É preciso descaramento!

 UM TAL ARISTIDES

Veio numa pequena nota a um canto do jornal. Isto era de supor, depois de dona Amália lá ter ido parar e agora o senhor Eusébio estar predestinado ao mesmo destino, junto dos imortais indígenas.

Toda a gente se supõe conhecedora de personalidades dignas de figurar na lista dos “panteonáveis”. [Nem sei se o termo existe, mas em tempos de acordo ortográfico, também me sinto no mesmo direito de estropiar a língua] Dizia eu que toda a gente se supõe conhecedora de restos mortais de ilustres figuras merecedoras de depósito no honroso lugar onde repousam os que mais engrandeceram a pátria.

Ora apareceu uma petição a exigir a entrada de um tal Aristides de Sousa Mendes. Acho que muito bem andaram os senhores deputados ao afirmar que é prematuro antecipar qualquer decisão sobre esta proposta. Tantas vezes criticados sem razão, ei-los a mostrarem a sua verdadeira face, a de autênticos defensores da causa pública, a de zelosos guardiães da honra da pátria. De facto, tão prestes e entusiastas se mostraram a enfiar no Panteão as ossadas da Amália e do Eusébio, essas sim, figuras que tanto engrandeceram Portugal, como claramente agora revelaram a sua inteligência e a sua sagacidade ao colocarem em adiada dúvida a candidatura do tal Aristides.

Com efeito, em que clube jogou o homem? Quantos golos marcou? Apanhou algum cartão vermelho? Por acaso terá sido nomeado para a Bota de Ouro ou, no mínimo, para um galardão da Caras? E alguém o ouviu a cantar um fado, numa tasca que fosse? Algum disco do tipo foi platina? Teria actuado no Coliseu, com lotação esgotada? Quanto tops semanais tiveram as suas canções? Sim, alguém sabe alguma coisa de jeito sobre isto? Quem foi o tipo, afinal, ao pé da grande Amália ou do enorme Eusébio?

É preciso, de facto, descaramento! Ah, grandessíssimos deputados, como estou orgulhoso de vós!

assembleianacional

Além de ser uma despesa considerável e inútil, que a troika até nem devia apreciar e ela como se sabe não pode ser contrariada, quem manda nisto é o Parlamento. Razão tem, com efeito, a sagaz senhora presidenta do dito ao garantir que nessas coisas de entrar no Panteão quem mais ordena são os senhores de São Bento. É por isso que quase tudo o que daqui sai é parlamentar, repito, para lamentar.

Neste particular estou com os dignos representantes da Nação. O Panteão é um lugar destinado apenas e só a figuras acima de qualquer suspeita e de grande qualidade patriótica, como por exemplo os impolutos presidentes Teófilo Braga, Sidónio Pais ou Óscar Carmona ou os heroicos portugueses que foram Amália Rodrigues ou Eusébio da Silva Ferreira. O que iria para lá fazer, junto de imortais de tamanha dimensão, esse tal Aristides de Sousa Mendes?

De facto, é imperioso manter o nível.

 Santos Engrácio

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