Quadro de Honra Municipal – quatro (fim)

ranking cabeçalho

Será possível, através dos dados inscritos no Portugal City Brand Ranking, da Bloom Consulting, comparar Portalegre e Peniche? Sim e não.

Sim, quanto ao resultado, objectivo, das suas avaliações dentro dos mesmos parâmetros, isto é, na listagem nacional, onde Portalegre foi situada na 81.ª posição, bem abaixo de Peniche, colocada na 50.ª. A distância é considerável, rank pnccom abissal vantagem da cidade do Oeste sobre a do Norte Alentejano. Será justa e real esta diferença? Só os técnicos da empresa poderão responder de forma definitiva, embora os dados divulgados permitam supor a autenticidade do confronto. A diversidade dos parâmetros considerados, a variedade dos itens abrangidos, a universalidade dos processos divulgados – tudo isto é de tal forma complexo que a um leigo será difícil concluir com rigor pela absoluta validade dos números, na frieza da sua matemática estatística e da sua implacável ordenação sequencial.

Embora isso me doa, acredito no ranking.

E poderia tal crença levar-me a concluir que, se Peniche estivesse no Norte Alentejano, ficaria em primeiríssimo lugar, a larga distância de Elvas – 50.º contra 68.º!?

Obviamente, isto seria um exagero pois, se situada na sub-região do Norte rank elvAlentejano, Peniche não teria mar, e este representa uma circunstância determinante, diria mesmo decisiva, para a sua qualificação.

Mas não será disparate algum propor a hipotética inserção de Peniche em qualquer das regiões consideradas, pois todas têm costas marítimas.

Assim, embora contando aí com fortíssima concorrência, o Município de Peniche seria 15.º no Norte, 12.º em Lisboa e 7.º no Algarve. No Alentejo ocuparia o 5.º lugar e, nas ilhas, seria 3.º na Madeira e 2.º nos Açores… Está tudo dito.

Voltando à comparação de Portalegre e Peniche, poderia propor-se um outro cotejo, este relativo aos itens, embora aqui se devesse incluir uma ponderação.

É que Portalegre dispõe de uma ordenação inserida numa listagem onde a média dos Municípios que o antecedem é de 45, factor que no caso de Peniche desce para 23, quase metade, assim revelando uma muito maior exigência de qualidade competitiva. Portanto, pode afirmar-se, embora sem um absoluto rigor, que as ordenações no Centro atribuídas a Peniche aos itens Negócios, Visitar e Viver deveriam ser fortemente valoradas, como compensação, se transferidas para o contexto do Alentejo.

No entanto, desprezando a aplicação deste lógico handicap, atentemos num significativo e exemplar confronto, respeitante ao item Visitar, que apresentaria o seguinte quadro:

  • 04 – Peniche
  • 07 – Elvas
  • 11 – Marvão
  • 12 – Castelo de Vide
  • 16 – Portalegre

 

A análise desta hipotética mas plausível ordenação relativa, ainda que muito sumária, levar-nos-ia longe. Vejamo-la pela rama…

Visitar, tal como a Bloom Consulting considera, abrange o turismo, engloba a rank mrvexperiência local mais os dados aí disponíveis, actuando sobre a oferta, e dirige-se depois à atracção de potenciais turistas, ao nível da procura. Naturalmente, são aqui englobados -e continuo a citar- as empresas e o seu desempenho, a ocupação hoteleira, os atractivos e a sua divulgação, a população envolvida (decisores políticos, investidores, turistas e cidadãos residentes)…

O que se verifica, realisticamente, é que Peniche tem o mar, fabuloso e com magníficas praias, estruturas hoteleiras razoáveis, um cenário natural de excepção, alguns museus, património construído interessante (forte, igrejas, farol…), eventos atractivos (surf, Carnaval, as Fogueiras, Senhora do Mar, os Círios, … e que pena ter deixado cair a Sardinha!); Elvas tem o seu esplendoroso património construído, recentemente promovido ao mais alto nível mundial, estruturas hoteleiras e excelentes museus, para além de uma estratégica localização “transfronteiriça” e o Senhor da Piedade mais o São Mateus, e ainda o Carnaval; Marvão, sem instalações hoteleiras bastantes, investe em estruturas de lazer (Portagem) e em alguns eventos (Castanha, Al Mossassa/árabe), perdeu o golf mas dispõe de um fabuloso potencial nas ruínas da  cidade romana de Ammaia (uma providencial iniciativa de Carlos Melancia!), noutros pretextos arqueológicos e também no castelo; Castelo de Vide, que deixou extraviar (definitivamente?) as suas famosas águas termais, aposta no passado judaico-cristão e em património construído, num bom parque desportivo, num razoável conjunto hoteleiro, em eventos como a Páscoa ou o Carnaval, no envolvimento arqueológico (a rank cvMeada…), na barragem da Póvoa…

E Portalegre? Para descrever o seu potencial turístico e a forma como é tratado -o Visitar-, quase posso limitar-me aos protestos aqui mil vezes repetidos, na denúncia dos atropelos de toda a ordem que foram e continuam a ser cometidos na cidade que um dia foi escolhida para Régio aí dar aulas… e por ali ficar, apaixonado. Mas a paixão do poeta, provavelmente, ficaria hoje reduzida à componente paisagística sobrevivente…

Portalegre desperdiçou o seu “mar” -a Serra-, abandonando-a, nela deixando perder estruturas como a Quinta da Saúde e eventos como a tradicional Festa dos Aventais, até a ermida de São Mamede. Sendo a Serra magnífico cenário e pretexto para modernas e frequentadas provas desportivas e de lazer, a caminhada, a corrida, a orientação, o paint-ball, o BTT, o “safari” fotográfico, etc., alguém pensa nisso a sério?

Abandalharam-se-lhe ruas e jardins a pretexto de uma requalificação ambiental e paisagística intitulada Polis, à sombra da qual foi vandalizado património como o memorial José Duro ou as torres do castelo, particularmente a de menagem. Beneficiaram-se estruturas que nunca foram minimamente aproveitadas, como a barbacã desse mesmo castelo, e reduziram-se gravemente os conteúdos museológicos ou os seus anexos, como no Municipal (onde se “extraviou” a colecção antoniana), na Casa Museu José Régio (onde se “desactivou” o Centro de Estudos), no da Tapeçaria (onde se “permitiu” a retirada das peças fundamentais). Este último caso seria motivo para um escândalo público em qualquer sítio onde os impulsos civilizacionais mobilizassem a população, mas em Portalegre não acontece nada disso… Conformismo ou incultura, cumplicidade ou distracção?

Portalegre não dispõe de um parque hoteleiro condigno, embora esteja a rank ptgcaminho da minimização desta carência e também não possui um calendário de eventos compatível como as suas tradições. Tem o Jazz, a doçaria, e acaba de ver desqualificada uma das suas raras atracções anuais, a Baja. E no entanto já teve festivais de cinema, audiovisuais, multimédia, gastronomia…

Possui um interessante património construído, em solares, igrejas, conventos ou miradouros, até em moderna e qualificada arquitectura. Mas isto é minimamente aproveitado?

Alimentou-se ali o magnífico projecto de um museu de arqueologia industrial. Mas alguma vez este será instalado e disponibilizado?

Foram caindo no esquecimento quase todas as antigas tradições locais, do Carnaval aos festejos dos Santos Populares, das romarias religiosas às cíclicas e calendarizadas feiras anuais, dos ancestrais costumes comunitários (o “chibo” na Serra, a quinta-feira da Ascensão) à leitura pública ou aos concertos musicais nos jardins…

Portalegre viu desaparecer, praticamente sem um lamento, a sua revista mais qualificada, A Cidade, embaixadora cultural da comunidade, expressão da sua digna presença, urbi et orbi… Se não fosse a louvável iniciativa que corporiza Plátano, teríamos voltado ao grau zero da afirmação comunicacional lagóia.

Fico por aqui, porque seria interminável o rol daquilo que Portalegre foi perdendo no plano comunitário cultural, daquilo que foi sendo desbaratado em passado recente, daquilo que continua a desperdiçar-se ou a abandalhar-se, numa previsível banalidade que infelizmente o futuro parece confirmar, nos presentes sinais do progressivo esvaziamento de realizações, de projectos, de entusiasmos, de iniciativas, de ideias… O sufoco da dívida afigura-se implacável.

Se os Negócios em Portalegre estão pela hora da morte, se o Viver ali nada garante de seguro, então o Visitar da cidade aproxima-se, por este andar, do vazio absoluto.

Fechada em si mesma, Portalegre nem sequer se atreve a olhar para o lado e, serankings não é capaz de inventar, então que saiba copiar dos vizinhos o que é bom e útil. Quem não tem cão caça com gato, se não houver espingardas à mão, uma fisga serve.

Não acontecendo uma inversão desta marcha para o abismo, os índices de um próximo Portugal City Brand Ranking arriscam-se a revelar -ou confirmar!?- um irremediável afastamento de Portalegre dos lugares cimeiros das classificações municipais, mesmo reduzidas à dimensão regional…

Os rankings valem o que valem. Mesmo a la minuta, mesmo a preto e branco, mesmo algo desfocados, não deixam de ser retratos de uma realidade.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

A petição, a língua e o cágado

acordo-ortografico-nao-obrigado

Paulo Teixeira Pinto é um conhecido jurista e empresário português.paulo teixeira pinto

Integrou o XII Governo Constitucional e pertence ao Conselho Privado de D. Duarte Pio, presidindo à Causa Real.

É autor de obras de âmbito jurídico e tem assumido uma combativa e informada posição pública contra o acordo ortográfico.

 

Aqui fica, com vénia ao autor e ao jornal, um seu tão sumário quão denso e contundente testemunho.

Como ontem foi declarado, reafirmo na manhã do dia em que toda a curiosidade está assente na verificação da dignidade pessoal e na coerência de cada deputado -tal como sucedeu no caso do recente e abortado referendo- que será feita uma curta trégua sobre o tema.

 

A petição, a língua e o cágado

a petição a lingua e o cágadoNo próximo dia 28 a Assembleia da República vai discutir a “Petição pela desvinculação de Portugal do Acordo Ortográfico de 1990”. O qual era suposto ter entrado em vigor a 1 de Janeiro de 1994. Mas calma, ainda só passaram 10 anos. E se tudo não piorar nunca chegará a vigorar.

Não nos antecipemos porém. Primeiro faça-se uma declaração de interesses. Assim: 1) Apesar de não ser membro do Parlamento, também quero ser parte dessa discussão. Porque a Língua Portuguesa não é do Estado. Nem sequer só de Portugal. 2) Não sou nem pretendo ser imparcial nesta questão. Como sabe quem me lê, recuso-me a escrever segundo as pretensões da pretensa ortografia pretensamente nova. 3) Fui um dos primeiros subscritores contra o assim chamado “Acordo Ortográfico “ e editei mais do que um livro contra o dito cujo.

Entre 1712 e1720 foi publicado o primeiro grande inventário da nossa Língua  (o monumental “Vocabulário portuguez e latino”, de Rafael Bluteau). De então para cá tivemos, nomeadamente, a 1ª reforma ortográfica de 1911 e o 1° Acordo Ortográfico entre Brasil  e Portugal em 1931. Mas a língua é uma realidade dinâmica, pelo que a fixação das regras da sua sintaxe e da sua ortografia incumbe aos filólogos, às universidades e às academias. Já a fonética, o léxico e a semântica são aquilo que em cada momento os seus falantes decidirem.

Não disponho nem de espaço nem de tempo para aqui e agora fundamentar a minha posição. De modos que me fico por isto: tal como Fernando Pessoa dizia recusar-se a cortar o pescoço ao “cysne” (que então se grafava com y), também eu gostaria que a “ acta dos factos de um cágado espectador” PÚBLICOnão passasse a “ata dos fatos de um espetador” (quanto ao “cágado” ainda se discute se leva acento).

Paulo Teixeira Pinto

Jurista
Em Público de 24 de Fevereiro de 2014

ARQUIVO NACIONAL – sete

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MONFORTE – O CASTELO

Praticamente já não existe o monumento hoje recordado. A descrição histórica patente no texto entretém-se com divagações avulsas e não alude, por exemplo, às investidas sofridas pela praça de Monforte durante a Guerra da Sucessão de Espanha e sobretudo durante a Guerra Peninsular. Nestes contextos, particularmente no último, o castelo foi praticamente destruído por uma violenta incursão das tropas espanholas, permanecendo de pé apenas a torre de menagem e alguns troços de muralhas.

Procurei dados actualizados sobre o Castelo de Monforte, hoje evocado na série Fastos Provincianos – História, Tradições, Monumentos, publicada no Arquivo Nacional. A verdade é que o que dele resta nem sequer estará classificado, pois nada encontrei como registo nos arquivos do IGESPAR.

Por isso, possui um interessante valor documental a imagem anexa ao artigo, uma vez revela um aspecto do Castelo de Monforte já desaparecido. E para sempre…

O texto a seguir reproduzido foi originariamente publicado no Arquivo Nacional, fascículo n.º 202, ano IV, relativo a 20 de Novembro de 1935.

07 - monforte

Agenda do dia – 059

dia 28 fevereiro

Dia 059 – 28 de Fevereiro de 1854

Nesta data foi fundado o Partido Republicano, em Ripon, no Wisconsin.

Denominou-se então Grand Old Party (GOP) e é hoje, conjuntamente com o Partido Democrata um dos dois grandes grupos políticos dos Estados Unidos da América. Foram dissidentes do Partido Whig e do Partido Democrata, pela sua hostilidade ao estatuto da escravatura e às reivindicações soberanistas dos Estados Federados favoráveis ao proteccionismo.

O presidente George W. Bush foi o 19.º e último, até hoje, a sair das fileiras do Partido Republicano.

AO – Última Hora

Reconheço, sem qualquer dificuldade, que tenho nestes últimos dias usado e abusado deste espaço e, provavelmente, da paciência dos amigos e fiéis leitores do blog. Falo, naturalmente, dos textos aqui colocados sobre a magna questão que talvez (!?) amanhã possa sofrer alguma inflexão na modorra em que há muito caiu. Quem seja adepto do acordo ortográfico deve maldizer-me, mas a minha posição é muito simples: reconheço a todos o direito a uma livre escolha, incluindo aqui as opções ortográficas e os blogs que frequentam. Espero receber idêntica reciprocidade: a de me serem permitidos a manutenção do estatuto de feroz e irredutível adversário desse acordo (até porque explico em pormenor os porquês) e também o preenchimento destas páginas como muito bem me apetecer.

A militância de uma causa é assim, ou a sério ou não vale a pena. E esta não é uma questão tão insignificante como alguns possam pensar; envolve o respeito pelo nosso passado, pelo bom senso, pelo rigor histórico, científico e patrimonial onde assentam as bases daquilo que Fernando Pessoa considerou a sua Pátria. É também a minha.

Há dias, precisamente anteontem, 25, quando a este propósito aqui deixei o texto Sexta-feira anda à roda, coloquei nele algumas questões que julguei pertinentes, sobretudo a da liberdade de consciência, logo de voto, dos deputados. Ora este significativo “pormenor” é abordado num curto artigo, curto mas bastante esclarecedor, subscrito pela jornalista Maria Lopes numa coluna do Público de hoje. Na Internet, logo o PSD fez saber, em declarações prestadas ao jornalista Ricardo Rego do semanário Sol, a sua posição a tal propósito.

Sem qualquer comentário, aqui fica, em Última Hora, a reprodução de ambos os documentos.

Amanhã, neste particular, apenas colocarei no blog um interessante artigo de opinião, alheio, sobre o tema. O que acontecer no Parlamento ficará para depois…

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A esperança é a última coisa a perder-se

acordo-ortografico-nao-obrigado

Maria Alzira Seixo (Barreiro, 1941) é professora catedrática da Universidade de maria alzira seixoLisboa e dedica-se ao estudo da Literatura Portuguesa e Francesa. Criou e dirigiu as revistas Ariane e Dedalus. Para além de ser membro de júris de prémios literários, como os da APE ou Camões, dirige a colecção António Lobo Antunes e Camiliana. Como crítica literária, colabora no Jornal de Letras, Artes e Ideias. Da sua obra, literária e poética, destacam-se: Discursos do Texto (1977), Diário do Lago (2002) e Dicionário da obra de António Lobo Antunes (2008).

O artigo aqui hoje reproduzido, com vénia e admiração à PÚBLICOautora, assim como com gratidão ao jornal, representa uma autorizada voz de imensa serenidade perante a confusão e a barbárie a que temos vindo a assistir no universo linguístico indígena. Oxalá os destinatários o leiam e nele meditem, como merece, como todos merecemos.

a hora da esperança

Língua Portuguesa: a hora da esperança

Neste fulgor baço da terra/ que é Portugal a entristecer/ – é a Hora!
Fernando Pessoa

Elsa Triolet, esposa do poeta Aragon, escritora também, deu um lindo e especioso título a um romance seu, em português Rosas a Prestações. Seguindo a sua lógica de maravilhoso a conta-gotas, pode também falar-se de esperança neste nosso tempo de desespero. Não da esperança económica, que talvez se fique por ganhos empresariais e subidas da palavra Portugal em gráficos de Mercados. Nem do viver melhor, para a maioria, que se limitará a ler a notícia disso nos jornais.

Mas, se para alguma coisa serviu o 25 de Abril (neste 40.º aniversário próximo, frisarei: “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”), foi para instaurar a democracia entre nós e, com ela, a possibilidade de pensar livremente, criticar, reconsiderar: para amparar e reconstruir o país. Agora, em ruína… a precisar de tanto amparo. A precisar de clarividência e isenção.

Mas pensar e criticar faz-se com palavras, com linguagem, com uma formação profissional prática e teórica, que se enriquece com a cultura de cada um, feita de aprendizagem do quotidiano, da vivência própria do indivíduo, tendo por base a escola, educação, exercício profissional, experiência de cultura e arte, exercício da cidadania. As palavras são manancial de riqueza: juntam a criatividade de “crescer” em diversos sentidos, a partir das suas raízes fortes, em lógica de desenvolvimento que é tanto delas mesmas como dos que as usam, quando respeitam o seu étimo. E reúnem-se na família vocabular que é a Língua: o Português, cujas raízes estão no Latim e no Grego, beneficiando de outras línguas no seu convívio. São como um chão em que nos movimentamos, tanto quanto um firmamento de sonho, que em nós suscita desejos e projectos, leva a sucessos e invenções. Quase sem darmos por elas, como nos entenderíamos sem palavras fortes, não dúbias e bem definidas?

Ora já sabemos como o chamado Acordo Ortográfico as veio maltratar, como as cortou das raízes da sua proveniência, como lhes decepou ligações de vizinhança com línguas europeias. E antevemos vários cortes de raciocínio (o raciocínio que leva à acção concertada!) a que tal conduz. Reencaminhamo-nos, assim, para o “orgulhosamente sós” de Salazar e, mais do que sós, ficamos decepados. Com a desculpa que a ortografia não é a língua (como se ela não fosse parte integrante da língua, como a pele que cobre o corpo!), o Acordo Ortográfico desfigura a linguagem: desmembra famílias de palavras, estraçalha vocábulos (que parecem outros, com os quais os falantes os confundem), isola termos que ficam lexicalmente à deriva, num oceano de incongruências, arbitrariedades, confusões, deslocalização do sentido original, que já não é possível perceber para se atinar de imediato com o sentido. Um desatino!

Ficámos aleijados a escrever em português. Por determinação da lei que impôs o Acordo Ortográfico como medida política de aproximação com os países de língua oficial portuguesa. Os quais, afinal, enjeitam tal medida, pois não o adoptaram! E aleijados também porque ninguém entre nós sabe escrever segundo o Acordo, tão impossível de fixar ele é, ilógico nas suas regras, infinidade de excepções e hipóteses de escrita múltipla. Não se consegue fixá-las, é preciso decorar o que está correcto e o que não está! Não há hoje quem saiba escrever em Portugal segundo o Acordo: escrevem os correctores automáticos (ditadores mecânicos da linguagem que “faz” cultura: como Deus a fazer um “pato” com o Diabo, num livro de Saramago; como a locutora da TV que lança um “réto” (“repto” quis ela dizer, e não “recto”) ou como o aluno que, lendo sobre “a Imaculada Conceção”, passa a escrito como “Imaculada Concessão” – exemplos sem fim, que parecem anedota, se é que tudo isto o não é… Por uma vez, as piadas deixam de fazer rir em Portugal, pois é o ser humano, física e mentalmente, que o Acordo Ortográfico agride, já que a saúde do indivíduo reside também na sua fala e poder de escrita, e ambas se interpenetram.

Não vale a pena exibir mais agravos do Acordo Ortográfico: as críticas que lhe têm sido feitas chegam e sobejam para entendermos o seu alcance de danificação, em expressão e raciocínio, a curto prazo (e já actual!), no falante luso. E as implicações a vir na descida do nosso nível cultural, profissional e económico, no futuro. É uma amputação! Quem aprovou a lei não o supunha, talvez. Embora tenha havido claros pareceres e advertências, na altura devida – e os responsáveis fizeram, no sentido mais próprio, ouvidos de mercador.

Mas ainda é tempo! A Assembleia da República que aprovou esse instrumento de atraso mental não é hoje a mesma, e os que nela permanecem, do grupo anterior, tiveram entretanto ensejo de reflectir, de compreender. Tenhamos esperança! Os portugueses que formam esta AR podem mostrar-se cidadãos responsáveis, que não querem depender, durante o resto da vida, de conversores automáticos colocados em computadores, os quais ainda por cima erram na aplicação do próprio Acordo, e o resultado é que não se fica a escrever nem em Português nem na ortografia imposta…, escreve-se em língua que não existe, não é a da lei, nem a usual! Os deputados não serão indiferentes à ideia de seus filhos e netos, e todos os portugueses, se tornarem deficientes linguísticos ad aeternum, com os custos que isso acarretará, em atraso e marginalidade decorrente, para Portugal. “Medida política”, isto?!

Tal medida, impensadamente aprovada em 2008, que desfigura a fisionomia do Português, vai ser reexaminada na Assembleia da República no próximo dia 28, graças a mais uma Petição de cidadãos que pretendem desvincular-se do Acordo Ortográfico, recebida por este órgão de soberania. Esse pode ser um dia de efectiva recuperação para o nosso país, e o 28 de Fevereiro ser data marcante da democracia, como efectiva participação do povo na res publica! A esperança é a última a morrer? Talvez, mas… quem espera sempre alcança. Em Rosas a Prestações, as heroínas, jovens raparigas belas, ambiciosas e ignorantes, deitaram tudo a perder. Porque a sua esperança se apoiava em gestos de exibição social, aparência física de vazio interior e relações de interesse… e tudo isso, se não tem linguagem segura a apoiar o indivíduo e a torná-lo gente, estilhaça-se. Esse é um romance que foca a falência humana pela incapacidade da linguagem na comunicação. Mas a vida não é um romance, e, em democracia, o decisor é o povo, pelos seus representantes. Haja, pois, confiança!

Maria Alzira Seixo
Centro de Estudos Comparatistas – FLUL

Em Público de 25 de Fevereiro de 2014

 

 

Quadro de Honra Municipal – três

ranking cabeçalho

Vejamos agora o caso de Peniche, quanto à sua posição global no ranking dos rank centroMunicípios nacionais e, depois, nos três itens – Negócios, Visitar e Viver – inserido na Região Centro que conta com praticamente um terço do total das autarquias, 100 em 308…

A nível nacional, a posição de Peniche é o 50.º lugar, bem dentro do primeiro quartel do pelotão.

Depois, acontece que tem uma fortíssima concorrência, não apenas numérica, mas qualitativa. Basta dizer que a relação dos Municípios do Centro começa com Coimbra, Aveiro, Leiria e Viseu e que os primeiros seis Concelhos se classificam até ao lugar, nacional, n.º 25 para se dispor da noção do peso relativo desta listagem regional. Mesmo assim, Peniche situa-se no 12.º posto, logo a seguir a Figueira de Foz e Guarda, antes de Pombal, Tomar, Óbidos, Nazaré, Alcobaça ou Abrantes, para citar apenas estas localidades, entre oitenta e oito…

ranking parte 3

 

Registemos agora sua a posição relativa a Negócios:

 

  • 01 – Aveirorank negociar
  • 02 – Coimbra
  • 03 – Leiria
  • 04 – Viseu
  • 05 – Torres Vedras
  • 06 – Castelo Branco
  • 07 – Caldas da Rainha
  • 08 – Ovar
  • 09 – Covilhã
  • 10 – Alcobaça
  • 11 – Pombal
  • 12 – Ourém
  • 13 – Lourinhã
  • 14 – Batalha
  • 15 – Peniche

 

Quanto a Visitar, eis a pontuação de Peniche:

 rank visitar

  • 01 – Coimbra
  • 02 – Aveiro
  • 03 – Nazaré
  • 04 – Peniche

 

Finalmente, é esta a listagem relativa a Viver:

 

  • 01 – Leiriarank viver
  • 02 – Coimbra
  • 03 – Viseu
  • 04 – Aveiro
  • 05 – Torres Vedras
  • 06 – Castelo Branco
  • 07 – Caldas da Rainha
  • 08 – Guarda
  • 09 – Pombal
  • 10 – Covilhã
  • 11 – Figueira da Foz
  • 12 – Águeda
  • 13 – Tomar
  • 14 – Torres Novas
  • 15 – Ovar
  • 16 – Mangualde
  • 17 – Ourém
  • 18 – Marinha Grande
  • 19 – Abrantes
  • 20 – Entroncamento
  • 21 – Peniche

 

Creio que são comportamentos meritórios, os de Peniche, sobretudo com grande destaque, dada a “concorrência”, para o 4.º lugar conquistado no item Visitar. Em qualquer dos casos, nunca se deve perder de vista o facto de serem cem (100) os Municípios aqui arrolados e de entre eles se encontrarem umas dezenas dotadas de considerável mérito e prestígio a diversos níveis de apreciação, económico, social, cultural, histórico e outros.