Quadro de Honra Municipal – quatro (fim)

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Será possível, através dos dados inscritos no Portugal City Brand Ranking, da Bloom Consulting, comparar Portalegre e Peniche? Sim e não.

Sim, quanto ao resultado, objectivo, das suas avaliações dentro dos mesmos parâmetros, isto é, na listagem nacional, onde Portalegre foi situada na 81.ª posição, bem abaixo de Peniche, colocada na 50.ª. A distância é considerável, rank pnccom abissal vantagem da cidade do Oeste sobre a do Norte Alentejano. Será justa e real esta diferença? Só os técnicos da empresa poderão responder de forma definitiva, embora os dados divulgados permitam supor a autenticidade do confronto. A diversidade dos parâmetros considerados, a variedade dos itens abrangidos, a universalidade dos processos divulgados – tudo isto é de tal forma complexo que a um leigo será difícil concluir com rigor pela absoluta validade dos números, na frieza da sua matemática estatística e da sua implacável ordenação sequencial.

Embora isso me doa, acredito no ranking.

E poderia tal crença levar-me a concluir que, se Peniche estivesse no Norte Alentejano, ficaria em primeiríssimo lugar, a larga distância de Elvas – 50.º contra 68.º!?

Obviamente, isto seria um exagero pois, se situada na sub-região do Norte rank elvAlentejano, Peniche não teria mar, e este representa uma circunstância determinante, diria mesmo decisiva, para a sua qualificação.

Mas não será disparate algum propor a hipotética inserção de Peniche em qualquer das regiões consideradas, pois todas têm costas marítimas.

Assim, embora contando aí com fortíssima concorrência, o Município de Peniche seria 15.º no Norte, 12.º em Lisboa e 7.º no Algarve. No Alentejo ocuparia o 5.º lugar e, nas ilhas, seria 3.º na Madeira e 2.º nos Açores… Está tudo dito.

Voltando à comparação de Portalegre e Peniche, poderia propor-se um outro cotejo, este relativo aos itens, embora aqui se devesse incluir uma ponderação.

É que Portalegre dispõe de uma ordenação inserida numa listagem onde a média dos Municípios que o antecedem é de 45, factor que no caso de Peniche desce para 23, quase metade, assim revelando uma muito maior exigência de qualidade competitiva. Portanto, pode afirmar-se, embora sem um absoluto rigor, que as ordenações no Centro atribuídas a Peniche aos itens Negócios, Visitar e Viver deveriam ser fortemente valoradas, como compensação, se transferidas para o contexto do Alentejo.

No entanto, desprezando a aplicação deste lógico handicap, atentemos num significativo e exemplar confronto, respeitante ao item Visitar, que apresentaria o seguinte quadro:

  • 04 – Peniche
  • 07 – Elvas
  • 11 – Marvão
  • 12 – Castelo de Vide
  • 16 – Portalegre

 

A análise desta hipotética mas plausível ordenação relativa, ainda que muito sumária, levar-nos-ia longe. Vejamo-la pela rama…

Visitar, tal como a Bloom Consulting considera, abrange o turismo, engloba a rank mrvexperiência local mais os dados aí disponíveis, actuando sobre a oferta, e dirige-se depois à atracção de potenciais turistas, ao nível da procura. Naturalmente, são aqui englobados -e continuo a citar- as empresas e o seu desempenho, a ocupação hoteleira, os atractivos e a sua divulgação, a população envolvida (decisores políticos, investidores, turistas e cidadãos residentes)…

O que se verifica, realisticamente, é que Peniche tem o mar, fabuloso e com magníficas praias, estruturas hoteleiras razoáveis, um cenário natural de excepção, alguns museus, património construído interessante (forte, igrejas, farol…), eventos atractivos (surf, Carnaval, as Fogueiras, Senhora do Mar, os Círios, … e que pena ter deixado cair a Sardinha!); Elvas tem o seu esplendoroso património construído, recentemente promovido ao mais alto nível mundial, estruturas hoteleiras e excelentes museus, para além de uma estratégica localização “transfronteiriça” e o Senhor da Piedade mais o São Mateus, e ainda o Carnaval; Marvão, sem instalações hoteleiras bastantes, investe em estruturas de lazer (Portagem) e em alguns eventos (Castanha, Al Mossassa/árabe), perdeu o golf mas dispõe de um fabuloso potencial nas ruínas da  cidade romana de Ammaia (uma providencial iniciativa de Carlos Melancia!), noutros pretextos arqueológicos e também no castelo; Castelo de Vide, que deixou extraviar (definitivamente?) as suas famosas águas termais, aposta no passado judaico-cristão e em património construído, num bom parque desportivo, num razoável conjunto hoteleiro, em eventos como a Páscoa ou o Carnaval, no envolvimento arqueológico (a rank cvMeada…), na barragem da Póvoa…

E Portalegre? Para descrever o seu potencial turístico e a forma como é tratado -o Visitar-, quase posso limitar-me aos protestos aqui mil vezes repetidos, na denúncia dos atropelos de toda a ordem que foram e continuam a ser cometidos na cidade que um dia foi escolhida para Régio aí dar aulas… e por ali ficar, apaixonado. Mas a paixão do poeta, provavelmente, ficaria hoje reduzida à componente paisagística sobrevivente…

Portalegre desperdiçou o seu “mar” -a Serra-, abandonando-a, nela deixando perder estruturas como a Quinta da Saúde e eventos como a tradicional Festa dos Aventais, até a ermida de São Mamede. Sendo a Serra magnífico cenário e pretexto para modernas e frequentadas provas desportivas e de lazer, a caminhada, a corrida, a orientação, o paint-ball, o BTT, o “safari” fotográfico, etc., alguém pensa nisso a sério?

Abandalharam-se-lhe ruas e jardins a pretexto de uma requalificação ambiental e paisagística intitulada Polis, à sombra da qual foi vandalizado património como o memorial José Duro ou as torres do castelo, particularmente a de menagem. Beneficiaram-se estruturas que nunca foram minimamente aproveitadas, como a barbacã desse mesmo castelo, e reduziram-se gravemente os conteúdos museológicos ou os seus anexos, como no Municipal (onde se “extraviou” a colecção antoniana), na Casa Museu José Régio (onde se “desactivou” o Centro de Estudos), no da Tapeçaria (onde se “permitiu” a retirada das peças fundamentais). Este último caso seria motivo para um escândalo público em qualquer sítio onde os impulsos civilizacionais mobilizassem a população, mas em Portalegre não acontece nada disso… Conformismo ou incultura, cumplicidade ou distracção?

Portalegre não dispõe de um parque hoteleiro condigno, embora esteja a rank ptgcaminho da minimização desta carência e também não possui um calendário de eventos compatível como as suas tradições. Tem o Jazz, a doçaria, e acaba de ver desqualificada uma das suas raras atracções anuais, a Baja. E no entanto já teve festivais de cinema, audiovisuais, multimédia, gastronomia…

Possui um interessante património construído, em solares, igrejas, conventos ou miradouros, até em moderna e qualificada arquitectura. Mas isto é minimamente aproveitado?

Alimentou-se ali o magnífico projecto de um museu de arqueologia industrial. Mas alguma vez este será instalado e disponibilizado?

Foram caindo no esquecimento quase todas as antigas tradições locais, do Carnaval aos festejos dos Santos Populares, das romarias religiosas às cíclicas e calendarizadas feiras anuais, dos ancestrais costumes comunitários (o “chibo” na Serra, a quinta-feira da Ascensão) à leitura pública ou aos concertos musicais nos jardins…

Portalegre viu desaparecer, praticamente sem um lamento, a sua revista mais qualificada, A Cidade, embaixadora cultural da comunidade, expressão da sua digna presença, urbi et orbi… Se não fosse a louvável iniciativa que corporiza Plátano, teríamos voltado ao grau zero da afirmação comunicacional lagóia.

Fico por aqui, porque seria interminável o rol daquilo que Portalegre foi perdendo no plano comunitário cultural, daquilo que foi sendo desbaratado em passado recente, daquilo que continua a desperdiçar-se ou a abandalhar-se, numa previsível banalidade que infelizmente o futuro parece confirmar, nos presentes sinais do progressivo esvaziamento de realizações, de projectos, de entusiasmos, de iniciativas, de ideias… O sufoco da dívida afigura-se implacável.

Se os Negócios em Portalegre estão pela hora da morte, se o Viver ali nada garante de seguro, então o Visitar da cidade aproxima-se, por este andar, do vazio absoluto.

Fechada em si mesma, Portalegre nem sequer se atreve a olhar para o lado e, serankings não é capaz de inventar, então que saiba copiar dos vizinhos o que é bom e útil. Quem não tem cão caça com gato, se não houver espingardas à mão, uma fisga serve.

Não acontecendo uma inversão desta marcha para o abismo, os índices de um próximo Portugal City Brand Ranking arriscam-se a revelar -ou confirmar!?- um irremediável afastamento de Portalegre dos lugares cimeiros das classificações municipais, mesmo reduzidas à dimensão regional…

Os rankings valem o que valem. Mesmo a la minuta, mesmo a preto e branco, mesmo algo desfocados, não deixam de ser retratos de uma realidade.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

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