sobre o seu culto e a sua divulgação. Ainda por cima, trata-se da generosa oferta de um coleccionador portalegrense…

Ao mesmo tempo que se abre um museu com a obra de uma artista popular, no Reguengo, descentralizando no lugar certo o potencial expositivo do concelho, cria-se um dispensável conflito que prejudica e põe em risco o acervo daquele que revela uma das nossas marcas de diferença e de excepcional qualidade: a tapeçaria portalegrense. Tudo isto é contraditório e significa um retrocesso na marcha, que se desejaria linear e dirigida para o futuro, do conhecimento e da divulgação dos nossos valores, para dentro -a comunidade- e para fora -os forasteiros. Empregando o “dialecto” local, diria: para os lagóias e para os estrangeiros

Há anos, e por mais de uma vez, Manuel Morujo ensaiou reunir a diáspora portalegrense. Outro “visionário” que, sem o apoio que mereceria, tentou aqui realizar uma das máximas que celebrizaram o malogrado presidente Kennedy, arregimentando e inquietando os seus conterrâneos: – “Em vez de perguntares o que pode Portalegre fazer por ti, por que não te interrogas sobre o que podes fazer por Portalegre?

Com efeito, a riquíssima “reserva” lagóia dispersa pelo mundo, cá e na estranja, nunca foi confrontada com um projecto comum onde as suas capacidades pudessem dar um contributo decisivo para tal concretização. E, em todas as áreas do conhecimento, da ciência, das artes e das letras, da paz e da guerra, das humanidades, do desporto, da política, enfim, em todos os ramos e campos da intervenção sócio-cultural, existem personalidades, nascidas em Portalegre ou afins, que estariam certamente disponíveis, talvez mesmo empenhadas, em tal intervenção.

[Experimente-se espreitar a galeria de fotos do recente convívio portalegrense de Cascais e logo ali se encontra um conjunto, que não esgota o universo…]

E a “prata da casa”? Aqueles que em Portalegre têm estado na primeira linha da participação, da militância ou da intervenção, em termos de activa cidadania, seriam -teriam de ser- elementos fundamentais nesta obra de sistematização e promoção da identidade local.

Apesar de tentado a fazê-lo, prefiro adiar a revelação de quantos (e quantas) integram esse escol. Liga-me a quase todos uma relação pessoal, afectiva.

São muitos e bons aqueles que, chamados, certamente participariam com o seu entusiasmo numa obra devidamente pensada e estruturada. Não tenho sobre isso qualquer dúvida.

Do de que duvido, e de forma crescente, é da vontade –mais que da capacidade- de quem deveria assumir a iniciativa. Fiquei há pouco frustrado pela negativa concedida pela presidência da autarquia à expressa, humilde e frontal disponibilidade de vereadores (da “oposição”) para leal e activamente colaborarem na obra comum. Já aqui tinha antecipado essa lógica possibilidade como altamente desejável. A decisão “superior”, embora legítima, remete-nos para os negrumes de alguma arrogante auto-suficiência, nos intoleráveis limites da autocracia. Enfim, não foi -com todo o respeito- uma resposta democrática, num contexto liberto de qualquer restrição partidária. Até prova em contrário estou disso, infelizmente, convencido.

A história da comunidade portalegrense tem altos e baixos. Como um organismo vivo, afinal.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

P.S. – Há umas semanas, cometi aqui um erro. Falava de cultura em Portalegre, numa outra curta série de textos. A 25 de Outubro, citando o laureado arquitecto portalegrense Carrilho da Graça, admiti que ele nunca fora contemplado com uma distinção por parte da sua autarquia de origem. Enganei-me. Escrevi então: “Se a memória me não falha, creio que nem sequer num famoso e recente ano em que a distribuição de louvores mais se assemelhou a uma incontrolável diarreia medalhística, ele foi contemplado”. Soube, posteriormente, que ele recebera a medalha de ouro da cidade de Portalegre em 2009. Por ironia, foi no ano em que o  tal desarranjo medalhístico assumiu um pico na sua grave virulência…

Se errar é humano, persistir no erro é animalesco. Por isso, aqui humildemente me corrijo, apenas anotando em minha defesa:

  • O arquitecto João Carrilho da Graça, no seu currículo oficial, não incluiu tal medalha na relação das distinções recebidas. Ele lá saberá porquê…
  • O critério (!?) sistematicamente usado pela autarquia portalegrense na selecção dos laureados provoca em muitos destes uma inflacionada noção dos seus reais méritos.
  • Aqueles que dessa lei se libertam, por indiscutível merecimento, correm neste particular os riscos da submersão nos abismos da mais vulgar mediocridade.

Fica assim reposta a verdade dos factos que inadvertidamente alterei. É que isso também é história da minha comunidade e convém ser tão rigoroso quanto for possível.

 

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