Tintin volta ao Irão – 22

TINTIN NO IRÃO 2

A odisseia de Tintin na Rússia Soviética, ficcionalmente acontecida em 1929, continua a ser aqui evocada, na versão iraniana pirateada, sincopada e colorida do álbum original.

Reproduz-se hoje mais um conjunto ou bloco de cinco das suas páginas, conjuntamente com as duplas congéneres originais, criadas por Hergé.

Esta a relação das páginas hoje reproduzidas:

 Edição original em álbum               Edição iraniana
          73 e 74                                               32
          75 e 76                                               33
          77 e 78                                               34
          79 e 80                                               35
          81 e 82                                               36
          83                                          

Constata-se, tal como previsto, ter sido necessário acrescentar agora material original, neste caso apenas uma prancha, para acerto do paralelismo narrativo.

22 - 01 22 - 02 22 - 03 22 - 04 22 - 05

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O bloco hoje reproduzido corresponde a boa parte dos objectivos anti-soviéticos visados pelo padre Wallez, responsável editorial do jornal Vingtième Siècle, devidamente inculcados no jovem Hergé.

Qual era a situação real na Rússia Soviética desses tempos?

Estaline, após o Congresso do Partido Comunista, em Dezembro de 1927, desencadeara o primeiro plano quinquenal russo, prejudicando seriamente o campesinato em favor da industrialização. Um pouco por isso, a produção de trigo baixaria drasticamente, de 7 para 5 milhões de toneladas entre 1927 e 1928. O ditador soviético, em Janeiro deste ano, anunciara em directivas de grande dureza toda a espécie de acções repressivas contra os koulaks (agrários ricos) e os especuladores. A colectivização acelerada da agricultura começara e entre 3 a 4 milhões de crianças, abandonadas, erravam pelos campos nas cercanias das cidades. A propaganda que o regime procurava espalhar pelo exterior ocultava esta dramática situação e difundia uma imagem de prosperidade…

tintinsoviet 1

Insere-se neste contexto o panfleto anti-soviético -no extremo oposto da campanha oficial russa- que o antigo cônsul belga em Rostov-sur-le-Don, Joseph Douillet, publicaria em 1928: Moscovo sem Véus. Pela mão do seu superior, Wallez, aí beberia Hergé o essencial daquela história, a aventura/reportagem do jovem jornalista Tintin no seio do “inferno” soviético.

Visto a esta luz, não poderá causar a mínima estranheza que, na página 75, Tintin tenha considerado a cidade de Moscovo como um “pardieiro infecto”, por culpa dos soviéticos. O seu relato de filas de crianças miseráveis e famintas, esperando a esmola de um pão subordinada à sua adesão ao comunismo devidamente confessada ao comissário, é no entanto exagerada.

Mais adiante, na página 78, encontramos uma reunião do comité local, ondetintinsoviet 2 Tintin se irá  introduzir clandestinamente, na qual um dos camaradas responsáveis lamenta a falta de trigo e a ameaça da fome, insistindo na propaganda e numa expedição contra os koulaks como solução…

Finalmente, como radical castigo por activa sabotagem pessoal contra tais planos, Tintin será condenado ao fuzilamento, na página 82, apenas tendo sobrevivido porque previdentemente tinha colocado pólvora seca e balas de pasta de papel (ainda não se usava a borracha!) nas espingardas, durante a sua passagem pela camioneta que transportara a tropa.

O jornalista britânico Malcolm Muggeridge, que fará uma viagem ao Norte do Cáucaso em Março de 1933, relataria textualmente em crónicas publicadas no Manchester Guardian: “É notório que a população civil morre de fome. Há três meses que aqui não há pão. (…) Parte dos víveres que lhes tiraram -e os camponeses sabem-no muito bem- continua a ser exportada para o estrangeiro. (…) Vi com os meus próprios olhos cerca de vinte camponeses partirem escoltados. Era um espectáculo tão usual que já nem suscitava curiosidade“.

Tintin, nas suas próprias crónicas jornalísticas, embora ficcionais, não terá sido tão duro nas críticas e denúncias ao sistema soviético. A verdade histórica revela este período da história da Rússia como uma catástrofe social de enorme dimensão, incluindo violência, massacres e genocídios que fazem por vezes lembrar o Holocausto. Veja-se como simples exemplo o que se passou, nos anos 30, na Ucrânia.

Hergé merece, no mínimo, uma certa indulgência. Vítima dos preconceitos do politicamente correcto, foi como que obrigado a desculpar-se pelas “ingenuidades” da sua juventude. Mas falsificou ele a História, fez passar o dia por noite, inverteu grosseiramente a realidade?

Creio que é chegado o momento para reflectir sem paixões sobre tudo isto.       

António Martinó de Azevedo Coutinho

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