A petição, a língua e o cágado

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Paulo Teixeira Pinto é um conhecido jurista e empresário português.paulo teixeira pinto

Integrou o XII Governo Constitucional e pertence ao Conselho Privado de D. Duarte Pio, presidindo à Causa Real.

É autor de obras de âmbito jurídico e tem assumido uma combativa e informada posição pública contra o acordo ortográfico.

 

Aqui fica, com vénia ao autor e ao jornal, um seu tão sumário quão denso e contundente testemunho.

Como ontem foi declarado, reafirmo na manhã do dia em que toda a curiosidade está assente na verificação da dignidade pessoal e na coerência de cada deputado -tal como sucedeu no caso do recente e abortado referendo- que será feita uma curta trégua sobre o tema.

 

A petição, a língua e o cágado

a petição a lingua e o cágadoNo próximo dia 28 a Assembleia da República vai discutir a “Petição pela desvinculação de Portugal do Acordo Ortográfico de 1990”. O qual era suposto ter entrado em vigor a 1 de Janeiro de 1994. Mas calma, ainda só passaram 10 anos. E se tudo não piorar nunca chegará a vigorar.

Não nos antecipemos porém. Primeiro faça-se uma declaração de interesses. Assim: 1) Apesar de não ser membro do Parlamento, também quero ser parte dessa discussão. Porque a Língua Portuguesa não é do Estado. Nem sequer só de Portugal. 2) Não sou nem pretendo ser imparcial nesta questão. Como sabe quem me lê, recuso-me a escrever segundo as pretensões da pretensa ortografia pretensamente nova. 3) Fui um dos primeiros subscritores contra o assim chamado “Acordo Ortográfico “ e editei mais do que um livro contra o dito cujo.

Entre 1712 e1720 foi publicado o primeiro grande inventário da nossa Língua  (o monumental “Vocabulário portuguez e latino”, de Rafael Bluteau). De então para cá tivemos, nomeadamente, a 1ª reforma ortográfica de 1911 e o 1° Acordo Ortográfico entre Brasil  e Portugal em 1931. Mas a língua é uma realidade dinâmica, pelo que a fixação das regras da sua sintaxe e da sua ortografia incumbe aos filólogos, às universidades e às academias. Já a fonética, o léxico e a semântica são aquilo que em cada momento os seus falantes decidirem.

Não disponho nem de espaço nem de tempo para aqui e agora fundamentar a minha posição. De modos que me fico por isto: tal como Fernando Pessoa dizia recusar-se a cortar o pescoço ao “cysne” (que então se grafava com y), também eu gostaria que a “ acta dos factos de um cágado espectador” PÚBLICOnão passasse a “ata dos fatos de um espetador” (quanto ao “cágado” ainda se discute se leva acento).

Paulo Teixeira Pinto

Jurista
Em Público de 24 de Fevereiro de 2014

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