Rota dos Castelos. Outra vez!?…

Por vezes pensamos que é preciso inventar. Mas nem sempre, desde que sejamos capazes de usar aquilo que está à nossa disposição e dar-lhe a volta. Se quisermos empregar mais um lugar comum, então basta que nos lembremos do ovo de Colombo.

Uma Rota dos Castelos é também um lugar comum. E, ao mesmo tempo, uma novidade. Que o digam os homens e as instituições que agora (re)descobriram a Rede de Castelos e Muralhas do Mondego. Estes estão lá desde há séculos, correspondem a uma antiga aliança territorial projectada durante a reconquista cristã da zona, particularmente de Coimbra, nos tempos de D. Fernando de Leão pelos alvores do século XI, ainda nem sequer havia Portugal. A linha defensiva então ali criada assentou numa cintura de muralhas ao longo do curso do Mondego, englobando a cerca de Coimbra, os castelos de Arouce, na Lousão, Miranda do Corvo, Penela, Pombal, Soure e Montemor-o-Velho, assim como a torre de Buarcos, na Figueira da Foz. castelos mondego

Agora, todas essa velhas muralhas protectoras tornam-se fontes e pretextos de história, cultura e turismo, proporcionando a sua conservação, estimulando o seu estudo, desafiando à sua visita. Por isso, foi posta em marcha uma campanha de divulgação e promoção nos meios de comunicação social. Páginas de publicidade, explicando Quem somos e ao que viemos, pedem a cada leitor que Parta à reconquista connosco. Uma página própria, bem elaborada e logo prolongada no facebook, estimula a aventura de um regresso, inteligente e protegido, a tempos medievais.

É isto novidade? É claro que não.

É isto oportuno? É óbvio que sim.

CASTELOS 1

CASTELOS 2

CASTELOS 3

CASTELOS 4

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O exemplo que agora chega de Coimbra, unindo esforços concertados entre entidades turísticas e autárquicas, culturais e universitárias, tanto oficiais como privadas, com a criação de uma agência especializada, a organização de estratégicas iniciativas de dinamização e envolvimento das populações e a atempada elaboração de um dossier de candidatura a apoios comunitários, todo esse conjunto de atitudes e de intervenções pode e deve ser seguido, ou imitado.

Estou a lembrar-me do Norte Alentejano e, naturalmente, dos castelos e muralhas ali existentes. Que já proporcionaram, entre outros projectos similares, sucessivas Rotas dos Castelos. Nunca florescentes, nunca devidamente exploradas na potencialidade dos seus imensos recursos. No Norte Alentejano coexistem a linha defensiva cristã e a separação fronteiriça, em certos casos comuns ou sobrepostas.

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Há precisamente vinte anos, em 1995, existiu ali um projecto, entre muitos outros, procurando envolver turisticamente a Extremadura e o Alentejo. A situação económica e sócio-cultural era distinta da actual e foi então possível estudar e propor algumas interessantes e complementares rotas como a da cal, das catedrais e grandes igrejas, das origens arqueológicas, das cidades Património Mundial, dos descobridores e, inevitavelmente, dos castelos. Neste particular, o Norte Alentejano reunia metade das propostas de todo o Alentejo: Elvas, Campo Maior, Ouguela, Alegrete, Portalegre, Marvão, Castelo de Vide, Nisa, Amieira do Tejo, Belver, Crato, Alter do Chão e Avis.

Esta Rota dos Castelos, bem concebida e estruturada, representava uma proposta para a redescoberta do passado de conquista e defesa do território, assim como da afirmação de nacionalidades. Ao longo do percurso sugerido encontram-se castelos e fortificações datados do período romano, tendo-se mantido em funções até finais da Idade Média, enquanto outros, pela sua importância estratégica, foram sendo adaptados às novas tácticas militares desenvolvidas até períodos mais recentes, como o século XIX, no tempo das invasões francesas ou de conflitos fronteiriços. Provavelmente, poucas zonas do país disporão de tão numeroso, diversificado e valioso conjunto deste género.

E -convém não o esquecer- surgiu há pouco uma excepcional valorização deste património com a concessão do estatuto mundial, pela UNESCO, a fortificações elvenses, para além da tentativa similar, e ainda em curso, de Marvão.

Naturalmente, se procurarmos a actual proposta da Entidade Regional de Turismo do Alentejo, encontramos a sugestão dos Passeios com Castelos, onde consta a sua motivação, que parcialmente transcrevo, com destaque para o Norte Alentejano.

 “Castelos, fortes, atalaias e vilas fortificadas pontuam toda a paisagem do Alentejo atestando que, consolidada a Reconquista com a ocupação definitiva do Sul, foi necessário continuar a defender as fronteiras do território: a Leste, respondendo a guerras com Espanha; a Oeste, prevenindo ataques vindos do mar; em todo o interior, para travar avanços não contidos na linha da raia.
Quem quiser viajar levando na bagagem o tema das fortificações, excelente pretexto para conhecer alguns lindíssimos centros históricos que nasceram à sua protecção, tem ao seu dispor uma lista interminável de lugares, cada um com a sua singularidade histórica e o seu enquadramento paisagístico: no Norte Alentejano, Amieira do Tejo, Nisa, Belver, Castelo de Vide, Marvão, Portalegre, Alegrete, Alter do Chão, Cabeço de Vide, Avis, Arronches, Ouguela, Campo Maior e Elvas”.

Num rápido confronto com a listagem de há vinte anos, apenas se regista o acréscimo de Cabeço de Vide, aliás justo. Quase me atreveria a juntar-lhe, pela sua curiosa diferença e originalidade, Alter Pedroso.

E, acima de tudo, os votos de que tudo funcione para além do papel e das boas intenções. É que, muitas vezes, estes bem intencionados projectos têm excesso de arquitectura e falham na engenharia mais básica…

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Aqui fica a nota provocada pelo desafio que nos chega da rede de castelos e muralhas do Mondego. A principal lição que ali se pode colher é a confirmação de que nem sempre é preciso inventar a partir do zero ou ser original, para bem parecer e fazer figura.

Uma cópia, bem adaptada, pode ser uma proposta muito inteligente, realista e oportuna.

Bastam cabeças bem pensantes, unidas num projecto comum.

E vontade.

Sobretudo vontade.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

ÚLTIMA HORA – Afinal as contas do caso “Benficosta” podem sair furadas…

A golpada de António Costa e seus camaradas na CML parece estar condenada ao malogro. Segundo notícias recentes, há na AML suficiente dose de dignidade e de respeito pela legalidade para anular o facciosismo primário que vai ser ali julgado. Ainda por cima, António Costa tentou de forma capciosa lançar sobre o Benfica a responsabilidade da sua própria decisão, mentindo descaradamente no recente comunicado (!?) público da autarquia que nada esclareceu.

A ilegalidade que rodeia algumas das construções e instalações levadas a cabo pelo clube tem de sofrer as consequências previstas para estes casos e não há aqui lugar para excepções que abririam um perigoso precedente. Senão, registem-se a tal propósito as lógicas declarações do dirigente de Os Belenenses

Os membros da AML, onde seguramente haverá muitos dedicados adeptos e sócios do Sport Lisboa e Benfica, saberão julgar com dignidade, portanto com isenção, um caso polémico que nem devia ter sido montado e conduzido a este nível.

Aqui ficam, com a devida vénia, as reproduções dos artigos que hoje mesmo são divulgados a este propósito pelo Diário de Notícias e pelo Público.

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A prisioneira da cela 43 e o pesadelo dos juízes mártires

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Foi no passado dia 17 que o Público divulgou um notável artigo, mais um, da autoria de Madalena Homem Cardoso. Como sempre desassombrados, lúcidos e corajosos, com uma oportunidade e sentido interventivo de primeira água. Por isso, acho que este texto deve ser lido e meditado por todos os interessados num futuro digno desta terra de todos nós.
Com a devida vénia e gratidão à autora e ao jornal, aqui fica uma crónica imperdível.

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 A prisioneira da cela 43 e o pesadelo dos juízes mártires

A reflexão sobre a porosa barreira que separa os sistemas político e judicial na organização do Estado está na ordem do dia.

Na demanda abstracta de “quem nos guarda de quem guarda os guardas”, vim a reencontrar Rui Sá Gomes, supremo guardião do chilindró, hoje anfitrião do ex-primeiro-ministro de cujo primeiro Governo foi secretário de Estado da Administração Interna. Socialista, maçon, ex-espião do Serviço de Informações de Segurança (SIS), é a mesma pessoa que, há meses, participou disciplinarmente do juiz Rui Teixeira por este ter rejeitado uma peça processual em “acordês”, exigindo a redacção em português costumeiro. Perante tal rigor do juiz que ousara abrir o vespeiro Casa Pia (já no desterro, com a carreira travada por três conselheiros nomeados pelo PS), o carcereiro-mor imputou-lhe três crimes: denegação de justiça, abuso de poder e coacção de funcionário. A participação chegou ao Conselho Superior da Magistratura (organismo que nunca se “acordizou”) convertida a essa mixórdia iliteracizante também designada por “cavaquês-socratês”, suscitando problemas de interpretação. “Coação de funcionário” é crime de sangue? Como se coa um funcionário?

A década em que Sá Gomes foi espião operacional começou quando Rui Pereira assumiu a chefia do SIS. Ao receber a pasta da Administração Interna no primeiro Governo Sócrates, Rui Pereira fê-lo seu secretário de Estado. Quando Rui Pereira deixou a Administração Interna, já no segundo Governo Sócrates, iniciou mandato de nove anos como juiz do Tribunal Constitucional (TC), substituindo a sua mulher, Fernanda Palma, que acabara de cumprir os seus nove anos, tal como Maria dos Prazeres Beleza, esta também substituída no TC pelo marido, José Gabriel Queiró. Sucessão conjugal. Nos corredores em circuito fechado do poder, vasos comunicantes, as dinastias dos juristas da res publica.

Voltando a Rui Sá Gomes, após estar no Governo, regressou no final de 2009 à Direcção-Geral dos Serviços Prisionais para que fora nomeado por António Costa, então ministro da Justiça, e acumulou, passados dez meses, a Direcção-Geral da Reinserção Social, até que estes dois cargos foram fundidos num só, dois anos depois. Foi mantido director-geral da Reinserção e Serviços Prisionais pelo actual executivo.

Para um supercargo, superpoderes. Em 2010, era o epicentro da celeuma criada por um novo Código de Execução de Penas que lhe dava o poder de decidir o acesso dos presos ao regime aberto após cumprirem um quarto da pena, sem o escrutínio de um juiz. Rui Sá Gomes defendia que, embora ande no exterior sem supervisão, um preso em regime aberto continua preso, por ter de passar a noite na prisão; não se tratando de liberdade condicional, os juízes não tinham nada com isso. Disse, então, alguém do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público: “Tive um caso de uma família que foi sequestrada e violentamente agredida na sua casa. Os autores foram apanhados, julgados e condenados a 20 anos de prisão. Daqui a cinco é-lhes concedido, por um simples acto administrativo, o regime aberto. A família, que estava descansada na sua casa, confiando que eles estavam presos, vê-os na rua. O que é que dizemos a esta família? Olhem, o sr. director das prisões diz que eles estão presos.” (Diário de Notícias, 10/4/2010)

Recapitulando. É Rui Sá Gomes (1) quem guarda os presos (zelando pela sua expedita reinserção), (2) quem literalmente guarda os guardas, (3) alguém que lidou com toda a sorte de dados sigilosos vitais para a segurança nacional (e para o bem-estar dos titulares de cargos políticos), e (4) quem mantém sob detenção ilegal uma prisioneira de delito incomum. Presumo-a, por conveniência retórica, confinada à cela 43, sem direito a visitas, não vá qualquer magistrado, aluno ou funcionário público pretender algum contacto.

A prisão de Évora destina-se a reclusos que exijam protecção especial. Estou convicta de que a Língua Portuguesa indocumentada, considerada apátrida, está lá sequestrada em condições degradantes, desfigurada sob tortura. Na cela 43 haverá por certo um balde higiénico onde vão parar consoantes e hífenes que lhe são extraídos quais rasgões na pele, a grafia, esse manto régio descrito por Pessoa. Desnutrida, seviciada, privada de cuidados de saúde, é um caso para a Amnistia Internacional.

Creio que, através do seu gesto, o juiz Rui Teixeira pretendeu atender com prioridade a esta situação desumana, mas foi-lhe vedado o acesso ao estabelecimento prisional. Com a Língua-Mãe em isolamento, os seus filhos menores vivem uma orfandade decretada por acto administrativo, impotentes, vulneráveis. Já Mário Soares, inimputável vitalício como decorre da imunidade de membro vitalício do Conselho de Estado, pode entrar na prisão de VIP quando quiser e dizer o que quiser sobre qualquer magistrado. Sim, perante um Mário Soares, o que pode um Rui Teixeira a quem a mera preservação da dignidade do seu tribunal, enquanto órgão de soberania, valeu um processo disciplinar por alegado abuso de poder?

Com isto, retomo a temática filosófica proposta no início.

“Filosofia” significa “amor à sabedoria”. Tratando-se do Sócrates aspirante a filósofo post-socrático, “filosofia” toma inicial minúscula e adquire contornos de “gostar de pensar que a sabe toda”. A Filosofia é feita de interrogações difíceis. Uma das menos cogitadas, neste caso, terá sido “Até quando?”.

Entre a Filosofia e a Psicologia está a questão d’A Confiança no Mundo, título dado por Sócrates ao seu livro-dissertação. (Recorda-me o nome Lucky Me dado a um barco de recreio destinado a aportar onde aportou…)

O problema d’A Confiança no Mundo permite distinguir pessoas, quanto a mim. Uns têm confiança no mundo tal como o gozam, crendo funcionalmente estável o jogo mundano de relações de poder e obtenção de benefícios. Outros depositam confiança no Mundo e na vida porque neles se revêem, crendo-se confiáveis. Os primeiros temem perder o poder e o controlo sobre as suas circunstâncias; os segundos têm medo de ter medo. Na realidade, só estes têm confiança no Mundo; os primeiros confiam nos expedientes a que vêm recorrendo com sucesso. Curioso é que, no medo de ter medo, há uma liberdade inexpugnável, ao passo que os guardas do sistema são prisioneiros do lado de fora (reféns de um regime aberto às avessas).

No primeiro grupo, vejo magistrados como Pinto Monteiro e Noronha Nascimento, respectivamente o procurador-geral da República que destruiu as transcrições das escutas de conversas entre José Sócrates e Armando Vara no âmbito do processo Face Oculta e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça que ordenou essa destruição de provas. Apesar de esta ordem ter sido dada ao Tribunal de Aveiro, foi Pinto Monteiro quem acabou por cumpri-la, e de forma bizarra, fazendo recortes nas páginas do processo onde podiam ler-se as transcrições. Tão confiantes como o autor, ambos estes magistrados estiveram no lançamento d’A Confiança no Mundo, livro apresentado por Mário Soares e Lula da Silva, era já José Sócrates consultor da Octapharma como especialista no potencial da América Latina em geral e do Brasil em particular.

No segundo grupo, vejo magistrados como Carlos Alexandre e Rui Teixeira. Além da coragem, estes dois juízes têm em comum a cobertura de detenções feita pela SIC a pedido dos políticos visados, para depois disso se proclamarem vítimas.

Em 2003, terá sido o PS a dar à SIC a “cacha” sobre a deslocação de Rui Teixeira à Assembleia da República (AR), necessária para apresentar o mandado de detenção do deputado Paulo Pedroso, suspeito de crimes de abuso sexual de crianças, ao presidente da AR, para que fosse levantada a imunidade parlamentar. Este acto, que de outro modo não teria sido filmado, foi depois publicitado como uma humilhação pública perpetrada pelo juiz.

Em Novembro último, foi o próprio José Sócrates quem, de Paris, avisou a SIC de que seria detido mal aterrasse em Lisboa, para vir depois carpir o coro de indignados pelo gratuito vexame mediático a que fora sujeito, ainda que pudesse embarcar de seguida noutro voo, quiçá para a América Latina. Um dos que se disseram “em choque” com o sucedido foi, naturalmente, Paulo Pedroso.

Tive um pesadelo: um mar de gente desfilava com cartazes negros onde se lia “Je suis Rui Teixeira”, “Je suis Carlos Alexandre”, e a SIC emitia em “direto”, voyeuse.

Um informático diria que o nosso “Estado de Direito” padece de graves erros de programação. Esquema repleto de círculos viciosos e viciados, assenta numa falsa representação popular e está blindado contra qualquer tentativa de exercício da democracia directa. Se, num sistema, há sectores “regulados” por outros sectores deles dependentes, o que há é desregulação autoperpetuada. Só mudam as moscas.

Pergunto-me: além de “quem guarda os guardas?”, chegaremos à fulcral questão de “quem julga os juízes?”, começando pelo dito mais alto magistrado da Nação, outro inimputável vitalício?

Este é o país onde alguém com o percurso político de Santana Lopes, desde que decida anunciar-se candidato à Presidência da República, é tornado credível para o efeito pelas sondagens e “politólogos” de serviço. Abstraindo do longo anedotário, bastaria – se ponderação houvesse – ponderar como o actual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa tem utilizado as receitas dos jogos sociais para uma “obra assistencial” que assiste aos seus mais diversos fins. Tal é o caso do meio milhão de euros dado como contributo para a edição “acordizada” da obra completa do Padre António Vieira, pelo Círculo de Leitores (pertencente ao Grupo Porto Editora). O maná dos jogos serviu assim a Santana Lopes para subsidiar a ridicularização do legado do “Imperador da Língua Portuguesa”, na fuga-para-a-frente de tentar comprar com dinheiro alheio a aceitação do obsceno tratado que ele próprio assinou, mandatado por Cavaco Silva e autorizado por Mário Soares.

Sim, este é o país onde Dias Loureiro pode andar às compras na Avenida da Liberdade sem ser incomodado. Parecemos um povo alienado, analfabeto, doente de uma apatia atávica. Porém a Dona Inércia, sem opções, poderá sob qualquer pretexto emborcar uma lata de puré de espinafres e transformar-se em Dona Soberania, ao jeito de um CR7. As peças de dominó do regime cairão em série.

Seja como for, antes que haja algum “acidente”, para que me não doa a consciência, e ainda que vá presa, eu digo já: je suis Carlos Alexandre, je suis Rui Teixeira! Et vous?

 Por Madalena Homem Cardoso
Médica, escritora e activista cívica

Quem conta um conto…

herculesfilhos

No passado dia 16, o Diário de Notícias inseriu, entre os diversos motivos de interesse que sempre nos oferece, um artigo de opinião assinado por Sérgio Figueiredo, director de informação da TVI. Deixei passar algum tempo sobre ele, mas não resisti à tentação de aqui o partilhar com os fiéis leitores do blog. O tema da história de crianças inventada pelos gregos, segundo o nosso abalizado contista de novelas de terror que dá pelo nome de Passos Coelho, tem aqui uma interessante abordagem variante que vale a pena ler e, depois, sobre ela meditar um pouco. O cinismo que tem rodeado todo o nosso comportamento governamental, como fidelíssimos lacaios da senhora Merkel e seus capangas, atingiu e ultrapassou todos os limites da tolerância. Por outro lado, o irrevogável oportunismo de Paulo Portas e as proverbiais patetices do titular dos Negócios Estrangeiros mostraram a “unidade” governamental, claramente posta em causa pelas extravagantes declarações do líder europeu sobre a troika e os pecados por esta cometidos contra a dignidade dos povos grego e português sempre, e irlandês dia sim dia não…

Por estas e por outras, achei que vinha ainda a propósito este conto da mitologia grega, sobre um verdadeiro Astérix daqueles tempos, recordado pela pena de um autorizado jornalista e divulgado por um conceituado diário, a um e a outro dirigindo reconhecimento e solidariedade pessoais.

RESCALDO GRÉCIA

Mestre Gil aos quadradinhos – 07

gil aos quadradinhos cabeçalho

Neste momento, conhecemos todos os dados prévios. Sabemos da motivação que congrega o local, a data e o pretexto assim como a iniciativa daí resultante, dotada de inegável e oportuna criatividade. A família Gonçalves, dispondo dos meios e segura da sua inovadora sugestão, concretiza a encomenda. Chegámos, portanto, à Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, instituição -a única instituição- com capacidade para transformar aquele sonho em realidade: transferir para uma série de nove tapeçarias o significado essencial da Farsa de Inês Pereira, obra teatral de Mestre Gil Vicente.

O trabalho vai significar uma proposta, mais uma, colocada ao pintor João Tavares, alma artística da Manufactura.joaotavares

João Augusto da Silveira Tavares (1908-1984), professor e pintor portalegrense, convidado pelo fundador, director e principal dinamizador da Manufactura, Guy Fino, executara o cartão para a sua primeira obra, uma tapeçaria denominada Diana, em 1948. E, depois dessa, muitas outras…

João Tavares, que era essencialmente um notável e premiado aguarelista, recebera um autêntico desafio, o de enfrentar a concepção de um trabalho em tudo distinto da sua prática artística habitual. É o próprio Guy Fino que descreve com rigor esta adaptação estética, como deixou patente na breve biografia que traçou do artista, quando escreveu o preâmbulo do catálogo da exposição concretizada em Portalegre em Maio de 1973, no seio da homenagem do Liceu Nacional da cidade ao seu professor:

João Tavares fez o primeiro cartão -‘Diana’- que viria a ser interpretado, dando origem à primeira tapeçaria portuguesa no ano de 1948 – há portanto 25 anos. Nos muitos cartões que depois se lhe seguiram João Tavares é sempre um figurativo, que sabe melhorar a sua expressão estética, adaptando-se progressivamente às exigências da tapeçaria e acabando por obter por simplificação de formas, perspectiva plana, o enquadramento para o emprego da sua paleta característica.
Numerosas tapeçarias em edifícios públicos, empresas privadas e colecções particulares atestam a sua actividade como cartonista. Mas o seu trabalho não ficou só na realização desses cartões; o ‘professor’ mostra-se sempre quer no entusiasmo e cuidado que põe no seguir dos seus trabalhos, nas várias fases de execução, quer na criação de uma escola de aperfeiçoamento para as desenhadoras, na Manufactura“.

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Não é aqui o lugar para deixar a João Tavares a expressão pessoal do que devo ao professor na minha passagem pelo seu Liceu, orientando de forma indelével no gaiato que eu então era o jeitinho pessoal para o desenho… Tal ficará para outra ocasião, essa lembrança do homem e mestre afável, tranquilo, quase sempre com o clássico Abdula entre os finos lábios ou o favorito pincel de pelo de marta na mão hábil, deixando maravilhas de traço e cor nas nossas alvas folhas de papel Cavalinhojoaotavaresliceu

Regressemos a 1960, a Gil Vicente, à Farsa de Inês Pereira e à original encomenda da tomarense família Gonçalves.

O novo desafio colocado à criatividade de João Tavares apresenta algumas inovações e aproveita algumas das aquisições plástica e técnicas que tinham enriquecido a sua imensa capacidade. A natureza histórica da proposta -a época, os trajos, o cenário, o colorido, os usos e costumes, as personagens- faziam já parte das habituais vivências do artista, experimentado na resolução de quadros inspirados em episódios ou figuras da gesta nacional. Basta recordar, entre outros cartões já idealizados pelo artista, o magnífico e expressivo Real, Real por D. João IV, Rei de Portugal, que dera origem -no ano anterior, 1959- à majestosa tapeçaria que ornou durante algumas décadas o Salão Nobre dos antigos Paços do Concelho de Portalegre. E que hoje se perde sem vista nem glória em impróprio lugar…

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Curiosamente, nem seria aquela a primeira vez que João Tavares se cruzaria com Gil Vicente, pois já isso acontecera pelo menos numa anterior oportunidade. Foi a 3 de Junho de 1950, durante as Festas Centenárias de Portalegre -em que o artista teve uma significativa e diversificada intervenção-, quando criou o cenário do monumental palco instalado ao ar livre frente à Sé Catedral, onde foram representadas obras vicentinas por alunos do Conservatório de Lisboa. Estive lá e posso garantir que não foi a Farsa de Inês Pereira, mas o Auto da Alma e fragmentos de Autos das Barcas que ali tiveram lugar nesse inesquecível serão…

joaotavarestrioÉ de supor que a dificuldade mais interessante, e aguda, colocada a João Tavares pela interpretação da Farsa terá sido, portanto, a da narratividade implicada na exigência de uma sucessão de nove quadros, em vez de uma singela unidade temática, proposta habitual.

A tarefa de criar nove cartões a propósito daquela história exigiria ao pintor conhecimentos literários de apreciável nível. Mas a sua condição de “tertuliano” do grupo a que Feliciano Falcão dera origem pelos princípios dos anos quarenta no Café Central, onde pontificava José Régio muito bem acompanhado por Firmino Crespo, poderá -deverá- ter prestado a João Tavares a necessária e competente “assessoria” literária.

É certo que em 1960 já Firmino Crespo se retirara há anos de Portalegre e que João Tavares já não frequentava tão assiduamente a tertúlia, entretanto mudada para o Café Facha (“expulsa” pela TV do Central), até porque residia bastante mais longe, na Rua D. João III. Mas, como colegas na docência, João Tavares e José Maria dos Reis Pereira encontravam-se então quotidianamente, ou quase, no velho Liceu da Praça da República.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Património Humano do Alentejo

zambujo-e24a-af04-dcdb-2a59António Zambujo tornou-se, pela seu valor e pela sua originalidade, um caso sério da moderna canção nacional. O cantor de Beja é autêntico património humano do Alentejo, mesmo sem estatuto reconhecido pela UNESCO ou pelo Guiness. O êxito que obtém, assente no seu excepcional carisma popular, sempre avalizado pela qualidade das suas interpretações e pelo cuidado na escolha das músicas e das letras, esse crescente sucesso garante-lhe um lugar de relevo entre os nomes de destaque nos palcos nacionais.

Da excelente revista BLITZ, com a devida vénia, transcreve-se a sugestivaaz0 reportagem assinada por Lia Pereira, com imagens de Rita Carmo/Espanta Espíritos, sobre um recente concerto de António Zambujo no Coliseu dos Recreios de Lisboa.

ANTÓNIO ZAMBUJO AO VIVO NO COLISEU DOS RECREIOS DE LISBOA

NA PRIMEIRA DE DUAS NOITES NO COLISEU DE LISBOA, O CANTOR DE BEJA HONROU AS RAÍZES ALENTEJANAS E VIAJOU, COM JÁ VEM SENDO HÁBITO, POR UM MUNDO MUITO SEU.

É quase preciso consultar um dicionário de sinónimos para descrever todos osaz6 tons de malandrice que António Zambujo, pela segunda vez em nome próprio no Coliseu de Lisboa, imprime a boa parte do seu repertório. Ao sexto álbum, o cantor de Beja, que começou por jogar no campeonato do fado mas há muito transcendeu as fronteiras do género, faz-se rodear de músicos e letristas que o conhecem e sabem que palavras lhe servirão como uma luva. Sem nunca soar brejeiro ou facilitista, António Zambujo conquista, invariavelmente, as plateias com os segundos sentidos de letras como “Lambreta” e “Flagrante”, do anterior Quinto, que o apresentou a um público mais amplo, ou “Flinstones” e “Barata Tonta”, do novo Rua da Emenda. Letras como a de “Tiro pela Culatra”, sobre um convite para jantar que acaba com a presença do marido da convidada, são cantadas com um sorriso maroto eaz5 despertam risos entre os espectadores que enchem o Coliseu; apesar de menos conhecedor das canções novas do que das do êxito, de 2012, ou as de Guia, que lhe antecedeu em 2010, o público esteve sempre do lado do “anfitrião” deste serão, que aproveitou a ocasião, também, para experimentar algumas rotas menos exploradas. Mas já lá vamos.

Tudo começou com uma grande ovação ao quinteto que subiu ao palco pouco depois das 21h30: a acompanhar António Zambujo estiveram, em simultâneo ou alternadamente, consoante o que cada música pedia, Bernardo Couto (guitarraaz4 portuguesa), José Manuel Conde (clarinetes), João Moreira (trompete) e Ricardo Cruz (contrabaixo e direcção musical). Naquele seu jeito dolente, que os vestígios de sotaque alentejano só vêm adocicar ainda mais, o cantor sujeitou as canções, novas e menos novas, a tratamentos distintos: se algumas foram apresentadas de forma escorreita, permitindo a abundante colaboração do público (“Flagrante” e “Zorro”, por exemplo, foram cantadas em uníssono por centenas de vozes), outras houve em que a abordagem se revelou um pouco mais experimental. Em entrevista, António Zambujo já admitiu que Rua da Emenda, lançado no final do ano passado, poderá ser o último disco nestes moldes – um luso-tropicalismo comaz3 muito açúcar, dizemos nós – e ontem já se pressentiu esse desejo de navegar para outras águas.

No começo foi, como seria de esperar, o disco novo a brilhar: “Fatalidade”, de João Monge, que abre Rua da Emenda, abriu também o concerto, bela mas menos cristalina do que em álbum (os desequilíbrios no som foram sendo corrigidos ao longo da noite). “Barata Tonta”, de Maria do Rosário Pedreira, e “Canção de Brazzaville”, de José Eduardo Agualusa, provaram o paralelo que é possível traçar entre Quinto e Rua da Emenda: se o escritor prossegue neste tema o mosaico intenso e africanizado que começara em “Milagrário Pessoal”, de Quinto, Maria do Rosário Pedreira repete em “Barata Tonta” a malandrice boa de “Flagrante”, um dos grandes êxitos do disco de 2011. E será isto mau? Não: a simetria não é pecado, e António Zambujo tem todo o direito a apurar, com esmero e algumas invençõesaz2 pelo meio, a receita que patenteou nos últimos anos. É porém nalguns desses momentos em que se desvia da rota já bem conhecida que o seu futuro nos parece mais próximo. Pressentimo-lo na forma mais incisiva como rematou “Canção de Brazzaville”, por exemplo, mas sobretudo na sequência que começou com “Poema dos Olhos da Amada”, de Vinicius de Moraes, e se estendeu até “Foi Deus”.

Num registo quase declamado, sereno mas contundente, António Zambujo fez-se acompanhar, nesta canção que Caetano Veloso já fez sua, de uma guitarra portuguesa dramática; aproveitando o embalo, deslizou como uma brisa nocturna sobre os sopros da sua banda, na contemplativa “Em Quatro Luas”, provando que está ao seu alcance viajar para águas longínquas, paradas mas profundas. O “desvio” levou-o então a uma versão, tocante e perigosa, de “Foi Deus”; quase a cappela, ofereceu ao Coliseu uma espécie de negativo do monumento erguido por Amália. Por oposição ao original, a leitura de Zambujo, registada no seu terceiro disco, Outro Sentido (2007), é feminina e quebradiça, falsamente frágil, agigantando-se de forma discreta num final que remete, a espaços, para o jazz e para o canto árabe. A ovação foi enorme e merecida, premiando um dos momentos mais inesperados e gratificantes do concerto. As palmas foram também dispensadas com generosidade quando a Zambujo se juntaram os cantores Bernardo e Eduardo Espinho, amigos de Beja, que o acompanharam em “Quinta-feira da Ascensão” e “Para que Quero eu Olhos”.

Referindo-se à “desunião europeia” que causa “vergonha alheia”, o homem deaz1 “Algo Estranho Acontece” lembrou a riqueza cultural do nosso pequeno país e apelou a que nos agarremos às raízes, para que não percamos o norte. O repto foi a excepção numa noite marcada pela habitual boa disposição do artista, que na recta final do espetáculo se serviu da artilharia pesada – os êxitos de Quinto e Guia, com a castiça “Pica do Sete”, do novo álbum, e “Valsinha”, de Chico Buarque – para acabar em festa a primeira de duas actuações no Coliseu de Lisboa.

Com o charme pardalito de António Zambujo já estamos bem familiarizados; poderá ser agora altura de o intérprete aproveitar a bênção de ser capaz de equilibrar, como poucos, leveza e peso, de forma a que cada palavra conte, para inaugurar um novo capítulo no seu apetecível diário de bordo.

 Texto de: Lia Pereira
Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos