O CASO FERNANDO GREGO – doze

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DÉCIMO SEGUNDO ACTO

 

Conclui-se hoje a divulgação do resumo de vida de Fernando Grego, testemunho autobiográfico que generosamente elaborou para este fim. Antes dessa transcrição, fixemo-nos brevemente na data do episódio, a segunda metade do mês de Julho de 1965. O diário de José Régio, nessa precisa época, é ainda mais irregular e fragmentado que anteriormente. Em Março assinala brevemente o alívio do regresso a Portalegre após mais de uma quinzena passada em Lisboa. 12 - desenha 67 (800x570)Em Abril há um único pequeno registo e, em Junho, mais dois. Julho de 1965 é preenchido por duas notas de reflexão intimista, desabafos intemporais, sem qualquer referência concreta a acontecimentos, a 21 e 25 desse mês. A 13 de Setembro, já de Vila do Conde, declara que vive tão infeliz que se diverte fazendo-se snob.

No princípio de Outubro, novamente de Portalegre, onde acompanhava as obras de adaptação da sua casa a museu, dá conta da notícia da morte do irmão Antonino, no Brasil. E fala com emoção de “mais infeliz” dos irmãos, que há muito partira sem regresso… E termina essa nota de 7 de Outubro de 1965: “Este ano de 1965 fica-me penosamente assinalado por esta esquisitíssima coincidência: Todos os meus amigos mais chegados – me deram decepções e desgostos. (exceptuo o Alberto de Serpa.) Alguns me causaram dolorosas surpresas! Quem pode dizer que conhece o homem, – até os homens com quem mais priva?

Menos de uma dezena de registos após, em 3 de Maio de 1966, extingue-se em definitivo o diário…

Podemos portanto entender não ter sido psicologicamente muito favorável o contexto do breve diálogo epistolar entre Fernando Grego e José Régio. Mas lá iremos, após o restante e apaixonado testemunho daquele:

 

Entretanto, iniciara a actividade jornalística no jornal A Nossa Terra (de Cascais), primeiro com um conto (Homens, Salvai o Mundo!) e, nos anos seguintes, com diversas reportagens. Por volta dos 18 anos, tornei-me responsável por uma página de Teatro, onde tive a grata oportunidade de publicar entrevistas com grandes figuras da cultura, nomeadamente Almada Negreiros (quando criou uma magnífica cenografia para a peça O Mar de Miguel Torga) e Bernardo Santareno.

Aos 18 anos matriculei-me no Instituto Superior de Económicas e Financeiras, não chegando a completar o primeiro ano, dado, naquele tempo, não haver horários pós-laborais. Fiz mais duas disciplinas do 7º Ano para ter entrada na Faculdade de Direito. Novamente, pelas mesmas razões, desisti e voltei a fazer mais duas disciplinas para ingressar no Curso de História, afinal o que desde sempre quis.

12 - 1970 - cabo verde praia da palmeira março 1970 (800x590)Iniciei, então, o Curso de História que viria a interromper com o ingresso no Serviço Militar. Ao fim de 2 anos, fui mobilizado para Cabo Verde, onde passei  27 meses inolvidáveis. Lá, fui bibliotecário, professor de Português e de História e prossegui a minha actividade jornalística.

Montei, então, um espectáculo verdadeiramente sensacional. Numa ilha quase deserta, tivemos a sorte de encontrar na tropa um bailarino profissional, elementos de um grupo musical e algumas boas vontades. Resultou um espectáculo que logrou rasgados elogios das autoridades civis e militares e um verdadeiro entusiasmo da população local – que nunca tinha assistido a nada semelhante.

12 - 1971 - cabo verde ilha do sal 38-8-71 com eugénio rosa (466x800)Além da realização do espectáculo, tive a oportunidade de escrever os textos originais, além de declamar o inevitável Cântico Negro de José Régio. O espectáculo valeu-me um louvor do Comando Provincial, aliás um dos quatro louvores de que muito me orgulho, pois nenhum se refere a actividade militar: como Oficial de Desportos, como Bibliotecário e como criador do Jornal do Regimento (O Onze) de Setúbal.

A Cabo Verde devo ainda a decisão de me casar, de que resultou o aparecimento de dois maravilhosos filhos – que já me deram três netos, todos verdadeiramente fabulosos.

Regressado, voltei ao meu emprego e não aproveitei o tempo que o citado louvor de Cabo Verde me concedia: 3 anos de isenção de propinas e submissão a exames quando entendesse. Acabei por me matricular no ano lectivo de 1973/1974, depois de sacrificar algumas cadeiras em virtude das equivalências, pois o Curso sofrera, entretanto, algumas reformas.

12 - 1971 - cascais 19 setembro 1971 (800x574)Adivinha-se o desfecho. Em 25 de Abril de 1974, o entusiasmo, a alegria, a sensação de poder participar na transformação da sociedade, fez-me esquecer os estudos. Fui membro duma Comissão de Trabalhadores, Delegado Sindical, membro da Assembleia Municipal de Cascais, dirigente partidário, monitor das Alfabetizações e militante não só de Partidos mas também de causas.

Nessa época eufórica vim a ser director e, mais tarde, proprietário de um Jornal que antes fora desportivo e que transformei em pouco tempo num Jornal de Intervenção. Nesse Jornal – panfletário, reconheço – colaboraram algumas personalidades de reconhecida integridade, mas também outros… por exemplo, Nuno Crato.

O Teatro ficou no esquecimento. A poesia manteve-se sempre. Os estudos só foram retomados cerca de 10 anos depois, tendo concluído a Licenciatura em História e uma pós-graduação em Relações Afro-Portuguesas. Realizei, então, uma das minhas ambições mais caras: ser professor do Ensino Superior. Durante alguns anos, leccionei no Instituto Piaget as disciplinas de História dos Países da CPLP, História Medieval de Portugal e Dinâmicas do Mundo Contemporâneo. A outra ambição era ter uma Livraria, onde pudesse mexer e arrumar livros. Também o consegui, embora bem cedo me visse obrigado a ver decrescer os livros em favor da Papelaria. Foi assim até ao desastre final…

Depois de todo este percurso, ainda consigo aliar à luta pela sobrevivência a chama da solidariedade e, assim, continuo a militar nas forças progressistas, concretamente nunca deixando de ser candidato (hoje, nas Autárquicas, pelo Bloco de Esquerda), o que sempre aconteceu desde que há eleições livres em Portugal.

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