Uma cicatriz de estimação

diabrete folha

diabrete carta

Quando há uns dias achei aquele velho recorte de jornal, com quase três quartos de século de existência, apeteceu-me escrever aquela carta que nunca escrevi mas que poderia ter escrito.

O que o Diabrete me deu, em alegria, em saber, em desafios à imaginação, em sucessivas construções do que sou, no bom e no mau que valho, no que ganhei como no que perdi, o que o Diabrete trouxe à inteligência e à sensibilidade do garoto que eu era, do jovem que fui crescendo, do homem maduro e do velho que hoje me tornei, todo o complexo e por vezes indefinível laço, um nó cego que ainda agora me prende a memória e me traz recordações quase todas gratas, o que o Diabrete foi na minha vida -o que o Diabrete é na minha vida!- constitui um marco definitivo.

diabrete 1Sou capaz ainda de me lembrar, sem necessidade de confirmação, da cor daquela ilustração, da posição daquela vinheta, do conteúdo daquele balão, da expressão daquela personagem, do título daquela historieta, do motivo daquela capa, do autor daquela aventura, do cheiro e da textura daquele papel, onde o tempo deixou as marcas da sabedoria e do talento.

O Diabrete é o jornal a que ligo definitivamente dois monstros sagrados dos quadradinhos lusos, Adolfo Simões Müller e Fernando Bento. A este, que tive a ventura de conhecer, pude dar emocionada conta, pessoal e grata, daquilo que ficara devendo à sua arte. Fascinante e inimitável. Única num estilo distinto de todos os demais.

Bem sei que o Diabrete é quase um jornal menor, que os especialistas desprezam, quando comparado com alguns dos seus pares de maior fama e mais sonora ressonância, como O Mosquito ou O Mundo de Aventuras. Eu sei isso e até o acho justo. Mas o que nos une a qualquer coisa com alma, e meto aqui os quadradinhos juntamente às pessoas (desculpem-me este tão panteísta devaneio!), aquilo que nos une seja a quem for, seja ao que for, é um assunto do coração. Como o amor. E eu manifesto aqui a minha união, até à morte, com o Diabrete. Indissolúvel, sem direito a divórcio, antes à confirmação pública. Obrigatoriamente declarada. Como estou a fazer.

Há outro motivo que me liga ao Diabrete, que terminou no dia 26 de Abril de 1950, com o seu número 712, tinha eu 15 anos. Bem sei que dizem os arquivos e as enciclopédias que foi com o número 887, em 29 de Dezembro de 1951, que o Diabrete se finou para dar logo, logo, a vez ao Cavaleiro Andante. Não é verdade! O Diabrete, o meu querido Diabrete, companheiro de mais de dez anos da minha vida, desapareceu-me fisicamente desta a 26 de Abril de 1950. Nunca mais apareceu e sei bem que é assim, por minha desgraça…

No dia 11 de Setembro de 1949 morrera o meu avô José Cândido, o mesmo que uns anos antes me tivera ao colo quando juntos recortávamos as letras publicadas no Diário de Notícias para formar a tal palavra mágica. O seu desaparecimento provocou um sério abalo na família, não apenas pela profunda perda afectiva mas também pelo facto de ele constituir o seu suporte económico. A necessidade de reequilibrar o precário orçamento sobrante obrigou a alguns pesados sacrifícios. Mesmo sem o controlo da troika…

Finda a assinatura do Diabrete em curso, não houve possibilidade de a renovar. O jornal deixou-me no dia 26 de Abril de 1950 e os meus choros, a minha angústia mais o meu sofrimento nunca compensaram esta outra perda, como se já não tivesse bastado a do meu avô.

diabrete final

Um célebre e talentoso futebolista argentino, Carlos Tévez, guarda ciosamente como memória dos seus tempos difíceis uma feia cicatriz na face que um derrame acidental de água fervente lhe provocou, quando era muito novo. O número 712 é a cicatriz na colecção do Diabrete que nunca procurei completar, porque associo essa falha a um período crítico da minha vida em família. Mas também à ressurreição. Tal sacrifício, com outros, ajudou a recuperar a normalidade bastante para me permitir regressar ao mundo dos quadradinhos logo a partir do Cavaleiro Andante, uns meses depois. E para sempre, enquanto duraram esses jornais. Aquele Diabrete vale portanto, para mim, como componente essencial de um duro mas necessário episódio de solidariedade familiar. Nunca poderia restabelecer uma colecção que soaria a falso e que destruiria a lembrança de momentos difíceis e, sobretudo, da lição de dor e amor nestes contida. A mágoa e a frustração têm uma componente pedagógica, se soubermos encará-las na humanidade que encerram.

Na perda do resto da colecção do Diabrete ganhei um maior apreço, o máximo apreço, ao que me sobrou.

Percebe-se que não haja Mosquitos ou Mundos de Aventuras ou Zorros ou Camaradas ou Tintins ou Falcões, mesmo completos do princípio ao fim, que valham isso?

 António Miguel

1 thought on “Uma cicatriz de estimação

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