Agenda do dia – 271

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271 – 28 de Setembro de 1924

Tinham largado no dia 6 de Abril de 1924, do aeroporto de Seattle, em Washington. Eram quatro aviões e oito pilotos e mecânicos, disposto a cumprir a primeira volta aérea ao mundo. Cada aeronave tinha sido baptizada com um nome de cidade norte-americana: Chicago, Boston, New Orleans e Seattle. Este avião perdeu-se nas frias montanhas do Alasca, mas os outros três conseguiram regressar à sua base, a 28 de Setembro desse ano de 1924, 175 dias depois da partida.
Tinha sido cumprida uma jornada histórica, com a colaboração de 28 países.

René la Borderie e o ICAV – II

RENECABEÇALHO

Disponho da rigorosa certeza de que as memórias pessoais de René la Borderie terão, aqui expressas, um interesse bastante diverso, consoante os leitores. Não é este, certamente, um tema de actualidade ou dotado de tal pertinência que garanta uma segura atracção. Sei isso perfeitamente, mas não altero por tal motivo a expressão de reconhecimento e de pública, ainda que modesta, homenagem a um homem que marcou, e marca, muitas gerações. Por outro lado não me resta a mínima dúvida de que, para todos os que em Portugal, foram seus discípulos, todos os que integraram a solidária e apaixonante prática do espírito ICAV, para todos os que, durante anos, se empenharam na construção dos laços de uma activa cumplicidade em torno da problemática da comunicação, para esses a recordação do homem e pedagogo que nos inspirou e motivou será certamente grata.

Por mim, nem sequer neste blog me sinto isolado; basta evocar a companhia do Anthero Monteiro, um inesquecível companheiro de jornada nas aventuras do ICAV, aqui, do seu Norte ao meu Sul, e também pelas terras da Dordonha.

Lembrar René la Borderie e o ICAV é evocar a memória de outros combatentes pela causa da Comunicação Educativa que igualmente nos deixaram, e mais pobres. Dos que sei, lembro José Antunes da Silva, Rosinda Vieira e Conceição Mendes “Concas”, companheiros de jornada, e dos melhores, já tombados em combate.

Mas é preciso, por elementar dever de justiça, recordar os que, a níveis de superior responsabilidade pedagógica, integraram a equipa e por ela zelaram com entusiasmo e empenho, como Leonor Oliveira, Maria Manuela Costa, Hélder Pacheco ou José Alberto Cardoso, e os companheiros de luta, nas “trincheiras” abertas em cada escola, para além do Anthero, como Óscar Brandão, Alda Varela, Jaquelina Caliço, Maria Alexandrina Barros, Florinda e Carlos Franca, Ana Lucinda Nunes, Maria Clara Lopes, Carlos Abafa, Arlete Sousa, Zita Borges, Gabriela Coelho, Francisco Álvaro Gomes e alguns outros. Da imensa maioria destes nada ou quase nada sei há muito tempo, mas não é isso razão para os ter esquecido e, sobretudo, as suas lições de competência, empenho e entusiasmo, dedicação e lealdade para com a causa comum que abraçámos. Creio que todos nos entregámos com paixão a um trabalho que nada nos trouxe de vantagens materiais e que nos exigiu responsabilidade e entrega a uma missão de perfeito voluntariado. Acreditámos na justeza do que praticávamos e no interesse que isso teria na formação daqueles que nos tinham sido confiados como alunos.

No pretexto do conhecimento da morte do pioneiro do ICAV, ao recapitular aqui o que foi a sua e, por extensão, a nossa saga tenho a exacta consciência de evocar e organizar contributos para a história recente da Educação em Portugal, ainda que seja num seu pequeno, talvez mesmo modesto e quase anónimo ou perdido capítulo. Esta é a minha intenção.

Entretanto, o esquema que tinha pensado para apresentar tudo aquilo que pretendia revelar sobre o tema merece, justifica mesmo, um aditamento. Um amigo que muito prezo, dos que lê estes escritos com uma atenção que me desvanece, enviou-me há dias uma mensagem, muito judiciosa, da qual aqui transcrevo textualmente o essencial: 

Sobre este último trabalho fiquei com uma dúvida. Antes de teres conhecido René la Borderie não te indignavas já perante qualquer tipo de manipulação? Antes de o conheceres não sentias já a necessidade de viveres a tua vida fora de rebanhos e grupos? Não gostaste tu sempre de viver contigo, com os teus livros, desenhos e jornais, assim um pouco como Régio que tanto admiras? Será que já foste assim tão diferente do que és hoje?

Este reparo surge com rara pertinência e oportunidade. Poderia ter respondido em privado, como ele fez, provavelmente por delicadeza. Mas esta observação orienta-me num sentido que eu não tinha previsto, não me bastando fazer aqui o relato de acontecimentos, antes devendo ir mais dentro do essencial, daquilo que é a doutrina com que René la Borderie profundamente me tocou, “contagiando” todos os que aceitámos e partilhámos esse “vírus” de inquietação.

Agradeço sinceramente ao meu amigo a orientação que me propõe, pelo que, com a clareza e síntese possível, vou tentar antes de tudo a justificação das “diferenças” -pelas quais, surpreendido, ele me interroga- que terei reconhecido ou confessado.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Portugal de ontem e de hoje

4 estações 0O Almanach Illustrado do jornal O Seculo relativo a 1902 contém muitos outros motivos de interesse para além das curiosas historietas alusivas às estações do ano. É o caso do curto “dossier” que dali retirei e aqui partilho. São três páginas sitas já pelo final do volume, onde se faz um retrato sumário do país, com dados de 1890, que é possível comparar com os da actual década, portanto 120 anos depois.

Como evoluímos, ou retrocedemos, neste tempo? Como é óbvio, a comparação é sumária, porque confronta dados muito gerais. Mesmo assim, tem piada.

Por exemplo, o número de fogos, no sentido habitacional claro!, revela um crescimento exponencial, de 1.151.609 em 1890 para 5.520.681 no nosso tempo. Portanto, o parque habitacional português cresceu praticamente cinco vezes.

Já quanto à população, foi mais modesto o aumento, de 5.049.729 para 10.627.389, pouco mais do dobro. Houve, nesse caso, muito mais gente a conseguir um lar autónomo. O pior é que há agora por toda a parte casas abandonadas a cair aos pedaços…

Quanto a superfície, encolhemos, a fazer fé nos números: 92.575 quilómetros quadrados em 1890 contra 92.391 agora. Tenho uma proposta de explicação, lógica, para os cento e oitenta e tal quilómetros quadrados desaparecidos, precisamente na areia da Caparica que o mar engoliu. Não será?

Bem, chega agora outro enigma e este é administrativo. Deixo à consideração dos leitores a procura da solução, que está à vista, bastando procurar. Para os 17 distritos continentais de há 120 anos temos hoje 18. De onde surgiu o novo? Toca a procurar.

Sobre a quantidade de concelhos e de freguesias, o confronto dá razão às propostas da troika. Vejamos: em 1980 tínhamos 243 concelhos e hoje temos 308; de 3.912 freguesias ainda temos 3.092 depois do “emparcelamento”. É que foram eliminadas há pouco tempo mais de mil e cem das quatro mil duzentas e sessenta e tal que existiam. Não serão ainda concelhos e freguesias em excesso para um país tão pequeno? Nem sequer discuto a necessidade e a importância da manutenção de freguesias, só destas, em zonas isoladas sobretudo do interior, onde as populações são idosas e carentes. Mas quanto a Câmaras Municipais, onde não se tocou, francamente, há muitas sem qualquer razão plausível para existirem. A não ser para satisfação das clientelas partidárias locais, os boys, que precisam de emprego, vulgo tachos ou jobs. Não de trabalho, obviamente.

Estes são os números globais, curiosos, que mostram algo do nosso percurso geopolítico nos últimos cento e vinte anos.

E aqui fica o retrato a la minuta de Portugal 1890, em três páginas ilustradas com os brasões da época. E, por favor, não se esqueçam de procurar e descobrir de onde surgiu o 18.º distrito. É quase irónico perguntar isto quando os distritos já foram desmantelados, mas é o que temos…

António Martinó de Azevedo Coutinho

portugal 1902 a  portugal 1902 b

portugal 1902 c

Agenda do dia – 270

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270 – 27 de Setembro de 1066

Nesta data, Guilherme, duque da Normandia, embarcou para Inglaterra, à frente do seu exército. Ganharia o título de Conquistador por ter triunfado sobre o rei Harold II, na batalha de Hastings, a 14 de Outubro desse ano de 1066, e assim ter conquistado a coroa inglesa. Foi solenemente coroado em Londres, na Abadia de Westminster.
A famosa Tapeçaria de Bayeux, que afinal é um bordado, conta ao longo da sua longa extensão a saga de Guilherme, o Conquistador, em curiosa narrativa que faz lembrar uma banda desenhada

Uma cicatriz de estimação

diabrete folha

diabrete carta

Quando há uns dias achei aquele velho recorte de jornal, com quase três quartos de século de existência, apeteceu-me escrever aquela carta que nunca escrevi mas que poderia ter escrito.

O que o Diabrete me deu, em alegria, em saber, em desafios à imaginação, em sucessivas construções do que sou, no bom e no mau que valho, no que ganhei como no que perdi, o que o Diabrete trouxe à inteligência e à sensibilidade do garoto que eu era, do jovem que fui crescendo, do homem maduro e do velho que hoje me tornei, todo o complexo e por vezes indefinível laço, um nó cego que ainda agora me prende a memória e me traz recordações quase todas gratas, o que o Diabrete foi na minha vida -o que o Diabrete é na minha vida!- constitui um marco definitivo.

diabrete 1Sou capaz ainda de me lembrar, sem necessidade de confirmação, da cor daquela ilustração, da posição daquela vinheta, do conteúdo daquele balão, da expressão daquela personagem, do título daquela historieta, do motivo daquela capa, do autor daquela aventura, do cheiro e da textura daquele papel, onde o tempo deixou as marcas da sabedoria e do talento.

O Diabrete é o jornal a que ligo definitivamente dois monstros sagrados dos quadradinhos lusos, Adolfo Simões Müller e Fernando Bento. A este, que tive a ventura de conhecer, pude dar emocionada conta, pessoal e grata, daquilo que ficara devendo à sua arte. Fascinante e inimitável. Única num estilo distinto de todos os demais.

Bem sei que o Diabrete é quase um jornal menor, que os especialistas desprezam, quando comparado com alguns dos seus pares de maior fama e mais sonora ressonância, como O Mosquito ou O Mundo de Aventuras. Eu sei isso e até o acho justo. Mas o que nos une a qualquer coisa com alma, e meto aqui os quadradinhos juntamente às pessoas (desculpem-me este tão panteísta devaneio!), aquilo que nos une seja a quem for, seja ao que for, é um assunto do coração. Como o amor. E eu manifesto aqui a minha união, até à morte, com o Diabrete. Indissolúvel, sem direito a divórcio, antes à confirmação pública. Obrigatoriamente declarada. Como estou a fazer.

Há outro motivo que me liga ao Diabrete, que terminou no dia 26 de Abril de 1950, com o seu número 712, tinha eu 15 anos. Bem sei que dizem os arquivos e as enciclopédias que foi com o número 887, em 29 de Dezembro de 1951, que o Diabrete se finou para dar logo, logo, a vez ao Cavaleiro Andante. Não é verdade! O Diabrete, o meu querido Diabrete, companheiro de mais de dez anos da minha vida, desapareceu-me fisicamente desta a 26 de Abril de 1950. Nunca mais apareceu e sei bem que é assim, por minha desgraça…

No dia 11 de Setembro de 1949 morrera o meu avô José Cândido, o mesmo que uns anos antes me tivera ao colo quando juntos recortávamos as letras publicadas no Diário de Notícias para formar a tal palavra mágica. O seu desaparecimento provocou um sério abalo na família, não apenas pela profunda perda afectiva mas também pelo facto de ele constituir o seu suporte económico. A necessidade de reequilibrar o precário orçamento sobrante obrigou a alguns pesados sacrifícios. Mesmo sem o controlo da troika…

Finda a assinatura do Diabrete em curso, não houve possibilidade de a renovar. O jornal deixou-me no dia 26 de Abril de 1950 e os meus choros, a minha angústia mais o meu sofrimento nunca compensaram esta outra perda, como se já não tivesse bastado a do meu avô.

diabrete final

Um célebre e talentoso futebolista argentino, Carlos Tévez, guarda ciosamente como memória dos seus tempos difíceis uma feia cicatriz na face que um derrame acidental de água fervente lhe provocou, quando era muito novo. O número 712 é a cicatriz na colecção do Diabrete que nunca procurei completar, porque associo essa falha a um período crítico da minha vida em família. Mas também à ressurreição. Tal sacrifício, com outros, ajudou a recuperar a normalidade bastante para me permitir regressar ao mundo dos quadradinhos logo a partir do Cavaleiro Andante, uns meses depois. E para sempre, enquanto duraram esses jornais. Aquele Diabrete vale portanto, para mim, como componente essencial de um duro mas necessário episódio de solidariedade familiar. Nunca poderia restabelecer uma colecção que soaria a falso e que destruiria a lembrança de momentos difíceis e, sobretudo, da lição de dor e amor nestes contida. A mágoa e a frustração têm uma componente pedagógica, se soubermos encará-las na humanidade que encerram.

Na perda do resto da colecção do Diabrete ganhei um maior apreço, o máximo apreço, ao que me sobrou.

Percebe-se que não haja Mosquitos ou Mundos de Aventuras ou Zorros ou Camaradas ou Tintins ou Falcões, mesmo completos do princípio ao fim, que valham isso?

 António Miguel

Decálogos turísticos – três

DECÁLOGOS TURÍSTICOS

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A sexta razone para visitar Portugal assenta na economia, ao garantir que os preços, por cá, eram muito vantajosos. A relação preço-qualidade era aliciante, pelo que os putativos visitantes deviam fazer contas. Atractivos como o ambiente, a gastronomia e os recursos de lazer, piscinas, ténis, equitação e outras instalações desportivas eram bastante superiores aos da concorrência e mais acessíveis. Provavelmente, hoje apenas trocaríamos a lista, onde deveríamos acrescentar as ondas para o surf, as bancas para as apostas, as montanhas para as caminhadas, a BTT ou o parapente e os relvados para o golf.
Nas fotografias retomamos o mar como motivo central, com uma lancha desportiva costeira, praia e um hotel sobre as dunas e mais um hotel à beira-mar, sol, piscinas e… falésias. A ilustração, também com ressonâncias marinheiras, revela um turista com o púdico fato-de-banho da época, mais uma raquete empunhada e uma sela, em desafio, logo ali ao lado. O mar continua presente na lagosta acompanhada de vinho gelado a propósito, em tentadora bandeja. E flores a condizer.

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Razão número sete: o mar dominante, outra vez, como motivo central. No texto, arrola-se a lista dos produtos inerentes: o peixe e os mariscos logo à cabeça, mais a fruta e a cozinha nacional. Mas, para além de açorda e gaspacho, também servíamos paella e cassoulet, goulash e pizza, kebab e cuscuz, borscht e schnitzel, por exemplo, porque a nossa tradição de quinhentos a tal obrigava. Mas, atenção!, as tascas não eram contempladas, apenas as estalagens ou pousadas oficiais e os estabelecimentos de primeira classe.
A fotografia, por excepção, é única e a toda a vertical disponível. Mar, barcos de recreio, a nossa incontornável tradição de quinhentos no (encoberto) padrão das Descobertas e, em primeiríssimo plano, a oferta gastronómica, em pacote: café, queijo, fruta, vinho, enchidos e marisco. Acho que só falta o pão. O chefe de cozinha, na ilustração anexa, traz-nos o mesmo sortido em colorida pirâmide, apenas lhe acrescentando uma terrina de sopa e um pudim. Continua a faltar o pão. Será por dieta contra a obesidade?

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A oitava razão mantém-nos dos domínios gastronómicos, desta vez com incidência, natural, nos vinhos. Éramos um país vinícola, onde beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses, não o esqueçamos, segundo suprema máxima do Estado Novo. Os vinhos de então eram o do Porto, o da Madeira e os verdes. Se lhes juntarmos o Dão, teremos esgotado, quase, a panóplia da época. O Alentejo vinícola, como fica amplamente provado, ainda não tinha sido descoberto. Então era apenas o celeiro de Portugal, mas quanto a pão, aqui, estamos conversados.
A vindima e um barco rabelo são tema das fotografias selecionadas para esta razão número oito. Diria que a água permanece, assim como as preconceituosas convenções, incontornáveis retratos de um país à beira-mar plantado. Plantado também de videiras, como se sabe. A ilustração não foge ao típico, com um escanção profissional, de provador e avental, ainda por cima laureado com folhas de videira, a propor-nos uma sua especialidade. A piramidal garrafeira, sobre uma pipa de Porto e sobre o solo, garante-nos a diversidade e a qualidade anunciadas. À nossa saúde!

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O cultural propriamente dito é agora tema para a nona razão. De facto, não podemos nem devemos viver apenas para os prazeres do corpo, pois é preciso e conveniente alimentar o espirito. E o autor do texto é sincero até à medula quando reconhece que a arte portuguesa é bastante desconhecida. Nem poupou no grau superlativo! Mas somos artisticamente surpreendentes e expressivos, garante. Alude a domínios variados, como a pintura, a tapeçaria, a azulejaria e a arquitectura. E, como não podia deixar de ser, inclui na lista de ofertas o artesanato, o folclore e a cultura popular expressa nas feiras, festas e procissões. Nada a declarar, excepto a falta de alusão aos nossos museus mais carismáticos.
As fotografias deste canto nono, perdão! desta nona razão, abrangem a cultura popular e a erudita, numa Festa dos Tabuleiros e no túmulo de Inês de Castro. É o Oeste no seu melhor, Tomar e Alcobaça unidos nesta mostra cultural que podia ser, talvez, mais abrangente. São os tais museus, cuja falta senti e anotei, e que aqui dariam jeito, pela sua síntese organizativa. Mas aceita-se a escolha. Quanto à ilustração, julgo ter sido intenção do seu autor (o próprio e genial TOM?) sumariar simbolicamente o vastíssimo e diversificado universo cultural que se adivinha no texto. Estão ali a arquitectura (confesso que nem com uma lupa consegui identificar o motivo encaixilhado), o musealizado, o erudito e o popular. A cadeira mistura um estilo alentejano (?), no bunho do assento e talvez no motivo talhado nas costas, com umas pernas torneadas segundo alheio e bem diverso modelo…

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Atingimos a décima e derradeira razão. De forma quase catequética, atrever-me-ia a considerar conterem-se nesta todas as outras. O motivo central assenta no estribilho de que há mar e mar há ir e voltar (ideia fixa, minha!), que aqui traduzido significa: há um portugal para vir e um portugal para voltar. Somos um velho país totalmente rejuvenescido. Apetece-me desenvolver o mote, à luz da época: somos um povo feliz na nossa tristeza, ambicioso na nossa frustração, sonhador no nosso pesadelo. O pior, o pior de tudo, é que isto passou-se há mais de cinquenta anos e hoje mantém-se actual.
As fotografias finais também respeitam a linha dominante, com Óbidos (outra vez o Oeste, no seu melhor!) e água, num calmo lago ou rio, ignoto, algures neste país íntimo, tranquilo, familiar, cordial, ameno, digno, sabedor, venturoso e límpido, apenas aqui copiando a adjectivação anexa à derradeira legendagem do folheto. A ilustração é premonitória: um país para ver à lupa, de severo punho lembrando sinistras gárgulas, através de uma bandeira às avessas, onde o verde e o vermelho estão trocados na ordem e na dimensão. Lembram-se de quando, há uns anos, o venerando chefe de Estado hasteou o símbolo nacional de cabeça para baixo?

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Proponho uma brevíssima recapitulação às 10 Razones para visitar Portugal, limitada às imagens ilustrativas. Surgem aí, em dez oportunidades, sete figurantes. São todos homens, três deles usando laçarote ao pescoço e outros três ostentando bigode. Era este o retrato real do país nos anos sessenta, masculino, machista, marialva, castiço, convencional…

Mudou alguma coisa?

António Martinó de Azevedo Coutinho