Pombal em Portalegre

marques em portalegre

Como inovação da clássica e tradicional Feira das Cebolas lagóia, versão 2014, será organizada em Portalegre a simulação de uma visita do Marquês de Pombal à cidade.

Creio que dificilmente poderia ser programado melhor e mais oportuno evento, para animar uma feira que pertence de pleno direito aos mais antigos hábitos comunitários.

O Marquês está indissoluvelmente ligado a tempos de algum esplendor da urbe pela sua iniciativa de ali ter instalado a Real Fábrica de Lanifícios, em 1772, precisamente no grande edifício onde hoje está alojada a Câmara Municipal.

Tinha ali funcionado o antigo colégio dos Jesuítas, sob a invocação de S. Sebastião, fundado em 1605. Expulsos em 1759, deixaram estes no país um significativo conjunto de grandes edifícios, disponíveis para outras finalidades. No entanto, deve registar-se que, ao tempo, para uma população portalegrense educada, como era tradicional, nos fundamentos da religião cristã, não foi muito simpática a iniciativa do Marquês de Pombal. Substituir a função de locais considerados sacros por uma actividade profana, sobretudo ligada às artes mecânicas, quase terá parecido ao tempo, em Portalegre, uma espécie de profanação…

Mas a obra de instalação da Real Fábrica prosseguiu, porque o Marquês, como se sabe, não brincava em serviço. E houve mesmo a necessidade de prever e organizar uma regular e significativa obra de fornecimento de águas, necessárias em abundância e qualidade. Foi assim que surgiu o tanque de depósito e abastecimento, ainda hoje sito junto ao actual Mercado Municipal, sob o museu lúdico jurássico próximo, vulgo parque infantil D. Isabel Castro.

O restante historial da Real Fábrica de Lanifícios é conhecido, assim como a posterior evolução do seu edifício, até aos dias de hoje.

Ora adjectivei atrás a visita do Marquês como interessante e oportuna. Mas deve ser rodeada de certos cuidados. Por isso, aqui me permito deixar algumas sugestões a tal propósito.

Creio ser conveniente que a comissão organizadora, quando elaborar a lista dos convites e concretizar as inerentes diligências, providencie no sentido de que, na comitiva do Marquês, sejam integrados o arquitecto Eugénio dos Santos e o conselheiro militar alemão Conde de Lippe. Um e outro, habituados como estão a enfrentar calamidades e estados de guerra -bastando lembrar 1755-, poderão ser de grande utilidade na reabilitação citadina, ainda abalada pelo recente terramoto Polis e suas réplicas, em jardins, praças, ruas e edifícios, nomeadamente na recuperação da torre de menagem do castelo, ainda mal amparada por andaimes exteriores, na abandonada barbacã, no derrubado muro do Mosteiro da Conceição (se lhe chamarem S. Bernardo, a solene embaixada pode não saber identificá-lo com rigor) e em inúmeros prédios avulsos pela urbe espalhados.

Por outro lado, deverão providenciar (aqui fica o conselho) para que o rei D. João III não assista presencialmente aos festejos. No seu palanque, ele não apreciaria assistir à derrota de um dos seus projectos mais queridos. Tendo conseguido do papa Paulo III, em 1540, a admissão da Companhia de Jesus em Portugal, dificilmente ele poderia agora aceitar a absoluta derrota desses seus desígnios, precisamente pela férrea mão do Marquês de Pombal, que fez expulsar os jesuítas em 1759. Aliás, em 1773, ele insistiria e conseguiria do papa Clemente XIV a própria extinção -embora provisória- da Companhia.

Portanto, restam duas soluções possíveis:

– Uma, mais radical, substituindo a efígie do (pouco) piedoso monarca pela do agora convidado de honra, o Marquês de Pombal. Este acto, se assumido, deve ser conveniente e previamente explicado à Casa local do Benfica, a fim de que o leão anexado à novel estátua não seja interpretado como uma opção clubista oficial e definitiva.

– Outra, mais moderada, enfiando pela cabeça de D. João III um saco suficientemente opaco para impedir o monarca de assistir ao espectáculo envolvente, que lhe seria penoso, pelas razões atrás invocadas. Neste caso, deverá ser conveniente e previamente explicado ao rei que tal acto não corresponde a uma diligência policial do Tribunal do Santo Ofício, vulgo Inquisição, que ele próprio tão fanaticamente e com tantos custos conseguiu estabelecer em Portugal, em 1536, no preciso dia 23 de Maio desse ano, efeméride que mais tarde assinalaria a promoção de Portalegre a cidade. Também por interesses reais de lucro, acrescente-se…

marques em ptg

Resta-me desejar o maior êxito para a visita ministerial de Sebastião José de Carvalho e Melo a Portalegre, augurando que ela possa revestir-se do habitual brilho inerente a cerimónias deste tipo.

E que a sua vinda seja proveitosa à cidade.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

TRAPOS DE LUXO E DE LIXO

 

A presente bronca é apenas mais uma, entre as várias nos últimos tempos protagonizadas pela Zara, multinacional do pronto-a-vestir. Devemos recordar, sem esgotar a lista, a cruz suástica que a empresa fez estampar em sacos de senhora, em 2007, ou, mais recentemente, o motivo usado pelos palestinianos como imagem de luta nos seus lenços tradicionais -o kuffiyeh– que a Zara fez estampar em calções de uma sua nova colecção de moda.

zara confusões

Desculpou-se a multinacional espanhola, no primeiro caso, com o facto de aquele símbolo, com fortes conotações nazis, ser utilizado na Índia como emblema da sua cultura tradicional, significando boa sorte. Quanto ao motivo palestiniano, a justificação foi a de vulgares questões de coincidência na criação de padrões têxteis.

Agora, a Zara colocou à venda vestuário infantil, mais concretamente um modelo de pijama destinado a crianças dos três meses aos três anos, com um padrão de listas horizontais azuis e brancas e uma estrela amarela de xerife, com seis pontas, estampada como emblema decorativo. Este novo modelo, eventualmente fabricado na Turquia, foi apresentado no seu sítio da internet, assim como em lojas de vários países europeus, incluindo França, Suíça, Dinamarca, Albânia, Suécia e também em Israel.

zara opções

Ora a indignação brotou, de imediato e em pleno, sobretudo nas chamadas redes sociais, onde inúmeros protestos fizeram lembrar a incrível semelhança entre aquele pijama e o usado, como farda, pelos judeus prisioneiros e mártires nos campos de concentração nazis, em plena II Guerra Mundial. Logo um porta-voz da multinacional se apressou a esclarecer que o desenho original fora inspirado nas estrelas de xerife dos típicos filmes do Far-Oeste americano, muitas vezes douradas e com seis pontas, nada tendo a ver com as conotações a que estava sendo associado. Mas, à cautela, entendia a empresa a sensibilidade relacionada com tal questão, pelo que pedia desculpa aos clientes ofendidos. E -acrescentaria o porta-voz- a Zara não deseja que qualquer dos seus produtos ou projectos seja entendido como desrespeitoso ou ofensivo, pois, tendo relações comerciais com mais de 180 nacionalidades, culturas, origens e religiões, apenas pretende trabalhar em sintonia com todo o mundo moderno, segundo valores de respeito e dignidade, princípios desde sempre promovidos pela empresa.

Posteriormente, logo a seguir a esta desculpa em várias línguas, a Zara informou que o pijama já não se encontrava disponível nas suas lojas. Mais, a multinacional fez saber que todas as peças retiradas da circulação comercial seriam destruídas. Esta banal e lógica informação, também traduzida em hebreu, prestou-se no entanto a mais uma dispensável polémica, pois o termo aí usado foi “hashmada“, que tanto pode significar “será destruída” como “será exterminada“, lembrando equivocamente as práticas nazis no Holocausto.

zara mau gosto

São tantas “coincidências” -ou provocações(!?)- juntas que o caso dá para desconfiar…

zara dois clientes

Quando há uns meses aqui tratei o tema Shoah (Extermínio), deixei no seu final a sugestão de outros filmes ou séries sob o tema Holocausto. Entre estes incluí O Rapaz do Pijama às Riscas e quero agora recordar o que então escrevi a esse propósito:

“O último dos filmes que cito com algum destaque será provavelmente o menos conhecido desta curta lista. Com efeito, O Rapaz do Pijama às Riscas, de 2008, alude à amizade entre dois miúdos de oito anos que vivem separados por uma cerca electrificada: Bruno é filho de um oficial das temíveis SS e Shmuel um pequeno prisioneiro judeu no campo de concentração. São as conversas entre ambos que revelam a dura realidade que o primeiro não conseguia entender, pondo um inesperado e dramático final às suas ilusões…”

Ora este filme ganha agora uma outra ressonância e uma plena actualidade, trazidas pela mão da Zara. Por isso, e porque compreendo que não será fácil o acesso directo à obra, retirei do Youtube um seu trailer, legendado. Mas a recomendação é a de que se procure visionar a obra completa, com um aviso prévia para a dramática dureza do seu final.

zara o filme

Apenas quero exprimir uma última esperança, desejando que esta possa chegar aos criativos designers da Zara, precisamente a de que evitem lançar uma nova moda de pijamas para bebés decorados com símbolos da pirataria, umas caveiras e tíbias cruzadas, motivos a branco sobre tecido negro, com algum sangue, escarlate, a escorrer pelas órbitas vazias… Ou então umas modernas e juvenis t-shirts em louvor do Estado Islâmico, com imagens da decapitação de jornalistas ou da execução sumária de “traidores” à causa. Por exemplo.

É que, neste estado de coisas, com o modernaço “progressismo” revelado pela multinacional dos trapos de luxo, nunca se sabe…

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Agenda do dia – 243

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DIA 243 – 31 de Agosto de 1591

A denominada Batalha dos Açores é um episódio bélico pouco divulgado, também conhecido por Batalha das Flores, por ter acontecido ao largo da ilha com este nome. Tratou-se se um recontro naval inserido na Guerra Anglo-Espanhola (1585-1604).
A armada inglesa, com 22 navios comandados por sir Thomas Howard, foi surpreendida por uma frota espanhola de 63 embarcações dirigida por Alonso de Bazán. Howard, perante tal desproporção, ordenou que os seus navios retirassem rumo ao Norte. Para enfrentar o inimigo, ficou apenas o galeão Revenge, sob o comando de sir Richard Grenville. Este, na dura Batalha das Flores, foi obrigado a render-se, após heróica resistência.
Foram os vencidos tratados com honra e Grenville, gravemente ferido, acabou por falecer dois dias depois, a bordo do navio almirante de Bazán, o San Pablo.
A tragédia marítima não terminaria aqui, pois o Revenge, no regresso, acabou por afundar-se junto à ilha Terceira, com a tripulação espanhola e prisioneiros ingleses, perdendo-se 70 vidas.
Este episódio marcou o ressurgimento do poderio naval espanhol, após o desastre da Invencível Armada (em 1588), assim como um duro golpe para a marinha real inglesa, pois o Revenge era modelo da mais moderna tecnologia de construção náutica da época.

Portalegre em cordel

histórias alentejanas

Esta nova história alentejana precisou de uma preparação, ou espécie de prefácio. Por isso, para isso, deixei aqui a curta série sobre Literatura de Cordel.

Parece não fazer sentido? Passo a explicar. Esta história alentejana é, nada mais, nada menos, uma interpretação poética de Portalegre em literatura de cordel, em tudo correspondendo aos parâmetros dessa popular forma poética nordestina.0 new-2

PORTALEGRE DE PORTUGAL EM VERSOS, eis os propósitos “de um poeta popular, filho de Portalegre (Brasil – Rio Grande do Norte) homenageando seus irmãos de Portalegre (Portugal)“. O autor em questão assina-se por ABROB.

 

Conheço-o pessoalmente e encontrei-o por lá, em Portalegre RN e em Natal, onde habitualmente reside, três ou quatro vezes, a última das quais na cidade serrana do interior, a quando das comemorações dos seus 250 anos da fundação. Enquanto eu recebi com natural emoção e orgulho o título de cidadão honorário dessa cidade irmã, era ele distinguido entre os seus naturais mais qualificados, dos 250 escolhidos na criteriosa abrangência a todas as profissões e mesteres de relevância para a comunidade.borba

Chama-se Francisco Edivalson Borba, jornalista e professor universitário, poeta popular de cordel, sob o pseudónimo-anagrama Abrob, com imensa e inspirada obra publicada em folhetos tradicionais.

O mais curioso nesta criação é tê-la ele construído do quase nada, pois não conhece a Portalegre de Portugal, sendo a sua informação meramente livresca, enciclopédica, com todos os riscos bem patentes no poema, carregado de ingénua beleza e um ou outro pontapé de raspão no rigor, quer histórico quer geográfico. E isso que importa, se é a nobre intenção de amizade e homenagem que tudo sobreleva?

borba e prefeito

Tenho mais literatura de cordel sobre a Portalegre portuguesa, da autoria de outros poetas populares, que qualquer dia aqui trarei, como acontece, hoje, com mais esta história alentejana, algures escrita entre as margens do Rio Potenji e as encostas da Serra do Regente.    

Do outro lado deste mar que nos une.

 

borba e eu

Um abraço de amizade, caro professor Borba, perdão, estimado poeta Abrob, com saudade, do

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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Discurso anti-crise

 

Por incrível que pareça, a verdade é que este vídeo já está em circulação há mais de um ano e só agora começa a ser conhecido. Damos normalmente mais importância ao que é negativo. O “sebastianismo” nacional tem destas coisas.

superbandera2-portugal_hwÉ tempo de acreditarmos em nós e, de preferência, é tempo de conseguirmos encontrar quem seja capaz de nos dirigir em condições. Com a gente que os partidos nos têm sugerido é o que se vê. Imagine-se o que poderíamos ser, onde poderíamos chegar, com governantes à altura daquilo que somos e valemos.

Por isso, aqui fica um retrato mais positivo do que o habitual, nos antípodas dos “velhos do restelo” que costumamos adoptar como modelo para os discursos da crise.

Com a devida vénia, e decalcando o texto que acompanha o videograma retirado do Youtube, eis PORTUGAL, O LUGAR PARA CRESCER!

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Like Portugal – Portugal, o lugar para crescer!

LIKE PORTUGAL é uma plataforma de divulgação e partilha de informação positiva sobre Portugal.

Queremos partilhar o melhor do nosso País, das nossas empresas e das nossas pessoas. Somos pelo espírito positivo e por todos os que acreditam que Portugal é o melhor lugar para investir, para trabalhar e para viver.

Este é um espaço aberto a todos os que acreditam em Portugal!

(Não somos pelo negativismo, pela calúnia e pela difamação, pelo que conteúdos desta natureza não serão publicados).

Para mais informações por favor contacte: likeportugalpt@gmail.com

 

Agenda do dia – 242

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DIA 242 – 30 de Agosto de 1963

Ficou conhecida como o telefone vermelho (hotline, para os ingleses) a linha de comunicação directa estabelecida a 30 de Agosto de 1963 entre os Estados Unidos da América e a União Soviética.
A recente crise dos mísseis tinha colocado o mundo à beira de uma guerra global, pelo que esta linha teve como principal objectivo permitir uma comunicação apta a esclarecer e desdramatizar rapidamente possíveis situações de conflito entre o bloco de Leste e o Ocidente.
Em boa verdade, o denominado telefone vermelho era um simples linha de fax, cuja “colorida” adjectivação apenas simbolizava a sua urgência…

As temperaturas do duche

O DUCHE GELADO

Bem vistas as coisas, é quase tão contagioso como o ébola. Porém, mais inofensivo, pois tem um efeito apenas individual. Depois, ataca preferencialmente gente da alta, caras, nomes e figuras de primeira página. Trata-se, portanto, de uma questão de puro design, encarada pelo prisma da forma-função: um espectáculo que funciona como promoção pessoal em nome da caridadezinha.

Nem mais nem menos do que os antigos cortejos de oferendas nos tempos do Estado Novo, na ostensiva exibição pública das dádivas às Misericórdias: uma carrada de lenha oferecida pelo senhor Lucas da Herdade da Malveira no valor de cinco mil escudos, em cartaz bem visível, com letras garrafais. É claro que o senhor Lucas da Herdade da Malveira poderia oferecer discretamente os cinco mil escudos à Misericórdia, e até muito mais, no silêncio dos solidários anónimos de boa consciência.

O que seria do duche gelado sem a parafernália da comunicação social? Nada.

Não se pense que discordo dos objectivos, bem pelo contrário. Nem sequer se vislumbre qualquer crítica pessoal quanto à pública chamada de atenção para uma terrível doença, pois não é aqui que reside a minha objecção.

Concordo plenamente com a reflexão de José Manuel Pureza, deixada em Opinião, no Diário de Notícias do passado dia 22 de Agosto. Creio que é ali, na incorrecta individualização de uma luta legítima que devia ser de todos, a começar pelos mais altos responsáveis governativos, e não de uns eleitos entre a miserável e balofa “socialite” nacional, é precisamente ali que reside toda a questão.

Enquanto nos contentarmos com as aparências e não nos preocuparmos com as profundidades, continuaremos, como na caverna de Platão, a ver apenas sombras…

Aqui fica, com as devidas vénia ao jornal e admiração pelo autor, o oportuno e lúcido artigo deste, ilustrado com uma montagem e interpretação pessoais, inspiradas por um amigo, onde se mostra uma “antecipação” do duche gelado, da lavra desse génio que foi Hergé.

duche legendado

 O DUCHE GELADO

Actores, futebolistas, gente do jet set, apresentadores de televisão unem-se este verão no gesto de se submeter a um súbito duche gelado. Fazem questão de publicitar esse gesto bizarro na mais pública das praças – a internet – e fazem-no para “chamar a atenção” para a esclerose lateral amiotrófica e para tornar conhecido da sociedade o seu donativo a instituições empenhadas no combate à doença e convocar outros a fazer o mesmo.

As campanhas de solidariedade virtual, feitas de uma ética light, são uma marca deste tempo. Não têm, em princípio, nada de mal. Mas, sendo virtuais e simbólicas, não comprometem realmente os seus protagonistas senão com um fugaz apoio a sofredores quase sempre sem rosto, sem nome, sem proximidade que os torne interpeladores a sério da vida de quem com eles se diz solidário na internet. A carga de compromisso que elas geram é pouco mais densa do que a de um like num post de Facebook. Cada uma das figuras públicas envolvidas dirá – e ninguém terá a arrogância de as desmentir – que dá a cara por uma razão humanitária e que a atenção às vítimas, a quem sofre, é algo sem cor política, sem condição social e económica, sem crença religiosa, sem raça e sem sexo. E que é justamente por isso que dão a cara. pureza

A disponibilidade, seja de quem for, para ajudar a combater o sofrimento alheio não se discute. O que, sim, merece discussão é essa alegada superioridade das chamadas “causas humanitárias” relativamente a outras causas de mobilização social. A construção da alegada superioridade do humanitário sobre o político assenta na qualificação dessas causas como neutras, por contraste com problemas cujo diagnóstico e cujas soluções assumidamente o não são. O humanitarismo é consensual porque se declara politicamente neutro e porque, ao colocar o centro na condição de vítima, substitui a escolha política pela técnica terapêutica. Tudo neutro, tudo técnico, tudo só generoso sem mais implicações.

Essa neutralidade, assim construída, dá aliás imenso jeito: a escolha do campo da neutralidade em detrimento do campo das escolhas contrastadas e polémicas faz parte dos cânones da gestão da imagem de boa parte dos rostos destas campanhas. O que não cause mossa à popularidade unânime é dito como sendo nobre, o que obrigue a escolhas que dividem é tido como inconveniente e fica para “os políticos”.

Sejamos claros: uma sociedade que ignora o imenso sofrimento que a esclerose lateral amiotrófica provoca é uma sociedade alheada de realidades essenciais e aberta à crueldade. Mas uma sociedade que não se bate, com toda a energia e com toda a determinação, pela qualificação do seu serviço de saúde – em equipamentos, em pessoal especializado, em meios materiais – de modo a que todos, sem excepção, possam ter condições de base iguais para travar essa e outras doenças, é uma sociedade com vistas curtas, incapaz de uma estratégia eficaz e justa, em que a generosidade episódica de alguns será sempre uma gota de água que se esfuma na areia sem deixar rasto.

A generosidade é sempre bem-vinda. Mas enquanto ela for complacente com um sistema fiscal iníquo e com um desinvestimento na saúde como bem público, não haverá campanhas de figuras públicas que nos valham. A disponibilidade de actores, futebolistas, gente do jet set, apresentadores de televisão para, aceitando os riscos de desagradar a alguns dos seus fãs, ir além do gesto convenientemente humanitário e fazer campanha contra o verdadeiro duche gelado que é a realidade de um país injusto e onde cada vez há menos capacidades de todos poderem lutar de igual modo contra a doença soa a utopia. Porque será?

José Manuel Pureza
Opinião, in Diário de Notícias
22 de Agosto de 2014