Colecções, profissões e mais sugestões – 05

colecções

Uma série de 24 caixas de fósforos da Fosforeira Portuguesa de Espinho, decoradas com desenhos de diversos profissionais e especialmente dedicadas aos Pregões de Lisboa, é o tema que hoje começa a ser reproduzido nas Colecções.

Datada de 1983, é composta por uma sucessão de desenhos realistas, coloridos e de apreciável qualidade, impressos na face das caixa que têm no verso o título da figura representada mais o respectivo e característico pregão. Tinham 40 fósforos e custavam 2$50.

Um pregão, como se sabe, é uma fala pela qual se anuncia publicamente alguma coisa, que pode ser diversa, como algo a ser negociado (o mais comum), ou aviso de interesse comunitário, proclamação de funeral ou casamento, divulgação de acto específico como lotaria, leilão ou intervenção na bolsa, etc.

Hoje os pregões, excepto em raros locais onde o costume permanece e até se conserva em nome de antigas tradições, estão bastante limitados ou assumiram mesmo versões electrónicas. O amolador de tesouras e navalhas, “arqueologia industrial personalizada” que vai resistindo aos tempos, já não costuma associar o seu típico pregão ao toque de gaita ainda persistente…

Perde-se em antigas eras o pregão, cujo profissionais remontam à Roma clássica, onde o pregoeiro se encarregava das proclamações solenes. As monarquias medievais conservaram e prolongaram tão útil função comunicacional e comunitária, que atravessou séculos e continentes até hoje.

Lisboa, entre nós, tornou-se local de privilégio para os pregões de que há ali notícia desde o século XVI, quando as especiarias e outros produtos orientais eram anunciados por praças e ruelas da capital, na chegada de naus das Índias.

Depois, durante os séculos seguintes, nomeadamente do XIX ao XX, começaram a impor-se os denominados pregões alfacinhas, sobretudo oriundos dos saloios dos arredores que vinham à capital vender os seus produtos, os mais diversos bens essenciais, do leite à fruta, do pão ao vinho. Àqueles juntavam-se os “autóctenes” como as varinas ou os vendedores de sorvetes, por exemplo.

As três primeiras caixas desta colecção são dedicadas a vendedeiras que apregoam fruta: morangos, azeitonas e figos. Valorizando o trajo, fielmente reproduzido, o artista não esquece o envolvimento, onde pretende evocar recantos de Lisboa.

01

De notar que os morangos eram fornecidos com a sua embalagem, em cesta, quando ainda nem sequer tinha sido inventada a praga dos sacos de plástico não reciclável… Quanto à azeitona, era anunciada como bem fresca, acabada de arrancar do ramo, ainda não temperada, portanto. O figo era então considerado como um “conduto”, que muita gente comia com pão, assim servindo de refeição.

O mesmo cuidado estético envolve o conjunto seguinte, agora preenchido por mais um trio de profissionais femininas do pregão, anunciando a venda de fava-rica, marmelos assados e mexilhão.

02

A fava-rica, já pré-cozinhada e devidamente temperada com sal, vinagre, alho picado e pimenta, servia como sopa e era transportada, normalmente, numa grande panela ou alguidar, à cabeça. Os marmelos, seguramente assados em forno de lenha, dispunham na imagem de duas vendedeiras sustentando o contentor de razoável dimensão.

Erre, erre, mexilhão” merece um especial comentário. Era costume então considerar que apenas se devia comer marisco nos meses com “erre”, o que excluía precisamente os melhores para apreciar tais delícias do mar. No entanto, esta crença de natureza sanitária tinha razão de ser, pois no tempo do calor verifica-se uma maior concentração de microalgas tóxicas e daí existe uma maior probabilidade de se ficar doente por comer marisco, em especial bivalves, entre os quais está precisamente o mexilhão. Nos tempos pré-ASAE, as vendedeiras de mexilhão cumpriam normas de segurança alimentar e anunciavam publicamente tal cuidado.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Vamos concordar em discordar

acordo-ortografico-nao-obrigado

Boss AC, de seu nome próprio Ângelo César do Rosário Firmino, natural de Cabo Verde e filho de pais cabo-verdianos, é um rapper e cantor de hip hop, sendo entre nós um apreciado pioneiro do género, com um currículo considerável.

boss acAchei interessante a sua preocupação e cuidado com o língua que partilhamos, língua que sei por repetida experiência própria muito estimada e cultivada nessas ilhas da morabeza e das mornas.

O texto de Boss AC foi publicado no passado Domingo, no habitual suplemento com esta designação do Correio da Manhã, jornal que usa como grafia oficial o acordês. Por isso, ainda mais valor assume a iniciativa do cantor, que saúdo.

Com vénia ao autor e ao jornal, aqui fica Vamos concordar em discordar.

E um merecido brinde…

LÍNGUA

Um contista português contemporâneo

pc contador histórias

Como se sabe, foi há pouco evidenciado entre nós um extraordinário contador de histórias para crianças e outras ficções. O seu talento ofuscou completamente demais personalidades deste género narrativo e promete uma carreira sem igual, que ficará na história literária, e não só, do país, da Europa, quiçá do Mundo. Modesto e comunicativo, especializou-se em diversas literaturas, sobretudo a grega, mais a contemporânea do que a clássica. No entanto, também se distingue no domínio das lendas germânicas.

As suas histórias têm eco na Europa e já dispõem de um clube de fãs, assim como de afeiçoados discípulos. E discípulas.

O seu nome é Pedro Passos Coelho. Para que conste, enquanto não entrar nos manuais e tratados da especialidade.

Houve em tempos em Portugal um tal Guerra Junqueiro que pretendeu, entre outros desempenhos, viver um papel semelhante ao deste actual contador. Sem qualquer êxito. Para isso provar, com imensa facilidade, aqui se desvenda a seguir uma das tentativas do tal Guerra Junqueiro para chegar junto às crianças do seu tempo. Para isso, reproduz-se parcialmente um volume dos Contos para a Infância por ele recolhidos. Trata-se de uma modesta obra editada em 1919, quase há um século.

Daí se retirou um conto intitulado Os gigantes da montanha e os anões da planície, de autor anónimo do século XIX.

contos 01 001 contos 02 001 contos 03 001 contos 04 001 contos 05 001 contos 06 001

A seguir, junta-se-lhe a versão contemporânea, devidamente adaptada por Pedro Passos Coelho, para melhor se avaliar a qualidade do actual contador, perante a vulgaridade de Guerra Junqueiro.

 CONTOS 1 CONTOS 2 CONTOS 3 CONTOS 4 CONTOS 5 CONTOS 6

Tintin volta ao Irão – 17

TINTIN NO IRÃO 2

O álbum iraniano Tintin no País dos Sovietes, copiado de uma edição pirata sincopada e colorida, continua a sua saga.

Os conjuntos hoje reproduzidos, segundo o esquema “paralelo” escolhido, correspondem às páginas seguintes:

 Edição original em álbum              Edição iraniana
          13 e 14                                                6
          15 e 16                                                7
          17 e 18                                                8
          19 e 20                                                9
          21 e 22                                              10
          23                                                                  

A prancha “suplementar”, a 23.ª, serve para acertar o desenvolvimento da narrativa.

Nesta fase da história, ainda no seu início, o jovem jornalista e o seu fiel companheiro canino estão já em plena Rússia para levar a cabo a missão profissional que aí os conduziu.

Esta incipiente aventura de Tintin foi construída em função do ritmo narrativo que derivava da periodicidade semanal da sua publicação, com duas pranchas por número, depois reduzidas a menos de metade na edição que agora nos interessa analisar. Era visado por Hergé, sempre que possível, obter uma espécie de clímax narrativo, com situações de suspense a pontuar cada sucessivo par de páginas originais.

O conjunto hoje apresentado não dispõe de motivos de interesse com especial significado. Ainda assim, há pormenores que merecem menção.

Registamo-los com referência à ordenação das páginas à esquerda pois, como já foi destacado, a sua tradução reduzida e a cores prejudica ou anula alguns desses pormenores.

tt 06 tt 07 tt 08 tt 09 tt 10

tt 10aAssim, na página 13, a grosseira “reparação” numa perna da mesa onde se senta o comissário bolchevique pretende revelar o miserável estado de coisas, até as mais vulgares, no universo comunista. Depois, ainda mais grave porque de natureza “ideológica”, vem o conselho de que dará menos nas vistas eliminar Tintin através de um adequado “acidente” do que, espectacularmente, a tiro…

Vem na mesma linha de confirmação do anterior miserabilismo local a página 13, onde Milou se queixa de que na Rússia nem sequer haverá ossos!

A vinheta panorâmica central da página 17 mostra uma representação gráfica do movimento em tudo semelhante à arte cinética que o celebrado pintor futurista italiano Giacomo Balla (1871-1958) praticava na época em muitas das suas dinâmicas obras.

tt0

A seguir, é na página 20 que Hergé “antecipa” a globalização, quando reproduz entre as peças de ferro-velho uma lata de biscoitos ingleses Huntley & Palmers, ao tempo famosos, assim como um bidão da multinacional de petróleos Shell. Por outro lado, isto pode ser encarado como um sinal da necessidade (leia-se: dependência) da Rússia quanto aos artigos estrangeiros de importação…

latas

Nas restantes páginas hoje reproduzidas nada mais de especial me merece citação.

Aguardemos o próximo bloco, onde questões interessantes vão surgir…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

AMNISTIA INTERNACIONAL – Relatório Portugal 2015

amnistia internacional logo

Foi há pouco tempo divulgado o relatório da Amnistia Internacional para este ano. Ficam a seguir reproduzidos o comentário colhido no Sapo Notícias on line, o relatório na parte referente a Portugal e dois curtos artigos a propósito, divulgados no Diário de Notícias e no Público do dia 25 de Fevereiro.
Por aqui se poderá saber o tanto, imenso, que há ainda a fazer por cá em termos de respeito pelos direitos humanos mais básicos.
Portugal, com efeito, não é portanto um país europeu civilizado como o governo gosta de pintar com as suas fantasiosas cores, nem sequer uma espécie de paraíso para chinês ver, como outra personalidade -com sérias responsabilidades- apregoou há pouco…

Relatório Anual 2015 Amnistia Internacional

Portugal deve proteger os direitos humanos no contexto dos programas de austeridade e combater a discriminação

Situações de uso excessivo da força pela polícia e condições prisionais inadequadas assim como casos de discriminação de comunidades ciganas são o tema em destaque em Portugal no Relatório Anual de 2015 da Amnistia Internacional. No panorama de direitos humanos no país assinala-se também o impacto das medidas de austeridade no exercício dos direitos económicos e sociais, nomeadamente nos casos assinalados como tal pelo Tribunal Constitucional.amnistia internacional

Estas preocupações destacadas no Relatório Anual tinham sido já expressas pela Amnistia Internacional quando Portugal foi avaliado na Revisão Periódica Universal, em sede das Nações Unidas, em Abril de 2014. Logo na altura foi destacada a necessidade de o país proteger os direitos humanos dos grupos mais vulneráveis no contexto de crise económica.

O Relatório Anual descreve ainda situações de sobrelotação prisional, condições prisionais inadequadas, e ainda de excesso do uso da força por parte das forças de segurança.

Além dos casos concretos de discriminação das comunidades ciganas mencionados no Relatório Anual, refere-se ainda a discriminação com base na orientação sexual, designadamente no que respeita a coadopção de crianças por casais do mesmo sexo, bem como a questão que transita de anos anteriores que respeita à violência sobre mulheres e raparigas.

Por fim, no que toca à situação de refugiados e requerentes de asilo em 2014, o Relatório Anual assinala a nova legislação sobre asilo adoptada em Janeiro em Portugal, que amplificou os critérios de detenção de pessoas requerentes de protecção internacional, e destaca as condições de sobrelotação que se continuam a verificar no Centro de Acolhimento em Lisboa.

 RELATÓRIO ANUAL 2015
PORTUGAL
REPÚBLICA PORTUGUESA

 Chefe de Estado: Aníbal António Cavaco Silva
Chefe de Governo: Pedro Manuel Mamede Passos Coelho

Continuaram a verificar-se denúncias de uso excessivo da força pela polícia e condições prisionais inadequadas. As comunidades ciganas continuaram a enfrentar discriminação. As medidas de austeridade afectaram o exercício dos direitos económicos e sociais e, em algumas situações, foram consideradas inconstitucionais.

ANTECEDENTES

Em Maio, o relatório do Grupo de Trabalho sobre a Revisão Periódica Universal da ONU relativa a Portugal enfatizou a necessidade de o país proteger os direitos humanos dos grupos vulneráveis face ao impacto negativo das medidas de austeridade adoptadas em 2013. Também em Maio, o Tribunal Constitucional declarou várias medidas de austeridade inconstitucionais, devido ao seu impacto desproporcional sobre os direitos económicos e sociais. As medidas adoptadas em 2013 incidiram sobre os salários dos funcionários públicos, as pensões e os subsídios de doença e de desemprego. No caso dos salários, não se verificaram compensações retroactivas pelos efeitos negativos já gerados por tais medidas. No fim do ano, o Governo planeava reintroduzir medidas semelhantes no novo orçamento.

TORTURA E OUTROS MAUS TRATOS

Em Julho de 2014, dois guardas prisionais foram condenados pelo tribunal de Paços de Ferreira a oito meses de pena suspensa por uso excessivo da força, em 2010, contra um recluso do estabelecimento prisional de Paços de Ferreira. Os dois guardas entraram na cela do recluso para o obrigarem a limpar a cela, ou a sair dela com vista a que esta fosse limpa. Ainda que o recluso tenha obedecido às ordens para se levantar, voltar as costas para a porta da cela e ficar de frente para a janela, os guardas recorreram a uma arma Taser para o imobilizar.

O tribunal considerou que a arma Taser foi usada de modo desproporcional, particularmente pela circunstância de o homem não ter manifestado qualquer violência contra os guardas prisionais.

CONDIÇÕES PRISIONAIS

Em Dezembro de 2013, o Comité contra a Tortura da ONU reportou situações de maus tratos e de uso excessivo da força, bem como sobrelotação das cadeias e condições prisionais deploráveis, particularmente nos estabelecimentos prisionais de Santa Cruz do Bispo e Estabelecimento Prisional de Lisboa.

 DISCRIMINAÇÃO – COMUNIDADES CIGANAS

Continuaram a ser denunciados desalojamentos forçados de famílias de comunidades ciganas.

Em Junho, as casas de 67 membros da comunidade cigana da Vidigueira, incluindo 35 crianças e três mulheres grávidas, foram demolidas pelas autoridades municipais na sua ausência. De acordo com relatos, o desalojamento foi feito sem aviso prévio, e as famílias não tiveram a oportunidade de reunir os seus pertences antes das casas fossem demolidas. As famílias ficaram sem ter onde morar em resultado do desalojamento. Em Setembro foi criada, numa escola de Tomar, uma turma constituída exclusivamente por crianças de comunidades ciganas, com idades entre os 7 e os 14 anos. Nenhuma acção foi levada a cabo pelas autoridades responsáveis para dirimir a segregação das crianças das comunidades ciganas.

DIREITOS DE PESSOAS LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRANSSEXUAIS E INTERSEXUAIS

Em Março, um projecto de lei que visava alterar a actual legislação, com vista a garantir que casais constituídos por pessoas do mesmo sexo pudessem coadoptar crianças, foi rejeitado.

REFUGIADOS E REQUERENTES DE ASILO

A nova legislação sobre o asilo adotada em Janeiro alargou os critérios de detenção de pessoas em busca de protecção internacional. Continuou a verificar-se sobrelotação no Centro de Acolhimento para Refugiados do Conselho Português para os Refugiados, em Lisboa, que acolhe requerentes de asilo enquanto aguardam uma decisão acerca do seu estatuto.

VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES E RAPARIGAS

De acordo com dados disponibilizados pela ONG UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), até 30 de novembro, 40 mulheres tinham sido mortas pelos seus parceiros, ex-parceiros ou familiares chegados; verificaram-se também 46 tentativas de homicídios. O número aumentou face a 2013, ano em que se registaram 37 homicídios.

AMNISTIA

Cinco semanas no Japão – 15

pipinha cabeçalho

                                                              Tokyo 2020toquio2020

 

Como será Tokyo em 2020?
Como será a transformação para os Olímpicos?

tokyo olympic

Como ficam as ruas sem caixotes do lixo?
Como falam todas as pessoas que agora apenas sabem japonês?
Como se gesticula sem os gestos do Ocidente?

tira

Imagino mais mapas.tokyo 2020
Imagino mais ajuda.
Imagino mais caixotes do lixo.
Imagino mais inglês.
Imagino mais visitas.
Imagino mais comunicação.
Imagino mais divulgação.
Imagino mais turistas.
Imagino mais ocidentalização.

Imagino menos espanto.
Imagino menos acanho. tokio 2020
Imagino menos naturalidade.
Imagino menos beleza.
Imagino menos distanciamento.
Imagino menos diferenças.
Imagino menos magia.

Se puderem vão a Tokyo antes de tudo isto se transformar.

Filipa Azevedo Coutinho

É preciso descaramento!

 UM TAL ARISTIDES

Veio numa pequena nota a um canto do jornal. Isto era de supor, depois de dona Amália lá ter ido parar e agora o senhor Eusébio estar predestinado ao mesmo destino, junto dos imortais indígenas.

Toda a gente se supõe conhecedora de personalidades dignas de figurar na lista dos “panteonáveis”. [Nem sei se o termo existe, mas em tempos de acordo ortográfico, também me sinto no mesmo direito de estropiar a língua] Dizia eu que toda a gente se supõe conhecedora de restos mortais de ilustres figuras merecedoras de depósito no honroso lugar onde repousam os que mais engrandeceram a pátria.

Ora apareceu uma petição a exigir a entrada de um tal Aristides de Sousa Mendes. Acho que muito bem andaram os senhores deputados ao afirmar que é prematuro antecipar qualquer decisão sobre esta proposta. Tantas vezes criticados sem razão, ei-los a mostrarem a sua verdadeira face, a de autênticos defensores da causa pública, a de zelosos guardiães da honra da pátria. De facto, tão prestes e entusiastas se mostraram a enfiar no Panteão as ossadas da Amália e do Eusébio, essas sim, figuras que tanto engrandeceram Portugal, como claramente agora revelaram a sua inteligência e a sua sagacidade ao colocarem em adiada dúvida a candidatura do tal Aristides.

Com efeito, em que clube jogou o homem? Quantos golos marcou? Apanhou algum cartão vermelho? Por acaso terá sido nomeado para a Bota de Ouro ou, no mínimo, para um galardão da Caras? E alguém o ouviu a cantar um fado, numa tasca que fosse? Algum disco do tipo foi platina? Teria actuado no Coliseu, com lotação esgotada? Quanto tops semanais tiveram as suas canções? Sim, alguém sabe alguma coisa de jeito sobre isto? Quem foi o tipo, afinal, ao pé da grande Amália ou do enorme Eusébio?

É preciso, de facto, descaramento! Ah, grandessíssimos deputados, como estou orgulhoso de vós!

assembleianacional

Além de ser uma despesa considerável e inútil, que a troika até nem devia apreciar e ela como se sabe não pode ser contrariada, quem manda nisto é o Parlamento. Razão tem, com efeito, a sagaz senhora presidenta do dito ao garantir que nessas coisas de entrar no Panteão quem mais ordena são os senhores de São Bento. É por isso que quase tudo o que daqui sai é parlamentar, repito, para lamentar.

Neste particular estou com os dignos representantes da Nação. O Panteão é um lugar destinado apenas e só a figuras acima de qualquer suspeita e de grande qualidade patriótica, como por exemplo os impolutos presidentes Teófilo Braga, Sidónio Pais ou Óscar Carmona ou os heroicos portugueses que foram Amália Rodrigues ou Eusébio da Silva Ferreira. O que iria para lá fazer, junto de imortais de tamanha dimensão, esse tal Aristides de Sousa Mendes?

De facto, é imperioso manter o nível.

 Santos Engrácio

new-1