O quadro de honra

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Não aprecio sobremaneira o quadro de honra das escolas. É evidente que tem algum préstimo, como por exemplo o de saber que a escola frequentada pelo meu neto está mais de duzentos lugares acima das da minha terra. E que valor tem este dado, quando eu já sabia que ele estuda numa excelente escola? Isto é uma curiosidade estatística, meramente relativa e o que eu apreciaria era o absoluto.

Por exemplo, que se tentasse perceber a fundo por que estão as escolas privadas cada vez mais à frente do pelotão, deixando as públicas para trás, quase a perder de vista. Tenho um palpite, para além dos status familiares e do seu dinheiro. Provavelmente, entre outras razões menores, isto acontece porque os professores das privadas não precisam de ser colocados trinta e duas vezes por engano entre o Minho e os Algarves enquanto os cérebros ministeriais não acertam na colocação correcta, até à próxima alteração. Provavelmente, entre outras razões menores, isto acontece porque os professores das privadas podem ficar anos seguidos na mesma escola, com segurança, exercendo a sua missão em clima de serena estabilidade e eficácia.

Um dia, que espero nunca venha a acontecer, concluirá o supremo senhor de um qualquer ministério dito da Educação que em função dos sucessivos quadros de honra todo o ensino deverá ser privatizado, a fim de melhorar a sua qualidade. E o mesmo processo, por idênticas razões, deve ser aplicado às polícias, aos tribunais e aos centros de saúde, incluindo os hospitais.

Então todos perceberemos para que servem os rankings. E será demasiado tarde.

Alguém nos procura explicar os números em vez de apenas nos serem apresentadas as listas? Por exemplo, gostaria de saber como se aceita que a Escola Secundária do Monte da Ola, em Viana do Castelo, tenha entrado surpreendentemente no top 10, em 2013, e agora tenha dado um trambolhão para o 393.º lugar!? Teria perdido a divina protecção de Santa Luzia, teriam mudado todos os professores na anual dança de cadeiras de responsabilidade ministerial, ou ter-se-iam os matemáticos enganado nas contas, este ano, no ano passado, ou em ambos?

Gostaria de saber…

Li em diagonal alguns comentários anexos às listas, porque não tenho paciência para mais, em assunto que pouco me atrai. Mas soube, por exemplo (mais um!), que duas das escolas mais citadas pelo seu comportamento são do Oeste, em Caldas da Rainha e na Batalha, vizinhas uma da outra. Mas não é a geografia nem o clima que as une. O que me pareceu mais relevante foi o facto de ambas gozarem do estatuto de contrato de autonomia e de receberem créditos horários por bom desempenho. Ora bem, este parece-me um bom argumento como resposta: o de que a qualidade do ensino melhora na razão directa da independência das arbitrariedades da tutela. Provavelmente, arrisco eu, terão corpos docentes mais estabilizados, professores portanto mais seguros e tranquilos no seu exercício profissional.

E porque este escrito deu a volta como as pescadinhas de rabo na boca, fico-me por aqui. Ainda bem que no meu tempo de professor não havia rankings, nem sequer ministros do tipo deste, o actual. O Crato era apenas uma simpática vila próxima e visávamos o sucesso para honra dos futuros quadros, e não para quadros de honra. E nós, os professores, estávamos juntos e seguros, e assim permanecíamos o tempo suficiente para trabalhar e para nos conhecermos e nos familiarizarmos. Professores, funcionários e alunos.

Muitos, muitos anos depois, ainda somos e seremos amigos. Para sempre.

António Martinó de Azevedo Coutinho

O pior da TV

A nossa televisão, isto é, todos os canais sem qualquer excepção, embora uns mais do que os outros, bateram no fundo do poço da qualidade.

Todos os dias temos sinais, abundantes sinais, desta crise e os últimos tempos foram a prova real de tão lamentável facto. Teremos, provavelmente, a televisão que merecemos? Não, de modo algum.

A televisão tenta domesticar os seus frequentadores e, não havendo ainda uma vacina eficaz contra a epidemia, a única solução é a abstinência. Para mim, e para muito boa gente, o controlo está precisamente no comando. O botão que liga serve também para desligar. É por isso que oiço cada vez mais a rádio.

Pedro Bidarra, que já não precisa de apresentação, é convidado habitual do blog. Aprecio a sua lucidez e a forma muito pertinente e organizada que usa na escalpelização quase cirúrgica do nosso quotidiano. Agora, ele denunciou, em dois sucessivos artigos, este fenómeno das mesas quadradas da nossa TV, juntando notáveis especialistas de detritos, sejam os futebolísticos ou os políticos ou quaisquer outros.

Quatro gajos a falar (quase sempre atropelando-se – acrescento eu) e O povo gosta mesmo de arroz constituem um rigoroso e cruel retrato da televisão que temos. E podem significar uma chamada de atenção, um grito de alerta contra a tal domesticação em que o povo vai caindo. Basta!

Os textos, reproduzidos com vénia e gratidão ao autor e ao Diário de Notícias, foram originariamente publicados no suplemento Dinheiro Vivo de 14 e 21 de Novembro de 2014.

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Agenda do dia – 334

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DIA 334 – 30 de Novembro de 1900

Inventado pelo inglês Franck Hornby, o Meccano, um jogo de construção organizado a partir de elementos metálicos, foi posto à venda a 30 de Novembro de 1900.

Trata-se um brinquedo inventivo que permite juntar de diversas formas, aparafusando-as, as lâminas metálicas perfuradas, que incluem cantos, eixos, placas, rodas e engrenagens, agora até motores, numa verdadeira iniciação à mecânica.

Muito original, fez carreira solitária até à comercialização do plástico que trouxe um seu sucedâneo mais prático e acessível, de grande sucesso, o Lego

Radiografia do interior. Com aspirina.

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Há uns dias, no Domingo 23 de Novembro, o jornal Correio da Manhã publicou um pequeno dossier, de cariz promocional, intitulado Interior de Portugal, com o significativo subtítulo Escolas, centros de saúde e postos dos correios encerram. As farmácias ficam.

Retrato da falência absoluta de todas as políticas das últimas décadas, acentuou-se nestes recentes anos, com o deliberado e forçado encerramento de tudo quanto representasse traço de vida, sinal de esperança, âncora de progresso…

Como se sabe, a função extintora dos actuais responsáveis (!?) governativos estendeu-se também aos governos civis, juntas de freguesia, tribunais, repartições diversas e por aí adiante, fora os ameaços.

A desertificação acentua-se e para tanto já nos bastavam os efeitos climáticos. Mas, ainda assim, quando lemos aqueles números ficamos assustados.

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Diz o texto, sem qualquer desmentido ou contraditório, que encerraram 1.330 postos de correio e que fecharam três em cada quatro escolas primárias. Segundo os insuspeitos dados do Instituto Nacional de Estatística, nos domínios da saúde, entre 2003 e 2012, fecharam 200 serviços de atendimento permanente (SAP) e de urgência básica (SUB), quase 39% do total anterior. O poder político anunciou como alternativa o reforço dos meios de emergência médica, mas todos sabemos dos casos quase quotidianos de indisponibilidade de ambulâncias e de veículos medicalizados (INEM), com o inerente custo de vidas humanas.

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Como contrapartida, tranquilizadora, sabemos que é possível continuar a adquirir aspirinas um pouco por todos os recantos do deserto, mesmo fora dos oásis.

Beduíno Dor-de-Cabeça e Silva

Vinho de Portalegre

Vinho de Portalegre. Património Material e Líquido da Humanidade. Se não é, devia sê-lo!

Notícia de Portalegre nos meios de comunicação, marcada pela positiva, é rara. Por isso, tem de ser aproveitada e divulgada. Esta, do magnífico vinho de Portalegre, das encostas ensolaradas e frias de São Mamede, vinho alentejano no seu melhor, é uma excelente e sempre oportuna notícia. Veio estampada, em letra e forma e ilustrada, no suplemento Fugas, do jornal Público do Sábado, dia 22 de Novembro.

Vinhas extraordinárias, vinhos clássicos e grandiosos – as expressões nem sequer são minhas, que nada percebo de vinhos, mas de quem sabe.

Acredito. E por isso, para que outros partilhem a boa nova, aqui fica. Com vénia e com a felicidade de saber que pelos lados de São Mamede permanece, apesar de tudo, a qualidade.

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Agenda do dia – 333

 

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DIA 333 – 29 de Novembro de 1945

O marechal comunista croata Josip Broz, conhecido por Tito, criou a 29 de Novembro de 1945 a República Federal Socialista da Jugoslávia. Aí reinou, ditatorialmente, até à sua morte, em 4 de Maio de 1980.

Compunha-se de seis repúblicas: Bósnia-Herzégovina, Croácia, Macedónia, Montenegro, Eslovénia e Sérvia.

Todos sabemos hoje no que deu aquela forçada junção do pós-guerra…

Filipe de Sousa Folque – um ilustre desconhecido portalegrense

ffruaRua Filipe Folque. É ali, na designação de uma rua da orla Norte da cidade de Portalegre, que fica tal nome registado. Mas, se for perguntado à imensa maioria dos cidadãos locais quem foi Filipe Folque, a resposta não será nada conclusiva. Os portalegrenses não sabem quase nada sobre o seu conterrâneo, nem sequer que com ele partilham a naturalidade. E isto é manifestamente injusto, sendo igualmente de realçar que pouco, muito pouco, tem sido feito para levar ao conhecimento dos cidadãos locais o nome, muito menos o registo dos feitos, dos seus maiores vultos. E Filipe Folque está entre estes.

 

Filipe de Sousa Folque nasceu em Portalegre a 28 de Novembro de 1800,ff precisamente há duzentos e catorze anos. Morreria em Lisboa, na Lapa, a 27 de Dezembro de 1874, depois de uma brilhante carreira política, militar e científica, sobretudo nos domínios matemáticos e afins.

Filho do tenente-general Pedro Folque, catalão de nascimento, e da portalegrense Maria Micaela de Sousa, Filipe assentou praça na Armada como voluntário, aos vinte anos. Em paralelo com a carreira militar, doutorou-se em Matemáticas na Universidade de Coimbra, em 1926. Nesta cidade foi ajudante do Director de Obras do Mondego e do Observatório Astronómico da Universidade.

Depois, passaria ao serviço no Exército, em 1833, atingindo o posto de General de Divisão da Arma de Engenharia. Regressou esporadicamente à Marinha, para exercer o lugar de catedrático na Academia desta Arma, onde desenvolveu os cursos de astronomia, geodesia, topografia, hidrografia e cartografia. Foi ainda lente na Escola Politécnica de Lisboa.

Em 1840, candidatou-se a Deputado pelo Círculo de Portalegre. Também viria a ser parlamentar pelo Círculo de Lisboa.fifolq

Foi professor de Matemática das filhas de D. Maria II. Como conselheiro, acompanhou D. Pedro V e seu irmão, futuro rei D. Luís I, em duas viagens que estes fizeram pela Europa (Inglaterra, França, Alemanha, Suíça, Áustria, Bélgica e Itália), em 1854 e 1855.

Conjuntamente com o pai, que viveu mais de um século (104 anos), foi encarregado de executar a Carta Topográfica de Portugal, à escala de 1:100.000. Exerceu ainda as funções de Director-Geral dos Trabalhos Geodésicos, Topográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino, entre 1844 e 1870. Foi autor da Carta Topográfica de Lisboa (1856-1858) e Sócio Efectivo da Academia Real das Ciências. ffplacas

Durante o trabalho na capital, fez aí colocar em inúmeras fachadas de prédios pequenas placas metálicas onde se assinalava a altura do local em relação ao nível médio das águas do mar. Algumas daquelas placas ainda hoje subsistem…

Deixou publicadas muitas obras, sobretudo nos domínios matemáticos e geodésicos, tendo sido um grande impulsionador da cartografia em Portugal, colocando-a ao nível do melhor que se fazia na Europa, o que seria reconhecido internacionalmente. Também publicou assiduamente artigos na prestigiada Revista Militar.

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Porque era um exímio flautista e dotado de grandes conhecimentos musicais, chegou a colaborar com Almeida Garrett na fundação do Conservatório Nacional, onde viria a ser Director da Secção de Música.

filipe folque barra do Porto

Casou com Maria Luzia Possolo Picaluga, tendo dois filhos, Virgínia e Pedro.

Recebeu a mercê régia da nomeação como Fidalgo da Casa Real e Par do Reino. Foi agraciado com a Ordem Militar de Santiago da Espada, grau de Grã-Cruz, e com o grau de Comendador das seguintes Ordens: Real Ordem de S. Bento de Avis, Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, Ordem de Leopoldo (da Bélgica), Ordem da Coroa de Carvalho e Ordem do Leão (ambas dos Países-Baixos), Legião de Honra (de França) e da Ordem de S. Jorge (do Reino das Duas Sicílias).

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Aqui fica, em traços gerais, algo sobre a riquíssima e bem preenchida vida de um quase ignoto portalegrense, que por acaso até deu nome a uma rua na sua e minha terra.

Faria hoje duzentos e catorze anos. O pai não viveu 104?…

António Martinó de Azevedo Coutinho