As negociatas do acordo ortográfico

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No Semanário Político Independente O Diabo, edição de 24 de Junho, foi publicado um interessante artigo, não assinado, sobre o momentoso caso do acordo ortográfico. A implacável e documentada denúncia que ali é feita aborda esta vergonhosa encenação, falsamente científica, de um ponto de vista material, que prova (até um improvável desmentido) como este processo de imposição tem enchido os bolsos de alguns oportunistas.

Pelo seu interesse, e com a devida vénia ao semanário, aqui se reproduz a capa e as páginas centrais, que contém tão interessante como oportuna matéria jornalística.

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Agenda do dia – 179

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DIA 179 – 28 de Junho de 1914

O arquiduque da Áustria, Francisco Fernando, foi assassinado em Serajevo neste dia, juntamente com a esposa. Este crime, perpetrado pelo nacionalista sérvio Gavrilo Princip, levou o Império Austro-Húngaro a atacar a Sérvia.
E foi assim que se desencadeou a Primeira Guerra Mundial, que se arrastaria por longos anos e produziria terríveis mortandades e destruições um pouco por toda a Europa, com alguns reflexos na África colonial.
Portugal, como se sabe, acabaria por se envolver no conflito.

800 anos da Língua Portuguesa

8 séculos

A língua que falamos não é apenas comunicação ou forma de fazer um negócio. Também é. Mas é muito mais.

É uma forma de sentir e de lembrar; um registo, arca de muitas memórias; um modo de pensar, uma maneira de ser – e de dizer. É espaço de cultura, mar de muitas culturas, um traço de união, uma ligação. É passado e é futuro; é história. É poesia e discurso, sussurro e murmúrios, segredos, gritaria, declamação, conversa, bate-papo, discussão e debate, palestra, comércio, conto e romance, imagem, filosofia, ensaio, ciência, oração, música e canção, até silêncio. É um abraço. É raiz e é caminho. É horizonte, passado e destino.

Na era da globalização, falar português, uma das grandes línguas globais do planeta, que partilha e põe em comum culturas da Europa, das Américas, de África e da Ásia e Oceânia, com centenas de milhões de falantes em todos os continentes, é um imenso património e um poderoso veículo de união e progresso.

Em 27 de Junho de 2014, passam oitocentos anos sobre o mais antigo documento oficial conhecido em língua portuguesa, a nível de Estado – o mais antigo documento régio na nossa língua, o testamento do terceiro rei de Portugal, Dom Afonso II.

8 testamento

Neste dia, queremos festejar esses oito séculos da nossa língua, a língua do mar, a língua da gente, uma grande língua da globalização. Fazemo-lo centrados nesse dia e ao longo de um ano, para festejar com o mundo inteiro esta nossa língua: a terceira língua do Ocidente, uma língua em crescimento em todos os continentes, uma das mais faladas do mundo, a língua mais usada no Hemisfério Sul. Celebramos o futuro.

Em qualquer lugar onde se fala Português, 27 de Junho de 2014

ABEL BAPTISTA, presidente da Comissão de Educação, Ciência e Cultura da Assembleia da República (Portugal)
AFONSO CAMÕES, jornalista, presidente da Agência LUSA
ALBERTO DA PONTE, gestor, presidente da RTP – Rádio e Televisão de Portugal
ANA FAZENDEIRO, advogada, Propriedade Intelectual e Tecnologias de Informação
ANA PAULA LABORINHO, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua
ANTÓNIO FILIPE, vice-presidente da Assembleia da República de deputado do PCP
ANTÓNIO LOBO ANTUNES, escritor
ANTÓNIO-PEDRO VASCONCELOS, cineasta
CARLOS FARACO, professor titular de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Paraná
CONCEIÇÃO PEREIRA, deputada à Assembleia da República (Portugal)
FERNANDO PINTO DO AMARAL, poeta, crítico literário e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, comissário do Plano Nacional de Leitura
FRANCISCO JOSÉ VIEGAS, escritor, ex-secretário de Estado da Cultura (Portugal)
HÉLDER LUCAS, embaixador, chefe da Missão de Angola junto da CPLP
INÊS DE MEDEIROS, actriz, deputada à Assembleia da República (Portugal)
ISABEL PIRES DE LIMA, professora catedrática de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, ex-ministra da Cultura (Portugal)
JACINTO LUCAS PIRES, escritor
JOÃO ALVIM, editor, presidente da APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros
JOÃO DAVID NUNES, radialista e gestor, director do Centro Nacional de Cultura
JOÃO PINTO DE SOUSA, editor
JOÃO VEIGA GOMES, advogado, Presidente da APILOP – Associação para a defesa da Propriedade Intelectual nos Países de Língua Oficial Portuguesa
JORGE BARRETO XAVIER, secretário de Estado da Cultura (Portugal)
JORGE CARLOS FONSECA, Presidente da República de Cabo Verde
JORGE RANGEL, presidente do Instituto Internacional de Macau
JORGE VAZ DE CARVALHO, poeta, ensaísta e tradutor, cantor lírico, professor e Coordenador Científico de Estudos Artísticos da Universidade Católica Portuguesa
JOSÉ AUGUSTO BERNARDES, professor catedrático de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras de Coimbra e director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra
JOSÉ CARLOS VASCONCELOS, jornalista, director do “Jornal de Letras”
JOSÉ EDUARDO AGUALUSA, escritor
JOSÉ MÁRIO COSTA, jornalista, criador do Ciberdúvidas
JOSÉ RIBEIRO E CASTRO, advogado e deputado, ex-presidente das Comissões de Educação, Ciência e Cultura e de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas da Assembleia da República (Portugal)
MARGARITA CORREIA, professora de Linguística na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vice-presidente do ILTEC
MARIA BARRADAS, responsável do serviço de Língua Portuguesa da Euronews
MARIA BOCHICCHIO, filóloga, doutorada em Literatura Portuguesa, professora na Universidade de Coimbra
MARIA CRISTINA PACHECO, mestre em Literatura, ex-docente de Literaturas Africanas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, doutoranda em Estudos Africanos, bolseira da FCT
MARIA HELENA MIRA MATEUS, professora (jubilada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, presidente do ILTEC
MÁRIO VILALVA, diplomata, embaixador do Brasil em Portugal
MIGUEL HONRADO, gestor cultural, presidente da EGEAC – Empresa de Gestão de Equipamentos e Acção Cultural do município de Lisboa
MURADE MURARGY, embaixador (Moçambique), Secretário-Executivo da CPLP
PEPETELA, escritor
ROBERTO MORENO, investigador e professor (Brasil), fundador e presidente da Fundação Geolíngua (Guiné-Bissau)
RUI REININHO, músico, vocalista dos GNR
SARA RODI, escritora

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Poemas de Anthero Monteiro – XV

anthero cabeçalho

am

                          poema do homem sentado

conheci um homem que esperava sempre sentado
nunca se soube o quê no vão de uma porta
ou no degrau de uma escada
é possível que fizesse outras coisas mas raramente
conseguia ser visto de pé

o que fazia aquele homem sempre alapado
como um soba para além de dar utilidade ao traseiro
depois do árduo trabalho de deslocar o ponto de gravidade
para ir ocupar o assento e de oferecer também
serventia ao lugar de acolhimento
que não saberia fazer mais nada de interessante?

que mais fazia aquele homem para além de me colocar
pontos de interrogação nos meandros do cérebro?

puxava de um cigarro e acendê-lo era mais trabalhoso
do que aos calceteiros pavimentar toda a rua
recostava-se para trás contra o degrau
imediatamente superior e arrancava por fim
umas fumaças de dentro do peito
como se quisesse provar que todo o seu âmago
era apenas povoado de neblina

esperava que o paivante se extinguisse
como parecia fazer à própria vida
sem qualquer pressa para apressar ou delongar a morte
sem a mínima emoção existencial
aparentemente sem interrogações
sobre a sua sina de mortal e sem qualquer preocupação
acerca do que lhe faltava ainda cumprir
antes da inapelável descida para outro degrau

às vezes dava-se o fenómeno extraordinário
de se levantar e atravessar a rua
sem se apressar sequer com o trânsito
e ir ocupar o assento da paragem do autocarro

ali ficava como se estivesse à espera dele
e dos sucessivos autocarros de cada meia-hora
sem embarcar em nenhum
punha-se apenas a vê-los chegar e retomar a marcha
como se tivesse por destino apenas ficar
enquanto todos os outros só queriam partir

mas também ele partiu certamente
pois há muito vejo o degrau e o assento vazios
não sei se caiu alguma vez de algum desses poisos
se foi esmagado a atravessar a rua
ou atingido por um raio ou um meteorito

penso que finalmente deve ter tomado
o único autocarro que lhe servia de destino
que ele sabia que só passaria uma vez
e que não podia perder de modo nenhum

Anthero Monteiro
in Praça da Poesia, 29 de Maio de 2013

 

Agenda do dia – 178

178

DIA 178 – 27 de Junho de 1905

O histórico motim a bordo do couraçado russo Potemkine, no porto de Odessa, começou neste dia. O afamado realizador Sergei Eisenstein legou-nos sobre o dramático acontecimento um filme hoje antológico.
A insurreição dos marinheiros e a brutal repressão por eles sofrida foram aí interpretadas como precursoras da Revolução de Outubro de 1917.

PAZ ÀS SUAS ALMAS e, já agora, aos seus corpos

ligado à máquina

 

“É pressão de mais prós meninos”
[ou “Ligados à máquina”]

 

No passado dia 20, o jornalista Pedro Bidarra, do qual já aqui reproduzimos outros pedro_bidarra.gifnotáveis e intervenientes textos, publicou no suplemento Dinheiro Vivo, do Diário de Notícias, aquela que acho a mais incisiva e esclarecedora explicação técnica sobre o (mau) comportamento da selecção nacional do pontapé-na-bola.
No dia em que esta vai defrontar os cafres, após os lamentáveis recontros com os hunos e os peles vermelhas, aqui fica -em homenagem póstuma- o texto de Pedro Bidarra e alguns ligeiros apontamentos complementares.

*

Em 2004, Nuno Jerónimo, à época o “jovem Ronaldo” dos copywriters portugueses – para quem não sabe um copywriter, literalmente um escritor de texto, é uma espécie de ponta-de-lança da publicidade -, escreveu o Menos Ais para a Galp, patrocinador da selecção de futebol. Era, como se lembrarão, uma canção/hino onde se exigia, enérgica e alegremente, à selecção portuguesa que ganhasse o campeonato da Europa que Portugal então organizava; a canção, que foi cantada por toda a gente e passou em todo o lado, converteu-se em hino “não oficial” de Portugal.
Ouvia-se então:

Será de mais pedir a taça?
Nada que um adepto com orgulho não faça.
Bonito, bonito é dar o litro
Não pôr as culpas no gajo do apito.
Vá lá gritar 90 minutos, 120, o que for
do princípio ao fim, por favor.
Vamos lá people, afinem essa voz.
No fim só ganha um e temos que ser nós.”

Depois vinha o refrão onde se pedia para correr mais, marcar mais e, sobretudo, menos ais.
Nesse ano, a pressão sobre a selecção, porque jogava em casa, porque toda a gente gritava na rua, porque tínhamos o Figo, o Rui Costa, o Deco e o Pauleta (e o jovem Cristiano Ronaldo), porque se cantava Menos Ais, foi enorme. Foi gigante. E chegámos à final. Faltou a taça.
Eu sou daqueles que, de acordo com o Jorge Jesus, não devia estar a comentar futebol. Mas há um assunto de que percebo e que não é estranho ao futebol: a gestão de talento.
Em publicidade, e em geral nas disciplinas das artes da comunicação, quem faz o jogo e marca os golos são os chamados “criativos”, gente paga para ter ideias, para ser original, para fazer o que ainda não foi feito, o inesperado, o bonito, o engraçado, o estonteante, o belo. Para o fazer há poucas regras escritas e por isso é preciso muito talento. E talento, como o do Ronaldo ou o do Nuno Jerónimo, é uma coisa mágica que uns têm muitíssimo, outros alguma coisa e outros, mesmo querendo muito, têm pouco. Ainda assim são precisos todos os que tenham algum.
Mas não basta. Para que uma equipa de jogadores de futebol ou de criativos publicitários produza bons resultados consistentemente, é preciso mais que talento. É precisa uma organização que, pelos seus modos e pela sua cultura, exerça uma pressão constante para que o talento produza constantemente. Sem pressão, os músculos e as cabeças relaxam e trabalham menos; a displicência instala-se e os talentosos deixam de autoelevar a fasquia e passam a viver da fama e do estatuto que adquiriram. Para ir mais longe, para fazer melhor, para que o talento se manifeste, para banir a displicência é preciso pressão.
Na selecção, durante os períodos de preparação, vejo o contrário. Vejo zero pressão. Vejo uma bajulação mediática que acentua o estatuto das estrelas, que pensarão: “Já aqui chegámos, somos os maiores, não temos nada a provar.” Nunca vi os jogadores chegarem ao estágio compenetrados, com sentido de urgência e de missão. Com pressão. Aquilo parecem férias.
Em 2006, aquando do campeonato do mundo na Alemanha, a Galp voltou a pedir uma campanha. A agência escreveu então uma nova versão do Menos Ais. Nessa nova versão, embora o espírito fosse o mesmo, não se pedia a taça. A razão foi simples. Na época, Scolari pediu aos patrocinadores que não exigissem a taça porque “é pressão demais pròs meninos“. E foi assim, aliviando a pressão sobre os meninos, que aliviámos também a ambição – que agora é só a de passar a fase de grupos.
Pode ser que os quatro da Alemanha aumentem a pressão e que os meninos se tornem homenzinhos.

Pedro Bidarra
Publicitário, psicossociólogo e autor
(Escreve de acordo com a antiga ortografia)
in Dinheiro Vivo, Diário de Notícias, 20/Junho/2014

*

O casmurro técnico que (des)orienta a turma lusitana tentou, no seu peculiar estilo, mentalizar os pupilos. E fê-lo usando a táctica da barba rija, apelando à sua condição guerreira de homens em armas. Provavelmente a fisga…

selecta

O resultado não foi brilhante. Os meninos não se tornaram homenzinhos, apesar dos títulos de caixa alta que encheram as páginas dos jornais e até das expressas declarações públicas…

homenzinhos

Sabemos, pelas fotos clandestinas que publicamos, terem sido os treinos pouco apropriados ao fim em vista…

treino

De facto, quem se lembraria de exigir ao Portugal dos Pequeninos, com mais ou menos ais, que fôssemos gente crescida no universo, senil, do pontapé-na-bola!?

adios iberia

E agora?
Resta a solução habitual: levantar cabeça!
Depois, marrar em tudo o que mexe, como Pepe demonstrou ao vivo e em directo.
E, numa próxima oportunidade, os nossos eleitos mostrarão, mais uma vez, que não aprenderam nada.

PS – Já agora, em jeito de conclusão, que o assunto não merece mais perdas de tempo e espaço, gostaria que ganhasse uma selecção africana (é muito difícil!) ou americana (excepto a Argentina ou o Brasil, por óbvias razões). Poderia assim soprar algum ar fresco numa atmosfera carregada de naftalina e podridão…
Cá por casa, ninguém espera qualquer tipo de comportamento digno da parte dos responsáveis: o de nos pedirem desculpa do mau uso do nosso dinheiro, e não foi pouco, por eles ingloriamente esbanjado nesta miserável campanha. Mais valia termos ficado por cá. A Suécia, seguramente, ter-se-ia portado com mais decência…

Poesia de João Barbosa – vinte e cinco

poesia cabeçalho

                             sem pedir licença

saem para caminhar com quem passa na rua.
às vezes voam com um melro ou dois, fecham-se em copas
de árvore, abrem-se na vastidão do vale, espraiam-se com o sol
às vezes chovem, às vezes choram. e tocam
em todo o lado: nas rugas dos velhos
no luto preto das velhas
na tinta desmaiada das paredes
no ladrar agitado dos cães
no fumo lenhoso das chaminés
no sumo da laranja que comes
e vão e voltam
e tocam em tudo sem pedir licença
e tocam em tudo quase sem ninguém dar por isso.
e vão e voltam
e voltam a tocar em tudo sem querer pedir licença

e vão e voltam,
os meus olhos.

 

João Barbosa
in memória da terra, Abril de 2008