Joaquim Namorado nasceu há cem anos

Em 14 de Outubro do passado ano, coloquei aqui um artigo intitulado Joaquim Namorado (1914-1986) – Um poeta de Alter do Chão. Tal texto fora motivado por uma petição enviada pelo meu amigo Manuel Isaac, alterense de alma e coração, director do semanário portalegrense Alto Alentejo. Há pouco, ele solicitou-me um texto alusivo ao centenário do nascimento de Joaquim Namorado, efeméride que hoje mesmo se cumpre.

Elaborei com gosto o artigo que foi publicado no jornal de Portalegre na sua edição da passada semana, pelo que aqui hoje o reproduzo, com a vénia devida ao Manuel Isaac, assim recordando e homenageando um homem notável que continua injustiçado.

Joaquim Namorado nasceu há cem anos

Em Outubro do passado ano, vão decorridos uns oito meses, chegou-me às mãos, jn 3por mediação do amigo Manuel Isaac, uma petição destinada a solicitar ao actual presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz a reposição de um prémio literário em tempos promovido por essa autarquia, em homenagem ao poeta Joaquim Namorado. Dei-lhe o devido seguimento e disso me fiz eco no blog Largo dos Correios.
Achei o caso curioso sob distintos prismas. Em primeiro lugar, porque o cabeçalho que encimava a petição caracterizava Joaquim Namorado como coimbrão, poeta, resistente e democrata, títulos que serviam na perfeição, excepto o primeiro, porque a personalidade em causa nasceu em Alter do Chão, facto ostensivamente olvidado…. ou confundido. Era como se fosse declarada a naturalidade portalegrense de José Régio, esquecendo Vila do Conde.
Depois, porque o responsável pela extinção do prémio foi o presidente da jn 4autarquia figueirense Santana Lopes, que até chegou a ser secretário de Estado da Cultura…. A seguir a este, a maioria socialista substituiu-o pelo prémio João Gaspar Simões, um ilustre figueirense. Resultado: recentes declarações públicas do actual vereador figueirense da Cultura anunciaram que não está nos planos do executivo a recuperação do prémio alusivo a Joaquim Namorado, até porque já tem outro em troca…
Portanto, a petição foi arquivada, ironicamente no preciso ano em que se comemora o centenário do nascimento do alterense, poeta, resistente e democrata Joaquim Namorado.

Joaquim Vitorino Namorado Nascimento nasceu em Alter do Chão, distrito de Portalegre, no dia 30 de Junho de 1914, tendo falecido em Coimbra, a 29 de Dezembro de 1986, aos 72 anos de idade.
Após a licenciatura em Ciências Matemáticas na Universidade de Coimbra, jn 2dedicou-se à docência, sendo-lhe vedada uma carreira no ensino oficial, dada a sua oposição ao regime do Estado Novo, como activo militante do Partido Comunista Português desde 1930, quando tinha apenas 16 anos de idade. Vivendo como professor do ensino particular, só depois do 25 de Abril lhe foi permitido ingressar no quadro docente da secção de Matemática na Universidade de Coimbra, Faculdade de Ciências e Tecnologia.
Apaixonado pela Figueira da Foz, Joaquim Namorado aí residiu numa modesta casa, sita na vertente Sul da Serra da Boa Viagem, durante bastante tempo, sobretudo em fins-de-semana e nas férias.
Como literato, iniciador e teórico do movimento neo-realista, colaborou em diversas revistas como Cadernos da Juventude, Atitude, Seara Nova e Vértice (que chegou a dirigir), assim como nos jornais O Diabo e Sol Nascente.
Colaborou também na revista coimbrã Presença, de Régio e outros, com quem jn 5conviveu.
As suas obras poéticas são Aviso à Navegação (1941), Incomodidade (1945) e A Poesia Necessária (1966), tendo também publicado a biografia Federico Garcia Lorca (1943) e o ensaio Uma Poética da Cultura (obra póstuma, 1994).
Na colectânea Novo Cancioneiro (Caminho, 1989), seria postumamente evocada a sua primeira obra poética, Aviso à Navegação.
Ainda chegou a desempenhar, eleito nas listas da APU, o cargo de membro da Assembleia Municipal da Figueira da Foz. Participou activamente na fundação do jornal local Barca Nova que, em Janeiro de 1983, esteve na origem de uma justa homenagem ao cidadão coerente, sempre na primeira linha da defesa dos direitos humanos e também dos interesses da Figueira da Foz. Foi nesta oportunidade que a autarquia figueirense instituiu o Prémio do Conto Joaquim Namorado. A quando da posterior gestão de Santana Lopes, que se auto-proclama democrata e homem de cultura, esse prémio literário foi suspenso… Este é, portanto, um triste e ingrato episódio.

Em Alter do Chão existe uma Praça a que foi atribuída a designação de Joaquim jn 1Vitorino Namorado. Duvido de que as toponímias figueirense e conimbricense incluam o nome do poeta… Ao contrário dos responsáveis figueirenses, os CTT não desprezaram Joaquim Namorado e dedicaram-lhe agora um selo integrado numa nova série da sua colecção Vultos da História e da Cultura.
Recorda-se que o poeta da Incomodidade cumpre o preciso centenário do seu nascimento em 30 de Junho, daqui a dias.
Alter do Chão, que há uma dúzia de anos “descobriu” com algum espanto a figura de João de Azevedo Coutinho, tem agora uma nova oportunidade de saudar, como merece, a personalidade de um outro seu ilustre filho, Joaquim Namorado.
Acredito que o queira e saiba fazer, com a dignidade que o poeta justifica.
E, já agora, que Santana Lopes seja disso informado…

António Martinó de Azevedo Coutinho

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s