Portalegre e Peniche no Portugal de 1940

O ano de 1940 foi festejado em Portugal pela dupla efeméride histórica que significou: a Fundação, em 1140, e a Restauração, em 1640.

capa 1 (568x800)Houve inúmeras comemorações, enquadradas pelo estilo de pendor fortemente nacionalista e imperial que era timbre daquela fase do Estado Nove, entre as quais a Exposição do Mundo Português, de grande fausto e inegável mérito.

Mas muitas outras iniciativas, oficiais e privadas, foram concretizadas a tal propósito. Entre estas contam-se inúmeras edições. 

Hoje recordo uma, a publicação de dois grandes álbuns em Junho de 1940, suplementos do diário O Século. Com as apreciáveis dimensões de 42×29 cm, um deles tem 384 páginas e é dedicado à História e Geografia de Portugal, com especial destaque para as duas efemérides e para a obra do Estado Novo. O Brasil, os ministérios e a sua actividade, a organização corporativa, artigos sobre grande empresas comerciais e industriais e uma desenvolvida cobertura fotográfica da Exposição do Mundo Português preenchem o essencial do seu conteúdo. A interessante e pormenorizada descrição do país, distrito a distrito, concelho a concelho, revela um curioso retrato das diversas comunidades.

capa 2 (560x800)O outro suplemento, com as mesmas dimensões, mas limitado a 84 páginas, tem como temas principais a expansão portuguesa pelo Mundo e o Império Colonial. As biografias de algumas das figuras mais representativas dessa gesta, dos navegadores aos governantes e aos militares, a arte, a caça, as ligações marítimas e aéreas e outras informações a propósito completam a publicação. De notar o facto de, “entalados” entre o Continente e o Império, os arquipélagos insulares, Madeira e Açores, terem ficado “esquecidos”, quer num quer no outro dos livros…

A colaboração literária e artística patente nestes álbuns é diversificada e notável, abrangendo algumas das mais destacadas figuras nacionais da época. Como autores de peças literárias, artigos e ensaios contaram-se, entre outros, Moses Amzalak, Albino Forjaz de Sampaio, Rodrigues Cavalheiro, Eduardo Brazão, Luís Vieira de Castro, Marcello Caetano, Manuel Múrias, Maria Archer, Reynaldo dos Santos, Diogo de Macedo, Paulino Montez, Moreira das Neves, Luís de Freitas Branco, Leopoldo Nunes, Pedro Batalha Reis, Amadeu de Freitas, Guedes de Amorim, Júlio Cayola, José Osório de Oliveira e Humberto Mergulhão.

capa 0 (578x800)Como ilustradores, os nomes mais sonantes foram Rodrigues Alves, Rocha Vieira, Stuart Carvalhais, Duarte de Almeida, Emmérico Nunes e Domingos Saraiva.

Reproduzi do volume relativo ao Continente o material relativo a Portalegre e a Peniche. No primeiro caso, recolhi as páginas que respeitam à introdução geral do distrito (que nessa altura ainda tinha significado como efectiva divisão administrativa) e à cidade propriamente dita; no caso de Peniche, a página relativa à então vila e uma outra, com óbvio interesse, onde se destaca a sua importância como centro piscatório.

Se recordarmos que vão passados quase três quartos de século sobre estas referências podemos melhor entender o valor quase antológico dos textos e das imagens ali disponibilizadas, autênticas páginas de arquivo das respectivas histórias locais.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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O CASO FERNANDO GREGO – doze

cabeçalho

DÉCIMO SEGUNDO ACTO

 

Conclui-se hoje a divulgação do resumo de vida de Fernando Grego, testemunho autobiográfico que generosamente elaborou para este fim. Antes dessa transcrição, fixemo-nos brevemente na data do episódio, a segunda metade do mês de Julho de 1965. O diário de José Régio, nessa precisa época, é ainda mais irregular e fragmentado que anteriormente. Em Março assinala brevemente o alívio do regresso a Portalegre após mais de uma quinzena passada em Lisboa. 12 - desenha 67 (800x570)Em Abril há um único pequeno registo e, em Junho, mais dois. Julho de 1965 é preenchido por duas notas de reflexão intimista, desabafos intemporais, sem qualquer referência concreta a acontecimentos, a 21 e 25 desse mês. A 13 de Setembro, já de Vila do Conde, declara que vive tão infeliz que se diverte fazendo-se snob.

No princípio de Outubro, novamente de Portalegre, onde acompanhava as obras de adaptação da sua casa a museu, dá conta da notícia da morte do irmão Antonino, no Brasil. E fala com emoção de “mais infeliz” dos irmãos, que há muito partira sem regresso… E termina essa nota de 7 de Outubro de 1965: “Este ano de 1965 fica-me penosamente assinalado por esta esquisitíssima coincidência: Todos os meus amigos mais chegados – me deram decepções e desgostos. (exceptuo o Alberto de Serpa.) Alguns me causaram dolorosas surpresas! Quem pode dizer que conhece o homem, – até os homens com quem mais priva?

Menos de uma dezena de registos após, em 3 de Maio de 1966, extingue-se em definitivo o diário…

Podemos portanto entender não ter sido psicologicamente muito favorável o contexto do breve diálogo epistolar entre Fernando Grego e José Régio. Mas lá iremos, após o restante e apaixonado testemunho daquele:

 

Entretanto, iniciara a actividade jornalística no jornal A Nossa Terra (de Cascais), primeiro com um conto (Homens, Salvai o Mundo!) e, nos anos seguintes, com diversas reportagens. Por volta dos 18 anos, tornei-me responsável por uma página de Teatro, onde tive a grata oportunidade de publicar entrevistas com grandes figuras da cultura, nomeadamente Almada Negreiros (quando criou uma magnífica cenografia para a peça O Mar de Miguel Torga) e Bernardo Santareno.

Aos 18 anos matriculei-me no Instituto Superior de Económicas e Financeiras, não chegando a completar o primeiro ano, dado, naquele tempo, não haver horários pós-laborais. Fiz mais duas disciplinas do 7º Ano para ter entrada na Faculdade de Direito. Novamente, pelas mesmas razões, desisti e voltei a fazer mais duas disciplinas para ingressar no Curso de História, afinal o que desde sempre quis.

12 - 1970 - cabo verde praia da palmeira março 1970 (800x590)Iniciei, então, o Curso de História que viria a interromper com o ingresso no Serviço Militar. Ao fim de 2 anos, fui mobilizado para Cabo Verde, onde passei  27 meses inolvidáveis. Lá, fui bibliotecário, professor de Português e de História e prossegui a minha actividade jornalística.

Montei, então, um espectáculo verdadeiramente sensacional. Numa ilha quase deserta, tivemos a sorte de encontrar na tropa um bailarino profissional, elementos de um grupo musical e algumas boas vontades. Resultou um espectáculo que logrou rasgados elogios das autoridades civis e militares e um verdadeiro entusiasmo da população local – que nunca tinha assistido a nada semelhante.

12 - 1971 - cabo verde ilha do sal 38-8-71 com eugénio rosa (466x800)Além da realização do espectáculo, tive a oportunidade de escrever os textos originais, além de declamar o inevitável Cântico Negro de José Régio. O espectáculo valeu-me um louvor do Comando Provincial, aliás um dos quatro louvores de que muito me orgulho, pois nenhum se refere a actividade militar: como Oficial de Desportos, como Bibliotecário e como criador do Jornal do Regimento (O Onze) de Setúbal.

A Cabo Verde devo ainda a decisão de me casar, de que resultou o aparecimento de dois maravilhosos filhos – que já me deram três netos, todos verdadeiramente fabulosos.

Regressado, voltei ao meu emprego e não aproveitei o tempo que o citado louvor de Cabo Verde me concedia: 3 anos de isenção de propinas e submissão a exames quando entendesse. Acabei por me matricular no ano lectivo de 1973/1974, depois de sacrificar algumas cadeiras em virtude das equivalências, pois o Curso sofrera, entretanto, algumas reformas.

12 - 1971 - cascais 19 setembro 1971 (800x574)Adivinha-se o desfecho. Em 25 de Abril de 1974, o entusiasmo, a alegria, a sensação de poder participar na transformação da sociedade, fez-me esquecer os estudos. Fui membro duma Comissão de Trabalhadores, Delegado Sindical, membro da Assembleia Municipal de Cascais, dirigente partidário, monitor das Alfabetizações e militante não só de Partidos mas também de causas.

Nessa época eufórica vim a ser director e, mais tarde, proprietário de um Jornal que antes fora desportivo e que transformei em pouco tempo num Jornal de Intervenção. Nesse Jornal – panfletário, reconheço – colaboraram algumas personalidades de reconhecida integridade, mas também outros… por exemplo, Nuno Crato.

O Teatro ficou no esquecimento. A poesia manteve-se sempre. Os estudos só foram retomados cerca de 10 anos depois, tendo concluído a Licenciatura em História e uma pós-graduação em Relações Afro-Portuguesas. Realizei, então, uma das minhas ambições mais caras: ser professor do Ensino Superior. Durante alguns anos, leccionei no Instituto Piaget as disciplinas de História dos Países da CPLP, História Medieval de Portugal e Dinâmicas do Mundo Contemporâneo. A outra ambição era ter uma Livraria, onde pudesse mexer e arrumar livros. Também o consegui, embora bem cedo me visse obrigado a ver decrescer os livros em favor da Papelaria. Foi assim até ao desastre final…

Depois de todo este percurso, ainda consigo aliar à luta pela sobrevivência a chama da solidariedade e, assim, continuo a militar nas forças progressistas, concretamente nunca deixando de ser candidato (hoje, nas Autárquicas, pelo Bloco de Esquerda), o que sempre aconteceu desde que há eleições livres em Portugal.

Como cresce uma cidade – cinco

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PORTALEGRE – como cresce uma cidade – 5

 

Afirmei atrás que em Portalegre nada existe, devidamente organizado, que se possa assemelhar a um Centro Interpretativo.

Mas há, ou houve, dispersos ou perdidos por concretas oportunidades ou abstractas inspirações, peças soltas, intenções, realidades, sonhos, projectos…

Um trabalho de organização como o que defendo é uma obra colectiva. Nunca poderá reduzir-se ao esforço isolado de um qualquer franco-atirador, por mais inspirado ou certeiro que se revele. Os solistas fazem falta no conjunto onde se inserem e o seu contributo é sempre significativo. Mas não bastam.

Num brevíssimo alcance da memória, posso recordar a simples título de exemplo uma mostra da História Militar de Portalegre, elaborada por Domingos Bucho sob a forma de alguns painéis didácticos profusamente ilustrados. Encontrava-se tal exposição publicamente patente no rés-do-chão da torre de menagem do castelo, antes da descaracterização que aquele espaço sofreu a pretexto do Programa Polis. E a verdade é que, sendo então o monumento muito visitado, aquele capítulo da história da comunidade portalegrense era revelado de forma exemplar.

Com a oficial vandalização do castelo, para além de nem sequer terem sido cumprido os objectivos traçados, perderam-se sem honra nem glória certas funções que anteriormente desempenhava, com mérito e proveito, incluindo a permanente exposição da riquíssima crónica militar de Portalegre. Pura e simplesmente, os painéis desapareceram do domínio público…

Este é um exemplo pedagógico, pela negativa. Mostra, no entanto, que foi e é possível avançar no conhecimento da comunidade e partilhar essa conquista.

O sistemático esforço de grupos etnográficos do Concelho, não apenas na recolha e interpretação de antigas músicas, marcações e cantos, mas ainda na investigação das raízes tradicionais, com organização de peças de diversa natureza, do traje aos utensílios, dos contos aos costumes, dos dizeres às práticas festivas, religiosas e familiares, numa recuperação de passados quotidianos populares e até eruditos – todo este sistemático labor significa um valioso contributo no sentido de melhor conhecermos as nossas mais vernáculas e autênticas raízes.

Sou do tempo em que, ainda gaiato, percorria e corria os vastos espaços de São Bernardo, onde estava instalado, pelos finais dos anos 30, na década de 40 e em boa parte dos anos 50, o nosso Museu Municipal. A sua deslocação para o antigo seminário e escola, junto à Sé Catedral, significou um avanço civilizacional de considerável alcance. A sua recente renovação acrescentou-lhe qualidade mas amputou-o duma parcela significativa, especialmente se o encararmos do ponto de vista que aqui exploro, precisamente o do melhor conhecimento da nossa História local. Não faz sentido louvar Santo António como o padroeiro da cidade, dedicar-lhe mesmo um moderno templo, e simultaneamente escamotear uma rara e invulgar mostra iconográfica, de agrado geral, sobre o seu culto e a sua divulgação. Ainda por cima, trata-se da generosa oferta de um coleccionador portalegrense…

Ao mesmo tempo que se abre um museu com a obra de uma artista popular, no Reguengo, descentralizando no lugar certo o potencial expositivo do concelho, cria-se um dispensável conflito que prejudica e põe em risco o acervo daquele que revela uma das nossas marcas de diferença e de excepcional qualidade: a tapeçaria portalegrense. Tudo isto é contraditório e significa um retrocesso na marcha, que se desejaria linear e dirigida para o futuro, do conhecimento e da divulgação dos nossos valores, para dentro -a comunidade- e para fora -os forasteiros. Empregando o “dialecto” local, diria: para os lagóias e para os estrangeiros

Há anos, e por mais de uma vez, Manuel Morujo ensaiou reunir a diáspora portalegrense. Outro “visionário” que, sem o apoio que mereceria, tentou aqui realizar uma das máximas que celebrizaram o malogrado presidente Kennedy, arregimentando e inquietando os seus conterrâneos: – “Em vez de perguntares o que pode Portalegre fazer por ti, por que não te interrogas sobre o que podes fazer por Portalegre?

Com efeito, a riquíssima “reserva” lagóia dispersa pelo mundo, cá e na estranja, nunca foi confrontada com um projecto comum onde as suas capacidades pudessem dar um contributo decisivo para tal concretização. E, em todas as áreas do conhecimento, da ciência, das artes e das letras, da paz e da guerra, das humanidades, do desporto, da política, enfim, em todos os ramos e campos da intervenção sócio-cultural, existem personalidades, nascidas em Portalegre ou afins, que estariam certamente disponíveis, talvez mesmo empenhadas, em tal intervenção.

[Experimente-se espreitar a galeria de fotos do recente convívio portalegrense de Cascais e logo ali se encontra um conjunto, que não esgota o universo…]

E a “prata da casa”? Aqueles que em Portalegre têm estado na primeira linha da participação, da militância ou da intervenção, em termos de activa cidadania, seriam -teriam de ser- elementos fundamentais nesta obra de sistematização e promoção da identidade local.

Apesar de tentado a fazê-lo, prefiro adiar a revelação de quantos (e quantas) integram esse escol. Liga-me a quase todos uma relação pessoal, afectiva.

São muitos e bons aqueles que, chamados, certamente participariam com o seu entusiasmo numa obra devidamente pensada e estruturada. Não tenho sobre isso qualquer dúvida.

Do de que duvido, e de forma crescente, é da vontade –mais que da capacidade- de quem deveria assumir a iniciativa. Fiquei há pouco frustrado pela negativa concedida pela presidência da autarquia à expressa, humilde e frontal disponibilidade de vereadores (da “oposição”) para leal e activamente colaborarem na obra comum. Já aqui tinha antecipado essa lógica possibilidade como altamente desejável. A decisão “superior”, embora legítima, remete-nos para os negrumes de alguma arrogante auto-suficiência, nos intoleráveis limites da autocracia. Enfim, não foi -com todo o respeito- uma resposta democrática, num contexto liberto de qualquer restrição partidária. Até prova em contrário estou disso, infelizmente, convencido.

A história da comunidade portalegrense tem altos e baixos. Como um organismo vivo, afinal.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

P.S. – Há umas semanas, cometi aqui um erro. Falava de cultura em Portalegre, numa outra curta série de textos. A 25 de Outubro, citando o laureado arquitecto portalegrense Carrilho da Graça, admiti que ele nunca fora contemplado com uma distinção por parte da sua autarquia de origem. Enganei-me. Escrevi então: “Se a memória me não falha, creio que nem sequer num famoso e recente ano em que a distribuição de louvores mais se assemelhou a uma incontrolável diarreia medalhística, ele foi contemplado”. Soube, posteriormente, que ele recebera a medalha de ouro da cidade de Portalegre em 2009. Por ironia, foi no ano em que o  tal desarranjo medalhístico assumiu um pico na sua grave virulência…

Se errar é humano, persistir no erro é animalesco. Por isso, aqui humildemente me corrijo, apenas anotando em minha defesa:

  • O arquitecto João Carrilho da Graça, no seu currículo oficial, não incluiu tal medalha na relação das distinções recebidas. Ele lá saberá porquê…
  • O critério (!?) sistematicamente usado pela autarquia portalegrense na selecção dos laureados provoca em muitos destes uma inflacionada noção dos seus reais méritos.
  • Aqueles que dessa lei se libertam, por indiscutível merecimento, correm neste particular os riscos da submersão nos abismos da mais vulgar mediocridade.

Fica assim reposta a verdade dos factos que inadvertidamente alterei. É que isso também é história da minha comunidade e convém ser tão rigoroso quanto for possível.

 

Natal e Poesia

Hoje é dia de Natal. Para crentes e não crentes é o momento tradicional de cada ano para reunir em família e festejar. Infelizmente, a crise que o país atravessa transforma este Natal, no convívio de muitas famílias, num mero pretexto para reflectir mais em termos de sobrevivência que de esperança. O ano que se aproxima nada garante de positivo e as palavras de circunstância, bonitas e enfeitadas de lantejoulas brilhantes, soam a falso, sobretudo as mensagens encenadas, na quadra, pelas personalidades do costume. Enfim, tradições…

Encaremos o Natal com realismo e vivamo-lo no espírito da solidariedade e da fraternidade possíveis. A cultura integra-se nesse espírito e, aqui, a poesia é um instrumento privilegiado.

Os grandes autores, inspirados pela sua alma criativa, conseguem transformar as palavras simples em apelos carregados de sentido humano, “arrumando-as” em frases de valor interventivo, precisamente o inverso das vazias mensagens oficiais de circunstância.

Prefiro por isso os poetas aos presidentes, escolho as palavras autênticas e rejeito os fingimentos, troco a hipocrisia pela verdade.

Este é um exemplo entre mil, uma página de O Primeiro de Janeiro, do distante dia de 25 de Dezembro de 1982, mais de trinta anos atrás, que lembrou poetas e a sua mensagem, incluindo Régio já morto, mas vivo nos poemas que nos legou, nessa página antológica Natal e Poesia. Leio o seu poema Natal como uma perene mensagem de esperança, capaz de romper as trevas que neste preciso dia de hoje ensombram o convívio de muitos…

natal e poesia

 

 

NATAL

 

Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.

 

Distância Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.

 

Os que te dizem não,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Senão seu olho cego, ouvido surdo?

 

Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.

 

Na nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês.

 

Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que não te apagas,
Rompe mais uma vez a noite, que não é
Senão o dia de outras plagas.

 

Perpétua Luz, Contínua Oferta
À nossa escuridade interna
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.

 

                                                                   JOSÉ RÉGIO