Uma antiga e nobre ordem de cavalaria…

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Nas minhas actuais deambulações pela memória e pela escrita, quando vou perdendo neste blog algumas anteriores ligações e referências, consulto no entanto os apontamentos pessoais que assinalam datas, sítios e nomes. E hoje está lá escrito: Cavaleiro Andante, 1952. Uma data, um título, sobretudo uma recordação.

Nas habituais leituras que quase sempre pela manhã vou fazendo pelos locais tornados obrigatórios, ou rituais, nada me surpreendeu por isso a referência, como sempre certeira, que Jorge Magalhães colocou hoje n’O Gato Alfarrabista. Incontornável…

Senti-me logo dispensado de lhe acrescentar fosse o que fosse, mas julgo, agora, que isso seria injusto. O Cavaleiro Andante, na linha dos episódios pessoais que aqui tenho recentemente evocado, significou de certo modo uma “ressurreição” em quadradinhos.

Nesse Janeiro de há sessenta e três anos, passada a fase mais crítica da nossa vida familiar, pude voltar ao privilégio do reencontro com a paixão cultural desses tempos, ainda hoje mantida. Ou hoje reforçada?

O Cavaleiro Andante foi um dos mais significativos jornais infanto-juvenis portugueses de todos os tempos. Pessoalmente, se me pedissem uma ordenação daqueles que conheci, teria dificuldade em não lhe conceder o lugar mais alto de um virtual pódio. É por isso que apesar do respeito e admiração mantidos por especialistas da matéria como António Dias de Deus ou Leonardo De Sá, deles em absoluto discordo quando à apreciação que sobre o jornal colocaram num luxuoso volume onde alguma parcialidade no conteúdo crítico pouco corresponde à sua excelente qualidade formal. Falo de Cavaleiro Andante, Edições Época de Ouro, Costa da Caparica, 1999.

Adolfo Simões Müller, talvez cansado com a fórmula do Diabrete, que sabiamente dirigira durante a sua existência (1941-1951), ensaiara logo a seguir um novo modelo, mais actualizado segundo os seus critérios. O editorial do novel jornal anunciara tais propósitos, entre os sucessórios e os inovadores, dirigidos a uma gama etária mais dilatada, servidos por uma renovada imagem gráfica e por conteúdos mais modernos. Depois, houve aí uma nítida intenção, também explicitamente declarada, de utilizar mão-de-obra nacional, desde o consagrado Fernando Bento ao veterano Stuart Carvalhais e até aos novos valores, privilegiando depois a produção europeia em vez do recurso às histórias norte-americanas. E, ao longo da próxima década, num tempo de vida similar ao do Diabrete, o Cavaleiro Andante presentear-nos-ia com uma infinidade de páginas coloridas por onde passaram frente às nossa mentes e olhos encantados os mais diversos conteúdos, no semanário e nos seus anexos, os suplementos, os álbuns, os números especiais e de Natal, as histórias originais e as adaptações dos grandes clássicos (de aventuras e não só!), as novelas, as construções de armar e outras separatas, as iniciativas culturais, as colecções de cromos, os concursos… E logo depois, em 1962, viria o Zorro, completando a “trindade”, reclamando a herança mas confirmando já a sua inevitável crise.

Enfrentando dura luta contra publicações mais ou menos consistentes como Condor ou O Falcão, O Mosquito já em agonia, O Mundo de Aventuras pujante que representava a produção made in USA, as iniciativas editoriais da Mocidade Portuguesa ou publicações efémeras como Titã e Flecha, o Cavaleiro Andante viveu difíceis tempos históricos de contestação oficial (ou oficiosa!?) aos quadradinhos, unindo pedagogos, políticos e autores da chamada literatura infanto-juvenil, sob a capa de famigeradas instruções censórias indígenas e dos reflexos vertidos das Américas pela ácida pena de Fredric Wertham e de outros paladinos dos falsos moralismos. Enfim, o Cavaleiro Andante, indiferente a todos estes cataclismos sociais, representou na inocência da nossa puberdade uma saudável ocupação de tempos livres, a fonte possível de todos os sonhos e desejos, lugar de fantasias, e até ponto de encontro, hoje ainda, de gratas memórias de tempos irrepetíveis.

Por isso o lembramos, Jorge Magalhães, eu próprio e tanta, tanta gente como nós, onde ainda não se apagaram as lembranças da mocidade.

Nestas breves imagens de “antologia”, relembro o inesquecível Cavaleiro Andante, companheiro de outros tempos, companheiro de hoje, companheiro de sempre, até haver alguma sobrevivente memória que nos valha…

António Martinó de Azevedo Coutinho

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