Mafalda fez ontem 50 anos. Não parece…

mafalda 1Foi-me impossível, por inadiável ocupação de tempo, assinalar aqui ontem o cinquentenário de Mafalda, uma personagem querida dos quadradinhos. Para compensar tal falha e para não deixar passar em claro uma notável efeméride, procurei algo com interesse sobre o tema. Encontrei uma entrevista recente com Quino, o “pai” da Mafalda, que creio bastante original. Aqui fica.

Mafalda faz 50 anos; Quino diz que é só mais um desenho

Embora esteja imerso na celebração do 50º aniversário do seu “nené”, a Mafalda, o ilustrador argentino Quino, aos 82 anos, reconheceu que para ele a célebre e insolente garotinha é apenas “mais um desenho” e não hesitou em se situar como um carpinteiro que projectou um “lindo móvel”.

Na sua casa em Madrid, sob o olhar sem vida das bonecas de Mafalda que enfeitam a sala de estar, o argentino contou nesta sexta-feira [14 de Março de 2014] em entrevista exclusiva à Efe que, apesar de saber que há muita gente que fica chateada ao ouvir de sua boca que ela é “mais um desenho”, sente assim.

“Sou como um carpinteiro que fabrica um móvel, e a Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira com que trabalho”, minimizou Joaquín Salvador Lavado Tejón, Quino, que nasceu em Mendoza, na Argentina, em 1932.

Sofrendo de um problema de visão que o faz viver num “mundo um pouco desfocado”, o pai da garotinha mais contestadora dos quadradinhos sente que hoje é um “pouco menos optimista” do que quando tinha 35 anos e desenhava a Mafalda e sente-se “um pouco mais desiludido” ao ver como o mundo é.

Apesar de, com a menina que odiava a sopa, ter burlado a censura na sua Argentina natal, Quino não sente que Mafalda tenha sido sua “melhor aliada” para dizer “o que queria e quando queria”.

“O meu melhor aliado fui eu mesmo, porque deixei de dizer muitas coisas que gostaria e não se podiam dizer. Desde que cheguei a Buenos Aires com a minha pastinha (em 1954), disseram-me que não podia fazer desenhos sobre militares, a igreja, o divórcio, a moral. Então acostumei-me a desenhar as coisas que me permitiam”, lembrou.

Mas não se dedicou só a desenhar tiras sobre coisas que eram permitidas, pois, como destacou, pôs “muito da vida pessoal” e aplicou a sua visão de mundo para que o seu “nené” tivesse sempre esse odor de actualidade que a transportou para nossos dias.

“Copiei as cenas de quando comia na minha casa, e as pessoas gostaram, porque poucos desenhistas faziam isso. Charlie Brown agrada muito, mas parece-me um horror que não haja aí adultos”, disse, e admitiu nunca ter pensado que Mafalda se transformaria na voz de muitas pessoas.

“No meu trabalho, apelava para as notícias do dia, e escrevia sobre o que saía nos jornais; o mundo era assim. Eu não disse, ‘vou a fazer uma menina contestadora’; não, saiu assim. Muitas vezes desenhava coisas para as quais me sentia impelido”.mafalda

Após esta reflexão envolvida num sorriso tranquilo, o desenhista reconheceu que cometeu “erros” na sua época de desenhista.

“Quando era menino, na escola mandavam-nos escrever, para ter boa caligrafia, numa folha de papel pautado; fiz uma tira com este tema, e alguém me disse que estava louco, porque isso já não se usava mais”.

Consciente de que Mafalda continua sendo uma personagem querida no mundo todo, o Quino “pouco optimista” aparece por trás desse avô tranquilo ao alfinetar que “não acredito que Mafalda ultrapasse as fronteiras da história e se transforme em algo parecido com a música de Mozart”.

“Haverá uma temática muito mais importante do que as coisas que Mafalda disse. Além disso, aparecerão em suportes que ainda não se conhecem”, disse com um realismo isento de tristeza.

Com uma vida entre Buenos Aires e Madrid, Quino, que deixou de desenhar Mafalda há 41 anos, também não pode continuar a pintar, a outra paixão, por causa da sua delicada visão.

Mas isto não o impede de comparecer a encontros com os seus leitores, ávidos ainda pelas suas tiras, leitores que Quino quer continuar vendo, porque assim “posso dar-lhes um rosto”, concluiu, enquanto uma Mafalda de madeira apoiada na sua mesa de trabalho parece fitá-lo com a devoção de uma filha orgulhosa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s