Tintin no Irão – 11

NOVO CABEÇALHO

O álbum iraniano O Lótus Azul é uma fraude. Gigantesca e insignificante. Passo a “explicar” o aparente paradoxo contido na afirmação.
Já aqui dediquei a esta interessante obra, há meses, um dossier tão completo quanto me foi possível. Em 21 capítulos, entre Junho e Agosto do passado ano, procurei analisar a obra, tendo como base uma versão chinesa do álbum.
Aí deixei ampla e documentalmente provado um facto marcante na obra de Hergé: o seu cuidado na pesquisa, rigor e respeito pelas fontes, de forma a obter relatos credíveis e dotados de verosimilhança, num equilíbrio narrativo que nunca antes cuidara. A estreita colaboração do artista chinês Tchang Tching-Yen, com quem na época o autor fez amizade, permitiu-lhe absorver e traduzir o espírito da época e dos sítios focados na aventura de Tintin passada na longínqua e misteriosa China. Um dos resultados práticos desta cooperação foi o facto de todas as inscrições em linguagem mandarim que surgem nas vinhetas -e são largas dezenas!- respeitarem rigorosamente uma grafia original correcta. Aliás tive ocasião de, com o precioso serviço de “tradução simultânea” prestado por um jovem e culto cidadão chinês, descodificar os significados, por vezes muito pertinentes, outras meramente simbólicos, de inscrições, letreiros, cartazes, manuscritos, tabuletas, impressos e textos avulsos espalhados pelas páginas do álbum.

11 - 01

A escrita chinesa é imensamente complexa. Utiliza caracteres denominados sinogramas, que correspondem a morfemas, alguns imitando imagens estilizadas dos objectos representados, outros ideias abstractas, alguns com base fonética mas também histórica, tradicional, enfim, num imenso conjunto de sinais difícil de calcular em quantidade, estimada por alguns especialistas em mais de 85.000. Para “simplificar”, garantem certos estudiosos do tema que o conhecimento de mil caracteres permite ao leitor compreender a maior parte das notícias de um jornal…

11 - 02

Torna-se fácil aceitar que este exercício de literacia exige rigor na apresentação visual da escrita. Então que dizer se, num álbum inteiro (só notei a excepção de duas vinhetas, que a seu tempo referirei) todas as páginas foram sujeitas a uma translação horizontal que desvirtuou a escrita mandarim e mais informação aí presentes?
Por outras palavras, todas as inscrições laboriosamente inscritas por Hergé em O Lótus Azul foram espelhadas, tornando os sinogramas perfeitamente ilegíveis. Esta é a gigantesca fraude.
No entanto, para qualquer leitor iraniano, desconhecedor da escrita mandarim, isto é perfeitamente irrelevante. O que lhe interessa é ler as legendas, os balões, as onomatopeias, porque o resto é cenário… Para um leitor português, inglês, francês, grego ou espanhol, o facto é igualmente irrelevante, perante o álbum iraniano. Ou conhece aquela aventura de Tintin e recapitula a narrativa por indução, perante as imagens (tendo o cuidado de “ler” de trás para diante!), ou ficará em branco. Mas, obviamente, isto não será por causa da truncada escrita chinesa… Portanto, neste caso, a fraude icónico-linguística será insignificante.

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Em qualquer dos casos, não podemos evitar um lamento, protestativo, perante este desrespeito pela integridade da obra de Hergé, natural consequência da forma arbitrária com que esta foi “importada”, à margem da legalidade autoral e de qualquer controlo editorial.

Após este prévio testemunho sobre o álbum, formalmente vandalizado, não fará sentido repetir quanto a este o minucioso trabalho de análise usado na apresentação de O Caranguejo das Pinças de Ouro.
Em resumo global, em O Lótus Azul revelam-se as falhas anteriormente apontadas, susceptíveis de “encaixe” em alguns conjuntos globais: o ambidextrismo praticado por Tintin e outras personagens; “distracções” como apagamentos, imagens ao contrário, notórias e grosseiras inversões; censuras com base ideológica ou fundamentalista; excepções a estas “regras”… e pouco mais.
Será com base nestes conjuntos que farei, de forma mais sintética e económica, a apresentação crítica do álbum O Lótus Azul, na sua versão iraniana.

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

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