Manuel Tavares Folgado (1919-2015)

padre f3Pelo padre Nuno Folgado, seu sobrinho e meu amigo, acabo de saber da morte do padre Manuel Cebolas Tavares Folgado.

Já por essa altura o Américo namoriscava a Arcângela, jovem e simpática colega que naquele ano lectivo de 56/57 reforçara a equipa pedagógica da nossa escola, vinda da vizinha Ponte de Sor. E a verdade é que aquilo acabou mesmo em casamento que para sempre durou. Eu, mais novo do que ele, ainda não pensava a sério nessas coisas, mas já tinha assumido com o amigo padre Manuel Tavares Folgado o compromisso de que seria ele quem me casaria, se um dia casasse. E assim aconteceu mesmo, cumprindo-se exemplarmente o acordo.

Quando em 1964, sete anos depois das Galveias, decidimos -eu e a Adrilete- juntar os nossos destinos, foi o nosso amigo sacerdote que em Fátima concretizou o combinado, com o testemunho presencial do Américo e da Arcângela, já entretanto casados.

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Escrevi aqui mesmo estas palavras no dia 2 de Novembro de 2013, quando evoquei felizes tempos vividos nas Galveias. Aí, na sua casa de muitas décadas, morreu ontem, 30 de Março de 2015, um amigo que já não abraçava há largos anos. Mas que nunca esqueci.

Companheiro fiel, experimentado e seguro de outros tempos, outros e difíceis tempos, o padre Manuel Folgado faz parte da história da sua diocese, Évora, e sobretudo de uma comunidade à qual dedicou o melhor de si e da sua intensa actividade pastoral, Galveias.

Natural de Escusa, Marvão, onde nascera a 11 de Novembro de 1919, seguiu a sua vocação tendo sido ordenado padre em 29 de Junho de 1942. Paroquiou durante muitos anos Galveias, Valongo e Aldeia Velha, entre Ponte de Sor e Avis.

Tendo acompanhado toda a mais recente vida de uma localidade fortemente influenciada pela família Godinho de Campos, o padre Folgado desempenhou notável acção no seio da Fundação ali criada e na intervenção social por esta levada a cabo.

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Lembro a este propósito, como simples exemplo, a honrosa representação que o arcebispo da sua diocese lhe conferiu em Junho de 1970, quando nele delegou a presidência das solenes comemorações de homenagem aos beneméritos da região, na passagem de três anos sobre a morte do comendador José Marques.

Lembrando o amigo que fica para sempre ligado a um dos actos mais significativos e importantes da minha vida -o casamento- endereço a solidariedade pessoal à sua família, pela perda sofrida, muito em particular a Nuno Folgado, a quem envio um abraço fraterno.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

PORTALEGRE. Deserto de lá chegar… – V

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Joaquim Miranda da Silva (1950-2006), portalegrense, economista de formação, foi vereador da Câmara de Portalegre de 1979 a 1985 e deputado à Assembleia da República entre 1980 e 1986.

Em 1986 integrou o grupo de candidatos indicados pelo Partido Comunista Português para a então Comunidade Económica Europeia (CEE), vindo a ser eleito eurodeputado em Julho de 1987, nas primeiras eleições europeias realizadas em Portugal.

joaquim mirandaManteve-se como eurodeputado até Janeiro de 2004, altura em que renunciou ao mandato, sendo nessa época o eurodeputado com mais anos de permanência na instituição europeia.

O seu prematuro abandono da vida política foi motivado por doença grave que depressa o vitimaria, constituindo uma irreparável perda para a família e, também, para a comunidade portalegrense que com tanta qualidade representara.

No Parlamento Europeu ele foi vice-presidente do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Verde Nórdica e presidente da Comissão para o Desenvolvimento e Cooperação.

A nível nacional, foi membro do Comité Central do PCP e da concelhia de Portalegre, integrando a Direcção de Organização Regional de Portalegre (DORPOR). O eurodeputado tornou-se mais tarde membro da Renovação Comunista, tendo sido um dos elementos deste Movimento mais activos no Alentejo.

Joaquim Miranda foi um intransigente e convicto defensor da entrada de Portugal na União Europeia e um profundo conhecedor da política comunitária. Por isso, tornou-se um dos mais activos e prestigiados eurodeputados portugueses, a ele se ficando a dever tomadas de posição coerentes e consequentes em defesa da agricultura nacional. Para além disso, a sua intensa intervenção internacional foi considerada bastante válida.

Numa brevíssima súmula que dá conta do seu dinamismo como eurodeputado, bastará citar a actividade desenvolvida, apenas nas sessões plenárias da 5.ª legislatura: 97 intervenções, 5 relatórios enquanto relator, 161 propostas de resolução e 51 perguntas parlamentares.

Joaquim Miranda e Júlio Miranda Calha constituem, de forma incontestável, o reduzido conjunto dos únicos parlamentares portalegrenses dignos de uma menção especial.

Tal como lembrei Luís Bacharel, e pelas mesmíssimas razões, evoco agora Joaquim Miranda. A formação deste, aliada a um permanente sentido de intervenção pública, levou-o também a divulgar testemunhos cívicos relacionados com a luta contra a desertificação portalegrense, a favor de um desenvolvimento local que estagnou, que retrocedeu, que nada garante para o futuro a curto ou médio prazo.

Algumas notas sobre o (não) desenvolvimento do Distrito de Portalegre – eis o título do artigo que Joaquim Miranda deixou publicado no número dois de A Cidade – Revista Cultural de Portalegre. Foi em Dezembro de 1981, isto é, há quase três dezenas e meia de anos, mais do que o tempo de uma geração…

Acrescente-se a circunstância de o artigo constituir a adaptação, alargada, de uma intervenção do deputado na Assembleia da República, acontecida a 21 de Fevereiro desse ano.

Anotem-se, apenas, algumas das perspectivas de (não) desenvolvimento ali focadas, como a barragem do Pisão, o Matadouro Regional, a florestação de S. Mamede, o urânio de Nisa, as termas, o triângulo turístico do Alto Alentejo, o património mais diverso, do construído ao cultural, o Hospital, as riquezas arqueológicas, o destino do Palácio Amarelo, e por aí fora… Foi há trinta e tal anos, poderia ser hoje a data destas denúncias.

Sobre este texto como sobre os de Luís Bacharel sopra um vento implacável, como o suão de Régio, dali fazendo saltar areia, densa e pesada areia, que vai cobrindo as terras, as casas e os habitantes de Portalegre e seu termo, que faz alastrar o deserto, deserto de ideais, secos, deserto de sonhos, esvaziados, deserto de riqueza, esbanjada, deserto de gente, exilada.

Aqui fica, pois, a lembrança de outro notável portalegrense e da sua voz.

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Bem vindos

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Já aqui abordei, por mais de uma vez, os germânicos Kraftwerk. Desde que quase casualmente os descobri, certa vez em Évora pelos anos 80, com o soberbo Trans-Europe Expresss, não mais os larguei. Em Berlim, corri discotecas até ter completado a colecção dos seus discos e tenho-a prolongado depois disso, mantendo-a actualizada. A continuação do grupo em plena actividade é sinal evidente da sua pertinência musical.

Confirmei há pouco a notícia já conhecida, a de em mais uma digressão pelo mundo os Kraftwerk novamente nos visitarem. Na programação de Abril da Casa da Música, no Porto, está prevista uma sua actuação ao vivo, no dia 20.

Na síntese de apresentação, creio que o texto contém o essencial. Evoca a formação do grupo nos anos 70, o uso inovador de computadores na criação de música, o complemento visual na construção de um espectáculo multimédia arrojado e por vezes surpreendente. Nesta sua fase, os Kraftwerk apresentam um concerto dotado de reportório com efeitos em três dimensões, o que revela não ser a veterania um obrigatório sinónimo de conservadorismo, bem pelo contrário.

Há quase três décadas e meia que considero a música dos Kraftwerk entre as minhas mais assumidas predilecções na arte dos sons. Ainda não encontrei razões para mudar de opinião. Por isso escreveria outra vez a ligeira crónica que publiquei no saudoso jornal portalegrense Fonte Nova, a 22 de Julho de 2000.

 CENTRAL ELÉCTRICA

Hoje apetece-me uma crónica de férias, quase incolor, insípida e inodora, mais ou menos neutra q.b., por outras palavras.

Não é que faltem palpitantes assuntos, isto é, mais intervenientes. Basta olharmos em volta, mesmo distraidamente. Os temas continuam vivos, como que desafiando-nos. Um simples exemplo: o balanço (final?!) de 1998, ou da EXPO, assim como a antevisão daquilo que aí vem, já em 2001, com o Porto Cultural, ou mais tarde, com o EURO 2004, que prometem o bom e o bonito… Continuará aí o fartar vilanagem do nosso dinheiro?

Prefiro, por agora, a comodidade de um quotidiano mais tranquilo e mais doméstico. Curiosamente, esta ideia que hoje me domina até tem a ver com EXPO’s, não a nossa mas a que -frustrante, ao que dizem, a diversos níveis- vem acontecendo por terras alemãs. É que a canção-tema (ou hino oficial) de Hannover 2000 foi composta e interpretada pelos Kraftwerk.

Os Kraftwerk (nome germânico cuja tradução literal é central eléctrica) são uma banda musical, de perfil pop, cujo pioneirismo electrónico ainda hoje é reconhecido, apesar da discreta presença-ausência que deliberadamente têm assumido nestes últimos anos do século.

Descobri os Kraftwerk há mais de duas décadas, em Évora, quando aí frequentava na companhia do Bentes (e de outros lagóias inconformados) um curso sobretudo virado para a animação cultural de museus que, ao contrário daquilo que por aqui se costuma entender e praticar, podem ser espaços vivos e dinâmicos. Como fundo (ou pretexto?) musical de um trabalho colectivo organizado pelo grupo onde me integrara, alguém sugerira então uma faixa dos Kraftwerk intitulada Trans-Europe Express. Foi uma autêntica revelação pessoal, a descoberta dessa música inspirada, feita de sons de função descritiva quase onomatopaica, dominados por uma melodia que constantemente se sobrepunha à técnica, perfeita, da sintetização electrónica.

Desde então, sempre me pareceu que, muito para além das modernas ideologias musicais -dos house aos techno- que não entendo nem aprecio, as criações dos Kraftewerk constituem a prova indiscutível de que a tecnologia acústica pode (e deve) constituir-se como extensão (quase) natural da criatividade humana. Mais recentes que os Beatles -estes quatro músicos de Düsseldorf apenas apareceram em 1974, como a nossa Revolução-, os Kraftwerk não dispuseram do poderoso e insuperável arsenal de marketing que apoiou e projectou aqueles. Porém, atrevo-me a dizer que não será menos significativa a sua influência no panorama da música moderna, talvez em função da sólida formação clássica do quarteto original alemão.

Escrevo estas linhas enquanto o sistema sonoro do próprio computador reproduz sucessivamente as faixas de um dos meus discos preferidos, The Man Machine: The Robots, Space Lab, Metropolis, The Model, Neon Lights, The Man Machine… É que consegui reunir, após uma pesquisa de anos, cá dentro e lá fora, o conjunto fundamental da discografia dos Kraftwerk, produzida entre 1974 e 1986. O (re)edição digital tem vantagens destas, como a de permitir recuperar o que já se perdeu no vinil…

O último dos CD’s, precisamente o álbum Electric Cafe, apenas o obtivera há escassas semanas, e sou agora surpreendido pela prometedora notícia da ressurreição do conjunto, quase quinze anos após aquela que julgara ter sido a sua derradeira obra de vulto.

Crónica ligeira de férias, esta. Pude ocupar, com íntimo prazer, o espaço habitual em que há outros mundos, até este. Que mo desculpem –o gosto pessoal- aqueles que talvez esperassem que aqui traduzisse hoje, por mero exemplo, uma opinião solidária quanto ao drama nacional que vivem as famílias atormentadas pelo pagamento dos crescentes encargos com as prestações da casa e/ou do carro… Ou que comentasse os assustadores níveis de insegurança que vêm afligindo a zona da Grande Lisboa e que, mais dia menos dia, também nos atingirão…

Mas isso é política e sinto-me (virtualmente) nos antípodas, isto é, de férias. Depois falamos nisso, porque agora -se me permitem- vou ouvir tranquilamente Musique Non Stop.

Kraftwerk, claro!

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Aprender e manter

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Este texto do eng. Nuno Fradique Vieira é, provavelmente, um dos mais humildes, belos e contundentes libelos contra a monstruosidade que dá pelo nome de Acordo Ortográfico.

Todos os que temos memória das coisas simples da infância lembraremos as nossas dras. Maria Alice. Também tive essa experiência mas a minha Maria Alice foi uma dupla de excepcionais professores que recordo com emocionada gratidão: o prof. Jaime Belém, nas primeiras letras, e o dr. Firmino Crespo, na saudosa passagem pelo Liceu de Portalegre. Cometeria aqui uma injustiça se lhes não juntasse o enciclopedista de Humanidades que foi o dr. Francisco Barrocas, a quem fiquei devendo, mais tarde, a aquisição dos quadros que me permitiriam ligar a beleza da Literatura aos fundamentos da Filosofia e às perspectivas da História. Por tudo isto e sobretudo por eles, aquilo que sei, aquilo que penso, aquilo que escrevo – formalmente e mas não só- tem a sua marca, mantém o seu saber, prolonga a sua influência.

O Latim, embora o não estudássemos a sério nos níveis curriculares básicos de escolaridade, estava sempre presente, e a constante referência a essa profunda e incontornável herança cultural era dominante. Portanto, tal como acontecia com a dra. Maria Alice, os mestres conscienciosos que formaram as gerações onde nós -os mais velhos- nos inserimos foram rigorosos e competentes.

Subscrevo, sem lhe alterar uma vírgula, o texto Aprendi com quem sabia que o eng. Nuno Fradique Vieira teve a feliz inspiração de divulgar, no dia 27 de Março, nessa fortaleza do bom combate linguístico chamada Público.

p 27 março

A NOSSA BANDA – 42

A NOSSA BANDA CABEÇALHO

Prossegue hoje a reprodução do Boletim do Clube Português de Banda Desenhada n.º 48, datado de Janeiro/Fevereiro de 1984, denominado Especial Portalegre e integralmente preenchido pela colaboração de membros do Centro de Estudos de Banda Desenhada portalegrense.

Continua hoje a sua reprodução, com mais 8 das páginas que o compuseram.

A página 16 contém a historieta O bzz…, da autoria de Raúl Ladeira, seguindo-se Inglês! Quem o percebe?, de Isabel Guerreiro. As três páginas imediatas, da 18 à 20, são preenchidas por mais uma aventura criada por Pedro Correia, intitulada O Motim. Luís Janeiro é o responsável pela ocupação das páginas 21 e 22, com a história O Combate. Conclui o bloco de hoje A Gaita, prancha da autoria de Rui Real.

A evocação do Boletim do Clube Português de Banda Desenhada n.º 48, de Janeiro/Fevereiro de 1948, fica concluída no próximo número…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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O estranho caso do submarino voador – 02

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Tintin, um jornalista belga, começou bem cedo a sua carreira profissional, em 1929. O director do seu jornal, Le Petit Vingtième, enviou-o então em serviço especial de reportagem à Rússia Soviética.

O facto pode causar-nos algum natural espanto, sobretudo se nos fixarmos no facto, surpreendente, de o jornalista ter então uns 14 ou 15 anos de idade. Como é isto possível?

Atentemos naquilo que nos esclarece, a este propósito, um dos biógrafos de Tintin. Jacques Langlois, conselheiro editorial da revista francesa Historia, pertencente ao grupo editorial do conhecido semanário Le Point. Na época, a escolaridade obrigatória terminava aos 14 anos e Tintin foi, naturalmente, um pioneiro profissional, imitando o seu colega Rouletabille, tornado pelo “pai”, Gaston Leroux, jornalista no L’Époque aos 17 anos e meio, em 1907, ou então seguindo as pisadas do jovem George Simenon, que aos 16 anos entrara em La Gazette de Liège para aí relatar alguns acontecimentos sociais, no ano de 1919.

Tintin apenas foi ligeiramente mais precoce.

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Ao longo de décadas, o jornalista percorreu o mundo quase todo, foi testemunha de alguns notáveis acontecimentos do seu tempo, privou com individualidades, enfrentou riscos e perigos sem conta, fez amigos certos e alimentou, também, alguns ódios de estimação.

Foi homenageado, tem um museu como o seu nome, pertence a toponímias locais, é tema de emissões filatélicas e numismáticas, provoca tratados e densas biografias, tem estátuas alusivas em parques e jardins, alimenta teses universitárias, motiva clubes de fãs. Há pouco foi inspiração para a pintura decorativa e o baptismo de uma aeronave comercial que corre o mundo e ostenta a sua imagem pelos continentes fora.

Ainda que este facto seja um mero pormenor na vida, imortal, de Tintin mesmo assim merece alguma atenção. A relação do jornalista com os aviões – eis um capítulo a explorar.

Tintin, ao longo das suas aventuras, ter-se-á deslocado nos mais diversos meios de transporte deste mundo e até de fora deste, pois como é sabido até foi à Lua e por lá andou. Nas altitudes como nas profundezas das terras, dos mares e dos ares foi presença e passagem. Mas o avião desenvolveu com o jornalista -e vice-versa- uma especial relação, que talvez apenas o automóvel -logicamente- tenha suplantado. Em quantidade, mas não em qualificada variedade.

Analisemos brevemente o contexto aeronáutico nos tempos de estreia profissional de Tintin, recordemo-los, os finais dos anos 20 do século XX.

Uma das inovações da I Guerra Mundial (1914-1918) tinha sido a adaptação do avião a arma bélica, o que de alguma forma contribuiu para a sua mais rápida evolução tecnológica. Com o regresso da paz a aviação ganhou novas dimensões comerciais e utilitárias.

Logo em 1919, os ingleses, John Alcock e Arthur Whitten Brown fizeram a primeira travessia transatlântica pelo Norte, num avião, entre a Terra Nova e a Irlanda. O voo percorreu 3.138 km e durou cerca de 12 horas.

Portugal está associado à grande proeza dos pilotos portugueses Sacadura Cabral e Gago Coutinho, que em 1922 concluíram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, saindo de Lisboa e chegando ao Rio de Janeiro.

Precisamos de chegar a 1924 para que duas aeronaves da força aérea norte-americana concluam a primeira viagem em volta do mundo, com mais de 42 mil quilómetros percorridos ao longo de seis meses.

Dois anos depois, em 1926, os exploradores americanos Richard Byrd e Floyd Bennett realizaram o primeiro voo sobre o Pólo Norte.

1927 assiste a mais uma enorme façanha, quando Charles Lindbergh se torna a primeira pessoa a cruzar o Oceano Atlântico numa solitária viagem de avião. Entre Nova Iorque e Paris, esse célebre voo percorreu 5.810 km e durou 33 horas e meia.

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No ano seguinte, Charles Kingsford Smith e a sua tripulação realizaram o primeiro voo sobre o Oceano Pacífico, entre a Califórnia e a Austrália com escalas em Honolulu e nas Ilhas Fiji.

Finalmente, chegamos ao ano da ida de Tintin à Rússia, 1929, precisamente aquele em que Richard Byrd concretizou o primeiro sobrevoo dos gelos do Pólo Sul.

Irá Tintin voar sobre as geladas estepes da Rússia?

 António Martinó de Azevedo Coutinho 

Novela gráfica – quatro

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O VERBAL E O ICÓNICO (RELAÇÕES)

Antes de se avançar para uma proposta de definição de banda desenhada, como ponto de partida será interessante analisar algo acerca da aludida combinatória texto/imagem que essencialmente a constitui.

Banda Desenhada é desenho escrito ou escrita desenhada? É um formal binómio texto/imagem ou uma íntima associação texto & imagem? É, afinal, texto mais imagem ou, pelo contrário, texto contra imagem?

Se texto e imagem (ou verbal e icónico) são sistemas de sinais tão distintos, quais serão as modalidades possíveis da sua necessária articulação formal?

Fundamentalmente estas serão quatro e todas elas podem ser observadas ao nível da BD, quer no estudo diacrónico da sua evolução cronológica quer na análise sincrónica das suas fases fundamentais mais modernas:

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I – Verifica-se, neste caso, uma afirmação explícita de auto-suficiência, ou uma intenção de articulação não integrada (ou paralela).

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II – Existe, aqui, a produção de ruídos (em termos comunicativos) e a sua introdução na mensagem, ou busca-se uma articulação (apenas) parcialmente integrada.

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III – Eis-nos perante a obtenção (desejada ou não) de efeitos de redundância, ou de reforço didáctico (portanto intencional) da mensagem. 

esquema 4IV – Neste caso verifica-se a criação de uma nova linguagem, produto e não simples somatório das suas componentes originais.    

Sempre que tal vier a propósito, far-se-á oportuno apelo a esta proposta de classificação, assim se visando clarificar e/ou concretizar os conceitos nela implícitos.

Quanto às diferentes combinatórias possíveis entre o verbal e o icónico, ao nível mais profundo da organização das mensagens, será interessante conhecer um outro esquema. O que se segue foi adaptado e simplificado, a partir de uma proposta de René la Borderie, apresentada em Les Tentations de la Pedagogie Differé (capítulo de Aspects de la Communication Éducative, Casterman, 1979).

Neste esquema associam-se os signos (verbal e icónico), as modalidades perceptivas implicadas, o tratamento sofrido, a natureza essencial da mensagem e as distintas combinatórias desta, ao nível do seu sentido:  

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1 – ICÓNICO – Diz-se de um signo que possui um certo grau de semelhança com aquilo que representa.
2 – TRATAMENTO CINÉTICO – Operação sobre a representação do movimento na imagem: utilização de planos, sequências, etc.
3 – TRATAMENTO ICÓNICO – Operação sobre os traços pertinentes e/ou as variáveis facultativas: acentuar ou ocultar os elementos mais susceptíveis de serem tomados em conta para a significação – utilização da cor, esquematizações, etc.
4 – TRATAMENTO DIEGÉTICO – Operação sobre as relações entre o tempo narrativo e o tempo narrado: utilização de elipses, flashbacks, montagens analíticas, etc.
5 – TRATAMENTO ESTOCÁSTICO – Operação sobre as possibilidades de recepção homogénea ou heterogénea num meio determinado: utilização de estilos (linha clara, por ex.), realismo, etc.
6 – Tendência para a monossemia (singular de sentidos ou sentido único): livro didáctico, sinalização de trânsito, bula de medicamento, etc.
7 – Tendência para a polissemia (plural de sentidos): poesia visual, cartoon, banda desenhada, etc.

Não se esgotando aqui a análise das relações entre o verbal e o icónico, julga-se terem ficado desde já apontadas algumas pistas que permitirão um melhor conhecimento da banda desenhada, enquanto privilegiada forma de Comunicação.

António Martinó de Azevedo Coutinho