As 50 sombras de Estaline

marchinha

Entre Junho e Agosto de 2013 trouxe aqui ligeira abordagem a uma interessante e cada vez mais actual problemática, a da manipulação das imagens.

Agora isto voltou em força, a propósito do Charlie Hebdo, mais concretamente em relação à manifestação de solidariedade, esmagadora, prestada em homenagem às vítimas do massacre e em repúdio para com os fundamentalistas assassinos islâmicos.

marchaA gigantesca marcha de solidariedade que encheu as ruas de Paris teve à cabeça algumas dezenas de líderes políticos, europeus e não só. Mas jornais de todo o mundo têm revelado sobre isto algumas perplexidades. A pergunta é: as imagens do impressionante conjunto de políticos foram manipuladas antes ou depois? A resposta é difícil, sobretudo porque a manipulação de imagens é fenómeno cada vez mais frequente e sofisticado.

Aqui, por motivos de natureza comunicacional, ilustrativa ou complementar do texto, faço-o frequentemente. Corto, colo, junto, combino imagens. Não viso a manipulação pelo engano mas pela eficácia, jamais procurando produzir uma intencional mentira ou propor uma alteração dos factos objectivos.

Mas na imprensa, nalguma imprensa, ou em certas redes sociais, esta prática é vulgar embora desviante, quase quotidiana e assumida com pretensa normalidade. É um dos resultados da massificação e das regras do mercado.

Agora, sobre as imagens do conjunto de personalidades políticas, foram exercidas algumas falsificações, grosseiras umas, subtis outras, denunciadas umas, ocultadas outras, evidentes umas, subliminares outras.

Entre nós foi sobretudo o jornal Público, sempre atento, que tratou o tema, num interessante trabalho dos jornalistas Hugo Torres e Sérgio B. Gomes, divulgado no sábado, dia 17 de Janeiro. Em A Marcha corte-e-cola de Paris, eles mostraram algumas das manipulações de toda a ordem produzidas e divulgadas um pouco por todo o mundo.

Nem sequer se justifica aqui repetir pormenorizadamente o excelente e bem informado texto, bastando recordar as imagens alteradas, como as que reduzem o grupo a Angela Merkel ou a Nicolas Sarkozy, as que o limitam a Mogherini, Merkal e Anne Hidalgo ou as que, pelo contrário, apagam todas as mulheres, enfim, a (humorística) que coloca uma cadeira à disposição dos mais fatigados…

Até aqui é evidente a manipulação das fotomontagens, por graça, troça, humor, discriminação, censura…

Onde as coisas mudam de figura é na fotografia, em plongée, vendo-se o grupo marchante de cima, onde a triangular e qualificadíssima cabeça do pelotão se revela isolada, sem os restantes participantes, as centenas de milhares de anónimos participantes, à vista…

marchantes

A realidade é real? – eis a pergunta que os articulistas deixam no ar, perdão!, no papel. O distanciamento deveu-se a naturais medidas de segurança ou foi ditado pela incapacidade (medo!?) de os políticos se misturarem com o povo, todos lado a lado, afinal como cidadãos unidos no mesmo grito de revolta contra a barbárie? A Democracia é bonita, mas algo teórica, afinal…

É que a televisão pareceu mostrar que aquelas cinco dezenas de responsáveis governativos iam à frente da multidão, quando afinal -ao que parece- eles terão desfilado por uma outra avenida, bem guardada e inacessível aos manifestantes que nunca estiveram juntos, nem lá perto… Ao que parece, segundo algumas fontes, houve dois quilómetros de separação.

Enfim, com o barulho das luzes -como se diz- as imagens “em directo” foram pouco ou nada explícitas quanto a este “pormenor”. Então ninguém pareceu perceber que aquilo era uma manifestação encenada, paralela à real. Real ou realidade…

Quem fica em causa é, sobretudo, o fotojornalismo. Já nem sequer é preciso ressuscitar Estaline e as suas grosseiras e sombrias viciações fotográficas, ainda nos tempos do analógico. A finalidade do fotojornalismo, a de atestar o real –o fotógrafo estava lá!-, começa a ser posta em causa pela manipulação das imagens, que o digital veio facilitar.

O pior é que o essencial daquilo que está em causa não é meramente socioprofissional, mas sobretudo ideológico. E atinge-nos, a todos, na disseminação da dúvida sobre a verdade objectiva dos factos. Uma imagem não vale mais por mil palavras, mas por mil e uma, e esta última será a única credível.

A marcha corta-e-cola de Paris é o mais recente episódio desta interminável saga.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s