Crato por Crato

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CRATO FECHA PORTA A CRATO

Creio chegada a hora de criar e colocar nas estradas um novo sinal informativo de trânsito: localidade livre de escolas. Terá um edifício do Plano dos Centenários ao centro, a negro, e um grande xis vermelho por cima. Assim, os automobilistas poderão aí guiar dispensados da concentração exigida a quem pode esperar na próxima curva uma bola a rolar com meia dúzia de gaiatos em sua descuidada perseguição.
Eis um belo argumento em favor da campanha de desertificação escolar e de desemprego diligentemente empreendida pelo matemático ministro. Desculpem, eu queria escrever: matematicamente empreendida pelo diligente ministro. Mas acho que dá na mesma…
É que Salazar, ao menos, preferiu reduzir os níveis de conhecimento; que se saiba nunca procurou cortar nas escolas propriamente ditas. Até defendia que toda a gente devia saber ler, escrever e contar, portanto investia mais na quantidade que na qualidade.
Crato, em contrapartida, acha que quanto menos escolas tanto melhor… e a qualidade também não tem melhorado, pelo contrário, como se sabe.
Portanto, entre ambos, que venha o diabo e escolha. Por mim, pode levar os dois e ficar com eles.

Agora viro-me para o mapa do Norte Alentejano, a meio caminho do deserto. Para além da sangria já aí cometida, desta feita anuncia-se mais uma dúzia de extinções, todas significativas, todas atentatórias dos legítimos direitos das gentes.
Quem quer morar numa terra que já esvaziaram de junta de freguesia, de posto médico, de estação de correios, de apeadeiro do comboio, de escola?
Qualquer dia, algum ministro encartado acabará com a mercearia, a associação recreativa, a tasca, o campo da bola, a igreja, o balneário público, talvez mesmo o cemitério…
Ou fechará a torneira da água, o interruptor da luz, o botão do gás, a corrente de ar…

A lista é dramática e cada nome aí escrito é como uma facada cravada na comunidade inteira, sangra como ferida rasgada no coração de cada pai, magoa como pancada desferida no destino de cada criança.
Cada nome não é um mero registo, é antes um golpe assestado bem fundo no coração do futuro: Esperança, em Arronches; Figueira e Barros, em Avis; Degolados, em Campo Maior; Póvoa e Meadas, em Castelo de Vide; Gáfete, em Crato; Vila Fernando, em Elvas; Vale de Gaviões, em Gavião; Alpalhão e Tolosa, em Nisa; Carreiras e Vale de Cavalos, em Portalegre; Santo Amaro, em Sousel.
Escapam à presente carnificina Alter do Chão, Fronteira, Marvão, Monforte e Ponte de Sor, onde concluo apenas restar o osso, sem carne já para cortar…

Como símbolo, confirmando os meus piores receios (já aqui expressos), pergunto-me como vai ficar a Esperança, onde a escola será -talvez- a última coisa a morrer…
Então as radiosas e recentes promessas, os flamantes estribilhos largamente cantados? Já aí acabou a exploração publicitária? Os promotores já encheram suficientemente os bolsos?

Reste-nos a consolação da democrática política praticada pelo matemático ministro: cego como a própria justiça, que corta a torto ou a direito como lhe dá na real gana, ele não hesitou agora em fechar a porta a si mesmo.

Que pena isto ser apenas uma metáfora!
Até quando, porra?

António Martinó de Azevedo Coutinho

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