René la Borderie e o ICAV – III

RENECABEÇALHO

Será que, antes de ter conhecido René la Borderie, eu me indignava perante qualquer tipo de manipulação? É óbvio que sim. Aliás, nesta mesma série de textos, já aludi às próprias operações de manipulação e de intimidação pessoais que sofri, no meu próprio estágio profissional então há pouco tempo acontecido. E esclareci a circunstância de lhes ter feito frente. E de ter vencido essa crise.

Se já tinha sentido a necessidade de viver fora de rebanhos e grupos? De forma que creio indiscutível, foi sempre essa uma das normas de vida que procurei seguir -e progressivamente- à medida que fui crescendo, em idade e em entendimento. Antes e depois de ter conhecido René la Borderie nunca alinhei em maiorias pelo simples facto de o serem. Ou de serem convenientes. Prefiro ser um franco-atirador. E suportar as inerentes consequências…

Se gostei sempre de viver comigo próprio, com os meus livros, desenhos e jornais, um pouco como o Régio que admiro? Não, aqui a negativa é radical. Não falo eu com paixão do Amicitia de há cinquenta e tal anos ou nos Pés Vagarosos de recentemente? Isso é convívio, é partilha, é camaradagem, é o colectivo a sobrepor-se ao individual. É certo que vivo agora -repito: agora- quase como um eremita, com os meus livros, desenhos e jornais, mas pela força de circunstâncias que não escolhi, desterrado das origens sem que a vontade própria tenha assumido nisso qualquer iniciativa. Mas, ainda assim, não me entrego a funções como as de um monge na sua cela, embrenhado em estéreis meditações circulares ou em espiral, nem escrevo regianos diários íntimos. Pelo contrário, partilho como os outros, próximos ou anónimos leitores, reflexões onde procuro cultivar os interesses, a crítica, a curiosidade, a própria provocação. Sem assumir a infalibilidade, bem pelo contrário, admito, desejo mesmo, o contraditório. Não estou aqui e agora, na prática, a dar conta disso? Prefiro, sempre preferi o diálogo ao monólogo.

Será que já fui assim tão diferente do que sou hoje? – esta é a pergunta suprema, a do milhão de dólares. Mais, em que contribuiu René la Borderie para tal diferença, se é que esta -de facto- existe – eis a premissa necessariamente subentendida em tão legítima como pertinente interrogação.

Completando este conjunto será conveniente juntar-lhe a frase com que completei o primeiro dos textos sobre o tema, afinal a causa provocatória das pertinentes questões colocadas. Ei-la:

Afirmar que a minha adesão ao universo da Comunicação sofreu uma radical alteração é portanto responsabilizar aquele decisivo encontro e o seu prolongado aprofundamento. Todo o meu trabalho profissional e pessoal, e até o carácter, sofreram os efeitos da mudança e talvez aí mesmo resida a explicação para o inconformismo cívico, a rebeldia à integração em rebanhos e grupos, a indignação perante toda e qualquer forma de manipulação, com particular incidência nos meandros da política“.

Que me seja perdoada a citação de mim próprio, mas a sua justificação reside na admissão prévia de todas as peças para que o processo possa dispor da plenitude dos argumentos e pressupostos, sem qualquer falha. Creio estar, assim, completo.

Falemos pois de Comunicação, a magna questão central que aqui abordo, quando evoco René la Borderie e o ICAV.

Comunicação – acto ou efeito de comunicar (tornar comum). Tão simples numa banal definição de dicionário, tão complexo no entanto na sua real concretização.

Na Comunicação, o emissor organiza a mensagem pela que qual faz chegar determinado sentido, ou significado, ao(s) receptor(es). Como é evidente, a mensagem pode assumir, ao gosto ou interesse do emissor, as mais diversas formas, e utilizar os mais diversos signos (ou sinais), sendo falada, escrita, gestual, icónica (de ícone, imagem), mista… O receptor, através dos seus sentidos -sobretudo a vista e/ou o ouvido- recolhe a mensagem e apreende-lhe o significado. Naturalmente, tanto a emissão como a recepção da mensagem, e esta própria, podem assumir formas mistas e/ou combinadas de signos, como o verbo-icónico (palavras e imagens) ou exigir a intervenção de vários sentidos, como o audiovisual (ver e ouvir).

Esta é, numa exposição tão elementar que quase toca a indigência, a base da Comunicação, enquanto fenómeno de relação humana. O mundo moderno, depois da invenção da escrita, da imprensa e, sobretudo, dos modernos meios da comunicação denominada de massa (com relação muito aberta entre o número de emissores e de receptores), sobretudo por intervenção da electrónica, faz das comunicações um uso maciço. Dos tempos em que o Homem da Maratona levou uma penosa e dramática imensidade de tempo para a transmissão da boa nova da vitória numa batalha decisiva até à actualidade dos satélites que espalham uma notícia pelo universo inteiro à velocidade da luz, de uma era a outra vai a dimensão das espantosas alterações sofridas pela Comunicação.

Mas, no essencial, a filosofia do seu funcionamento mantém-se.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Mafalda fez ontem 50 anos. Não parece…

mafalda 1Foi-me impossível, por inadiável ocupação de tempo, assinalar aqui ontem o cinquentenário de Mafalda, uma personagem querida dos quadradinhos. Para compensar tal falha e para não deixar passar em claro uma notável efeméride, procurei algo com interesse sobre o tema. Encontrei uma entrevista recente com Quino, o “pai” da Mafalda, que creio bastante original. Aqui fica.

Mafalda faz 50 anos; Quino diz que é só mais um desenho

Embora esteja imerso na celebração do 50º aniversário do seu “nené”, a Mafalda, o ilustrador argentino Quino, aos 82 anos, reconheceu que para ele a célebre e insolente garotinha é apenas “mais um desenho” e não hesitou em se situar como um carpinteiro que projectou um “lindo móvel”.

Na sua casa em Madrid, sob o olhar sem vida das bonecas de Mafalda que enfeitam a sala de estar, o argentino contou nesta sexta-feira [14 de Março de 2014] em entrevista exclusiva à Efe que, apesar de saber que há muita gente que fica chateada ao ouvir de sua boca que ela é “mais um desenho”, sente assim.

“Sou como um carpinteiro que fabrica um móvel, e a Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira com que trabalho”, minimizou Joaquín Salvador Lavado Tejón, Quino, que nasceu em Mendoza, na Argentina, em 1932.

Sofrendo de um problema de visão que o faz viver num “mundo um pouco desfocado”, o pai da garotinha mais contestadora dos quadradinhos sente que hoje é um “pouco menos optimista” do que quando tinha 35 anos e desenhava a Mafalda e sente-se “um pouco mais desiludido” ao ver como o mundo é.

Apesar de, com a menina que odiava a sopa, ter burlado a censura na sua Argentina natal, Quino não sente que Mafalda tenha sido sua “melhor aliada” para dizer “o que queria e quando queria”.

“O meu melhor aliado fui eu mesmo, porque deixei de dizer muitas coisas que gostaria e não se podiam dizer. Desde que cheguei a Buenos Aires com a minha pastinha (em 1954), disseram-me que não podia fazer desenhos sobre militares, a igreja, o divórcio, a moral. Então acostumei-me a desenhar as coisas que me permitiam”, lembrou.

Mas não se dedicou só a desenhar tiras sobre coisas que eram permitidas, pois, como destacou, pôs “muito da vida pessoal” e aplicou a sua visão de mundo para que o seu “nené” tivesse sempre esse odor de actualidade que a transportou para nossos dias.

“Copiei as cenas de quando comia na minha casa, e as pessoas gostaram, porque poucos desenhistas faziam isso. Charlie Brown agrada muito, mas parece-me um horror que não haja aí adultos”, disse, e admitiu nunca ter pensado que Mafalda se transformaria na voz de muitas pessoas.

“No meu trabalho, apelava para as notícias do dia, e escrevia sobre o que saía nos jornais; o mundo era assim. Eu não disse, ‘vou a fazer uma menina contestadora’; não, saiu assim. Muitas vezes desenhava coisas para as quais me sentia impelido”.mafalda

Após esta reflexão envolvida num sorriso tranquilo, o desenhista reconheceu que cometeu “erros” na sua época de desenhista.

“Quando era menino, na escola mandavam-nos escrever, para ter boa caligrafia, numa folha de papel pautado; fiz uma tira com este tema, e alguém me disse que estava louco, porque isso já não se usava mais”.

Consciente de que Mafalda continua sendo uma personagem querida no mundo todo, o Quino “pouco optimista” aparece por trás desse avô tranquilo ao alfinetar que “não acredito que Mafalda ultrapasse as fronteiras da história e se transforme em algo parecido com a música de Mozart”.

“Haverá uma temática muito mais importante do que as coisas que Mafalda disse. Além disso, aparecerão em suportes que ainda não se conhecem”, disse com um realismo isento de tristeza.

Com uma vida entre Buenos Aires e Madrid, Quino, que deixou de desenhar Mafalda há 41 anos, também não pode continuar a pintar, a outra paixão, por causa da sua delicada visão.

Mas isto não o impede de comparecer a encontros com os seus leitores, ávidos ainda pelas suas tiras, leitores que Quino quer continuar vendo, porque assim “posso dar-lhes um rosto”, concluiu, enquanto uma Mafalda de madeira apoiada na sua mesa de trabalho parece fitá-lo com a devoção de uma filha orgulhosa.

Agenda do dia – 273

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273 – 30 de Setembro de 1454

No mundo ocidental, julga-se ter sido esta a data de impressão, por meio de tipos móveis, do primeiro livro. Trata-se da célebre Bíblia de Johann Gutenberg, elaborada em Mayence sob a sua direcção. Também foi conhecida pela Bíblia das 42 linhas, por ter sido esta a sua organização tipográfica em cada página.
Foram impressas algumas dezenas de exemplares, que constituíram um imediato sucesso editorial.
Embora a data rigorosa da impressão não esteja garantida de forma indiscutível, sabe-se com segurança que na feira de Francfort, no Outono de 1456, esta Bíblia esteve à venda.

Decálogos turísticos – quatro (fim)

DECÁLOGOS TURÍSTICOS

Dez razões para visitar Portugal – eis um decálogo com variantes. A que nos prendeu é “do tempo da outra senhora”, mostrando-nos uma visão organizada daquilo que aos responsáveis da época pareceu significativo para nos recomendar lá fora, sobretudo junto dos potenciais turistas de língua castelhana.

Agora, a proposta vem dos tempos presentes, através de um novo decálogo, actualizado, nos temas e no próprio suporte ou meio de comunicação. Em vez do folheto impresso chega-nos agora o audiovisual, ainda por cima veiculado pela Internet. Portanto, troca-se o papel, concreto, para consultar individualmente, pela mensagem virtual, instantânea, apta a chegar, ao mesmo tempo, a todos os lugares e a todos os públicos. Sinais dos tempos…

Neste moderno decálogo, a versão é em língua inglesa, certamente bem mais abrangente do que a castelhana. A produção do videograma, com menos de 6 minutos de duração, é da página de facebook 1 Milhão de Fans de Portugal.

Para já, é curiosa a própria selecção dos temas, pois o decálogo 10 Reasons to visit Portugal assenta, sucessivamente, em Oceano, História, Cultura, Paisagem, Cor, Diversão, Comida, Tempo, Produtos e Povo. Como facilmente se deduz, quase todos estes “capítulos” podem encontrar algum paralelo nos da década de 60, mudando, no entanto, certos conteúdos. O mais curioso, e natural, é a manutenção do mar como tónica geral.

O tema Oceano revela sobretudo praias, algumas falésias sem qualquer registo especial, mas esquece aquela que, para mim, é a mais fabulosa praia nacional: Porto Santo. Na História mostram-se castelos e palácios, mais alguns centros ditos históricos. A Cultura passa por uma incrível miscelânea, com Amália e o Fado em primeiro lugar, seguidos dos expoentes “culturais” Cristiano Ronaldo, Eusébio, Mourinho e Figo… Posso entender o valor e símbolo destas figuras, sei perfeitamente o que significam como “embaixadores” ou “símbolos” de Portugal, mas… no campo da cultura!? Enfim, depois vêm azulejos, calçadas, vitrais e… cultura de café!

Entre as Paisagens escolhidas estão algumas belas imagens recenseadas num incontável universo. Qualquer critério seria escasso e modesto. Já na Cor nos chegam outros magníficos exemplos, que também deixam água na boca…

Quanto a Diversão, temos praias, concertos rock, golf, vela, surf (claro!), hipismo, caminhada e mergulho. Creio que faltam a BTT e o parapente mais o voo com ou sem motor. No mínimo.

Quanto a Comida estamos suficientemente conversados, ainda que o tema se duplique ou repita um pouco em Produtos. O Tempo também é muito bem representado, sobretudo quando valoriza 300 dias de sol por ano (desde que não sejam anos como este!).

Nos Produtos, destaque-se a cortiça, garantindo 50% da produção mundial. Aqui está uma realidade que convém não perder de vista. [que saudades da Robinson!]

Finalmente o Povo. Como descendentes de antigos navegadores, abraçamos todas as culturas. Somos genuínos, apaixonados e amigáveis. Vá lá, não se garante aqui que arranhamos, pelo gesto, todas as línguas…

Enfim, o videograma tem ritmo e belas imagens. Se confrontarmos este decálogo com o outro, não cheira a naftalina e é arejado. Também não poderia ser de outra forma.

Esperemos que funcione e desperte, lá fora, a vontade de vir cá.

E de voltar.

  António Martinó de Azevedo Coutinho

A NOSSA BANDA – 17

A NOSSA BANDA CABEÇALHO

Continua, no habitual ritmo semanal, a publicação das reproduções de A Nossa Banda, revista de quadradinhos, e seus “anexos”, editada pelo Centro de Estudos de Banda Desenhada da Casa de Cultura da Juventude de Portalegre, inserida na delegação local do FAOJ.
Prossegue hoje a publicação do número 5, datado de Fevereiro de 1980, com a reprodução de mais cinco duplas páginas, correspondentes à sua segunda entrega.

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Agenda do dia – 272

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272 – 29 de Setembro de 1941

Entre 29 de Setembro e 1 de Outubro de 1941, uma unidade de exterminação nazi, das SS, massacrou os judeus que tinham ficado na Ucrânia. O seu número é indeterminado, mas calcula-se em mais de 30.000 vítimas, admitindo alguns historiadores que possam ter sido talvez mesmo 300.000.
Esta barbárie aconteceu junto a Kiev, numa ravina situada em Babyn Yar, apenas tendo escapado os judeus que tinham antecipadamente sido dali retirados pelas tropas soviéticas.

 

o A.B.C. da B.D. – um

ABC da BD

Em meados de Março deste ano coloquei aqui um texto intitulado A Montagem na Banda Desenhada, que na ilustração cimeira fiz acompanhar de uma espécie de prévia explicação: O A.B.C. da B.D. (reflexões sobre os quadradinhos). O conteúdo desse artigo consistiu na apresentação de um exemplo comparado entre duas pranchas, de distintos períodos e diversas técnicas narrativas, retirado dos arquivos e apontamentos da minha própria prática docente.
Agora, que estou a relatar uma experiência pedagógica determinante no meu percurso enquanto professor e cidadão, parece-me oportuno prolongar aquela evocação, apresentando regularmente uma panóplia de outros exemplos práticos que organizei para integração das aulas processadas no seio do espírito do ICAV (Iniciação à Comunicação AudioVisual), onde se inseria a abordagem crítica ao verbo-icónico (texto e imagem), como é o caso da banda desenhada.
Assim, seleccionei uma dúzia de exemplos que aqui irei apresentando com regularidade, devidamente comentados e enquadrados no seu contexto. Começo hoje mesmo.

 AS ARTES DO MOVIMENTO

A representação gráfica do movimento é um dos mais significativos desafios colocados à banda desenhada.

O efeito “Marey”, sobreposição justaposta de sucessivas posições de um corpo ou objecto, proveniente da fotografia a caminho do cinema, constitui uma representação muitas vezes usada com sucesso no mundo dos quadradinhos. A surpresa pode acontecer com a tomada de consciência de que alguns consagrados artistas plásticos usaram ao longo da sua obra este mesmo artifício gráfico.

Eis uma provocação a tal propósito…

Na página 25 de Le Secret de La Licorne, Hergé exibe o truculento capitão Haddock freneticamente agitando um sabre.

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O pintor russo Kazimir Malevich (1878-1935) aderiu ao abstraccionismo geométrico, um dos ramos mais fecundos da arte abstracta originados pelo cubismo. É dele a obra O Amolador de Facas (1912), aqui também reproduzida.

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A proposta pedagógica é constituída pelo confronto entre o essencial das duas imagens, (apenas) formalmente comparáveis: um homem, uma lâmina e uma certa (embora distinta) agitação.

Os rostos, os braços, as lâminas e as pernas revelam-se (Marey dixit) em sucessivas posições no espaço, ainda que animados por diversas motivações pessoais dos seus respectivos protagonistas. O essencial das intenções comunicativas dos dois distintos autores manifesta-se através de traços e manchas de cor sabiamente relacionados entre si e a nossa atenta análise pode facilmente encontrar manifestas convergências pictóricas entre as suas representações. E ainda diferenças…

Naturalmente, também o distinto grau de “movimentação” se impõe, sobretudo como óbvia consequência da utilização, ou da ausência, dos signos cinéticos. É sobretudo daqui que decorre a nossa leitura interpretativa quanto à delirante agitação do capitão ou à profissional tranquilidade do anónimo amolador de facas e tesouras.

As 7.ª e 9.ª Artes, seguramente, terão mil e umas pequenas e grandes cumplicidades para nos revelarem. Compete-nos procurá-las nos recantos mágicos de telas, galerias e museus assim como nas páginas, não menos encantadas, das revistas e dos álbuns de quadradinhos…

 António Martinó de Azevedo Coutinho