Crónica desportiva q.b.

A 30 de Março de 2013, deixei aqui uma primeira referência à obra da qual hoje reproduzo dois excertos. Trata-se de A história maravilhosa do País bimbo, da autoria de Pedro Barroso, cantautor encartado.
Hoje, data decisiva para a crónica dos bravos que, por terras de Vera Cruz, logo paulo-bento lutarão contra os peles-vermelhas americanos em disputa pela sobrevivência, lembrei-me de os homenagear e, com eles, a todos que estarão ao seu lado nessa épica jornada. A Nação inteira (ou quase) contará com eles, esquecida já da inglória jornada contra os hunos. Em sua lembrança e incentivo, ainda que distante, evoco as palavras, antigas já de uma década mas sempre actuais, que Pedro Barroso dedicou à fenomenologia desportiva nacional. Dos capítulos De externa ostentativa tendentia e De jornalística reportativa importantia retirei, em honra de D. Paulo Bento y sus muchachos, os breves excertos seguintes.

De externa ostentativa tendentia

O mesmo critério nacional de ardilosas minúcias e pesados encargos se aplica neste País aos automóveis. Assim, após vários e sucessivos impostos somados ao seu preço de venda, os cidadãos têm, enfim, direito a carros caríssimos e à mais cara gasolina do Mundo. Aparentemente, por motivos pedagógicos de grande nobreza, forçando ao muito saudável exercício da marcha.
capaÉ também vulgar que, sendo os carros sempre estrangeiros, o preço das peças de substituição ou extras de ornamento encomendados custe cerca de dez vezes mais que o seu preço/fábrica, sempre que o serviço pós-venda não as considere abrangidas pela garantia. O que parece normal para santinhas no tablier, almofadas de crochet, volantes em madeira e cães de peluche no vidro traseiro.
Mas constatámos também que, com aparente indiferença à crise, os cidadãos se fazem acompanhar de caras e potentes aparelhagens áudio, próprias para bimbos, cujas integram nos seus artilhados carros, para mais patente potenciamento prostático dos seus motores.
E, pressupostamente, para maior admiração pelas suas bimbas pessoas.
Aliás, a preocupação deste preclaro e avançado País é sempre, a auto-estima e o bem-estar do seu cidadão.
Para alimentar esse projecto de Saúde pública gastaram-se grandes somas, por exemplo, em duplicação de Estádios, coisa aparentemente incompreensível, ordenada pela Grande Confederação a um obediente governus sportivus eruditus.
Porém, se atentarmos ao facto de que em todos os grandes Clubes existem sempre as equipas A e B, além dos juniores, juvenis, infantis, chinquilho e tiro ao arco, é evidente que cada clube, só por si, justificaria a construção de, pelo menos, sete espaços semelhantes.
Mas isso seria compreensivelmente mais difícil. A simples duplicação foi já, visivelmente, um enorme esforço nacional.
Foi de início intrigante para nós, vindos de outra noção e lógica do pensamento da sociedade, compreender como era possível passar tamanhas privações orçamentais para se gastarem milhões na construção de Estádios novos, a princípio ainda ao lado de outros em perfeito funcionamento.
Aí começámos a aperceber-nos do gigantesco jogo de conveniências em causa. É do domínio público o enorme interesse nacional neste espectáculo. A protecção de um jogo de prioridade cívica absoluta contribui para a estabilidade nacional e o bem-estar colectivo e, por isso mesmo, é fulcral na popularidade das governações.
Nenhum governante em seu perfeito juízo poderia negar o que quer que fosse ao mundo do tal Futebol, sob pena de enorme penalização nas urnas em qualquer futuro acto eleitoral.
Daí o compromisso nacional nessa diligente renovação desportiva que incluiu Estádios tapando castelos e outras curiosidades urbanísticas de grande arrojo e modernidade.
No entreacto, de resto, fortes derrapagens em tempos de execução e orçamentos significariam grossas maquias de indemnizações, sempre fluidas e pouco divulgadas, de grande proveito a todas as partes financeiras envolvidas.
Mas o prestígio do Estado, apesar das dificuldades, tinha sempre que estar acima de quaisquer pormenores sem qualquer importância. Sobretudo quando comparados com uma desejável imagem mundial de País próspero, moderno, activo, empreendedor, pacífico, desportista, arejado. Ora precisamente.
A Nação tem o seu amor-próprio, como é evidente e justo. E o Mundo, logicamente atento, aprende com esta preclara e organizada Pátria anfitriã.
Conforme viemos a saber, um qualquer colectivo compromisso governamental em realizar os Campeonatos Europeus de Matraquilho, ou modalidade semelhante, cujo nome nos passou por distracção, mandou destruir todas as velhas tabernas. Os obsoletos tabuleiros foram também substituídos por mesas em aço inox, com bolas aquecidas e equipamentos de famosos clubes europeus, tudo em unidades de restauração renovadas, onde se proibiu também, como é óbvio, o peixe frito, o vinho tinto e outras porcarias, passando a servir-se petit fours, caviar e salmão fumado acompanhado a flutes de champagne. Só após grande insistência de um deputado mais regionalista foi autorizada música ambiente pelo grupo de Santa Marta do Tornozelo, embora em apropriada versão discossound, para uma muito discreta pincelada de cultura local. De tão airosa e feliz síntese sairia um esmagador sucesso nacional: – “Azar na relva”.

De jornalística reportativa importantia

(…) A Imprensa desportiva, essa aborda, exultante, os mais disparatados e íntimos detalhes da tal coisa do Futebol. A vida dos jogadores, as suas pubalgias recidivas, a execução do passe para o golo com o pé esquerdo ao canto oposto, o estado do relvado. O tempo. As claques. Tudo é nota de exaustiva reportagem.
E como é apaixonado e nervoso o relato pela rádio das épicas hostilidades desportivas, vindo lá de longe e ouvido com paixão, como pertence, na tasca do Efigénio, entre arrotos e uivos colectivos e uma montanha de cervejas na mesa!…
Na televisão, são noites de rigor e orçamento livre. Vinte câmaras, cinco comentadores e quatro repórteres. Vox populi abundante. Todo o rigor na cobertura do jogo. Estranhamente, tal cuidado não implica, no entanto, a visão de todos os ângulos da jogada duvidosa que deu penalty. Se não convém discuti-la é vista de relance mas será passada vinte vezes, se o programa assim o entender. Tendências desculpáveis, integrando o Sistema. Tal como a expulsão; a bola que não chegou a entrar; o fora de jogo mal assinalado. A cotovelada clandestina. Seria mesmo?
De todo a subsequente discussão sobre tão importantes matérias releva uma conclusão maior: – a de que a injustiça futebolística é uma excelente indústria de papel, paixão, insulto e audiências. E uma enorme canalização de ódios e energias.
Uma catarse colectiva de extrema inteligência e eficácia para manutenção da contracapaordem pública. Já o víramos no capítulo dedicado à ostensiva opulência.
Por isso, todos os árbitros corruptos, todos os comentários e críticas de favor, todas as postergâncias de treinadores e dirigentes, todos os excitados e trapalhões relatores de Futebol são, afinal, vitalmente úteis ao bem-estar da Nação, como condutores de manobra escapatória a conflito alargado noutros horizontes.
Daí a nossa compreensão tardia da importância política de tal actividade, que sempre julgáramos desprovida de qualquer sentido e este estudo tanto aclarou.
Como já vimos, a máquina governativa, com arguta visão, tudo tolera ao Futebol, incluindo o estacionamento em cima da relva, a dívida, o insulto e todas as contra-ordenações graves do Código Fiscal e da Estrada.
A Comunicação auxilia, endeusando o bimbo-clubismo e seus pares. E todos ganham, afinal, pois a revolta social converte-se numa mera luta de cachecóis.
Mas juntemos a isto os jornais de denúncia de bruxarias e episódios satânicos; os descobridores de insólitas anomalias do reino vegetal; os paparazzi profissionais que nos ilustram o beijo clandestino da princesa da Manchúria no groom do elevador; os observadores independentes que representam, afinal, uma corrente de opinião; os analistas da Bolsa que nos explicam como a queda pode trazer lucros e a subida prejuízos; as langorosas apresentadoras de “Nutícias”; os artigos de fundo sobre a vida sexual dos ídolos pop; os lúgubres fazedores da Necrologia; os aéreos especialistas em Meteorologia; os furões especialistas em burlas e gestões danosas; os músicos que nunca o foram e passam a críticos.

Pedro Barroso
in A história maravilhosa do País bimbo
Edição CALIDUM
(escrito em Riachos, Novembro de 2004)

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